Três Semelhanças Desafiadoras: Uma Exploração das Ordens Monásticas e Maçônicas

Tradução José Filardo

Ir.´.Karel Musch – Loja Middelpunt 280, Grande Oriente da Holanda

1. Introdução

Neste trabalho serão exploradas três dimensões das semelhanças entre as ordens monásticas e maçônicas, concentrando-se na Regra de Bento. Mas, primeiro uma palavra sobre a história da Maçonaria em geral. Este trabalho evita definitivamente buscar as fontes de nossa Ordem, por mais honrado que tal esforço possa ser. Sentimo-nos devidamente avisados por Daniel Ligou em seu “Dictionnaire de la Franc-Maçonnerie”, onde ele cita o trabalho do Ir.´. Bernardin em seu “Précis Historique du Grand Orient de France”. O Ir.´. Bernardin estudou 236 autores sobre a história da Maçonaria e encontrou 38 explicações diferentes, que vão desde a torre de Babel e o Dilúvio até a Índia antiga, a Torre de Killwinning ou a Atlântida, com uma maioria de descobertas para a Grécia antiga, a  Roma antiga ou os construtores de catedrais do período romano ou renascentista. Parece-me melhor não adicionar coisa alguma a esta lista.

Em segundo lugar, é aconselhável, especialmente para não-Ingleses, ser prudente com observações sobre as origens do Craft. Sendo holandês, não pode ser meu objetivo desafiar as observações introdutórias feitas pelos editores da loja Quatuor Coronati na introdução de um artigo traduzido na segunda edição dos Processos por um Irmão alemão Cramer sobre as fontes da Maçonaria como “excessivamente visionário e impraticável para ingleses e, possivelmente, também para os alemães”.

Também é aconselhável respeitar as palavras na Introdução à História da Maçonaria de Gould: “Muito da história inicial da Maçonaria é tão entranhado com fábulas e romances, que, embora por mais ansiosos que estejamos para lidar com ternura com lendas e tradiões há muito acalentadas, pelo menos algumas dessas superstições familiares – a menos que  escolhamos violar cada cânone da crítica histórica – devem ser autorizadas a passar tranquilamente para o esquecimento”. Não se poderia concordar mais.

A razão real e pessoal subjacente à realização desta pesquisa é que eu sou tão inspirado pela vida maçónica quanto pela vida monástica e a Regra Beneditina, tendo o privilégio de trabalhar às vezes com um dos defensores daquela Regra, o professor holandês Dr. Will Derkse. De tempos em tempos, buscando a tranquilidade de um mosteiro na minha Borgonha natal, e por outro lado trabalhando em lojas holandesas e francesas tornam-me não apenas nômade entre dois países, mas também entre duas disciplinas. O conceito de fronteiras ou limites, como uma forma de cerceamento, é portanto um  anátema crescente para mim. Mais e mais eu consigo perceber fronteiras como um convite à comunicação.

Em Transactions of the Lodge Quator Coronati 1, o Ir.´. Woodward nos lembra das “sugestões feitas em vários momentos de uma origem cavalheiresca, beneditina ou monástica”. Eu tentei encontrar o material anterior em que o Ir.´. Woodward pudesse ter baseado esta declaração, mas não tive sucesso.  No entanto, eu gostaria de compartilhar com vocês o material que prova a existência de uma forma acessível.

Este documento lida muito rapidamente e, principalmente, em um sentido introdutório com as ordens monásticas em geral, e dá algumas percepções de Bento e sua Regra.  Em seguida, serão analisadas as três dimensões das semelhanças entre as ordens monásticas e maçônicas. Em primeiro lugar, serão abordadas as semelhanças entre a Regra e o Ritual. Em segundo lugar. algum material será apresentado sobre lojas fundadas em mosteiros. Em terceiro lugar, um parágrafo muito modesto mencionará a linguagem gestual. Tentando evitar a palavra conclusão, o trablaho terminará com algumas considerações.

