Um cartão postal da Inglaterra

Tradução: José Filardo

Por Roger Dachez – http://pierresvivantes.hautetfort.com/

Só para nos divertirmos um pouco em nossas férias – às vezes intelectualmente maçantes – aqui está um pouco de informação de verão sobre a Maçonaria inglesa que provoca reflexão: o culto anual na Catedral (Anglicana!) de Gloucester, tendo reunido no dia 5 de junho próximo passado, várias centenas de irmãos da região, acolhendo om grande alarde o seu Grão-Mestre, o inoxidável Duque de Kent.

O primo da Rainha, Grão Mestre desde 1967 – e reeleito a cada ano desde então – acompanhado do Lord Lugar Tenente de Gloucestershire, Dame Janet Trotter, e dignitários locais da Grande Loja Provincial e vários vereadores – maçons ou não.

Não se pode realmente entender a Maçonaria inglesa, britânica em geral – nem entender o que poderia ser a Maçonaria das origens- se não nos dermos conta até que ponto a instituição maçônica está profundamente ligada aos usos e costumes ingleses em todas as áreas. Não só em um nível puramente formal ou administrativa, mas pela mentalidade, eu quase diria, a imagem do mundo…

A cada ano, a Grande Loja faz assim celebrar cultos nas igrejas da religião “estabelecida” e os Irmãos paramentados participam com alegria. Que surpresa – ou até mesmo que escândalo! – para muitos maçons franceses, imbuídos da ideia de que a Maçonaria é essencialmente uma instituição secular, “guardiã da República”!

 

Chegada do Duque de Kent à catedral de Gloucester

Chegada do Duque de Kent à catedral de Gloucester

No entanto, os ingleses nada tem a invejar aos franceses em matéria de defesa dos direitos individuais (o habeas corpus foi inventado por eles e nem sempre existiu na França), a democracia representativa (seu Parlamento é dotado de direitos reais desde o início do século XVIII) e o respeito pela liberdade de consciência (nenhuma religião é imposta às outras desde 1689). Simplesmente, os ingleses construíram toda a sua história – e ela foi movimentada – sem nunca romper ou erradicar: um dia eles decapitaram seu rei … antes de restaurar seu filho no trono doze anos mais tarde; à monarquia absoluta sucedeu a monarquia parlamentar – sem que nenhuma Constituição tenha jamais sido adotada!

Os ingleses, ao contrário dos franceses, têm esta capacidade única de abraçar todo o seu passado sem nada a apagar. Marc Bloch exprimiu sem dúvida um remorso tanto quanto uma condenação, quando escreveu: “existem duas categorias de franceses que nunca entenderão a história da França; aqueles que se recusam a vibrar com a memória da coroação de Reims; e aqueles que leem sem emoção a história do Festival da Federação “. Sim, certamente, mas quantos franceses são realmente capazes de dever duplo de memória?

Para um inglês, deve-se ser tolerante em matéria de religião – eles o foram bem antes dos franceses! – mas não se pode deixar de ter alguma afiliação religiosa – e isso com a maior delicadeza e extremo “savoir-vivre” que precisa ser constatado para determinar sua amplitude. Os maçons ingleses também não são atípicos no seu país, porque a grande maioria dos súditos de Sua Majestade compartilham ainda esta visão de mundo.

 

 

 

O Grão-Mestre da GLUI recebido pelo Deão da Catedral

O Grão-Mestre da GLUI recebido pelo Deão da Catedral

Certamente, o tempo passa, também, na Grã-Bretanha como em outros lugares: de acordo com pesquisas recentes existem lá com cerca de 25% de ateus ou agnósticos declarados. Um padrão semelhante também ocorre na Escócia.

As instituições inglesas, no entanto, não são estáticas nem “tradicionalistas”, como às vezes se acredita tolamente na França, o que leva alguns a sorrir estupidamente. Elas incorporam o passado ao presente. O Duque de Kent não tem praticamente nenhum poder – muito menos do que os seus “colegas” franceses de toda forma – no seio de uma Grande Loja que na verdade é governada pelo Conselho de Finalidades Gerais cujos membros são majoritariamente eleitos pelas lojas. Da mesma forma, o comparecimento em massa ao culto religioso anual é para os maçons ingleses, uma forma de celebrar publicamente, todos juntos, o seu apego às antigas tradições do país, mas também a sua afeição por suas lojas, o seu orgulho ver em seu comando o primo da Rainha e, finalmente – com o que os leigos franceses não se incomodam! – sua tolerância religiosa, porque eles nunca fizeram da Igreja da Inglaterra a mesma da Grande Loja, mas esta Igreja, eles não se esquecem das “liberdades inglesas” é também a do Estado, ela é parte de um patrimônio nacional do qual eles não querem subtrair nada.

Na Inglaterra, eu ouvi os irmãos cantar, antes da sessão, o hino nacional – alguns o fazem depois no inícios dos ágapes – e eu cantei Deus salve a Rainha com eles. Em troca, e contra as minhas expectativas, eles cantaram dois versos da Marseillaise para me homenagear: um espetáculo indescritível e inesquecível, mas quão emocionante! E eu me perguntava quantos maçons franceses, com tanta boa vontade a dar lições, seriam capazes, sem ironia, de lhes retribuir…

Podemos sorrir estupidamente ou ser ofuscado por esta imagem da Catedral de Gloucester, pela ignorância histórica e às vezes maçônica. Eu às vezes constatei esta reação da parte de maçons franceses que se esqueceram de refletir e de se documentar antes de julgar precipitadamente. E eu disse a mim mesmo, às vezes, meus irmãos e amigos ingleses são sem dúvida mais “liberais e adogmáticos” alguns maçons franceses que fizeram da laicidade a sua religião …

A França não é a Inglaterra, a história das relações entre as Igrejas e o Estado, principalmente, não foi de modo algum a mesma, e isso explica muita coisa, mesmo fora da Maçonaria. Mas quando se está em causa, dolorosamente, ela parece “reconstruir” a paisagem maçônica francesa, onde a maçonaria “regular” – o que eu não pertenço, devo lembrar – tem o seu lugar de direito, e é importante não confundir ou brincar com as palavras, nem nutrir ilusões. A maçonaria anglo-saxã é um bloco, com perfeita consistência intelectual e religiosa – o que não impede nem as nuances nem a diversidade, mas os seus “princípios básicos” são inequívocos. Fingir ignorá-la ao mesmo tempo em que se pretendendo juntar-se a ela – nem que seja pela “mão esquerda” – é um beco sem saída.

Eu não sou “oficialmente” recebido nas lojas inglesas, mas não posso esquecer que ignorar a maçonaria da tradição britânica é simplesmente condenar-se a na entender sobre a Maçonaria em geral.

E por que não dizer, esse espetáculo do Annual Church Service da Grande Loja Unida da Inglaterra, que pode deixar incredulos ou chocar certos maçons franceses – e que também é impensável na França, mesmo na chamada maçonaria regular! – parece-me, ao contrário, respeitável e comovente.

Em todo caso, e, assim como toda a maçonaria inglesa em geral, ele merece mais que a indiferença ou hostilidade, e muito menos ainda, a duplicidade …

 

Publicado on agosto 8, 2014 at 5:49 pm  Deixe um comentário  

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