Problema das Drogas na França

Síntese do relatório do 

Observatoire français des drogues et des toxicomanies

2012

Tradução – José Antonio de Souza Filardo

A oferta de cocaína

Desde a Segunda Guerra Mundial, a área de produção de coca, matéria-prima da cocaína, limita-se principalmente a três países: Colômbia, Peru e Bolívia. De acordo com a UNODC – Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, a produção mundial anual de cocaína é estimado em mais ou menos mil toneladas, um nível estável nos últimos dez anos, embora a distribuição entre estes três países flutue ao sabor da política antidrogas iniciada pelos Estados Unidos. Na Colômbia, o vasto plano de luta contra o tráfico de drogas tem sido eficaz na redução da produção. No entanto, este declínio foi compensado por um aumento na produção no Peru, prestes a destronar a Colômbia e na Bolívia, um país que em 2005 autorizou uma cultura de regulamentada da coca.

Se a América do Sul mantém o monopólio de produção, a comercialização e consumo de cocaína se torna global com o desenvolvimento do mercado europeu, que é quase tão importante hoje quanto o mercado norte-americano, enquanto as rotas de tráfico, em particular, afetam muitos países da África Ocidental.

Em 2011, segundo dados ainda provisórios, 11 toneladas de cocaína foram interceptados em apreensões no território francês, tornando-a o segundo produto incriminado, muito atrás das apreensões de cannabis (54 t, erva e resina combinados). No entanto, o volume de cocaína apreendida está sujeito a fortes variações e após o pico de 2006, 2011 constitui um recorde histórico em termos de apreensões de cocaína. É importante lembrar que estas apreensões traduzem, É importante lembrar que estas apreensões traduzem, antes de tudo, toda a atividade policial e aduaneira e suas flutuações, mas também permite entender a diversificação de vias de entrada da cocaína no território francês.

A cocaína e o crack são terceiro e quarto produtos envolvidos nas prisões por tráfico e uso, muito atrás de maconha e um pouco depois da heroína. O aumento acentuado nas prisões e apreensões durante dez anos confirma o enraizamento de negócio de cocaína na França, sob várias formas.

Na metrópole, o tráfico de cocaína está estruturado principalmente em torno de três grandes tipos de organização: redes ligados ao crime organizado, que vendem os produtos por atacado; redes estruturadas de semi-atacadistas nos subúrbios da cidade e encontros festivos; e as redes de micro tráfico, os mais numerosos, menos estruturado e suportado por um ou dois usuários revendedores com uma clientela limitada.

As redes ligadas ao crime organizado são uma minoria na França, mas determinantes na cadeia de distribuição de cocaína, uma vez que importam grandes quantidades. As redes das cidades, que correspondem aos semi-atacadistas estão bastante próximas da organização de crime organizado, mas incluem uma dimensão étnica ou familiar. A maioria deles já tem uma longa experiência no tráfico de Cannabis e tende a expandir suas atividades para a cocaína, mais rentável. Suas motivações são meramente mercantis e seu “ambiente social” facilita o contato com os clientes, vindos das classes trabalhadoras, onde o uso de cocaína aumenta. A crescente convergência das rotas de distribuição de cannabis e de cocaína poderiam se beneficiar desse tipo de organização, que continuam a crescer. Finalmente, a terceira grande modalidade consiste das micro redes. Eles são movidas principalmente por usuários de cocaína, desejosos de se abastecer da fonte mais barata onde a ganância pode levar a alimentar uma pequena clientela. Estas redes se abastecem fora das fronteiras francesas (Holanda, Espanha, etc.) e contribuem para a alta disponibilidade do produto, inclusive em áreas rurais e suburbanas.

O preço médio por grama de cocaína na metrópole elevou-se em 2011 a cerca de 60 euros (R$ 145,00). Seu declínio líquido em vinte anos (80 euros (R$ 193) em 2000, 150 euros (R$ 360) em 1990) confirma a maior disponibilidade da cocaína, decorrente particularmente do redirecionamento de parte da produção mundial para a Europa.

Em 2010, o volume de negócios do comércio no varejo de cocaína na França eleva-se a 902 milhões de euros (R$ 2,2 bilhões). Este montante corresponde a um volume de cerca de 15 toneladas de cocaína (dosada a 30%). Considerando que o produto que chega ao solo europeu tem uma taxa de pureza de 70%, são cerca de 6 toneladas de cocaína que seriam importada para o mercado francês e 9 toneladas de produtos de corte que são adicionados. Como acontece com qualquer substância ilícita, essa estimativa deve ser interpretada com cautela, pois se baseia em muitas hipóteses. No entanto, parece que o mercado de cocaína seja um valor tão importante quanto o da cannabis (832 milhões (R$ 2 bilhões) de euros em 2005), com um volume muito menor de produto, graças a uma diferença de preço entre esses dois produtos.

