Ritual da R∴L∴ de S. João “Commercio e Artes na Idade de Ouro” (1822)

por Joel Guimarães de Oliveira, M∴M∴

 

 Meu trabalho “Maçonaria e Independência – um estudo das Atas do Grande Oriente”, base do livro “ Pela causa da Liberdade”, a ser brevemente lançado, foi apresentado em Loja (na A∴R∴L∴S∴ de São João “Vigário Bartolomeu Fagundes”, nº 2.312, ao Or∴ de Brasília), para fins elevação, no início de outubro de 1999. Naquele momento, ainda não haviam chegado às minhas mãos documentos do Arquivo Histórico do Museu Imperial que poderiam corroborar, em definitivo, importantes conclusões obtidas a partir do estudo detalhado do texto integral daquelas Atas.

Somente em fins daquele mês, finalmente, recebi das Dras. Maria de Fatima Moraes Argon e Neibe Cristina Machado da Costa as 255 primeiras fotocópias de documentos por mim selecionados, todos do acervo do Museu Imperial de Petrópolis, um verdadeiro tesouro para um pesquisador da história, costumes e tradições de nossa Augusta Ordem. São documentos profanos e maçônicos, de variadas procedências e graus de interesse, todos autenticados pelo Arquivo Histórico do Museu, e que vêm sendo objeto de cuidadosa análise, para paulatina divulgação aos maçons brasileiros. Foi grande, à época, a tentação de reescrever o texto inicial apresentado em Loja, para incorporar as revelações dos novos documentos. Entretanto, esse atalho adulteraria a pureza da exposição feita, que visava, basicamente, a demonstrar a afirmação, de que: “Mesmo sem acesso ao calendário pessoal do Imperador, como vamos demonstrar, teria sido possível concluir pela validade da hipótese do início do ano maçônico de 1822 em 24 de março, pela simples leitura atenta e crítica das atas!”

Da mesma forma, haveria o risco de serem deixadas de lado algumas linhas de raciocínio seguidas no exame das atas, ofuscadas pelo ineditismo das provas ora acrescentadas, como, por exemplo, pela polêmica que se seguiria ao debater sobre os rituais da época. Assim, optei por divulgar as novas descobertas através de um adendo, um Post Scriptum.

Devo esclarecer que, do material recebido, alguns são rituais, manuscritos, dos graus de Companheiro e Mestre Maçom, que certamente seriam considerados, por um escritor profano, mera curiosidade. Como Aprendiz Maçom, à época, preferi deixá-los de lado, em respeito às velhas tradições, até que, ascendendo a esses graus, me sentisse autorizado a manusear essas preciosidades de nossa história maçônica. Entretanto, fiz uma seleção de alguns documentos, os de interesse imediato para o tema e o grau do trabalho, os quais incluí no Post Scriptum.

Um desses documentos é esta relíquia, cuja existência permaneceu insuspeitada pelos historiadores maçônicos nestes últimos 184 anos, e que ora é brindada aos Irmãos por iniciativa do Eminente Grão-Mestre do GRANDE ORIENTE DO DISTRITO FEDERAL. Será usada novamente, passados quase dois séculos, pela A∴R∴L∴S∴ Licenciada de São João “Nelson Carneiro”, quando reunir-se, anualmente, para celebrar a Semana do Maçom, por convocação do nosso Grão-Mestre, nos termos do Landmark nº 7, da compilação de Mackey.

Trata-se de um exemplar manuscrito do Ritual de Sessão Econômica da Loja Primaz do Brasil, a “Commercio e Artes na Idade de Ouro”!

São apenas quatro páginas, mas preciosas, que aqui reproduzimos. É sabido que os mais respeitados historiadores maçônicos têm discutido sobre qual seria o Rito adotado na “Commercio e Artes” e no Grande Oriente, em 1822. Alguns nos dizem que era o Adonhiramita, outros nos dizem que era o Francês ou Moderno.

Com esta contribuição, neste momento, publicando os fac-símiles do ritual que era utilizado naquela loja, esperamos estimular o debate e a pesquisa. Futuramente, discutirei alguns pontos muito interessantes sobre essa questão, à luz de outros documentos, alguns franceses, que tenho em meu poder.

Por enquanto, chamo a atenção, apenas, para um pequeno, mas muito importante detalhe. O ritual era MANUSCRITO. Outros rituais em meu poder, da Loja “Esperança de Nictheroy”, também. Apenas D. Pedro, o Irmão Guatimozim, depois Imperador e Grão Mestre, teve o privilégio de receber um Ritual impresso, que era uma raridade no Brasil de então (e do qual também recuperamos uma cópia integral).

