William Shakespeare – Muito Barulho por Nada ou Como Gostais?

Tradução José Filardo

shakespeare

por  Francis Moray

1616-2016! O mundo celebra este ano o 400º aniversário da morte do “imortal (ainda!) Bardo de Stratford “, William Shakespeare. Mas por que a revista da Maçonaria deveria se meter nesse assunto? Simplesmente porque o dramaturgo não é desprovido de todo de conexão com a Maçonaria, que já gerou uma extensa literatura com o famoso ” Shakespeare, criador da maçonaria,” de Alfred Dodd (1933) no topo da pilha. É preciso dizer que do outro lado do Canal da Mancha, encontram-se maçons dispostos a torná-lo um de seus irmãos ou mesmo o pai da Maçonaria.

 

Essas supostas ligações foram trazidas à luz muito cedo e antes mesmo que muitas hipóteses e outros mistérios começassem a florescer em torno do dramaturgo. Sem poder aqui multiplicar os exemplos que o atestam, lembremo-nos que em 1723 (o mesmo ano da publicação das Constituições de Anderson), quando Pope e Sewell publicam a edição Bedson-Medley dos Sonetos de Shakespeare, o cabeçalho da página de rosto incluía um bom número de símbolos maçônicos, incluindo altos graus Cristão-cavalheirescos. E em julho de 1929, a primeira pedra do Teatro Memorial Shakespeare de Stratford, sua cidade natal, foi lançada pelo Pro-Grão-Mestre da Grande Loja Unida da Inglaterra, em pessoa, Lord Ampthill, na presença de 600 maçons em grande regalia, prova de que a Ordem, mas também as autoridades seculares emprestam uma certa dimensão maçônica a Shakespeare. Na França, é a partir de 1770 que seus primeiros tradutores, o bretão Jacques Merdy de Catuélan e Pierre Letourneur, eles mesmos maçons, apresentam o autor até então quase desconhecido neste lado do Canal, como o “irmão Shakespeare” para a sua promoção nas lojas.

Quem foi Shakespeare, pai do Inglês moderno, como se diz, com suas 60.000 palavras usadas (e inventadas muitas delas), de quem não se tem uma linha manuscrita de uma de suas obras, cujas sombras da vida são muitas, cujos parentes eram quase analfabetos, de quem nem sequer se conhece com certeza o número de obras, cujo corpus literário proteiforme e genialmente atemporal testemunha um conhecimento excepcional do mundo e de seu saber, sem nunca ter posto os pés fora da Inglaterra, nem ter realmente tido os meios e circunstâncias para se formar? Não há, naturalmente, nenhuma questão de se considerar aqui o mistério em torno da identidade do Bardo – mistérios talvez não possam ser resolvidos, jamais. Contentemo-nos com sua relação com a Maçonaria que já tem o suficiente para alimentar as hipóteses, ou as controvérsias. Assim como os exegetas, há três maneiras de abordar esse assunto:

  1. O que existe em suas obras que pode sugerir que Shakespeare fosse maçom?
  2. Independentemente do conteúdo de seus escritos, pode ele ter sido iniciado (o que levanta mais ou menos a questão da autoria de seus escritos)?
  3. Tenha ele sido ou não maçom, a maçonaria subsequente teria se alimentado de seus textos para construir o seu corpus ritual (assim como a inspiração que os maçons continentais dos modernos foram capazes de extrair de A Flauta Mágica de Mozart)?

Coincidências intrigantes

Fora da pura problemática maçônica, não há dúvida alguma de que o teatro elisabetano não era considerado pura distração (o destino dos autores – o assassinato de Marlowe, por exemplo – ou a frequência delas das prisões reais atesta). As chaves e outras alusões sutis abundavam nas peças de maneira mais ou menos explícita. No plano da maçonaria que nos ocupa, infinidades de citações ou referências foram encontradas em Shakespeare, algumas óbvias, outras mais forçadas, para não mencionar aquelas que seriam criptografadas – incluindo digitalmente – e que alimentaram bem muitas obras. Nada muito surpreendente em uma época em que a esteganografia – a arte de esconder uma mensagem em outra – era elevada ao nível de esporte nacional em que se destacou Francis Bacon (um dos candidatos mais sérios à autoria das obras de Shakespeare).