2. Ordens monásticas

O Monaquismo cristão como viemos a conhecê-lo nasceu na África e no Oriente Médio. Nos séculos III e IV o fenômeno veio para a Europa, do que hoje chamamos Egito e Síria. A primeira regra de monaquismo que conhecemos é a de Pacômio escrita cerca de 320 E.C, que pode ser considerada a regra de Agostinho a partir de 390 E.C.

As origens do monaquismo encontram-se no deserto e no ascetismo.  Em sua introdução a uma recente tradução holandesa de Regra de Agostinho, o Professor Fens lembra-nos que provavelmente o mosteiro mais rigoroso na terra, La Grande Chartreuse, perto de Grenoble, ainda é chamado de o deserto.

Mosteiros eram centros de civilização, longes de serem povoado por monges atrasados que se ocupavam em queimar livros e hereges. Ao contrário, os mosteiros eram escolas de organização, desenvolvimento agrícola, administração da Justiça (Klosterhaft) e desenvolvimento da ciência. A inovação da religião começou em mosteiros: Erasmo e Lutero eram monges. É significativo que a Igreja tolerasse os mosteiros de tal forma que o monaquismo não se desvinculasse da Igreja. Escapar do mundo para seguir, imitar as palavras estritas de Cristo era e ainda é um dos fundamentos do monaquismo. Isso pode ser considerado um protesto contra a secularização da cristandade, de acordo com o teólogo alemão Bonhoeffer. O Monaquismo não era apenas um protesto, ele foi gradualmente se tornando um álibi para o cristianismo, porque os mosteiros estavam mantendo a graça viva “à margem da Igreja”. Era o desempenho especial de poucos, que permitia à massa continuar com a suas atividades diárias.

Quanto mais o poder profano e econômico influenciava o monaquismo, mais diminuia a influência religiosa, incluindo a erosão do ascetismo. A história das ordens monásticas está cheia de exemplos do crescente poder secular do mosteiro evoluindo lado a lado com a diminuição da autoridade religiosa. Quanto mais os mosteiros mais influentes no sentido mundano, mais suscetíveis eles se tornaram-se às regras do jogo de poder secular. E mais de uma vez isso provocou clamores por movimentos de reforma, que queriam voltar à vida simples e ascética: Citeaux em reação a Cluny, os Trapistas em reação a Citeaux.

O monaquismo é centrado em rituais diários, prescrevendo o tempo e o conteúdo de refeições, serviços a serem realizados, músicas a serem cantadas, as horas gastas a estudar ou trabalhar. Para alguns, isso parece ser uma existência monótona. Mas, em essência, a monotonia libera a mente, permitindo-lhe vagar e se maravilhar. A monotonia é um fator de ligação em Maçonaria e no monaquismo. Em Maçonaria ela é chamada ritual, que significa a mesma coisa.

3.  Bento de Núrsia

Nascido em Nursia (atualmente chamada Norcia, na Itália) ele viveu entre 480-550 E.C. Ele nasceu em uma família abastada de proprietários de terras.  O que se sabe dele vem principalmente de um de seus monges que mais tarde se tornou o Papa Gregório (590-604 E.C.). Gregório escreveu os Diálogos, um livro sobre a vida de Bento e outros santos.

A vida de Bento foi um pouco paradoxal. Depois que se propôs levar uma vida ascética como eremita, ele foi tão bem sucedido que reuniu seguidores (o que, por sinal, deve ser uma experiência confusa para um eremita). O mestre sempre atraía aprendizes. Ele começou um mosteiro, foi embora, começou de novo: o famoso Monte Cassino que foi tão horrivelmente destruído pelos americanos durante a segunda guerra mundial e que mais tarde foi restaurado.

Sua Regra data de cerca de 530 EC.

Se a Regra de Bento é comparada a outras regras monásticas, não se pode deixar de notar a simplicidade e a facilidade com que ela dirige a vida monástica. Algumas Regras, por exemplo, as versões celtas podem ser muito rigorosas e são quase um código penal.

