Rito Francês: Comparação Entre O Rito Moderno Belga e o Rito Moderno Francês

Tradução José Filardo

 

Excelente conferência de nosso Ilustre Irmão Jean van Win da Bélgica

 

 

Pequenos lembretes básicos.

Vou me esforçar para produzir apenas fatos objetivos e históricos, e quando eu lhes der uma opinião pessoal e, portanto, subjetiva, eu informarei.

Para começar por um paradoxo provocativo, digamos que não existem ritos da Maçonaria.

O que existe sob este termo são roupagens diferentes de uma mesma realidade. Em certas obediências europeias, que não são nem a Grande Loja da Bélgica, nem o Grande Oriente da Bélgica praticam-se em loja uma dezena de ritos diferentes: o Rito Moderno Belga, Rito Moderno Francês, Rito Escocês Antigo e Aceito, Rito Escocês Retificado, Rito Escocês Filosófico, o Rito dito de Emulação, o Rito de Iorque, o Rito Californiano, o Rito Operativo de Salomão e, ocasionalmente, o Rito de Memphis Mizraim.

Roupagens diferentes, é certo, mas cobrindo uma estrutura básica bastante idêntica. Tomemos o exemplo da Recepção no Grau de aprendiz, que é muitas vezes chamada de “Iniciação”: o profano é sucessivamente confrontado com:

seu processo de escolha;

a redação de seu testamento;

a venda de seus olhos;

sua introdução na loja;

as viagens com tropeços;

sua submissão às provas;

e, em seguida, sua passagem das trevas à luz;

seu juramento;

sua consagração;

sua investidura;

a sua introdução na cadeia de união; e

finalmente, os jantares, rituais ou não.

Em suma, trata-se, durante esta recepção, de imitar uma morte imaginária para a vida material e representar uma entrada em uma vida espiritual.

História do Rito Francês.

Um desses ritos praticados no continente é chamado o Rito Francês ou Francês Moderno. Na França, esses termos são sinônimos. Vou resumir muito esquematicamente sua história em cinco períodos.

  1. O primeiro é a dos fundadores ingleses. Stuartistas ou Hanoverianos, pouco importa; os historiadores discutem sobre isso, e eu acho que havia ali, em ambos os lados, quem praticasse com toda a probabilidade os mesmos rituais, aliás muito simples e pouco enfáticos. Esses rituais eram aqueles da Grande Loja dos “Modernos”.
  2. O segundo período francês viu a aparição de uma tentativa de organizar as lojas que tinham proliferado na Europa com a velocidade de um relâmpago. Nos EUA também, mas sob a égide da maçonaria dos Antigos.

Diferentes organismos centralizadores e organizadores são criados, dos quais a Grande Loja da França por volta de 1760, o Grande Oriente de França em 1773, o Rito Francês segundo o Regime do GOF em 1801, e o Rito Escocês Antigo e Aceito em 1804. Estes organismos se somam a muitas outras formações que viram a luz em Avignon, Lyon, Marselha e em outros lugares.

  1. O terceiro período é o da aparição muito precoce dos altos graus, ou seja, graus posteriores ao de Mestre Maçom. Os primeiros surgiram a partir de 1730, em Londres, e aparecem por volta de 1740-1743 em Paris. Não vou dizer mais nada nesta loja que está trabalhando em grau de aprendiz, mas todos sabem que a dramaturgia do grau de Mestre Maçom se conclui com uma pergunta universal, independentemente do rito praticado: e, então, que fazer?

As soluções dadas para esta pergunta são múltiplas e diversas. Com efeito, vemos surgir da imaginação de Irmãos uma nebulosa muito congestionada e muitas vezes contraditória, que Claude Guerillot chama de Rito de Perfeição, mas que Alain Bernheim chama a justo título de Ordem do Real Segredo.

Os altos graus foram desenvolvidos na Europa, sem qualquer organização, sem qualquer lógica, e foram bastante criticados por muitos historiadores, maçons ou não. Eles contam com muitas duplicidades. O único futuro Rito Francês, antes da racionalização de 1780, incluirá não menos que 81…

Uma forte necessidade de ordenação surgirá com a aproximação da década de 1780, por iniciativa do GODF e de seu Grande Capítulo Geral. Ela será rapidamente imitada por outros ritos, e o ano de 1786 é crucial para muitos deles.