Contentemo-nos com citar algumas passagens frequentemente identificadas entre centenas: “Eu sou irmão de uma ordem beneficente” (Medida por Medida, III, 2), “Eu alertaria nossos amigos por um sinal” (1 Henry VI, 3, 2), ou ainda uma frase repetida duas vezes condenar a apenas algumas linhas de distância: “Quem constrói mais forte do que um pedreiro? » (Hamlet, V, 1). Não se contam as evocações de aventais ou outras ferramentas simbólicas: “Então, Robin, se eu morrer, eu te dou meu avental; e você Will, tu terás o meu martelo … » (2 Henri VI, II, 3), « Carpinteiro. – Onde está o teu avental de couro e tua régua? “(Júlio César, I, 1),” A nobreza crê que é uma vergonha envergar aventais de couro. » (Henri VI, II, 4: 14) ao que lhe é respondido imediatamente: “Além disso, os conselheiros do rei não são bons obreiros. ” E quando não se trata de ferramentas, os pilares são também um tema alegórico recorrente: “Preste bem atenção e você verá nele o pilar triplo do mundo… “(Antonio e Cleópatra, 1, 1). De maneira mais razoável, podemos considerar esta passagem de Otelo (IV, 2): “O céu, o que você não denuncia de tais companheiros! Por que você não coloca em cada mão honesta um chicote para conduzir o infame, nu através do mundo, do Oriente ao Ocidente!). E o que dizer desta resposta de Titus Andronicus (II, 3): “Ambos estão na loja, no lado norte.” Ou esse diálogo de Penas de Amor Perdidas (I, 2; uma peça citada em representações maçônicas): “Eu vou visitá-lo na loja … Eu sei onde ela se situa… Vamos Joaquininha … “Joaquininha (Jaquinette em Inglês)! Que nome para uma heroína! Claro, pode-se supor uma coincidência. Há sempre um duplo sentido e este é o princípio da esteganografia.

Um assassinato muito “hirâmico”

Quando, no início de uma cena de Macbeth (III, 4) ouve-se uma personagem dizer: “Vocês conhecem seus respectivos graus? ” Trata-se, em princípio, da capacidade de resistir à bebida. Mas substituído no contexto muito específico desta sucessão de cenas de Ato III, em torno do assassinato de um Banquo muito hirâmico, há uma leitura completamente diferente a fazer. Por exemplo, duas cenas antes, Macbeth contratou dois assassinos para matar Banquo. Sem que nada seja dito para explicar ou justificar isso, eles misteriosamente tornam-se três na cena seguinte, a 3, portanto. Ato 3 Cena 3. Muitos se satisfazem em ver aqui uma alusão ao 33 da ordem escocesa. E, de fato, estamos na Escócia, com Macbeth. E, de fato, Banquo estará lendariamente na origem da linha real Stuart. “Quem lhe disse para se juntar a nós? ” pergunta um dos dois assassinos iniciais àquele que aparece sem motivo real e que responde: “Macbeth”. Dramaticamente falando, seria perfeitamente suficiente os outros dois. O terceiro em nada contribui. Mas para fazer boa medida, Macbeth oportunamente recordou que três seria apropriado para dar nascimento à ordem a partir do caos. Por mais estranho que esta cena possa parecer. Tudo em Shakespeare se situa em vários níveis.

Além das citações, existem temas e a própria arquitetura das peças que exalariam um simbolismo maçônico. O próprio Alfred Dodd enfoca, para a sua demonstração, dias peças efetivamente manifestas: Penas de Amor perdidas (exaltação da busca espiritual) e A Tempestade (quintessência do saber o que leva ao conhecimento). Eu gostaria de acrescentar ao primeiro grau o solsticial Sonho de uma Noite de Verão e Como Gostais (sem dúvida apropriadamente intitulada neste contexto). Outros insistem em Macbeth, particularmente coerente com o 3º grau, especialmente em conexão com Hamlet. Quanto a Medida por Medida (além do próprio título da peça, é claro), ela cria um admirável fio condutor do 2º grau. No entanto, é bem em todas as obras que se descobrem possíveis alusões, traindo a eventual ocultação de um ensinamento secreto (ou de uma associação secreta, que, no contexto específico e conturbado da era Tudor poderia, no entanto, ser antes de mais nada político, incluindo principalmente o leito de tal ou qual candidato à sucessão de Elizabeth I).