Daí não ser difícil compreender a dificuldade que aparece na ata da 10ª Sessão do Grande Oriente Brasílico, onde Ledo ponderou, por parte da Comissão nomeada para conferir os altos ggr.:, que “… havendo a Gr.: Loj.: accordado dar o gr.: de Eleito Secr.: aos IIr.: filiados nos nossos quadros, constituidos em os ggr.: de MMestr.: PPerf.: 1º, 2º e 3º Eleitos

pela Maçonaria dos 13 …” era por ora impossível porque “… tendo a Maçonaria dos 7 reduzido os ggr.: desde Mestr.: Perf.: até Eleito dos 15 ao de Eleito Secret.: não havia os necessarios reguladores para a iniciação deste gr.:” Imaginem o que seria o trabalho de reproduzir esses reguladores pelo sistema de cópias manuscritas…

Para facilitar o entendimento dos Irmãos menos afeitos à caligrafia rebuscada de então, transcrevo a seguir o inteiro teor do Ritual da “Commercio e Artes”, reproduzindo o mais fielmente possível as abreviaturas e sinais ortográficos utilizados no manuscrito. No ANEXO os Irmãos encontrarão os fac-símiles das quatro páginas do documento original, devidamente autenticadas pelo Museu Imperial.

O RITUAL

 “ABERTURA DA L∴ DE APR∴

 Vel∴ Sentado, bate _ ! _

1º Vig∴ Bate _ ! _

2º Vig∴ Bate _ ! _

Vel∴ Silencio meus IIr∴ em L∴

1º Vig∴ Silencio meus IIr∴ em L∴

2º Vig∴ Silencio meus IIr∴ em L∴

Vel∴ Ir∴ 1º Vig∴ ! Sois vos um Maçon∴

1º Vig∴ Todos os meus IIr∴ me reconhecem por tal.

Vel∴ Qual he o primeiro dever do Maçon Vig∴ em L∴ ∴

1º Vig∴ Ver se a L∴ está coberta interior, e exteriormente.

Vel∴ Certificaivos pelo∴ Ir∴ Experto.

2º Vig∴ A L∴ está coberta interior, e exteriormente.

1º Vig∴ A L∴ está coberta interior, e exteriormente.

Vel∴ A’ Ordem meus IIr∴ !

Vel∴ Qual he o segundo dever do Maçon Vig∴ em L∴ ∴

1º Vig∴ Ver se todos os IIr∴ estão em Ordem.

Vel∴ Certificaivos pelo∴ Ir∴ Mestre de Cerimonias.

1º Vig∴ Todos os IIr∴ estão em Ordem.

Vel∴ Para que nos juntamos aqui∴

1º Vig∴ Para erigir Templos á virtude, e cavar masmorras ao vicio.

Vel∴ Quanto tempo devemos trabalhar∴

1º Vig∴ Desde o meio dia athe a’ meia noite.

Vel∴ Quanto tempo he preciso pª. fazer hum Apr∴ M∴

 1º Vig∴ Trez annos.

Vel∴ Que horas são∴

1º Vig∴ Quasi meio dia.

Vel∴ Que idade tendes vos∴

1º Vig∴ Trez annos.

Vel∴ Em virtude pois da hora e da idade, convidai a todos os nossos IIr∴ tanto da Columna do Septentrião, como da do Meio Dia, em seus differentes gr∴ e qualidades, para que nos ajudem a abrir no gr∴ de Apr∴ M∴ os trabalhos da R∴ L∴ de S. João, com o Titulo Distinctivo = Commercio e Artes na Idade de Ouro, ao Or∴ do Rio de Janeiro. ( ∴ )

1º Vig∴ Ir∴ 2º Vig∴ ! IIr∴ sobre a mª. columna! Eu vos convido da parte do nosso Vel∴ para que nos ajudeis a abrir no gr∴ de Apr∴ M∴ os trabalhos da R∴ L∴ de S. João com o Titulo Distinctivo = Commercio e Artes na Idade de Ouro, ao Or∴ do Rio de Janeiro.

2º Vig∴ IIr∴ sobre a minha columna! eu vos convido da parte do nosso Vel∴ para que nos ajudeis a abrir no gr∴ de Apr∴ M∴ os trabalhos da R∴ L∴ de S. João, com o Titulo Distinctivo = Commercio e Artes na Idade de Ouro, ao Or∴ do Rio de Janeiro.

Vel∴ Bate _ ! !  – ! _

1º Vig∴ Bate _ ! !  – ! _

2º Vig∴ Bate _ ! ! – ! _

Vel∴ Levantando-se, e toda a L∴ diz = A mim meos IIr∴ = e dirige os applausos, e todos se assentao.

Vel∴ Ir∴ Exp∴ participai ao Ir∴ Cubridor, que a L∴ esta aberta no gr∴ de Apr∴ M∴

ENCERRAMENTO DA L∴

Vel∴ Athe que horas se trabalha em L∴ ∴

1º Vig∴ Athe a’ meia noite.