Uma iniciativa particularmente interessante é o do Rito Francês. A Câmara dos Graus do GODF trabalha duro em 1782-1783, e envia às lojas em 1786 e em 1787, os Cadernos dos três graus azuis e das quatro ordens de sabedoria que compõem a globalidade do Rito Francês.

Esta última estrutura, que penetra na Bélgica e na Holanda desde 1792, consiste em ordens dos Eleitos – do Escocês – do Cavaleiro do Oriente – do Cavaleiro Rosa Cruz. Uma ordem é um conjunto de graus agrupando temas semelhantes, e, inevitavelmente, excluindo certos graus julgados supérfluos.

  1. O quarto período continental assiste à codificação dos altos graus. O Rito Escocês Retificado tem seis; ele é composto de maçonaria francesa de Lyon, de irmãos da Reforma em Dresden e de contribuições dos Eleitos Cohens.

O Rito Escocês Antigo e Aceito se constitui como o Rito Francês, isto é, ele se apropria de uma série de nomes de graus presentes no chamado Rito de Perfeição, mas em vez de se compactar em quatro ordens, ele as divide em 33 graus, dos quais os últimos cinco nascem em Charleston, nos Estados Unidos sob uma influência antiga, mas ainda não identificada.

O Rito francês em seus altos graus vem, portanto, do mesmo patrimônio iniciático que o REAA; no entanto, o método de racionalização foi diferente.

Finalmente, o Rito Francês que é, evidentemente, Moderno porque nunca existiu Rito Francês Antigo, espalha-se a partir de 1786, e hoje é praticado em todos os seus graus e Ordens de Sabedoria, em muitos países do globo, e em obediências como o GODF, a Grande Loja da França, a GLTSO, a GLNF, a LNF, a GLFF, a GLM. E da Bélgica, o que dizer? Chegaremos lá…

  1. Porque o quinto período, o menos agradável de todos é o da secularização e politização do Rito Francês na Bélgica que, após o término da autoridade do GODF sobre nosso país após a derrota em Waterloo, é chamado Rito Moderno. Ele é muito politizado e secularizado na França e, por razões bastante diferentes, também o é na Bélgica. A secularização vai de mãos dadas com a politização. Sem nos determos muito sobre este assunto, cabe esclarecer que, na Bélgica, os ataques vêm do Arcebispo de Malines e, portanto, de Roma, e que a Maçonaria belga da época nada mais fez que responder às excomunhões e mandamentos infames dos bispos da Bélgica.

Desaparecimento e Ressurreição do Rito Francês

O Rito Francês vai experimentar uma longa travessia do deserto durante o século XIX, tanto na França quanto na Bélgica. As revoluções de 1848, a guerra de 1870, as guerras mundiais de 14-18 e 39-45 não vão resolver as coisas. A Maçonaria sobrevive, mas não é capaz de recuperar seu esplendor do século XVIII.

De toda forma, essa travessia do deserto não implicou a cessação das atividades rituais dos capítulos do Rito Francês, não mais na Bélgica (já demonstrei repetidamente usando documentos irrefutáveis) que na França. Nessa época e nesse país, a prática das Ordens de Sabedoria continuou sob a jurisdição do Grande Colégio dos Ritos do GODF, especialmente no Vale de Toulouse que praticou as três primeira Ordens até 1960, assim como outros capítulos em outros vales. Quanto a Paris e Províncias, são os capítulos independentes que mantiveram a chama, esperando pela “ressurreição” de uma jurisdição adequada e específica do Rito Francês. E o mesmo vale na Bélgica, até cerca de 1880, se é que a ressurreição legítima e crível ainda não é aguardada até hoje …

Nesse meio tempo, por volta de 1960, o grande maçom que era René Guilly realiza um estudo exaustivo do Rito Francês e encontra os detentores de uma antiga patente que sobrevivera nas Índias Orientais Holandesas, e havia retornado à Holanda, onde ela foi transmitida a Guilly e seus amigos.