As análises realizadas pelos serviços repressivos e o dispositivo SINTES mostram que o teor de cocaína pura varia sensivelmente de acordo com as amostras coletadas. A concentração média é cerca de 20% a 30%, enquanto que a do crack, ainda mais elevada do que a forma de pó atinge 48% a 72%. Desde o final da década de 90, a proporção de apreensões de cocaína de alto conteúdo (> 70%) diminuiu, enquanto que as apreensões de cocaína de baixo conteúdo (<30%) aumentaram. As doses de cocaína são cortadas com adulterantes (principalmente substâncias medicamentosas) e diluentes (principalmente açúcares): os primeiros representam a metade do peso total vendido ao consumidor, os últimos por 20% a 30%. Os produtos de corte mais usados são Levamisole, fenacetina e cafeína. Nos últimos anos, a tendência é de diminuição na proporção de amostras em que a cocaína é a única substância ativa e um aumento no número de produtos de corte associados.

Consumo de cocaína: níveis, evolução, geografia

A cocaína é o segundo produto ilícito mais consumido na França metropolitana, embora seu nível de utilização continue a estar muito longe do consumo de maconha. Assim, 3% de jovens de 17 anos, cerca de 4% das pessoas de 18-64 anos de idade declaram ter experimentado, enquanto que o uso no ano refere-se a apenas 1% da população, sejam adolescentes ou adultos. Tal como acontece com outras drogas ilícitas, os homens são mais consumidores do que as mulheres, independentemente da idade. No entanto, quando isso ocorre, a experimentação de cocaína ocorre com a mesma idade para ambos os sexos, cerca de 23 anos em média na população adulta. Os níveis de experimentação e uso são em sua maioria entre adultos jovens, e em seguida diminuem com a idade.

Entre a faixa etária de 18-64 a experimentação da cocaína é mais elevada entre os desempregados do que entre os trabalhadores ocupados. E destes últimos, os gerentes e profissionais intelectuais, artesãos comerciantes e os trabalhadores estão sobre-representados entre usuários de cocaína, enquanto os agricultores estão sub-representados. Entre os adolescentes, jovens aprendizes ou recém egressos do sistema escolar são mais numerosos e propensos a ter experimentado este produto do que aqueles que ainda estão na escola. Este é também o caso dos adolescentes cujo status social dos pais é elevado, independentemente da sua própria situação.

Os usuários de cocaína caracterizam-se por uma alta proporção de poli consumidores de produtos psicoativos. Este poli consumo também é bastante observado entre aquela pessoas atendidas em estruturas de acolhimento e cuidados do que entre os participantes do meio festivo. Enquanto cheirar continua a ser o principal modo de uso de cocaína, 1 usuário em 8 já “livre-basearam” eles mesmos o produto antes de consumi-lo.

Em contraste com as regiões do nordeste, a experimentação com a cocaína parece elevada nas regiões mediterrânicas, na Bretanha e em Île-de-France. Este é particularmente o caso do Languedoc-Roussillon, provavelmente devido à sua proximidade com a Espanha, um país de consumo alto e porta de entrada de cocaína na Europa. Paralelamente, o consumo de cocaína, tradicionalmente mais prevalente nas cidades do que em áreas menos povoadas, doravante, é observado tanto em grandes cidades quanto nas áreas rurais.

Esta dispersão geográfica acompanha a difusão geral observada desde o início dos anos 90, quando a experimentação e consumo de cocaína sofreram um forte aumento entre a população francesa. Assim, entre os adultos, a proporção de experimentadores dobrou e o número de usuários triplicou entre os anos de 2000 e 2010. Embora a tendência se estabilizasse em 2011 entre os adolescentes, a experimentação quase quadruplicou entre 2000 e 2008.

Esta difusão ocorre tanto no plano socioeconômico quanto geográfico, e ele é devido principalmente às gerações mais jovens. Se os desempregados são maiores consumidores que os empregados, o uso crescente é muito mais acentuado no segundo grupo. Esta expansão em contextos sociais diferentes dos ramos privilegiados ou precarizados encontra sua origem na maior acessibilidade da cocaína, na integração de movimento “techno” na cena festiva em geral, e na imagem de sucesso e de desempenho transmitida por esta droga. A difusão do uso nos territórios menos urbanizadas pode ser explicada pela chegada de residentes urbanos em áreas rurais, em geral para escapar dos aluguéis caros demais nas cidades ou eventualmente para participar de reuniões festiva, e o desenvolvimento de pequeno tráfico local.

Também na Europa, a cocaína constitui a segunda substância ilícita mais consumida depois da cannabis, com mais de quatorze milhões de experimentadores. No entanto, a prevalência ali é menor do que aquela observada em outros países ocidentais e há uma clara divisão entre Europa ocidental, muito consumidora, e a Europa oriental menos preocupada. Tanto para a experimentação quando para uso, França está no meio: esta posição relativamente recente é o resultado de um aumento da cocaína, enquanto o seu consumo tende a diminuir em vários países onde ela tem prevalência mais elevada.

Os consumidores de cocaína

Apesar da difusão do consumo de cocaína na população francesa em, certos grupos são particularmente consumidores. Sua característica comum é a de ser predominantemente poli consumidores de substâncias, álcool e cannabis em primeiro lugar na lista. Podem-se distinguir dois grupos de usuários. Em primeiro lugar, aqueles ditos “socialmente integrados”, cujo consumo regular está muitas vezes ligado à participação regular na cena festiva, um conjunto que varia de “semi-integrados” em situação profissional instável, até os “hiper- inseridos” provenientes de meio muito rico. Por outro lado, os usuários “desinseridos” , precários: os jovens errantes, novos migrantes, toxicodependentes poli usuários precarizados e os “crackers” ou usuários de crack. Na verdade, o crack está ligado às populações mais precarizadas, através do seu baixo custo devido à sua venda em quantidades muito pequenas. Seus usuários formam, portanto, um conjunto particular no seio daqueles consumidores de cocaína.

Se todos os tipos de estruturas especializadas são destinados a acomodar os usuários, independentemente de seu perfil, as estruturas de redução de risco CAARUD (Centros de Recepção e acompanhamento da redução no risco para usuários de drogas) acolhem em um público consumidor fortemente precarizado, enquanto os centros de cuidados CSAPA (centros de cuidados de acompanhamento e de prevenção do vício) é um pouco mais diversificada em termos de inclusão social e faz parte de uma abordagem terapêutica. Em paralelo, os usuários que são desconhecidos tanto dos dispositivos médicos quanto repressivos são qualificados como usuários “ocultos” entre as quais estão incluídas muitas pessoas inseridas, mas também precárias, assim como jovens errantes.

No CSAPA, um usuário em oito declara ter consumido cocaína no mês, mas a maioria deles são poli consumidores dependentes de opiáceos. Os usuários para os quais a cocaína é o produto que eles relatam como causando mais problemas e que não estão sob tratamento de substituição por conta de opiáceos (TSO) representam apenas 2% desse público, ou seja, 2 400 a 2 800 pessoas.

Em relação ao crack, cerca de 0,7% dos usuários acolhidos pelo CSAPA são consumidores com um problema principal com esta substância (mas não sob TSO) ou seja 700-900 indivíduos. Eles diferem muito dos consumidores de opiáceos e de cocaína por uma idade média mais alta e uma situação social ainda mais precária. A gestão dos usuários de crack concentra-se essencialmente em Ile-de-France, nas Antilhas e na Guiana.

Nos CAARUD, ao final de 2010, mais de 40% dos usuários haviam usado cocaína ou crack no mês. Sua condição socioeconômica pouco favorável, não difere da de outros usuários da mesma idade. Um em cada cinco considera que a cocaína em pó é o produto mais problemático para ele, uma posição intermediária entre os opiáceos (considerados muito prejudiciais) e outros estimulantes e alucinógenos. Os usuários de crack são particularmente e dessocializados e essencialmente presentes em Ile de France e nas Antilhas-Guiana, enquanto os usuários de free-base são originários da cena festiva e espalhado por todo o país.

Ainda que partilhando uma precariedade social muito forte e uma idade média bastante elevada, as populações de usuários de crack parisienses e antilhanos diferem, em especial, pela proporção de mulheres, maior entre os primeiros. Diferentemente da cocaína, o crack, principalmente fumado, constitui um consumo central, embora o poli consumo ainda esteja muito presente. As práticas de partilha de equipamentos são frequentes, levando a uma alta prevalência de soropositividade para o HIV e HCV. Especialmente considerando que a saúde em geral dos crackers é muito ruim devido às suas más condições de vida.

No exterior, o crack é a segunda substância ilícita mais consumida por usuários de drogas, depois da cannabis. Os usuários de crack atendidos no CAARUD das Antilhas-Guiana diferem de seus correspondentes na França pelo menor uso de opiáceos e injetáveis. Os outros produtos consumidos são principalmente a cannabis e álcool. Além disso, a precariedade é maior entre usuários de crack da Guiana que entre os do Caribe (Martinica e Guadalupe).

Há também usuários de cocaína “ocultos”, sem qualquer interação com as estruturas de saúde e os serviços de repressão. Embora no imaginário coletivo, o uso “oculto” de cocaína esteja frequentemente associado ao desempenho profissional, na verdade, este consumo se inscreve principalmente em um contexto festivo. Esses usuários têm um perfil de poli consumo (álcool e cannabis em primeiro lugar na lista) e preferem a injeção intranasal, muito estigmatizante.

Seu percurso de consumo parece homogêneo durante as fases de descoberta do produtos e de perseverança no uso. A cocaína é inicialmente um produto da celebração, entre outros, associados a momentos de convivência. É apenas quando da repetição, sempre num ambiente festivo, que se instala o conhecimento e a pesquisa específicos dos efeitos próprios da cocaína. Suas virtudes desinibidoras e estimulantes, a impressão de controle e a ausência de efeitos colaterais desagradáveis relatados são as principais razões por trás da perseverança no uso.

A seguir, dois caminhos se desenham: alguns usuários estabelecem em um consumo constante, mas controlado do produto, enquanto outros descambam para um uso mais problemático. Os primeiros continuam a consumir principalmente durante saídas festivas, regulando assim o uso do produto, e desenvolvem uma atração particular pela cocaína e a via intranasal, mantendo uma vida social “equilibrada”. Para o segundo grupo, o uso torna-se menos facilmente controlado, a aventura do produto, sua acessibilidade rápida ou uma interrupção no seu trajeto de vida levando-os a consumir mais e mais frequentemente. No entanto, após um episódio de “abandono social” relativamente curto, geralmente em conjunto com o uso de free base, a maior parte deles pode recomeçar com o uso moderado.

O problema sanitário

O consumo de cocaína e de crack, seja ocasional ou crônico, pode afetar a saúde física e mental dos usuários. Essas consequências, para alguns rápida e intensa ou para outros mais progressiva, podem ocorrer independentemente do modo de administração, da quantidade e da frequência de uso. Elas são para alguns suscetíveis de serem graves ou até mesmo fatais desde os primeiros consumos, e para outros em um único episódio. Além disso, outros fatores, tais como o uso de certos produtos de corte, o poli consumo ou, ainda, os comportamentos de alto risco (compartilhamento de equipamentos e / ou comportamentos sexuais de risco) podem ser fontes de complicações adicionais àquelas próprias da cocaína.

As complicações físicas mais comumente encontradas são cardíacas, ligadas ao aumento da pressão arterial e vasoconstrição das artérias coronárias induzidas pela cocaína. Complicações neurológicas (acidente vascular cerebral, convulsões, etc.) também podem ocorrer. No entanto, o nexo causal entre esses eventos e o uso de cocaína é raramente estabelecido pelos profissionais de saúde, especialmente porque os consumidores não estão cientes dos riscos envolvidos.

As complicações pulmonares ocorrem quanto a elas quase que exclusivamente entre usuários de crack devido ao modo de consumo (inalação dos vapores). A patologia mais característica é uma síndrome respiratória aguda, o “pulmão de crack”, que se traduz em tosse, dificuldade respiratória, febre e dores torácicas. Outros sintomas são especificamente relacionados com a utilização deste produto, tais como lesões cutâneas nas palmas das mãos e plantas dos pés (lesões chamadas de “pés-mãos”), devido à busca quase obsessiva pelo produto e sua preparação. Cheirar cocaína provoca sistematicamente lesões do septo nasal, muitas vezes, rapidamente em casos de consumo intensivo. Finalmente, as práticas de risco associados à injeção e compartilhamento de material (canudos para cocaína, cachimbos para o crack) podem ser a causa de infecções bacterianas (abscessos locais da pele, septicemia) ou virais (HIV, HBV e especialmente HCV).

Os transtornos mentais (depressão, tentativas de suicídio, transtornos de ansiedade, etc.) são mais comuns entre usuários de cocaína do que no resto da população. No entanto, é difícil determinar se estes problemas decorrem do uso da cocaína em si, ou mesmo se eles são anteriores. Além disso, nas horas seguintes ao consumo de cocaína, podem surgir transtornos delirantes sob a forma de episódios psicóticos com alucinações auditivas, visuais e sensoriais. Esta paranoia induzida pela cocaína, pode ser acompanhada por uma síndrome de busca compulsiva pelo produto, especialmente entre os usuários de crack.

