Rituais e Símbolos Maçônicos: Uma filosofia particular?

por  Irène Mainguy

 

Tradução José Filardo

 

INICIAÇÃO Coll. Biblio. GODF

Para o desenvolvimento contínuo dos graus propostos do 1º ao 30, todo Maçom é colocado em uma posição de descobrir a riqueza dos múltiplos significados dos símbolos maçônicos. Eles abrem um mundo alegórico estruturado, significativo, oferecendo a possibilidade de numerosos desenvolvimentos filosóficos entendidos no sentido amplo, que demonstra que a Maçonaria oferece um sistema abrangente e coerente, permitindo a qualquer iniciado completar sua iniciação de outra forma que não a virtual.

 

Maçonaria apresenta uma abordagem original visando despertar ou reativar a interioridade do ser para promover a abertura de sua consciência, cuja constante simbólica principal será uma viagem na escuridão em direção à Luz. Isso vai se desdobrar gradualmente grau após grau, para transcender e unificar com clareza qualquer forma de dualidade. Os graus do 15 ao 30 são enriquecidos pela influência de várias tradições, incluindo a bíblica, cavalheiresca, hermética, rosacruz e gnóstica, bem como um fundo lendário que sugere uma pluralidade de sentidos. Estes graus podem ser considerados graus filosóficos tanto por sua origem quanto por seu simbolismo. Esta versatilidade lhes confere uma natureza universal.

O foco é colocado sobre a aquisição de virtudes e da Virtude no grau de aprendiz. Quando de sua admissão, todo candidato é reconhecido como livre e de bons costumes, uma condição sine qua non para ser admitido à iniciação.

A Virtude aparece aqui como um estilo de vida que nasce da força em si mesma. Ela é um suporte contínuo da ação e supõe uma intenção de realizar o bem em si mesmo de uma forma cada vez mais eficaz e refletida. Sua busca corresponde a uma tomada de consciência da fragilidade como a fraqueza da condição humana. É uma conquista de lucidez que atravessa do abandono voluntário dos vícios e paixões, designados sob o nome de metais, para acessar a força da libertação interior que é a verdadeira liberdade. A Virtude é sinônimo de força e grandeza da alma.

O iniciado busca a luz, porque ela é para ele um símbolo do Princípio e do Absoluto. A jornada da alma, do berço à passagem ao Oriente eterno, é a busca deliberada de um caminho de vida que exige libertar-se de todas as suas zonas de sombras para elevar-se espiritualmente em direção desta Luz inefável.

Ser reconhecido Livre e de bons costumes 

A qualidade da liberdade reivindicada na admissão à Maçonaria consiste em uma disposição pessoal interior. Ela exige ter a vontade de se libertar de tudo o que não é essencial para a sua realização espiritual. Isso requer empregar o tempo que for necessário para avançar para este objetivo. Os bons costumes exigem uma vontade de superar os vícios e paixões que mantêm o ser em um estado de dependência.

O espírito de fraternidade

Uma prática que se torna um dever é o espírito de fraternidade que estabelece e favorece as relações e as trocas entre indivíduos de meios sociais-culturais, religiosas e políticos diferentes. A fraternidade é uma ética de vida onde se não se encontra nem o espírito competitivo nem o da concorrência, e que vai, obviamente, completamente contra o estado de espirito dominante na sociedade atual. Tratar como irmão o seu próximo exite amá-lo como a si mesmo; o que exige que cada maçom a prática da fraternidade iniciática ligada a um despertar da consciência que se origina em uma Sabedoria especialmente iluminada.

Dever e Liberdade

O dever não é definido como um constrangimento, mas como uma obrigação moral livre que é sempre possível ignorar. O fato de se ser capaz de fugir do constrangimento, de desobedecer e transgredir as proibições tem sua origem na boa ou má gestão do livre arbítrio de cada um e na mesma liberdade individual. Na verdade, se as restrições são uma alienação da liberdade, por outro lado, os deveres permitem lançar os alicerces de um edifício, proporcionando uma regra a seguir. A expressão da liberdade do maçom, bem entendido, é o próprio Dever.

