Maçonaria na Revolução de Maio (Argentina)

Tradução J. Filardo

Prólogo

por Roberto Sahakian

A conjuntura política que vive a Europa no final do século XVIII revela a oscilação dos modelos de governabilidade vigentes e entrincheirado desde o início da Modernidade. O Iluminação e a Ilustração se apresentam como o movimento de ideias que especula e fundamenta a filosofia da política que endossará o acesso ao poder pelos “comuns”. Acesso que no plano econômico já estava em vigor e em pleno direito. O surgimento da burguesia como ator neste processo exige novos e diferentes espaços de poder político antagônicos ao que estava em vigência. Novos paradigmas, liberdade e igualdade, serão propostos como horizonte a elaborar através da ferramenta da razão. Neste contexto surgem concepções, modelos de ordem e conceitos de estado alternativos e opostos ao modelo de monarquia absoluta que, então, se encontra esgotado, bem como o poder teocrático que o sustentava.

No início do Século XVIII, a Maçonaria se institui como tal, com as chamadas Constituições de Anderson, que dão à organização um critério e sistematização que terão grande influência sobre todas as lojas chamadas regulares até nossos dias. Em um dos seus pontos fundamentais, estas Constituições descrevem quais são os limites de quem pode ou não ser maçom, ou seja, a aceitação de seus membros. Embora esta sociedade iniciática se origine das guildas de construtores medievais, que baseavam sua liberdade social em função da não divulgação de seu conhecimento, é a partir da consolidação das normas constituída por Anderson onde se estabelece a aceitação de membros de outros campos sociais ou culturais.

As lojas maçônicas serão, então, campo propício para acolher acólitos dispostos a apresentar e discutir ideias e ações que, pela própria concepção de segredo, comporão neste o benefício da segurança e a conveniente defesa contra os ataques do poder instituído. Maçons livres e aceitos, intramuros e protegidos de agressores externos, sob uma bagagem eclética e livre-pensamento, influenciaram os processos revolucionários europeus, bem como a independência dos Estados Unidos da América. “É bem sabido que uma das Trilogias da Ordem Maçônica é ‘Liberdade, Igualdade, Fraternidade’ lema dos revolucionários franceses de 1789 e dos intelectuais da época”, comente Andrea Romandetti Dasso em texto incluído nesse livro.

A ideia da ação da Maçonaria no processo emancipador da América é recorrente. Mas a concepção mítica desta ação prevalece na grande maioria dos casos. São poucos os autores a mencionar esta instituição como um dos fatores que mobilizam este processo, deixando-a em uma nebulosa confusa em relação ao seu impacto, sobre a concepção dos seus objetivos, assim como no trabalho de seus homens ou o desenvolvimento do seus métodos. Se nos aproximamos, conforme pretendido por esta pesquisa, do escopo do trabalho daqueles que deram origem à Revolução de Maio no Rio de la Plata, podemos observar que o desempenho dos mesmos se estende a diferentes setores sociais, com diferentes educações e profissões, origens regionais e étnicas diferentes.

Mas também observamos a filiação de um grande número desses atores a organizações de raiz maçônica, tais como a Loja Independência, ou o Grupo dos Sete, conforme descrito por Antonio Las Heras, no trabalho que poderá ser lido mais adiante.

Além do início da atividade das organizações maçônicas na região, que data do final do século XVIII, e seu possível desempenho em algumas das conjunturas históricas, tais como as invasões britânicas, a filiação a esta dos protagonistas de maio de 1810, assume profundo significado quando podemos rastrea-la e confirmar que oito dos nove membros da Primeira Junta de Governo pertenceram à ordem.

É possível que os eventos que catapultaram a luta emancipadora latino-americana formada na região do Rio de la Plata não possam ser entendidos sem incorporar à análise dos fatos uma perspectiva que considere a influência que exerceram os novos modelos europeus sobre as idéias revolucionárias. Tal como eles podem ser percorridos nos documentos e dados daqueles que deram origem à revolução que culminaria na semana de maio de 1810 e que dá lugar a uma nova forma de governo para a região. Luta que ocorre , no Rio de la Plata, forma quase silenciosa e oculta, e que ainda assim culmina em um formidável golpe sobre a forma de governo espanhola, que nunca voltará a se recuperar.

O que poderiam reivindicar o maçons e qual foi a qualidade de suas ações não são questões relevantes para a perspectiva desta pesquisa.

Sim, o livro aqui apresentado tem como objetivo reunir uma série de investigações sobre a atividade maçônica no Rio de la Plata e, ao mesmo tempo, se propõe a analisar os componentes das ideias maçônicas, realizando uma construção analítica de fontes históricas: documentos, escritos, proclamações e biografias, com o objetivo de elucidar quais foram os componentes bem como a ideologia maçônica, a fim de os relacionar ao pensamento político da Revolução de Maio.

Maio 2010

Published in: on julho 24, 2017 at 10:51 am  Comments (1)  
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