Templarismo

Pepita levantada pelo Brother Lauro Fabiano de Souza Carvalho

 

“As cruzadas não trouxeram à cristandade nem o desenvolvimento comercial, nascido das relações anteriores com o mundo muçulmano e do desenvolvimento interno da economia ocidental; nem as técnicas e os produtos vindos por outros caminhos; nem a ferramenta intelectual fornecida pelos centros de tradução e bibliotecas da Grécia, Itália (Sicília principalmente) e Espanha, onde os contatos eram bem mais estreitos e fecundos que na Palestina; nem mesmo o gosto pelo luxo e os hábitos escandalosos que os moralistas ocidentais melancólicos pensavam ser o apanágio do Oriente, um presente envenenado dos “infiéis” aos cruzados ingênuos e sem defesa diante dos encantos do Oriente. Sem dúvida, os benefícios, extraídos não do comércio mas sim das locações de barcos e de empréstimos concedidos aos cruzados, enriqueceram rapidamente certas cidades italianas – sobretudo Gênova e Veneza. Mas nenhum historiador sério continua a crer que as cruzadas tenham suscitado o despertar e o desenvolvimento da Cristandade medieval; que, ao contrário, tenham contribuído para o empobrecimento do Ocidente, em particular da classe dos cavaleiros; que, longe de criar a unidade moral da Cristandade, tenham contribuído bastante para envenenar as rivalidades nacionais nascentes (…); que longe de abrandar os costumes, a violência da Guerra Santa tenha levado os cruzados aos piores excessos, desde os pogroms perpetrados em sua rota até os massacres e pilhagens (por exemplo, de Jerusalém em 1099 e de Constantinopla em 1204, que se pode ler tanto nas narrativas de cronistas cristãos quanto na de muçulmanos ou de bizantinos); que o financiamento da cruzada tenha sido motivo ou pretexto ao enrijecimento da fiscalidade pontifical, à prática irrefletida das indulgências. e que, finalmente, impotentes na defesa e conservação da Terra Santa, as ordens militares tenham se voltado para o Ocidente, ali se entregando a toda sorte de exações financeiras ou militares, eis de fato o pesado saldo destas expedições. Para mim, o único fruto trazido pelos cristãos das cruzadas foi o damasco.”

 

LE GOFF, Jacques – A civilização do Ocidente Medieval. Bauru, EDUSC, 2002

Publicado on julho 23, 2013 at 11:10 am  Deixe um comentário  

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