Silêncio e segredo

O silêncio e o segredo estão intimamente ligados ao longo do processo inicático. O silêncio revela a arte de ouvir e respeitar um ao outro. Saber segurar a palavra quando é imprudente se exprimir, saber manter o silêncio diante de uma pessoa que não é capaz de entender é o primeiro passo em direção ao autocontrole. Guardar o segredo e permanecer fiél ao seu compromisso são os dois eixos principais a seguir. Querem impor, se discernimento, uma verdade ou conceito a alguém que não está pronto para recebê-lo é claramente um erro, porque sem a compreensão a pessoa só poderá ter uma atitude hostil e preconceituosa devido à preocupação ou perturbação ressentida.

Toda sociedade iniciática, toda confraria que realiza uma seleção para a admissão dos seus membros, se mune, ipso facto, de um aspecto secreto ou oculto, fechado a todo público considerado profano. As noções e conceitos de segredo fazem parte da maçonaria e remontam a uma juramento feito pelo iniciado a desde o seu início, e atestado por sua presença nos manuscritos maçônicos mais antigos conhecidos, desde 1696. Toda organização iniciática não pode revelar seu segredo ou segredos porque eles são incomunicáveis e ligados ao grau de entendimento, de realização e de despertar da consciência de cada iniciado. O segredo disso é pessoal, individual e, finalmente, inefável; ele não se revela a não na experiência íntima do sujeito.

Espírito de tolerância

A tolerância é um estado de espírito construtivo sem preconceitos que exige saber escutar, observar e sempre conhecer melhor seu próximo, sem o julgar. A aceitação da diferença do outro é um passo no caminho para a abstenção de juízo. É um reconhecimento do direito à diferença. A tolerância é uma atitude de espírito pela qual é proibido fazer um juízo de valor definitivo, que aprisionará a pessoa em questão em uma grade de leitura restritiva e limitada a apenas algumas aparências específicas. A tolerância não deve, contudo, levar a aceitar tudo. É preciso estar ciente do que é compromisso impossível e que não podemos conciliar tudo. Não julgar, é estar imbuído desse espírito de tolerância que permite acessar uma forma de sabedoria, de entendimento, de escuta e aplicação efetiva dos princípios iniciáticos, esclarecidos pelos valores mais elevados.

Pesquisa do Conhecimento, da Verdade e da Luz

É necessário distinguir o Saber do Conhecimento. O saber pode ser definido como sendo de natureza secular e externa ao ser. Ele responde aos critérios de racionalidade objetiva. Pode-se considera como uma acumulação de dados enquanto que o Conhecimento é de ordem metafísica. Ela toca a interioridade e a essência sutil das coisas, porque ele propõe uma visão coerente e abrangente do universo.

A busca da verdade é complexa porque existe um conjunto de verdades relativas que se aproximam da Verdade Absoluta, sem, contudo, atingir a Verdade transcendente. Livros sagrados, contos, lendas e sistemas filosóficos expressam, todos, uma parcela de verdade. Mas ninguém, em termos absolutos, pode pretender deter toda a verdade. Em essência, esta Verdade é adogmática. Querer aprisioná-la na estrutura rígida de um sistema é destruir todas as condições necessárias para a sua apreensão.

Todo ser, homem ou mulher, não pode ser verdadeiro e buscar a Verdade, se não é decididamente “um ser livre e de bons costumes”. Toda busca pela verdade exige lutar contra todas as formas de preconceito, erros e abusos de todos os tipos, permanecendo firmemente apegado à vontade de não se desviar dela e servir a nobre causa da justiça.

A via iniciática permite subir em direção à Luz, sob a condição de ter sabido descer anteriormente ao mais profundo de sua própria escuridão. A importância da descida é proporcional à capacidade da elevação.

Esta Luz, símbolo essencial da busca iniciática se desdobra gradualmente grau após grau, permitindo liberar gradualmente as suas zonas de sombras e encontrar uma unidade em si mesmo.

Filosofia da média justa e do equilíbrio

Um autocontrole autêntico conduz a uma liberação do pensamento por uma elevação do espírito em direção à Luz e a Verdade, que contribui para o aperfeiçoamento do comportamento do maçom. É o amor ao Bem, ao Belo, ao Verdadeiro e ao Justo que permite progredir em direção a esta Luz inefável, a de seu mestre interior, que cada um deve ser capas de encontrar em si mesmo. Estes graus propõem desenvolvimentos da lenda de Hiram. Eles lembram a importância do aprofundamento do dever e a necessidade de reunir o que está espalhado nessa busca árdua, mas essencial da Palavra Perdida.

No grau de Mestre, o iniciado cruza um limite e se encontra no coração de uma dramaturgia composta de episódios cuja continuação só é perceptível através do acesso aos graus além do grau de Mestre cujos elementos filosóficos e simbólicos estão imbricados uns com os outros. Ao fazer isso, eles trazem uma sucessão de esclarecimentos adicionais sobre o grau de Mestre. Estes graus, chamados de “graus de perfeição” são aqueles que vão do grau 4 ao 14. Eles traçam o Caminho de uma progressão que permite aprofundar o sentido da Virtude em seu ideal mais alto. A conclusão dada a lenda de Hiram coloca em evidência os conceitos fundamentais que são a vingança e a justiça.

Vingança ou Justiça

Isso levanta a questão de se exercitar a vingança ou a justiça sobre os assassinos do Arquiteto. Os graus de Eleitos convidam a seguir, em todas as circunstâncias e imperativamente, o único caminho exigente da sua consciência.

Esta sucessão de rituais se propõe a dar uma conclusão moral ao assassinato do Mestre desaparecido e fechar o ciclo de lenda hirâmica.

A busca do Caminho do Meio exige saber colocar em adequação suas ações com os seus princípios. O Mestre deve realizar um esforço sutil para harmonizar os antagonismos. A este respeito, convém notar que o essencial do ensinamento iniciático é oferecido nos rituais dos três primeiros graus. No entanto, seu estudo necessita, para não dizer exige, um aprofundamento proposto pelo progresso contínuo do conjunto dos graus, do Mestre Secreto ao Cavaleiro Kadosh, sugerindo uma busca e um compromisso permanentes.

Três graus, designados sob o nome de graus de Eleitos resumem o percurso iniciático dos três primeiro graus, aprendiz, companheiro e mestre, mas vividos em um novo ciclo. O primeiro, ou Eleito dos Nove, evoca a transgressão da lei e destaca os perigos e malefícios dos impulsos vingativos. O segundo, ou Eleito dos Quinze, faz passa da vingança à justiça coletiva, para que todas as paixões sejam esgotadas. O terceiro, enfim, é uma forma de consagração do iniciado que é reconhecido como Emerek, ou verdadeiro Homem em todas as circunstâncias, isto é, um autêntico Mestre Maçom. Ele marca a conclusão do ciclo do assassinato do arquiteto do templo e a morte de seus assassinos, o que convida à reflexão sobre os problemas da justiça e da vingança. Pode-se definir a vingança como justiça individual expedita, sob o impulso da paixão e da cegueira, enquanto que o senso de justiça é uma abordagem que se origina de um consenso de reparação, de acordo com a lei da ação e reação, com a vontade de punir os criminosos por um ato equivalente em troca. Renunciar à vingança pessoal para passar à justiça coletiva é próprio de verdadeira mestria que converte a sombra em luz, e ajuda a estender a equidade ao plano social.

A vingança é uma forma de justiça que segundo a lei de talião é necessário ao justiceiro encontrar uma compensação e um alívio. Portanto, a questão se coloca, um indivíduo isolado pode arrogar-se o direito de julgar e fazer justiça de acordo com seus sentimentos e não com o direito? Podemos considerar a justiça como o estabelecimento de uma relação de equilíbrio entre os homens.

