Uma Breve História dos Rituais Maçônicos “egípcios” (1)

Tradução José Filardo

Por Roger Dachez

Os rituais dos graus egípcios têm diferentes fontes, de modo que poderiam ser os conhecimentos de múltiplos fundadores ou refundadores da própria maçonaria egípcia. Sua aparição tardia porém obrigou os autores a incluir, incorporar e reconhecer os numerosos graus que a tradição maçônica já havia produzido durante todo o século XVIII, para lhes adicionar novos, causando um aumento piramidal inexorável até alturas vertiginosas de 90 ou 95 graus.

  1. Os textos fundadores

Se nos ativermos aos três primeiros graus, dois textos são referência: um manuscrito de 1820 para o Rito de Mizraim  [1]  e o ritual publicado por Marconis de Nègre em Paris em 1839, no O Hierofante, desenvolvimento completo dos mistérios maçônicos para o Rito de Memphis.

A análise desses dois documentos revela sua quase semelhança. Ela trai facilmente sobretudo a sua origem imediata: o Guia dos maçons escoceses de 1804, o ritual mais antigo do REAA para os graus simbólicos! Esta é uma indicação rica de sentido e interesse.

Sabe-se que ambos os Ritos Egípcios apareceram durante o Império, ou nos seus últimos meses, em um ambiente de meios-soldos, num momento em que a paisagem maçônica francesa estava dominada sem contestação pelo Grande Oriente de França, praticando o que viria a ser chamado de Rito Francês, herdeiro das práticas rituais mais comum de quase todas as lojas na França durante o século XVIII. O novo REAA, trazido para a França uma década antes por soldados vindos dos Estados Unidos e as Antilhas inglesas, após ter entrado em um acordo muito provisório com o Grande Oriente de França ( GODF ), seguido de uma ruptura alguns meses mais tarde, dotou apressadamente suas lojas simbólicas com um ritual separado daquele do GODF.

guide ecossais

As fontes do Guia são conhecidas: de uma parte a principal divulgação inglesa do século XVIII sobre o ritual da Grande Loja dos Antigos (criado em 1751-1753), intitulado Os Três Golpes Distintos ( The Three Distinct Knocks ) e, de outro, as práticas das chamadas lojas “escocesas” do final do século XVIII francês, com base, ao contrário, no esquema simbólico da Grande Loja dos Modernos – aquela de 1717 – com algumas inovações, tais como a disposição dita “escocesa” dos três grandes candelabros situados no centro da loja, que não era conhecida na França antes do último quartel do século XVIII. Tal síntese provavelmente se explica pelo fato de que a base francesa sobre a qual os recém-chegados se basearam foi a Grande Loja Geral Escocesa, oportunamente despertada de um longo sono antes da Revolução em prol da causa. Note-se a este respeito que Alexandre Lenoir, autor em 1811 de A Maçonaria devolvida às suas verdadeiras origens pertencia, precisamente, ao Rito Escocês e ali via a própria encarnação da pura sabedoria egípcia transmitida pela maçonaria. Poderia isso ser uma indicação?

Colocados diante de circunstâncias talvez comparáveis, mas dificilmente disponde de meios para compor um ritual inteiramente novo, os criadores dos Ritos Egípcios tomaram o Guia dos Maçons Escoceses cujo uso era muito limitado em 1814, e que não pertencia a ninguém, nenhum Supremo Conselho sendo portanto capaz de se opor à sua execução por qualquer pessoa que quisesse. Eles trouxeram por sua vez a ele, algumas pequenas alterações. Lembremo-nos das características mais originais destes rituais.