A Regra de Bento foi um  dos manuscritos mais lidos e escritos na Idade Média. A dele foi a regra mais influente. Isso pode muito bem ser devido à intrigante mistura de rigor e perdão. Bento dá instruções muito detalhadas para os rituais diários, incluindo quais Salmos devem ser cantados em quais dias. No capítulo 18, no entanto, ele afirma que “se esta distribuição está desagradando alguém, ele deve organizá-la de outra forma”. Uma sábia aceitação de diferenças e possibilidades de mudança.

4.  As semelhanças

Neste parágrafo,  serão dados alguns exemplos da Regra, relacionando-os à nossa Ordem. Tenha em mente que não são principalmente os aspectos históricos ou analíticos que me inspiram, mas a maioria da sabedoria espiritual que fala através dessas regras.

1. Ouvir

As primeiras palavras da Regra são: “Ouça, meu filho, aos preceitos de seus mestres e incline o ouvido do teu coração.”

Alguns antigos maçons na Holanda lembram-se com alguma melancolia as antigas regras em que o A.´.M.´. deveria abster-se de falar em Loja. Esperava-se que eles ouvissem seu Mestre até que se considerasse terem eles feito  progresso suficientes para ser elevado. O termo usado no original em latim é Ausculta;ausculta significa ouvir com devoção e concentração. Esta introdução à Regra também ilustra a importância da obediência.

2. Os votos

A Regra conhece três votos: stabilitas, conversio e obedientiaStabilitas significa que você escolheu um mosteiro e que você permanecerá ali. É uma questão de lealdade à Comunidade, no nosso caso à Loja. Pessoas crescerão, cada um de nós tem essa capacidade e Bento acreditava fortemente nessa qualidade. Mas devemos crescer onde fomos plantados. Fé e ser confiável são qualidades que florescem na loja e que fazem uma loja florescer.

Conversio significa que ao entrar na ordem, você deve estar disposto a mudar fundamentalmente. É como trabalhar em um teatro operacional.  Não podemos fazer isso se for um pouco estéril. Nem se pode ser meio grávida, meio monge ou meio maçom. Temos nossa missão e e ela consome tudo. No ritual holandês, ao fechar a loja, somos comandados por nosso Mestre a ir para o ocidente e nos tornarmos conhecidos como maçons, ou seja, que devemos agir como tal.  Nosso mestre não nos convida a ser um pouquinho maçom, mas dar o máximo de nós.

O voto de obedientia parece ser o mais difícil de todos, pelo menos para alguns.  Prometer obediência ao Mestre, como fazemos, não é uma obediência a uma pessoa. Nesse sentido, não é uma questão de liderança, mas uma forma de obediência ào cargo, que um dia nós mesmos poderemos ocupar. Como nós obedecemos ao nosso Mestre, não fazemos o que nos é ordenado, mas fazemos o que é necessário.

3.  O ritual

A regra dá muita atenção ao que chamaríamos de ritual: o dia é dividido em várias partes com base em instruções muito específicas, que e quando fazê-lo, o que cantar. O ritmo no mosteiro é determinado pelo ritual, tal como o ritmo do ritual em nossas lojas.

4.  O Abade

Assim como o Venerável Mestre nas lojas, em mosteiros o Abade é a autoridade suprema. Um Abade é escolhido entre os seus irmãos, de preferência por unanimidade.

– Ele é escolhido para o seu mérito de vida e sabedoria da doutrina.

– Seu dever é beneficiar os irmãos, mais que presidi-los.

– Ele deve ser versado na lei, que ele pode ter um tesouro de conhecimento de onde trazer coisas novas e antigas.

– Bom senso, prudência e ser atencioso são considerados qualidades importantes.

Escolher seus mestres para obedecê-los é uma forma de ‘obedientia’, a obediência à Regra. As Regra governa também os escolhidos, eles também estão sujeitos à lei, assim como estão nossos V.´. M.´.s:.