Vel∴ Que horas são∴

1º Vig∴ Meia noite.

Vel∴ Que idade tendes vos∴

1º Vig∴ Trez annos.

Vel∴ Em virtude pois da hora, e da idade; IIr∴ 1º e 2º Vig∴ adverti a todos os nossos IIr∴ que se vão fechar os trabalhos de Apr∴ da R∴ L∴ de S. João com o Titulo Distinctivo = Commercio e Artes na Idade de Ouro ao Or∴ do Rio de Janeirº.

1º Vig∴ Ir∴ 2º Vig∴ ! IIr∴ sobre a minha Columna; eu vos advirto da parte do nosso Vel∴ que se vão fechar os trabalhos de Apr∴ da R∴ L∴ de S. João com o Titulo Distinctivo = Commercio e Artes na Idade de Ouro ao Or∴ do Rio de Janeiro.

2º Vig∴ IIr∴ sobre a mª. columna! eu vos advirto da parte do nosso Vel∴ que se vão fechar os trabalhos de Apr∴ da R∴ L∴ de S. João, com o Titulo Distinctivo = Commercio e Artes na Idade de Ouro, ao Or∴ do Rio de Janeiro.

Vel∴ Bate _ ! ! – ! _

1º Vig∴ Bate _ ! ! – ! _

2º Vig∴ Bate _ ! ! – ! _

Vel∴ Levantando-se, e toda a L∴ diz = A mim meos IIr∴ = dirige os applausos, e desce a fazer a Cadeia Electrica &”

 ANEXO

FAC-SÍMILE DO MANUSCRITO

Publicado on abril 16, 2012 at 2:05 pm  Comments (7)  

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7 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Gostaria que o Ir.’. Joel Guimarães, como estudioso dos assuntos maçônicos, explicasse a contradição do Rito Moderno /Francês ser praticado por uma Loja com o nome de São João, uma vez que o Rito, não possui qualquer conotação religiosa,em respeito à liberdade absoluta de consciência.

    • Boa tarde, Brother Francisco,

      Brother Joel certamente responderá assim que tomar conhecimento de sua dúvida. Mas, como também me dedico ao estudo da Ordem, posso esclarecer o que descobri.

      As guildas de maçons (pedreiros) operativos geralmente não se constituíam em algo parecido com uma Grande Loja, exceção feita aos maçons alemães que criaram a primeira grande loja da história (https://bibliot3ca.wordpress.com/a-verdadeira-primeira-grande-loja/).

      Mas, eles respeitavam a figura do Grão Mestre que era eleito rotativamente a cada ano, em uma reunião chamada “Convento” que era uma grande festa reunindo os maçons e suas famílias, com muita festa, comida e diversão.

      Essa festa tinha uma origem pagã que se perdera no tempo e que estava ligada ao solstício de verão no hemisfério norte. Então, como hoje, o solstício de verão europeu também é comemorado da mesma maneira no Brasil com as festas juninas, mais especificamente a festa de São João no dia 24 de junho (solstício de verão).

      Assim, o São João das lojas maçônicas não tem a ver com o santo da igreja católica, mas com a data em que era realizado o Convento no qual elegiam o Grão Mestre dos maçons.

  2. Meu Ir.: material interessante sobre a verdadeira história dos primórdios da Primaz do Brasil (0001) e do Grande Oriente do Brasil…
    Parabéns pelo trabalho de pesquisa…
    Fv manter contato por email…
    TFA.: JBudoia
    VM da Comércio e Artes – Primaz do Brasil..

  3. Importante seria, mesmo, saber a origem dessa ritual, para saber a que Rito corresponde. Excelente verificar que todo o tempo da sessão fica livre para estudo e debates (quais seriam?), bem diferente de hoje, mas, por outro lado, quase se perde todo o simbolismo (ou haveriam instruções especiais sobre ele)?

    • A origem do ritual é simples. É o Rito Francês.
      Nossos irmãos maçons de antanho não se dedicavam tanto ao simbolismo. O que sempre contou na Maçonaria pre-1927 era a atuação da maçonaria na política.

      Muitos realizam estudos particularmente e até apresentavam peças em loja, mas este não era o objetivo.

      E esta é a grande diferença. As lojas se perdem nisso e esquecem o que é maçonaria.

  4. […] do GOB, o rito sobre o qual nos fala o Ir.´. Joel Guimarães de Oliveira em seu trabalho: https://bibliot3ca.wordpress.com/ritual-da-r%E2%88%B4l%E2%88%B4-de-s-joao-commercio-e-artes-na-idade-…. Irmãos de potências diferentes poderiam atuar juntos através da […]

  5. Simplesmente, FANTÁSTICO!


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