Se o Venerável se coloca no Oriente, o Primeiro Vigilante está no Ocidente – na verdade a noroeste -, enquanto que o Segundo Vigilante coloca-se ao sul da loja. As palavras dos dois primeiros graus são B. e J., nessa ordem. A novidade em relação ao Guia é a presença de um altar central, onde queima-se incenso – que nunca deixará os rituais egípcios – e a definição dos “três objetos preciosos” colocadas sobre a plataforma do Venerável: a espada, a Bíblia e uma bolsa. As decorações dos aventais são vermelhas, e não azuis como no Rito Francês. A função dos Diáconos, própria dos Antigos foi mantida – embora ela vá desaparecer rapidamente no REAA – mas aqui eles são chamados de “Acólitos” (Misraim) ou “Levitas” (Memphis). Orações bastante longas são feitas na abertura, assim quanto no encerramento: “Eterno Pai do universo, fonte fecunda de luz, etc. “(Misraim); as aclamações rituais são “Glória ao Grande Adonai! “(Memphis) ou” Aleluia! Aleluia! Aleluia! “(Mizraim).

Em suma, uma forma arcaica do REAA com fórmulas de inspiração religiosa muito ao gosto deste culto sincrético – devemos dizer “Egitizante”? – que levará, de fato, ao coração do século XIX, à indiferença em matéria de religião. Em todo caso, nenhuma alusão a qualquer esoterismo obscuro e nada especificamente egípcio: a palavra “Egito” não aparece em lugar algum…

Em 1849, em O Santuário de Memphis ou Hermes, uma compilação bastante confusa, Marconis edita novos rituais, manifestamente incompletos e inconsistentes em diversos pontos: em particular, parece que os dois Vigilantes são colocados desta vez, os dois no Ocidente como no Rito Francês. No entanto, em 1862, no ritual “oficial” de Memphis, após a integração do Rito ao GODF é esta última estrutura que será adotada, não fazendo outra coisa senão oficializar, exceto quanto a alguns detalhes, o ritual muito melhor escrito do que o que Marconis publicara em 1860 no Panteão Maçônico. Aliás, os Diáconos foram esquecidos, ou melhor, substituídos pelo Mestre de Cerimônias e pelo Grande Experto, segundo uma terminologia mais familiar com a tradição maçônica francesa. A atmosfera egípcia também está sempre ausente. Para os graus simbólicos, tudo leva a crer que é esta geração de textos que foi seguida com os ajustes inevitáveis ​​e talvez algumas distorções, até o final do século XIX.

No entanto, e desde a origem, é por esta escala de seus altos graus que os Ritos Egípcios se destacam e merecem um pouco de seu nome. O primeiro a publicar rituais e dadas as características dos diferentes graus – além dos 30 graus mais altos do REAA que formam a base das pirâmides egípcias – é ainda Marconis de Nègre. Ele mesmo lembra que foi a partir do grau 35 que “começam os graus próprios no Memphis.” Em O Hierofante, já encontramos um “Telhador Universal” dos 33 primeiros graus, que mostram sua identidade quase absoluta com aqueles do rito escocês: variações mínimas existem sobre detalhes pouco significativos, mas a mesma fórmula retorna incessantemente: “Rico Escocês mesmo assim”…

Por sua parte, o Manual maçônico de Vuillaume, publicado em 1830, inclui ao final do livro um “Telhador do Rito Egípcio ou Misraim”, que muitas vezes se refere a um grau homônimo do Rito Escocês.

Enfatizemos novamente: em seus primeiros 33 graus, o Rito de Memphis não passa de uma variante do REAA durante todo o século XIX – e ainda hoje, na maioria das vezes – e isso não é especificamente na fórmula dos rituais que reside a diferença, uma vez que ela só existiu no século XIX, mas especialmente em seu espírito, em certa medida, pelo menos, nos tempos modernos.

Estes mesmos graus são divulgados por muitos entre eles, embora muitas vezes em uma ordem diferente, na escala de Mizraim, no meio de outros onde praticamente nenhum ritual sobreviveu. Devem lembrar mais uma vez que nas impressionantes pirâmides de graus egípcios, apenas uma pequena minoria deles foi realmente praticada.