5.  O Despenseiro

Na vida monástica, assim como na vida maçônica, o Despenseiro é um funcionário importante. Ele precisa ser homem muito sábio, sóbrio, ele mesmo não deve ser um glutão. Ele não deve envergonhar os irmãos com recusa desdenhosa. Ele deve ser como um pai para a Comunidade e não deve ser um avarento.  Bento pensou em tudo, porque no capítulo 40 ele dá instruções para a medida da bebida. Ele afirma que “vinho não é, de forma alguma, uma bebida para monges, mas é impossível convencer os monges disso. Pelo menos vamos concordar em beber com moderação”. Em algumas lojas, isso pode ser um bom conselho, poder-se-ia pensar.

6. O Porteiro

Os mosteiros conhecem um funcionário que pode ser comparado ao nosso Cobridor. Em todo caso, entre Mestre e Cobridor existe uma relação específica, representando, respectivamente, o Oriente e o Ocidente. Este eixo constitui um dos fundamentos da maneira em que a loja pode ser conectada ao mundo, ao Ocidente. O Venerável Mestre e o Cobridor representam a abertura para o Oriente e para o Ocidente, respectivamente. Na iniciação de um Candidato o Cobridor desempenha um papel específico, verificando suas credenciais, antes de admiti-lo em loja. Os Porteiros do mosteiro têm um papel semelhante. Eles devem irmãos um pouco mais velhos e mais sábios, capazes de receber os hóspedes e questioná-los sobre suas credenciais.

7. Os Ausentes

Irmãos que estão ausentes são sempre relembrados na última oração. Isso é muito parecido com o brinde dos Cobridores que conhecemos em nosso ritual, onde antes de fechar a Loja de Mesa, irmãos ausentes são lembrados e se lhes deseja um retorno seguro à casa.

8. Noviços

De acordo com a Regra, supõe-se que os noviços fiquem em silêncio. Muito raramente lhes é permitido falar.

No ritual maçônico holandês há a tradição de que antes da elevação e da exaltação, o candidato se apresente com um discurso explicando o que ele aprendeu durante o período em que era  um Aprendiz ou um Companheiro. Espera-se especialmente dos Aprendizes que comentem sobre a loja e seus processos. Esta é uma semelhança peculiar com a Regra, porque no capítulo 3 afirma-se que cada vez em que negócio importante precisa ser feito, o Abade deve reunir toda a Comunidade e declarar o assunto a ser discutido. Todos estão convidados para essas reuniões, “porque o Senhor revela muitas vezes aos mais jovens o que é melhor”. O discurso do Aprendiz destina-se a ser um espelho para os irmãos mais velhos. Ele também confirma o fato de que realmente existem apenas Aprendizes.

9. O bom zelo.

O único zelo permitido aos monges é o fervor com o qual eles deve antecipar um ao outro em honra, suportar as enfermidades dos outros(seja no corpo ou no caráter), sempre se perguntando o que beneficia o outro. Um zelo digno de qualquer Maçom, poder-se-ia pensar.

10. Recebendo irmãos

A cerimônia de iniciação é refletida no capítulo 58 da Regra. Nenhuma entrada fácil é concedida a qualquer recém-chegado. Apenas se o recém-chegado persistir em bater a porta, e for visto que ele suporta pacientemente o tratamento áspero e a dificuldade de admissão por quatro ou cinco dias é que ele deve ser admitido como noviço. Um veterano, o mestre de noviços, é designado a ele para guiá-lo através de seu noviciado, um funcionário como nosso Segundo Vigilante que é responsável pelos Aprendizes. Exatamente como em nossas lojas, a Regra dispões sobre aqueles que, tendo deixado, querem ser novamente recebidos.

11. A Oficina

As palavras usadas por Bento neste capítulo 4 são as mesmas que são usadas em nossa Ordem. A versão francesa da Regra chama o lugar onde os monges trabalham: “l’atelier”, que é exatamente a mesma palavra que os irmãos franceses usam ao nomear a Loja. Em holandês, o nome da loja é “werkplaats” ou “local de trabalho”, exatamente como é chamado na Regra.