Uma resposta em Penas de Amor Perdidas não faz alusão à famosa e não menos misteriosa e hipotética “Escola da Noite” que tem feito correr muita tinta e à qual Shakespeare – assim como Raleigh, Marlowe ou Percy – teria pertencido? Se a existência desse grupo permanece debatida, apesar dos sérios argumentos em favor de sua realidade, alguns quiseram fazer dela um precursor da Maçonaria, a exemplo da sociabilidade britânica mais ou menos secreta ou discreta, tais como os famosos Hell’s Fire Clubs. Nesta era elisabetana luminosamente conturbada ou tenebrosamente esclarecida, é claro que os dramaturgos eram todos ligados a grupos protomaçônicos, mais ou menos ocultos ou ativistas…

Shakespeare, este célebre desconhecido

Mas quem é o Shakespeare de que se fala? O homem de Stratford? Sabemos que existem sérias dúvidas quanto à autoria de suas obras? Mas, então, quem seria o autor, então, nosso potencial maçom antes da maçonaria? E faltam candidatos? Citemos: Francis Bacon, é claro, mas também Edward de Vere, conde de Oxford, que ambos, por sua posição, não podiam escrever peças oficialmente; dramaturgos como Marlowe (que teria secretamente sobrevivido a um falso assassinato), Ben Johnson, Robert Greene (embora geralmente a melhor inimigo de Shakespeare), Fletcher no final, Rowley, Middleton, Spenser, Peele, e ainda muitos outros, o italiano John Florio também (ser judeu o teria levado a se esconder). E como este, existem dezenas, incluindo mulheres, que não poderiam se engajar formalmente em tal prática de autoria teatral, como a poetisa Emilia Bassano (que acumulava a circunstância duplamente agravante para a época de ser uma mulher pertencente à comunidade judaica), Elisabeth I, mas especialmente a mulher de letras Mary Sidney, a quem não faltam argumentos. Seria muito saboroso, no que diz respeito à possível influência de Shakespeare sobre a maçonaria inglesa, que ele fosse uma mulher! Mas a questão da identidade de um autor elisabetano não é, finalmente, suficientemente acessória a uma época onde as ideias de direitos de autor, direitos autorais, ou mesmo de posteridade, não tinham a importância que têm hoje? Todos se copiavam alegremente, lidavam com os mesmos assuntos ao mesmo tempo, trabalhavam juntos rapidamente para produzir e fornecer os textos às companhias e as colaborações sobre uma mesma obra, independentemente do signatário final, eram numerosas. Assim, os especialistas não duvidam praticamente que houve colaboração entre várias pessoas em diferentes peças de Shakespeare, pelo menos, começando com as peças históricas.

A pista Francis Bacon

Aqui é onde precisamos dizer uma palavra mais específica de Bacon, que poderia ser a figura tutelar conduzindo o “projeto Shakespeare”. É Bacon que Alfred Dodd vê, particularmente atrás de Shakespeare e é por intermédio do chanceler e sua identificação com o bardo, afinal de contas, que este mesmo Dodd faz de Shakespeare o “criador da Maçonaria.” Porque Dodd é daqueles que veem em Bacon o primeiro grão-mestre dessa última (embora o termo seja, pelo menos, impróprio, mesmo que haja pouca dúvida no que se refere a Bacon, que ele pertencia a círculos hermética ou esotéricos e que ele foi provavelmente o mestre de obras do grupo meta – ou arqueorasacruciano que conduzirá finalmente à fundação da primeira academia de ciências do mundo, a Royal Society of London). Em 1894, outro teórico da hipótese Bacon, o americano Orville Wenn, escrevia: “Descobri evidências incontestáveis de que o autor destas peças não era apenas um Maçom de alto grau, mas que ele integrava nelas uma grande parte de ritos maçônicos.” Bacon tinha, sem dúvida muita coisa a dizer. E se ele podia ir filosoficamente longe o suficiente nos seus próprios tratados, ideologicamente, sua divulgação poderia lhe dar a liberdade e a audiência popular e numerosa oferecida pelo teatro. Basta comparar A Tempestade de Shakespeare com a Nova Atlântida de Bacon. Ambas trazem uma reflexão utópica semelhante sobre a sabedoria e o governo ideal, mas em A Tempestade, o objetivo pode ir mais longe, sob o véu da alegoria, para arranhar a autoridade política. Por outro lado, Em A Nova Atlântida, se a crítica política permanece muito aquém de A Tempestade, a exposição teórica de uma sociedade ideal é muito mais desenvolvida. Uma completa a outra. Uma esclarece a outra. Em A Nova Atlântida, dita um romance utópico, Bacon descreveu uma ilha ideal, Bensalem, governada por uma sociedade filosófica erudita, a Casa de Salomão! “Saibam, meus amigos, lemos ali, que entre as coisas excelentes realizadas pelo rei, há uma que supera todas as outras. Isso foi a criação e instituição de uma Ordem ou Sociedade que chamamos de a Casa de Salomão – a mais nobre fundação, acreditamos, que jamais existiu sobre a terra, e a tocha deste reino. ” Sim, contemporâneo dos magos Dee ou Kelley-Talbot, Bacon pode coordenar grupos filosóficos ocultos, anunciando a futura Maçonaria. E sim, ele pode ter um papel na maturação das peças de Shakespeare. Ele pode … a hipótese é tão plausível quanto sedutora, mas difícil decidir.

Rosa, Cisne, Globo

Por outro lado, houve pelo menos uma fraternidade corporativista e elitista que existia na época e que devia estar relacionada com o nosso autor. Esta é a empresa Stationer, que agrupava os 22 editores oficiais em Londres. Dado o peso da palavra impressa e seu papel em um momento em que as ameaças de agitação e sedição eram permanentes, eles eram vigiados de perto pela Coroa e deviam ser de uma moral exemplar (“bons costumes” em suma). Por natureza, estes editores eram muito próximos dos escritores, os protegiam, velavam por suas obras como um tesouro … não havia autor sem editor. Muitas vezes eram estes últimos que financiavam os primeiros e zelavam para que não houvessem edições piratas. Esta fraternidade altamente organizada e disciplinada tinha à frente um Mestre e dois supervisores.

Além disso, sob Elizabeth, encontramo-nos em uma fase crucial na história do teatro e da tragédia. Começamos a construir teatros, lugares especificamente concebidos para representar peças. Muitas vezes, os diretores de companhias também precisavam ser arquitetos, pedreiros, ou maçons no sentido operativo. Esse será particularmente o caso de James Burbage, que tinha essa profissão, antes de ser o grande homem de teatro que conhecemos, criador em 1576 do primeiro teatro, precisamente, simplesmente chamado O Teatro onde Shakespeare será produzido. Sabemos que este último será, ele mesmo, mestre de obras dos teatros O Cisne e O Globo. Nisso, ele foi, pelo menos, estreitamente relacionado com os maçons operativos do seu tempo. E pode muito bem ter sido aceito em sua corporação, sem que, no entanto, se possa ver esta integração como uma filiação do autor das peças ao que a Ordem Fraternal especulativa se tornou. Acessoriamente, não se vai deixar de observar o estranho eco simbólico que surge dos nomes escolhidos para os primeiros teatros; depois dos incidentalmente anódinos Teatro (embora a etimologia nos remeta à manifestação do divino) ou Cortina (na qual poderíamos ainda ver uma ideia de véu), haverá a Rosa, o Cisne, o Globo …. Tantos nomes que fazem sentido em um caminho iniciático maçônico…

Além da busca por referências maçônicos nas peças atribuídas ao Bardo e a possível filiação do pai dessas obras a uma forma de protomaçonaria, seria finalmente necessário se interessar pela influência do fraseado Shakespeareano sobre a concepção do ritual maçônico pós-1717. Há pouca dúvida, não será senão à luz da importância da grande Will para o Inglês moderno, que suas respostas e suas terminologias específicas marcaram o ritual com sua pegada. Para isso, bastaria comparar de pertos as respostas exatas na língua original do ritual Inglês.

Assim questionar Shakespeare e sem dúvida mais ainda, a sua relação com a maçonaria se aproxima da física quântica: a observação do fenômeno tende a lhe conferir sua substância, sem realmente explicar a gênese. Por meio disso que, esta celebração da quadricentenário foi de fato uma ocasião feliz para abordar pelo menos uma questão longe de ser resolvida. Então, afinal, a balança se inclina mais para Muito barulho por Nada ou para a Comédia dos Erros? Isso será como você quiser, esperando que estas poucas linhas, pelo menos lhe tenham dado vontade de voltar a mergulhar na sabedoria do grande Will.

Nem o mármore, nem os mausoléus dourados
dos príncipes farão reviver este poderoso verso.
Mas, brilharás ainda mais neste poema
que a intocada gema envolta pela névoa do tempo.
Quando a guerra devastadora derrubar as estátuas,
e tumultos arrancarem a obra da maçonaria,
nem deixarão de Marte a espada, nem do embate arder
o fogo fátuo apagará a tradição viva de tua memória.

Início do Soneto 55

 

 

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http://www.fm-mag.fr/article/focus/william-shakespeare-1252

Publicado on julho 15, 2016 at 4:55 pm  Comments (2)  

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  1. Excelente!


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