  1. Os rituais mais antigos dos graus especificamente egípcios

Se O Hierofante em 1839, nós fornece principalmente um Telhador, de resto pouco evocativo, é no Panteão Maçônico, publicado em 1860, que Marconis nos dá indicações extremamente valiosas sobre o estado de seu Rito por volta de meados do século XIX e entrega os rituais de graus efetivamente praticados além do terceiro. A lista é sugestiva e sem surpresas: Arco Real (equivalente ao grau 14 do REAA ), Rosa-Cruz (18 do REAA ) e Kadosh (30 do REAA e 31 de Memphis) – em suma, os principais graus do REAA. E o que aconteceu com os graus “puramente egípcios” ? O Panteão Maçônico mantém apenas dois: Sábio das Pirâmides (cuja colocação variaria do grau 47 ao 59 ) e grau 90 de Mestre Sublime da Grande Obra, a verdadeira coroação do sistema, cujos rituais nos são revelados (eles serão publicado novamente para o 90 sob uma forma um pouco diferente em 1866). É a isso que se limitava então a Maçonaria Egípcia.

memphis

  1. De Yarker a Bricaud: a epopeia ocultista

O trabalho de John Yarker marca uma nova etapa na história dos altos graus egípcios. Sabe-se que uma redução na escala de 33 graus de Memphis tinha ocorrido em 1862 por Marconis de Nègre durante a integração de seu Rito ao Grande Oriente de França. Mas isso foi apenas uma escolha ocorrida entre os 95 graus do Rito – onde a maioria, repetimos, nunca havia sido realmente implementada, e aliás jamais escrita. com Yarker com um trabalho completamente diferente é realizado. Não só o ritualista inglês modificaria a composição da escala em 33 graus, mas principalmente ele escreveria os rituais.

Deste trabalho ainda existe uma coleção ao mesmo tempo preciosa e rara: Manual dos Graus do Rito Antigo e Primitivo da Maçonaria, publicado em 1881. Ele já havia de resto produzido o Os Rituais Secretos dos Altos Graus do Antigo e Primitivo Rito de Memphis em 95 graus. Yarker, escritor imaginativo e autor genial de rituais, foi provavelmente o primeiro a dar vida – pelo menos no papel – aos graus que até ele tinham sido um simples nome. A influência de textos de Yarker continua a ser significativa, pois são estes textos que Téder (Charles Detré), seu provável tradutor, transmitiria ao seu sucessor, Jean Bricaud no início do século XX. Mesmo se este último decidiu retomar a escala em 95 graus – e até mesmo 97 – os mais altos graus praticados do sistema, particularmente o Mestre Sublime da Grande Obra (30 / 90 ) e o Patriarca Grande Conservador (33 / 95 ) foram certamente marcados de maneira durável. Para o Rito Primitivo, pelo menos, (Memphis em 33 graus), os rituais de Yarker devem ainda hoje ser considerados como a principal fonte dos altos graus especificamente egípcios.

 

John Yarker

John Yarker

John Yarker: um enigma vivo…

A contribuição de Bricaud, desta vez original e pessoal refere-se também ao famoso grau 66 de Memphis-Misraim, cujo único precedente nas escalas egípcios era o grau 22 do Rito de Yarker (lembremo-nos de fato que o grau 66 do Rito de Memphis, Sublime Kawi, de que conhecemos apenas um Telhador e nenhum ritual não tinha nada a ver em termos de conteúdo com o do Grande Consagrador). Assim com Bricaud é que o Patriarca Grande Consagrador tornou-se um grau ‘sacerdotal’ mais ou menos confundido com o episcopado gnóstico – Bricaud era “Patriarca Gnóstico Universal”. Em Yarker ainda, que introduziu o próprio nome de “Grande Consagrador” esse grau não tinha esse caráter muito especial. Todos os rituais atuais, do 22 / 66 remontam então, às elaborações de Bricaud no curso da década de 30.

Deixo de lado aqui os Arcana Arcanorum cuja história indescritível está entrelaçada com a de seus rituais, mais confusos do que nunca.