12. Estrutura hierárquica

Os oficiais tanto de organizações monásticas quanto maçônicas podem ser comparados muito bem:

Abade                                 Venerável Mestre

Despenseiro                     Hospitaleiro

Porteiro                             Cobridor

Mestre de noviços          Segundo Vigilante

Leitor Semanal                Orador

Reitores                              Diáconos

Noviços                              Aprendizes

Monges Professos          Companheiro

Seniores                              Mestre Maçom

Diferenças

Além das semelhanças, há evidentemente diferenças, algumas das quais são bastante interessantes, porque elas podem nos ensinar alguma coisa. Por exemplo, no Capítulo 68 uma orientação é dada no caso de ser ordenado a um irmão que realize uma tarefa impossível. Em tais casos o irmão deve aceitar o encargo em obediência.  Se a carga for superior à sua força, ele deve falar isso com seu Superior “de forma tranquila e em um momento oportuno”. Se o Superior insistir, o irmão deve obedecê-lo, por amor ao Superior e confiando na ajuda de Deus. No Capítulo 69 os irmãos são proibidos de defender uns aos outros por qualquer motivo. Quebrar esta regra exige o castigo mais severo.  Parece que os Maçons poderiam beneficiar-se de algumas destas regras.

5. Lojas Monásticas

Uma dimensão interessante das semelhanças entre as ordens monásticas e maçônicas é a existência de lojas monásticas.  Algumas fontes francesas até mesmo indicam uma paternidade mais que espiritualmente compartilhada entre as ordens  monásticas e as ordens maçônicas. No entanto, isso parece ficar aquém o aviso dado na “História” de Gould ou a conclusão de Brodsky, que chama a história maçônica de “un domaine où les passions dominent la raison”, um domínio onde a paixão governa a razão.

No século XVIII, diversas lojas maçônicas foram erigidas em mosteiros beneditinos. Agora tendo em mente a atitude da Igreja Católica Romana oficial com a Maçonaria isso parece bastante interessante.

As menções bem conhecidas de Ferrer-Benimeli em seus “Arquivos Secretos” de que nos últimos 40 anos do século XVIII, um número impressionante de maçons estavam ativos na Igreja Católica como monges ou como sacerdotes. Ele dá exemplos de toda a Europa, concentrando-se, no entanto, na França e quase nunca mencionando a Inglaterra a este respeito. O estudo de Ferrer-Benimeli também é importante devido à sua impressionante lista de fontes, bem como suas listas de clérigos, monges e outros oficiais (entre os quais encontram-se bispos, priores etc.).

Este trabalho cita três exemplos entre mais de uma centena, as fontes dos quais podem ser encontradas também fora de Ferrer-Benimeli.

* Em 24 de junho de 1778, uma loja foi fundada em Fécamp no mosteiro “L’Abbaye Royale de la Très Sainte Trinité”. Entre 29 monges neste mosteiro, 9 obtiveram permissão do prior para entrar para esta Loja. A própria Loja foi construída nos terrenos do mosteiro. O nome da loja era “La Triple Unité”. Outros membros fundadores da loja incluiam um padre, um cobrador de impostos, um oficial do exército, um engenheiro e um Comissário da Marinha. Todos os membros fundadores eram Mestres Maçons, implicando que eles tinham sido maçons há mais tempo. Nos anos subsequentes à Fundação, outros monges entram, assim como alguns padres.  Estas relações maçônicas foram úteis para o mosteiro, durante a Revolução francesa. O Conselho da cidade, onde um dos conselheiros també era Maçom recusou-se a executar as leis para proibir os mosteiros na França. Esta Loja abate colunas (fechada) em 1790, refundada em 1811, novamente abate colunas em 1828, é refundada em 1860 e abate colunas no ano da guerra de 1940.

* No mosteiro em Ferrières-en-Gâtinais aconteceu a mesma coisa. A Loja “Sainte-Émilie” é criada em 1786 e situa-se no mosteiro. Quatro dos oito monges ingressam na Loja.

* Mesmo na famosa abadia de Clairvaux, uma loja chamada “La Vertu” foi erigida no “Ano da Verdadeira Luz de 5785”, em 1785.

É necessária mais pesquisa aqui, provavelmente a ser conduzida pelo menos em parte, em mosteiros beneditinos na França.

6. Linguagem gestual

A maioria, se não todas as ordens contemplativas monásticas conhecem uma regra de silêncio. A Regra de Bento, capítulo 6 afirma que “o espírito de silêncio deve nos levar, às vezes a nos abstermos até mesmo de bom discurso”. Existem várias estátuas desde a Idade Média e posteriores, mostrando o Bento fazendo o sinal de silêncio, segurando seu dedo sobre os lábios cerrados.

Há uma exceção, a saber “que falar e ensinar pertence ao mestre”. Pergunta-se, aliás, se esse “mestre” é o mesmo mencionado na introdução à Regra. Em todo caso, esta tradição é aproximadamente a mesma na Maçonaria.

As raízes desta regra de silêncio devem ser encontradas na Bíblia. Para mencionar apenas alguns exemplos entre muitos:  Salmos 141,3; Provérbios X, 19; XIII, 3; Jó IX, 20; Mateus XV, 11.

Regras de silêncio são conhecidas em todas as regras monásticas antigas, desde Pacômio em diante. A regra de silêncio nunca foi destinada a proibir totalmente o discurso como forma de comunicação. Rijnberk diz sobre a regra do silêncio:  “(..) Il est bien sûr qu’elle n’a été absolue nulle part”, afirmando que nunca se souber ter sido ela absoluta.

A língua gestual é interessante por causa do rico simbolismo.  Por exemplo após as Vésperas, aplicava-se a regra do silêncio. O texto de Salmos 140 (141) introduziu o silêncio da noite. No primeiro serviço da manhã, cantando o salmo 50, era  concedida permissão para falar novamente, destravando a boca pode-se dizer.

A regra do silêncio destinava-se a determinados momentos e determinados períodos. A linguagem gestual não foi concebida como um meio de comunicação, substituindo a linguagem falada. Era simplesmente um meio de se fazer entendido quando realmente necessário.

Exceto nos períodos de silêncio, se eles estivessem à mesa ou durante o dia nos campos, a necessidade de alguma forma de comunicação é evidente. Assim, desenvolveu-se uma linguagem gestual bastante elaborada, com algumas interessantes raízes na sociedade secular mediterrânea.

A maioria dos sinais ajuda na vida diária, preparo de alimentos, trabalho nos campos, cuidado dos doentes, reparo de edifícios ou de roupas.

No capítulo 38, sobre o Leitor Semanal, Bento ordena um silêncio total à mesa, nem mesmo sussurros. Somente o leitor deve ser ouvido. Bento compreendia a necessidade de comunicação, enquanto à mesa e conclui: “Se alguma coisa for necessária, no entanto, permita-se que seja pedida por meio de algum sinal sonoro ao invés de palavras”. Sherlock menciona uma história interessante sobre Gerald of Wales, que visitou o Priorado da Catedral de Canterbury em 1180 EC. Os beneditinos deste Priorado usavam a linguagem gestual de Cluny. Gerald, quando sentado à mesa alta, foi surpreendido pelo fato de que os monges não falassem, mas se comunicavam com gestos e, assim, tinham uma conversa muito animada. Ele sentiu-se “sentado diante de um palco ou entre atores e palhaços”.

A linguagem gestual tem uma lógica toda própria. Na linguagem gestual documentada para os monges de Ely para significar a própria Regra de Bento, você faz o sinal de livro, seguido pelo sinal correspondente ao Abade. O sinal para o Mestre de Noviços (que pode ser comparado ao Segundo Vigilante) faz-se o sinal indicando noviço, seguido pelo sinal de ver.