Alquimia e Maçonaria

A Alquimia, assim como a Maçonaria, propõe uma meditação simbólica profunda. A alquimia é baseada em um amplo sistema cosmogônico que se refere à Unidade primordial manifestada em três reinos: mineral, vegetal, animal. O Rito Escocês Antigo e Aceito, no conjunto de seus graus, empresta muita coisa da alquimia. Isto é tanto mais compreensível vez que a Maçonaria e alquimia têm em comum a regeneração do ser e a realização espiritual. Há uma clara semelhança entre os temas alegóricos usados no método simbólico e iniciático, tanto em alquimia quanto na Maçonaria. Na alquimia, o vil chumbo deve ser transformado, durante purificações e transmutações para se tornar ouro. Na Maçonaria, a pedra bruta lavrada a que é identificado o aprendiz será cortada e polida para se tornar perfeita a ter lugar no edifício sagrado.

Em um processo alquímico muito específico, o maçom é convidado a visitar o interior da terra e se corrigir, ou seja, purificar-se, para encontrar a pedra oculta dos sábios, ou a pedra filosofal. Exige-se dele que aceite os métodos de aprendizagem para aprender profundamente a corrigir em si mesmo o que precisa ser corrigido, portanto, saber mudar seu chumbo em ouro. Esta transmutação implica um ideal de perfeição que tende à sabedoria. Todas estas mutações levam o mestre de encontrar o seu verdadeiro lugar, a sua função na terra e atingir seu pleno potencial de acordo com suas habilidades, dando sentido à sua vida.

O espírito da cavalaria

O termo cavaleiro é o título genérico trazido ao Rito Escocês Antigo e Aceito pelos detentores dos graus 15 ao 30, inclusive; ou seja, do Cavaleiro do Oriente e da Espada até o Cavaleiro Kadosh.

Podemos considerar que o conjunto desta sucessão de títulos de Cavaleiros empresta ao Mestre Maçom uma forma de nobreza pela qual é reconhecida sua capacidade de adquirir e praticar virtudes cavalheirescas. O acesso a um certo grau de iniciação, a partir dos graus capitulares corresponde a um enobrecimento natural do ser. Isto recorda a origem da instituição da nobreza que inicialmente não era herdada.

A função cavalheiresca envolve a luta contra o mal, o autocontrole, uma ética moral através da prática de sentimentos nobres e elevados, em que a generosidade e grandeza de alma é colocada a serviço dos pobres e dos oprimidos.

Encontramos esse espírito na divisa do grau, Vencer ou Morrer. Embora a Cavalaria tenha desaparecido enquanto instituição social, a Maçonaria propõe conservá-la através do ensino das virtudes que a caracterizaram, especialmente neste grau que premia os Eleitos por sua virtude.

O dever mais importante da Maçonaria é consagrar-se à prática efetiva da Virtude. O Mestre Maçom não deve somente se opor a todas as formas de opressão, tirania e intolerância, mas também deve se comprometer a trabalhar positivamente colocando-se ao serviço dos outros. A ignorância, a intolerância, o fanatismo, o orgulho e a ambição devem ser combatidos implacavelmente. Trata-se aí, e este é um dos sentidos de dever dos Eleitos, realizar a inevitável morte de seu ego, para erradicar qualquer inclinação a se comportar como mau companheiro. A partir do grau 15, o Mestre Maçom veste o hábito de Cavaleiro, que é também o de Príncipe, de Peregrino e de Pastor, o que corresponde à definição de “viajante nobre” que empreendeu uma busca iniciática. Herdeiro do espírito da cavalaria, o maçom defende contra todas as formas de injustiça em uma ação controlada animada por uma ética de amor e equidade.

 

Publicado Originalmente em Revista Franc-Maçonnerie No. 46

 

Publicado on abril 17, 2016 at 12:11 pm  Deixe um comentário  

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