Um núcleo de Cavaleiros Rosa Cruz do Rito Francês reviveu as chamas do Rito na França … ele vai conquistar todas as obediências da França que praticam hoje os Graus de Sabedoria de hoje, e se manifesta na loja azul sob os nomes:

Rito Moderno ou Rito Francês, nomes equivalente na França (desde 1786);

Rito Francês Tradicional, (1960 Guilly) iniciático e tradicional;

Rito Moderno Francês Restabelecido (século XVIII + contribuições inglesas);

Rito Francês Murat (1858)

Rito Francês Groussier (1938); retorno às fontes;

Rito Francês Amiable, (positivista!)

etc. …

A partir de 1994, decidiu-se reativar uma jurisdição – e não uma simples prática mais ou menos autônoma – própria para os “altos graus” do Rito Francês através da ressurreição do Grande Capítulo Geral da França.

De 1994 até 2000, a reconstrução foi realizada passo a passo até o Convento de 1999 e a Assembleia dos Capítulos de junho de 2000.

É agora e novamente, o Grande Capítulo Geral – Rito Francês do Grande Oriente de França, que administra os capítulos soberanos deste rito. Ele garante, em todo o mundo, a regularidade da prática do Rito Francês que ele fundou em 1786.

Mais de 4.300 irmãos dividido em 159 capítulos praticam os Graus de Sabedoria na França, assim como a Grande Loja Feminina que recebeu a patente em 2000.

Esta ressurreição se estende gradualmente aos países e territórios que foram atingidos pelo mesmo desuso nos séculos XIX e XX. Nós a vemos aparecer no Oceano Índico, nas Antilhas, no Caribe. Projetos concretos surgem em Noumea, Londres, Nova York, Portugal, Líbano, Madagascar e África. A maçonaria francesa brilha novamente no mundo. Mas ….

E aqui? E quanto à Bélgica?

Ao contrário de nossos vizinhos franceses que conseguiram um excelente renascimento do rito maçônico mais praticado nas nossas regiões, no século XVIII, o Rito Francês não é mais praticado ali porque o Rito Moderno Belga não é de maneira alguma o Rito Moderno Francês.

Certos autores belgas mantiveram uma confusão, alegando que o Rito Moderno Belga praticado pelo GOB, pela GLB e pela GLRB era idêntico ao Rito Moderno Francês. Isso não me parece certo; eles são diferentes em sua essência bem como em sua liturgia ritual, e eu estou aqui para lhes dizer em que eles não são filhos de um mesmo pai, porque eles não têm a mesma herança genética …

Meu bom amigo Jacques Ch. Lemaire publicou um artigo em “La Chaine d’Union” no. 37 de julho de 2006, no qual ele se refere constantemente ao Rito Francês do Grande Oriente da Bélgica.

O Rito Moderno Francês (da Bélgica) não é o Rito Moderno Francês (da França) …

Houve certamente uma época em que algumas das lojas do GOB praticaram este rito, sob os auspícios e autoridade do Grande Oriente de França. Mas, na minha opinião, um rito se caracteriza essencialmente por dois aspectos: o primeiro é o conteúdo iniciático e espiritual de seus rituais; o segundo é o elo entre o beneficiário / usuário de uma licença do organismo que a possui legitimamente e que lhe cedeu o uso segundo tais e tais modalidades.

  • (a) O conteúdo iniciático dos rituais do Rito Moderno Belga, ou mesmo do Rito Moderno dito francês praticado no GOB em 2008 não é aquele do Grande Oriente de França. Eles dizem respeito, na Bélgica, apenas aos graus de aprendiz, companheiro e mestre. O conteúdo desses mesmos graus no Rito Francês da França é distintamente diferente; mais ainda, o patrimônio Francês do Rito Francês comporta 5 Ordens de Graus subsequentes ao de mestre, o que não é de modo algum o caso da Bélgica.