A expressão Arcana arconorum (“Segredo dos Segredos”) não nasceu na maçonaria egípcia porque ele já estava presente em alguma literatura Rosacruz do final do século XVIII. Foi Jean-Marie Ragon quem primeiro, em 1816, quando da tentativa de introduzir o Rito de Mizraim no GODF, quem fez menção dela. Ele afirmaria, em 1841, que os graus de 87 a 90 incluíam “quase toda a ciência maçônica quando se aprofunda os desenvolvimento de emblemas e alegorias que se relacionam a estes quatro graus” e imediatamente publicaria um resumo bastante detalhado. No entanto, o Rito de Memphis, com a seu imponente grau 90, praticamente ignoraria esta noção de Yarker – no entanto grande fã de mistérios – nunca mais será retomada.

Jean-Marie Ragon

Jean-Marie Ragon

Jean-Marie Ragon: o inventor dos mais altos segredos?

Será preciso esperar a década de 30 para que a questão surgisse novamente na Bélgica, em especial por iniciativa de Rombauts. O último reivindicava ser o detentor dos autênticos Arcana Arcanorum do “Regime de Nápoles”, tendo anteriormente, sempre de acordo com ele, escapado dos impressores. Estes “segredos orais” dos últimos graus foram comunicados às pessoas ao seu redor e, em seguida, adotados pelo Convento de Bruxelas em 1934  [2] . Conhecendo o conflito que existia então com o Soberano Santuário de Bricaud na França, e a disputa de legitimidade que lhe era subjacente, não é difícil avaliar que a ressurreição providencial tais segredos poderia ser um desafio respeitável. Dada a magreza do dossiê, a situação poderia, contudo, ser simples, se, nos últimos anos, múltiplas reivindicações não tivessem sido levantadas sobre o assunto. Na confusão e incrível dispersão do Rito, a posse dos “verdadeiros” Arcana Arcanorum tornou-se assim o Santo Graal da maçonaria egípcio moderna, resultando em publicações em tabloides, tanto quanto silêncios eloquentes.

Vou assinalaria, portanto, aqui essa breve evocação de uma questão bastante complexa e que os debates contemporâneos que a cercam, e em alguns círculos maçônicos e para maçônicos não são feitos para torná-la mais clara.

Resta que é na filiação que de Yarker a Chevillon, faz desfilar todos os grandes nomes do ocultismo, desde o final do século XIX até meados do século XX, que os rituais de Memphis-Misraim nos graus simbólicos assim como nos altos graus, adotaram a fragrância muito especial de “esoterismo de fim de século” quer dizer por que esta síntese amo mesmo tempo exuberante, muitas vezes pouco coerente e, por vezes, indigesta, desenvolvida pelos sucessores de Papus. É desde essa época que, por seus próprios rituais, os Ritos Egípcios ganharam sua reputação “hermética” com todas as imprecisões e confusões que esse termos suscita – retornaremos mais tarde.

Apostamos, no entanto, que não é evidente que Bédarride e Marconies teriam reconhecido seus filhos... (a continuar)

 

 [ 1]  Biblioteca Pública de Toulouse, ms 1207.

 [2]  Eles foram desde então publicados. Veja S. Caillet Rituais arcanos da Maçonaria Egípcia, Paris, Guy Trédaniel, 1994.

 

Publicado on agosto 9, 2014 at 2:47 pm  Comments (1)  

The URI to TrackBack this entry is: https://bibliot3ca.wordpress.com/uma-breve-historia-dos-rituais-maconicos-egipcios-1/trackback/

RSS feed for comments on this post.

One CommentDeixe um comentário

  1. Ora, estamos diante de uma estória bem adaptada para respaldar o REAA. O dito rito não deve ser confundido. Com rito escoces oriundo
    da estrita observância templário.
    Quando se quer firmar monopólios tudo é confuso e falso


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: