O DNA da Maçonaria – Por que?

José A. Filardo  M .´. I .´.

O que teria levado os ingleses a criar uma sociedade que se caracterizava por permitir a reunião, sigilo e vínculos de fidelidade garantidos por juramentos?

A maioria dos maçons gosta de acreditar em motivações de cunho moral, de pessoas interessadas em especular sobre os mistérios da vida e da morte e outras motivações tão nobres quanto falaciosas.

A razão pode ser algo bem mais grave, objetivo e, a meu ver, mais edificante do que sonha nossa vã filosofia.

Vejamos o que ocorria naquele momento histórico:

Os Jacobitas e a União

A União de 1707 entre a Escócia e a Inglaterra era altamente impopular junto à grande maioria da população, na Escócia. Diversos artigos do acordo da Lei da União eram economicamente favoráveis aos proprietários de terras na Escócia, mas não conseguiam oferecer quaisquer vantagens econômicas à maioria da população por mais de 30 anos. O descontentamento era geral e tumultos motivados por alimentos ocorreram nos burgos da costa leste à medida que os efeitos da fome eram agravados pelos impostos da união. Embora a situação induzisse a resistência à união econômica, ela não se traduzia em apoio universal à causa jacobita de manter os Stuarts no trono, em Londres. Muitos, na Escócia, agora associavam os Stuarts ao catolicismo e à supressão da Igreja protestante. A União estava decidia a pôr fim às esperanças dos Jacobitas de uma restauração Stuart, garantindo que a dinastia alemã de Hanover sucedesse a Rainha Anne após a sua morte. Mas, os Stuarts ainda comandavam grande parte da lealdade na Escócia, França e Inglaterra – a União Britânica inevitavelmente reacendeu a causa jacobita.

Em 1708, o pretendente jacobita ao trono, o suposto James VIII, e seus aliados franceses haviam tentado desembarcar na Escócia para incitar um levante, mas foram frustrados pelas condições climáticas adversas e vencidos pela Marinha Real. Seis anos mais tarde, uma moção na Câmara dos Lordes para desmantelar a União falhou por apenas quatro votos. Em seguida, no mesmo ano, a rainha Ana morreu e foi sucedida por Jorge I de Hanover. A questão controversa da sucessão se intensificou e no ano seguinte, muitos nobres e conservadores, descontentes com a sua parte dentro da união, levantaram-se em favor de uma monarquia Stuart.

O Levante Jacobita de 1715

O levante de 1715 foi liderado por John Erskine, Conde de Mar – um homem que tinha votado a favor da União inicialmente e que fora secretário de Estado até 1714. Ele tinha a maioria de seu apoio ao norte do rio Tay, no Planalto Nodeste e nas terras altas da Escócia – áreas onde os latifundiários não se beneficiavam muito com a União e onde o Episcopalianismo (que via os Stuarts como chefes de sua igreja) era dominante.

Mas, o conde de Mar, não se provou um grande líder militar. Ele travou uma batalha muito mal comandada em Sherriffmuir, onde os jacobitas superavam as forças Hanoverianas sob o Duque de Argyll em dois para um, mas falhou em conseguir uma vitória decisiva. Nem mesmo a chegada e coroação de James Stuart como o rei James VIII conseguiu reverter a sorte Jacobita. Eventualmente, o levante fracassou quando 6.000 soldados holandeses desembarcaram em apoio ao governo de Hanover, e as forças do rei James se dispersaram sob a pressão de má liderança e falta de ajuda externa.

http://www.bbc.co.uk/history/scottishhistory/union/features_union_jacobites.shtml

Em consequência deste estado de coisas, o governo reagiu prontamente com a votação e decreto do Riot Act (Lei da Rebelião), em 1714, lei esta que entrou em vigor em 1715 que continha o seguinte:

Cap V

….

Considerando que nos últimos tempos muitos motins rebeldes e tumultos têm ocorrido em diversas partes do reino, para a perturbação da paz publica, e o perigo para a pessoa de Sua Majestade e do governo, o mesmo ainda continua sendo fomentado por pessoas descontentes com Sua Majestade, presumindo assim fazer, para que as punições previstas pela legislação atual não sendo adequada para tais crimes hediondos; Sua Majestade e seu governo tendo sido de forma mal intencionadamente interpretada por tais rebeldes com a intenção de aumentar as divisões, e alienar a afeição do povo de Sua Majestade, por conseguinte, para a prevenção e repressão de distúrbios e tumultos como estes, e para a mais célere e efetiva punição dos infratores nelas envolvidos, seja promulgada por sua mais excelente majestade o Rei, por e com o conselho e consentimento dos lordes espirituais e temporais e dos comuns, neste atual Parlamento reunido, e pela autoridade do mesmo;

Que se qualquer pessoa até o número de doze ou mais, sendo ilegal, rebelde e desordenadamente reunidos, em perturbação do sossego público, em qualquer momento após o último dia do mês de Julho no ano de nosso Senhor, 1715, e sendo requisitado ou ordenado por qualquer uma juiz ou juízes, ou pelo xerife do condado, ou o seu sub-xerife, ou pelo prefeito, oficial ou oficiais de justiça, ou outro chefe ou juiz de paz de qualquer capital ou cidade, onde tal assembleia se reúna, por decreto a ser feito em nome do rei, sob a forma doravante ordenada, a dispersar-se, e afastar-se em paz para suas habitações, ou aos seus negócios lícitos, devem, o tal número de doze ou mais (não obstante tal proclamação feita) de forma ilegal, desenfreada e desordenada permanecer ou continuar juntos pelo espaço de uma hora após o comando ou solicitação feita pela proclamação, então, tal permanência do número de doze ou mais ou feita tal proclamação, será julgado crime sem o benefício do clero, e os infratores serão condenados como criminosos, e sofrerão a morte como no caso de crime, sem o benefício do clero. (Grifos do Tradutor)

….

Teria sido uma mera coincidência que dois anos depois disso surgisse uma organização cuja principal característica é a reunião de pessoas?

Ou os homens livres e de bons costumes de uma nascente burguesia desejosa de participar dos destinos da nação se sentiram oprimidos e buscaram uma saída que lhes garantisse a impunidade diante de tal lei draconiana? E levaram dois anos para “aparelhar” a maçonaria operativa?

Isso altera, e muito, a visão que se tem da maçonaria especulativa. Estamos acostumados a achar que a vida nesta época era um mar de rosas, mas a realidade era de uma ditadura sufocante e a Maçonaria surgiu pela primeira vez como um porto seguro para os lutadores da liberdade, que viria a se repetir nos Estados Unidos em 1776, na França em 1789 e no Brasil em 1822.

STOP!

REBOBINANDO….

STOP!

PLAY…

Ou os homens livres e de bons costumes de uma nascente burguesia desejosa de participar dos destinos da nação se sentiram oprimidos e buscaram uma saída que lhes garantisse a impunidade diante de tal lei draconiana? E levaram dois anos para “aparelhar” a maçonaria operativa?

A verdade é que o Establishment inglês, ou a Coroa encarregou os pastores Deagulliers e Anderson de desativar a bomba relógio criada com o Riot Act. E eles se sairam muito bem, pelo menos no que diz respeito à Inglaterra.

Mas, eles não faziam idéia do monstro que haviam criado.  Quando a nascente instituição foi transplantada para o Continente, ela assumiu o mesmo formato de controle social, sendo via de regra dirigida pelo monarca como Grão-Mestre e as lojas utilizadas para enquadrar a parcela pensante da população.  Foi assim na Alemanha e em outros centros monarquicos.

Uma parcela pensante da sociedade francesa aderiu à maçonaria, que se transformou em vibrantes centros de discussão. A maçonaria, mesmo não sendo a responsável  direta pela queda da Bastilha, transformou-se em uma ameaça entre os aristocratas da época.  Posteriormente à revolução francesa, a Maçonaria Francesa assumiu uma postura progressista, ligada diretamente à Carta de 1717, adotando o princípio da isenção religiosa que a caracteriza até os dias atuais.