Aqui está o que afirma o GOB em seu site oficial Internet:

O rito moderno ou rito dos Modernos: rito fundador do Grande Oriente da Bélgica, também por vezes chamado rito francês, registrado na tradição da Grande Loja de Londres de 1717 chamada “Grande Loja dos Modernos” é um rito baseado na busca da Razão, da ligação humana das cadeias sociais…

O Rito Escocês Antigo e Aceito: este rito, mais espiritualista, convida o maçom a desenvolver o seu “templo interior”; ele reivindica sua filiação à Tradição, especialmente segundo a Grande Loja Inglesa dos Antigos; ele é um dos ritos maçônicos mais praticados no mundo …

  • (b) Quanto à filiação de natureza histórica reivindicada pelo GOB, se ela não se baseia no Rito Francês estruturado em três graus específicos e quatro Ordens de graus posteriores ao de mestre, do que ela se compõe e em que ela seria “francesa”?

Acrescentemos que a Grande Loja da Bélgica, filha do GOB porque originária em 1959 desse último levou com ela em sua fundação, os rituais dessa última obediência. Ela os qualifica oficialmente de Rito Moderno Belga, e nunca de Rito Francês.

Quanto à Grande Loja Regular da Bélgica, originária da GLB e, portanto, neta do GOB, ela distingue claramente o Rito Moderno Belga (seu rito oficial) do Rito Francês, que ela também pratica, com um conteúdo iniciático essencialmente diferente e conforme, mutatis mutandis, o Regulateur, mas com concessões às exigências da Grande Loja Unida da Inglaterra, tais como a presença de um “altar” na Loja, sobre o qual repousa, recoberta pelo compasso e o esquadro, uma Bíblia cuja abertura ritual pelo Venerável é objeto de uma sequência muito britânica, referindo-se à “Verdadeira Luz”. O que não é de forma alguma “francês”. Nenhum ritual francês conhece essa sequência de natureza claramente religiosa.

Uma única obediência belga pratica o Rito Francês em seus graus azuis: é a GLRB, cujas sete lojas trabalham (em 2006) no Rito Francês; a maioria das outras tendo adotado o Rito Moderno Belga, e também que a obediência por suas sessões de Grande Loja, e que proíbe que o número de lojas praticando um rito diferente do RMB exceda 50% do número de lojas do rito moderno.

O que foi qualificado ironicamente de “Rito Francês” pelos “Antigos” que trouxeram o REAA para Paris em 1804, chama-se, na verdade, “os rituais segundo o Regime do Grande Oriente.” Esses rituais foram compostos pela Câmara dos Graus do GODF e enviados em julho 1787 com infinitas precauções às lojas correspondentes.

Os rituais de origem francesa utilizados na Europa antes desse envio não podem ser chamados de Rito Francês; eles certamente representam a maçonaria de “espírito ou estilo francês”, mas não constituem em nada o Rito Francês. A confusão é geral a este respeito.

E o Marquês de Gages com seus famosos rituais?

Na Bélgica, os rituais do Marquês de Gages, por exemplo, que vieram da Grande Loja do conde de Clermont, foram utilizadas por algumas lojas da Holanda austríaca de 1763 (ou 65?) a 1786. Gages, nomeado Grão-Mestre Provincial, em nome da Grande Loja da Inglaterra, morreu em janeiro de 1787; os rituais são enviados às lojas pelo Grande Oriente da França em julho de 1787. Se não fosse apenas por essas razões simplesmente cronológicas, sua obediência, mesmo se quisesse, nunca poderia trabalhar no “Rito Francês”, quer dizer, com os rituais aprovados pela única autoridade legítima: o Grande Oriente da França.

Especificidades do Rito Francês.

Vamos identificar uma por uma examinando as páginas 12 a 34 do livro indispensável de Pierre Mollier “Le Régulateur du Maçon 1785 /”1801”, publicado em 2004 por A l’Orient, Paris.

As mais características são as seguintes: a loja de obreiros maçons fica no pórtico do templo, e não dentro do templo.

  • A loja sendo tradicionalmente localizada FORA do templo, vemos ali o céu estrelado
  • As três grandes luzes: o sol, a lua, o Mestre da Loja. Nunca existe altar separado, mas “o livro dos Estatutos Gerais da Ordem” é colocado sobre a mesa do Venerável, também por vezes chamada de “altar”, ou “trono”.
  • A coluna de aprendizes é J, a dos companheiros é B. Isto mostra uma inversão em relação à descrição da Bíblia (Reis e Crônicas), inversão inventada e depois suprimida pela maçonaria anglo-saxônica, mas mantida na tradição da maçonaria francesa.
  • As três grandes luzes constituem um esquadro cuja base é o Oriente, e não o Ocidente, e representam o sol, a lua e o mestre da Loja. A posição oposta, com base no Ocidente é escocesa. Mas com variações …
  • As provas por ocasião das viagens são destinadas a assustar o candidato e medir sua perseverança. A primeira viagem se faz com ruído e é tudo. A segunda viagem vê a purificação pela água. A terceira viagem vê a purificação pelo fogo. A prova da terra é desconhecida. As purificações por água e fogo vêm das Escrituras, e não têm nenhuma conotação alquímica. É interessante notar, no entanto, que é nessa época que serão introduzidas nas maçonarias francesa e alemã-austríaca, purificações que se diz, sem provas, gradualmente assumindo ares alquímicos. Mozart, por exemplo, foi iniciado em 1784 com um ritual que ignora qualquer purificação; mas sua Flauta Mágica em 1791 menciona inequivocamente purificações pelos “quatro elementos da Antiguidade” (ver as palavras do duo em fuga dos Guardiões do Templo). É, portanto, precisamente nessa época que as provas tradicionais, puramente físicas e morais, são transformadas, em alguns lugares em purificações de ordem sacramental, religiosas ou mágicas. Que me seja permitido lamentar isso…

As outras especificidades do Rito Francês de 1786 são:

  • a simulação de sangramento
  • O cálice de amargor
  • O juramento prestado na posição do esquadro (nunca existe ajoelhar-se no Rito francês, o neófito sendo colocado na posição do esquadro, ou seja, cada uma das duas pernas dobradas em ângulo reto, os dois braços cruzados em ângulos retos, com as mãos segurando um compasso aberto em esquadro. O esquadro foi desde muito tempo o instrumento mais importante do ritual maçônico).
  • O juramento prestado sobre os estatutos da Ordem e a espada, o símbolo de honra diante do GADU
  • O presente da Luz (uma única)
  • A consagração pelo Venerável, sozinho (os dois vigilantes não tendo nenhuma qualificação para consagrar)
  • A disposição dos pés em esquadro duplo durante a marcha ritual, que começa com o pé direito
  • A posição de ordem com a mão ao pescoço, de modo que a laringe esteja localizada entre o indicador e o polegar, o antebraço sobre o peito; para fazer o sinal, eleva-se então o cotovelo e a mão traça o nível, e depois abaixa-se a mão perpendicularmente. A posição de Ordem no Rito Francês, assim como no Rito Escocês Retificado, contradiz a posição pouco graciosa de ordem anglo-saxã de origem “Antiga”, cotovelo levantado (conforme o Guia dos Maçons Escoceses antigo ritual).

O espírito do Rito Francês em quatro pontos

Ponto 1:

O Rito Francês é o exercício da Maçonaria em estado quimicamente puro. Ele comporta apenas símbolos relacionados com o mito da construção do Templo de Salomão.

O pavimento mosaico é aquele do Palácio mosaico destinado a abrigar as tábuas da Lei recebidas por Moisés no Sinai. Elas são mantidas no templo de Salomão ou Palácio da Lei Mosaica, abreviado “Palácio mosaico”, de onde o adjetivo “mosaico” — relativo a Moisés – dado ao pavimento desse palácio.

O Painel da Loja deve ser desenhado e depois apagado; a Loja, ou barraca dos obreiros, não tem qualquer sinal permanente sobre as paredes.

Os Três Grandes Luzes são luzes reais: o Sol para o dia, a Lua para a noite, o mestre para a Loja.

A estrela também é atribuída ao VM e deve figurar sobre seu colar no Rito Francês.

O mobiliário da Loja (porque deslocáveis) são a Bíblia, o esquadro e o compasso. Esta montagem não tradicional somente será imposta às lojas colocadas sob o controle da Grande Loja Unida da Inglaterra a partir de 1813. É um uso religioso originários da maçonaria dos “Antigos” que, portanto, não tem relação com a maçonaria dos “Modernos” nem com a maçonaria de espírito e do rito francês.

As joias e ornamentos são explicados nos catecismos e telhadores, e aparecem no painel resumido da loja.

Os Três Pilares, por vezes abusivamente chamados colunas, são Sabedoria, Força e Beleza. A tradição moderna e francesa atribui a sabedoria ao Venerável, a força ao Primeiro Vigilante e a beleza ao Segundo Vigilante. As outras atribuições, diferentes nos ritos escoceses são incorretas e nada significam. Só o VM encarna Salomão em Loja, e somente Salomão simboliza a Justiça e a Sabedoria.

Os vigilantes são colocados no Ocidente. No REAA, eles estão um ao sul, o outro no Ocidente, para guardar as portas do templo DENTRO do qual eles trabalham.

Ponto 2:

O Rito Francês é essencialmente mítico. Ele veicula três mitos fundamentais:

O mito de passagem das trevas à luz

O mito da construção do templo de Salomão

O mito hirâmico, que não será abordado nesta loja de Aprendizes.

O isso resulta, o que faz a especificidade essencial, pois espiritual, do Rito Francês:

O Rito Francês ignora absolutamente, à diferença de muitos outros ritos maçônicos:

O pensamento religioso

O pensamento esotérico

O pensamento místico

O pensamento mágico

O pensamento ocultista

O Rito Francês é maçônico e mítico, e nada mais!!

Ele é uma ruptura com toda a metafísica; ele se baseia apenas em símbolos, alegorias, e na razão.

Vejamos isso de forma fundamentada.

O pensamento religioso: ele implica a total submissão a uma realidade absoluta. O Rito francês não comporta nada de religioso ou de “sagrado”, nem oração, nem qualquer ato de natureza sagrada. O pensamento esotérico: ele é baseado em uma revelação transmitida apenas aos seus eleitos. É uma tendência sectária que introduz um racha entre os irmãos que ele separa entre os eleitos e os condenados. Ele nada tem de esotérico nas constituições, estatutos e regulamentos específicos de lojas e de obediências, porque este pensamento esotérico vai contra a universalidade da Maçonaria.

O pensamento místico: pesquisa uma imersão total do indivíduo no que está além dele. A mitologia maçônica é baseada na ideia de um projeto de Construção; ela se ocupa do aqui e agora; ela coloca o Homem no centro do universo, e não contém nada de místico ou divino.

O pensamento mágico: ele tenta controlar a realidade por operações mentais profundamente irracionais. Ele se entrega a teurgia, à alquimia, à magia. Estes são tão aberrantes que desapareceram com o último quartel do século XVIII, exceto em círculos românticos muito raros, confidenciais, espiritualistas e ultrapassados.

O pensamento ocultista: ele privilegia as superstições mais perigosos credenciando a influência de “espíritos” sobre seres humanos; ele se manifesta, por exemplo, em Loja durante o apagamento das velas (que nenhuma respiração humana impura pode extinguir !!) durante a cadeia de união (que deve ser feita coma as mãos sem luvas para que “o fluido” circule melhor !!) e dos juramentos (que se faz de mãos enluvadas no Vaticano, que, nesta matéria, desdenha toda superstição). O pensamento ocultista acredita fortemente em atos de natureza mágica, e no fluxo de “fluidos” com propriedades jamais explicadas desde Mesmer…

O Rito Francês nunca confunde o sagrado, que é o domínio de igrejas e das religiões, com o iniciático, que é o domínio da última grande sociedade iniciática do mundo ocidental, a maçonaria de tradição. Em Loja, ao profano se opõe o iniciático, e não o sagrado. Esta é uma opinião pessoal. A etimologia nos ajuda a entender: “pro fano” significa permanece diante do templo. “in ire” significa entrar, começar. “Sacer” significa separada.

Ponto 3:

O Rito Moderno Belga: um Grão-Mestre disse: “Este rito, que não comporta historicamente nenhum grau subsequente ao de Mestre é limpo e ” exclusivo de nosso país. Ele é específico e muito diferente do Rito Moderno Francês. Ele é o “produto da história local da maçonaria belga, da primeira metade do século XIX até hoje.

Por volta de 1955, o Grande Oriente da Bélgica escreveu: as lojas da obediência trabalham “segundo dois ritos: o rito moderno, também chamado rito francês, e o rito escocês antigo e aceito que se distingue por uma abordagem mais simbólica”. Retenhamos, pois, desse extrato “autorizado”, que o Rito Moderno Belga é muito diferente do Rito Moderno Francês, mas que também se chama Rito Francês. Você disse bizarro, meu querido primo?