A maioria dos sinais são bastante simples, com os sinais óbvios para beber, comer e dormir, por exemplo.  Rijnberk portanto, chama estes sinais de “onomatopéia óptica”.

A maioria dos mosteiros tinham suas próprias listas de sinais, mas a personalização diferia consideravelmente. Em Cluny, quase 300 sinais eram conhecidos, enquanto que no mosteiro português de Alcobaça, os monges tinham que se contentar com 55, e um dos mosteiros trapistas na França usava mais de 450 sinais. Embora o número de sinais por mosteiro pudesse ser diferente, a linguagem era mais ou menos a mesma. Ela era universal o suficiente para permitir que monges de mosteiros diferentes entendessem uns aos outros, mesmo além de fronteiras nacionais.

Alguns dos sinais podem ser os mesmos que nas Lojas. Rijnberk, por exemplo, menciona  o sinal Cisterciano do mártir, que é como cortar a própria garganta. Este sinal também significa morte.  Todos os maçons se lembram de ter sido apresentado ao sinal do A.´. M.´. prometendo que eles preferem ter sua garganta cortada a trair o segredo do nossa Ordem. Obviamente, este aspecto exige muito mais investigação do que foi feito até o momento, mas pode provar ser um percurso desafiador.

Considerações

Não se pode senão concordar plenamente com Reynaud, quando afirma “Il serai peu conforme à la vérité d’établir une filiation entre la Règle de saint Benoît et les anciennes Règles du Métier de Maçonnerie (.). Mais on peut parler d’une évidente parenté spirituelle”, dizendo algo como: seria pouco de acordo com a verdade  estabelecer uma ligação directa entre a Regra de Bento e as regras maçônicas. Mas podemos falar de uma paternidade espiritual compartilhada. Em essência, esta afirmação é a mesma que uma declaração posterior de Neville Barker Cryer quando ele fala que “semelhanças não são fontes”.

Cabe-nos sermos prudentes ao extremo para evitar especulações fantasiosas sobre nossas raízes. Até agora, a pesquisa não permite tirar nenhuma conclusão. Portanto, a palavra considerações serve melhor ao que podemos fazer com o material coletado até agora. Trabalhamos em algumas dimensões ou seja, semelhanças nas regras da vida monástica e maçônica, na existência de lojas monásticas, e semelhanças na linguagem gestual. Estas podem apontar em determinadas direções, mas elas não nos dizem nada sobre nossas raízes, além de que podemos compartilhar um ancestral comum, uma fonte de inspiração que nos guia através da vida monástica, maçônica ou profana.

Porém, é importante que os maçons possam ouvir os Beneditinos e aprender com eles. Maçons podem aprender com a dedicação necessária para fazer um trabalho, trabalhando em um mundo melhor. A Maçonaria hoje também clama por contemplação, podendo se considerar, e assim, aprender a se conhecer. N necessidade de uma Maçonaria mais espiritual, a regra de Bento podem ser uma inspiração importante, certamente para aqueles que estão preparados para inclinar a orelha do seu coração.

Para mim, de toda forma, a regra de Bento e a vida monástica como tal, ambas constituem uma fonte de sabedoria e inspiração, complementando a prática maçônica e, nesse sentido, auxiliando o trabalho na minha pedra bruta.

 

  Bibliografia

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– Rouffignac, Jean: “Saint Bernard de Clairvaux”; in: Travaux deVillard de Honnecourt, no. 57, 2004; pp. 211 – 228.

– Sherlock, David: “Signs for Silence”; Ely Cathedral Publications, Ely, 1992.

– Vogüé, Adalbert de: “Saint Benoît, l’homme et l’œuvre”; Vie Monastique no. 40, Abbaye de Bellefontaine, 2001.

– Woodward, A.F.A.: “Freemasonry and Hermeticism”; AQC vol 1, 1886-8, pp. 28 – 34.

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Publicado no excelente blogue Pietrestones

Publicado on outubro 19, 2012 at 3:26 pm  Comments (1)  

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