Mas, na América ela teve enorme influência nos movimentos de libertação, desde os Estados Unidos em 1776, até o Brasil em 1822, passando pelas colônias espanholas onde maçons como San Martin e Bolivar tiveram uma atuação crucial.

Atualmente, a maçonaria só tem uma atuação progressista na França, por meio do Grande Oriente de França, defendendo causas e participando ativamente da vida social. Também em Portugal, o ramo originário do Grande Oriente de França tem uma atuação proativa e progressiva.

No restante do mundo, continua a ser um instrumento de controle social e tem uma imagem de instituição retrógrada e conservadora.

Nas grandes capitais, devido à composição heterogênea das lojas, a atuação da Ordem é bastante limitada, ao passo que no interior tem grande influência e participa da vida da sociedade, mesmo em suas versões retrogradas e religiosas do rito escocês, adoniramita  e brasileiro

Recentemente (2010), iniciativas tímidas conjuntas do GOSP – (a divisão do Grande Oriente do Brasil  no estado de São Paulo), da GLESP (Grandes Lojas Maçônicas do Estado de São Paulo) e do GOP (Grande Oriente Paulista) pretendem assumir alguma atividade participativa na sociedade civil, visando sair da paralisia em que se encontra a Ordem.

Só o tempo vai mostrar se este é o caminho da redenção.

Publicado on abril 17, 2011 at 7:47 pm  Comments (6)  

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6 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Com todo o respeito, entendo que a Maçonaria deve ser compreendida como uma escola de conhecimento e não como instrumento de solução para problemas sociais, políticos…Há outras instituições, entre elas os partidos políticos, com maior competência que a Ordem, que já dedicam a esses fins. Particularmente, não me agrada a vertente
    do GOF, chamada “progressista” porque toma posições no campo da política. Isso, no meu modesto entendimento, é uma deformação da verdadeira missão da Ordem, ou seja, formar maçons.

  2. Meu caro Ir.’. José A.Fialho,
    Você abriu uma perspectiva histórica interessante e esclarecedora. Realmente a Maçonaria é conservadora e até certo ponto nilhinista. A retórica da construção do Templo Interior fica prejudicada pelo que se conhece da Psicanálise (Freud e Melanie Klein) e pela observação prática do comportamento dos irmãos. Poucos tem autocrítica suficiente para perceber isso (há que se estudar muito)! As iniciativas tímidas dos GG.’.OO.’. permanecem tímidas, enquanto isso a caravana passa! O choque de realismo, necessário em nossa Ord.’. , passa pela desconstrução do discurso puramente ideológico!
    Parabéns!

    Jayme A. Maciel Jr. M.’.I.’.
    ARLS Barão Geraldo de Rezende nº 2668 Or.’. Campinas, SP
    ARLS Alvorada da Sabedoria nº 4285 Or.’. Florianópolis, SC

  3. Meu Ir.’. José A. Filardo, o parabenizo pelo belo esclarecimento e lamento em dizer que nos tornamos uma instituição de cegos guiados por cegos. A grande maioria dos nossos não sabem e não procuram saber os verdadeiros objetivos… É cada um por si num individualismo desenfreado, onde alguns buscam readaptar as regras em benefício próprio e delas fazerem trampolim…

    Arlindo Dantas Júnior M.’. I.’.
    ARLS Verdadeira Luz Nº 1599 – Or.’. São Luis – MA

    • Tão bonitos esses discursos…Mas aí vemos que estes melhores discursos são proferidos por membros que tem leitura, mas não passam de falsos moralistas. Dizem uma coisa e praticam outra. Na maçonaria tem um discurso e lá fora são mau caráter. Não cuidam da própria casa. Tem relacionamentos fora do casamento, morando junto e mantendo outra família. E assim é o exemplo que dão aos filhos sobre liberdade e amor. Tudo bem que do casamento não sobrou mais nada de bom, mas devia ao menos ser honesto com quem está ao seu lado e dar exemplo dos ensinamentos, inclusive de lidar com a verdade, e não ser covarde e oportunista de mulher. É bom olhar para o próprio umbigo antes de falar só coisas bonitas.


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