Acrescentemos que este rito puramente local e estritamente limitado aos três graus simbólicos de todos os tempos, não seria de forma alguma confundido com o Rito Francês, como alguns autores têm feito. Eles são radicalmente diferentes em seu espírito e em suas modalidades iniciáticas.

O Rito Francês, de um lado, pertence desde 1786 ao Grande Oriente da França, que o comunica a quem entende, e de outro lado inclui um conjunto de características originais aos graus azuis que o tornam especial, além de uma estrutura de Altos Graus ditos Ordens de Sabedoria. Estamos longe do Rito Moderno Belga, que difere completamente dessa descrição…

Caráter eclético e compósito do Rito Moderno Belga.

O RMB aparece depois de Waterloo, em 1815; os franceses deixam a Bélgica e a influência do GODF cessa no país. Os holandeses tentaram assumir a maçonaria belga até 1830, data da nossa independência através da criação, bem tardia, da Nação Belga.

Sob o Rei Leopold I, a Igreja Católica desencadeia ataques contra a Maçonaria belga, que responde e se transforma em máquina de guerra anticlerical. As lojas são esvaziadas de seus elementos católicos, mas enchem-se com todos os que combatem a Igreja de Roma e de Malinas.

Os rituais da época refletem, é claro, essas circunstâncias políticas particulares … Eles sofrem a adição de influências de outros ritos, tais como o Rito Escocês Filosófico e o Rito Escocês Antigo e Aceito, o Rito Escocês Retificado e os ritos ingleses, o que produz fortes variações de uma loja para outra, com enormes diferenças e contradições flagrantes, que nossas lojas, muito sensíveis em relação às suas independências e firmemente agarradas a seus hábitos, resistem com um vigor dificilmente negociável …

Os rituais se veem amputados de muitos elementos tradicionais e significativos em favor de inovações, por vezes absurdas, e produzem um ritual “chamado moderno” aprovado em 1878 pelo GOB.

Pode o Rito Moderno Belga ser resumido a uma fórmula concisa? Aqui está ela:

RMB = RF + REAA + RER + REPH + RA

Ou seja: o Rito Moderno é o Rito Francês mais o Rito Escocês Antigo e Aceito mais o Rito Escocês Retificado mais o Rito Escocês Filosófico mais as contribuições de rituais ingleses.

Ponto 4:

Resumo das características e empréstimos do Rito Moderno Belga.

A primeira característica é que ele vive unicamente de transplantes estrangeiros. Vocês certamente querem provas; aqui estão.

Nos muitos rituais que estavam em vigor nas nossas regiões, no século XVIII, abundam exemplos que demonstram as práticas em vigor entre nós. Por exemplo, nos rituais do Marquês de Gages, que foi Grão-Mestre de 1763-65 até 1786, ou seja, 21 anos de duração, a iniciação do aprendiz, em suas viagens, é acompanhada por provas e não de purificações, de que se vê a conotação. O mesmo acontece nos famosos rituais do Conde de la Barre, datados de 1778.

O próprio Régulateur du Maçon de 1801, conhece apenas a “purificação” pelo fogo e pela água, de acordo com a palavra das Escrituras.

O REAA do Guia dos Maçons Escoceses, ritual dos Antigos, conhece apenas “as chamas purificadoras” que ocorrem durante a terceira viagem. Este implante do REAA é utilizado em algumas oficinas do RMB em diversas obediências belgas.

O que está acontecendo em geral no Rito Moderno Belga? A prova do ar é adicionada, bem como a da terra em forma de “câmara de reflexão”!!

O grau de companheiro do RMB sofreu dois grandes transplantes: um originário do RER, o outro desprovido de qualquer valor iniciático vem da Compagnonage. Eu não posso dizer mais em loja de aprendiz.

A abertura e fechamento da Bíblia é um transplante de rituais inglês e é completamente ignorado pela maçonaria francesa.

Os taus dos aventais dos Mestres Instalados não são taus, letra grega inusitada em maçonaria, mas níveis, que são praticados na maçonaria anglo-saxã. A Maçonaria francesa, no Regime Retificado, os ignora completamente (ou deveria ignorá-los).

Os juramentos feitos sobre a Bíblia recoberto pelo esquadro e o compasso são um transplante inglês. O Régulateur do Rito Francês realiza o juramento sobre a Constituição da Ordem e sobre a espada do VM. O RER sobre o Evangelho de João e a espada do VM.

O juramento de obediência do Orador ao VM é um resquício do Império e é ignorado em outros ritos francês e retificado.

As 3 grandes luzes, Bíblia-Esquadro-Compasso é um transplante inglês.

Os 3 castiçais com base no Ocidente vêm do Escocismo em geral.

A loja tornou-se o templo, como no REAA

Os níveis tornam-se graus como no REAA e na Inglaterra.

Os Ex-VMs tornam-se Cobridores “por humildade”, o que implica desvalorizar o papel essencial do Cobridor da Loja; é próprio do RMB. Em alguns lugares, eles constituem muitas vezes o Conselho de Antigos Mestres de Loja, uma espécie de Senado composto por aqueles “que passaram pela cadeira de Salomão.”

Há um altar no templo, o que é um transplante do REAA, dos Ingleses, mas sobretudo das Igrejas de todas as obediências.

A circulação em loja dos IIr.’. e Oficiais se faz marcando ângulos retos, por vezes, batendo os calcanhares!! Este é um transplante militar e inglês. A maçonaria francesa retificada conhece apenas a circulação livre. O Rito Francês marca levemente os ângulos.

Por último, mas não menos importante, a cadeia de união se faz com as mãos sem luvas, para, dizem os autores clássicos, que os fluxos circulem!!! o que é um transplante dos ocultistas e “espiritualistas” do século XIX.

Conclusão:

Não podemos realmente afirmar que o Rito Moderno Belga, híbrido puramente local, circunstancial e limitado a três graus simbólicos seja equivalente ao Rito Francês. Basta comparar os seus componentes um a um, para constatar as semelhanças espirituais são inexistentes, acompanhados de práticas rituais estranhas a um e outro.

O Rito francês esteve certamente presente na Bélgica desde 1795 (data da anexação negociada da Bélgica à República Francesa, e, portanto, a assunção de autoridade do Grande Oriente da França sobre a maioria das lojas belgas) até 1814, data da partida das tropas francesas.

Os altos graus franceses, portanto, continuaram a ser praticados entre nós, sem um órgão central até 1880, pelo menos, o que é confirmado; mas a prática do Rito Francês aqui caído em desuso após esta data, e o Rito Moderno Belga continuou durante o reinado de Leopold I, fora da jurisdição do Grande Oriente da França, e muito menos de seu Grande Capítulo Geral – Rito Francês. Este último contém NENHUM nome de capítulo belga, nem mesmo um só capítulo no território da futura Bélgica, incluído sob sua matrícula desde 1784. Devidamente anotado.

Em resumo: o Rito Moderno Belga é o que resta do Rito Francês quando se remove todo o caráter moderno francês, e se adiciona uma chuva desordenada de influências inglesas, escocesas, antigas, religiosas, retificadas e ocultistas.

O Rito Moderno Belga é limitado aos três graus chamados do “ofício”.

O Rito Moderno Francês é quimicamente puro.

Ele é maçônico, mítico e simbólico.

E nada mais.

Ele comporta desde suas origens três graus azuis e cinco Ordens de Graus.

Ele favorece a tradição convivial das origens inglesas, o respeito e o amor do Iluminismo, o Secularismo e a única razão.

Hoje, os Graus de Sabedoria do Rito Francês são praticados na Bélgica pelo Grande Oriente da Bélgica para irmãos do sexo masculino, na Grande Loja Feminina da Bélgica para as Irmãs, e no Capítulo Inter obediencial Prince de Ligne para os seguidores da maçonaria mista. E tudo poderia constituir um dia, o Grande Capítulo Geral da Bélgica: três entidades em uma.

Vivat!

Jan van Win

Publicado on junho 12, 2017 at 11:51 am  Comentários desativados em Rito Francês: Comparação Entre O Rito Moderno Belga e o Rito Moderno Francês  
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