A cocaína pode causar, sozinha ou em combinação com outros produtos, uma morte violenta por overdose. Os testes toxicológicos realizados na França no quadro dos dispositivos DRAMES permitem estimar em 2009 estas overdoses fatais relacionadas com a cocaína a 32, entre as cerca de 260 mortes relacionadas ao abuso de substâncias. A cocaína, sozinha, está envolvida em somente 15 destas mortes; ela está associada a outros produtos nos outros 17 casos. Apesar da disseminação do consumo de cocaína, o número de mortes relacionadas a este produto é relativamente estável, embora sua participação no conjunto das overdoses fatais tenha conhecido uma diminuição entre 2007 e 2008, de 18-20% para 12-14%.

Comparado ao Reino Unido

à Alemanha e Espanha, o número de mortes relacionadas com a cocaína é sensivelmente inferior na França. No entanto, a prevalência desta substância nas mortes por overdose é um pouco superior àquelas observadas no Reino Unido e na Alemanha, mas muito menos do que na Espanha. Outra particularidade francesa: as mortes relacionadas com a cocaína pura constituem quase a metade de todas as mortes com cocaína, enquanto que a mortalidade por combinação com outras substâncias é muito predominante nos outros países.

Entre 5% e 6% dos usuários de drogas que frequentam as estruturas de atendimento e cuidados, declaram que a cocaína ou o crack é o produto que apresenta mais problemas para eles. No entanto, não há intervenção terapêutica específica para esta substância que seja consensual e validada, ao contrário do tratamento de substituição para os opiáceos. Muitos tratamentos medicamentosos para reduzir o consumo ou o desejo foram testados, mas nenhum, exceto pelo dissulfiram (ou Esperal ®), provou cientificamente sua eficácia, embora estudos clínicos tenham demonstrado resultados promissores. No entanto, outras abordagens parecem produzir efeitos benéficos, tais como intervenções “psicossociais”.

Além desses tratamentos medicamentosos e psicoterápicos, cuja combinação em diferentes momentos da monitoração dos pacientes poderia fortalecer a ação terapêutica, os pesquisadores tentam criar uma vacina anticocaína desde o início da década de 90. Seu princípio baseia-se na produção de anticorpos específicos que bloqueariam e desativariam a cocaína antes da sua passagem ao nível do cérebro. Dadas as experiências animais e humanas já realizadas, esta vacina é descrita como um avanço terapêutico interessante, embora seja preciso otimizar seu modelo para se obter uma resposta imunitária suficiente e duradoura. Ela exigirá, de toda forma um debate ético para se chegar a um consenso científico e político sobre seu uso.

Quadro legal, Política pública e práticas profissionais

O quadro legal que rege as disposições penais e sanitárias relacionadas com a droga é primariamente definido pelas convenções internacionais, entre elas a Convenção Única de 1961 e a de 1988 contra o tráfico ilícito de narcóticos e substâncias psicotrópicas.

Renovando os compromissos internacionais da França, a lei de 31 de dezembro de 1970 regulamenta a política nacional contra o uso e tráfico de drogas, e se aplica a qualquer substância classificada como estupefaciente, sem distinção (ao contrário do que ocorre em outros países), tanto para cuidados de saúde quanto para a repressão. Essa lei pune tanto o uso de cocaína e crack como um delito, mesmo que as respostas penais sejam diversificadas ao longo dos anos, com foco em alternativas terapêuticas em processos contra usuários comuns. A compra e posse são igualmente puníveis como crimes, assim como o incentivo ao uso. Finalmente, o tráfico é cada vez mais fortemente reprimido nos últimos dez anos, com novos crimes e penas agravadas.

No plano sanitário, a Lei de 1.970 exige o anonimato e a gratuidade durante o processo, para favorecer o acesso dos usuários aos cuidados médicos. Os dispositivos de assistência aos quais os usuários de cocaína e crack podem recorrer são os mesmos utilizados por outros usuários de drogas: os centros especializados (CSAPA e CAARUD), comunidades terapêuticas e a medicina ou hospitais públicos. No entanto, alguns locais de atendimento visam prioritariamente os usuários de cocaína e crack. Além das ações centradas na injeção, recomendações científicas defendem a implantação de ferramentas específicas para a redução do risco entre os usuários de cocaína e crack.

Dada a ausência de tratamento de substituição específica da cocaína, além da farmacologia desta substância e da heterogeneidade dos perfis de seus consumidores, a Alta Autoridade da Saúde começou uma reflexão e publicou recentemente recomendações de boas práticas para o atendimento de consumidores de cocaína, destinadas aos profissionais de saúde relacionadas a essas populações, especialistas em dependência ou não. Este repositório tende a melhorar a identificação e o tratamento de usuários de cocaína e determinar as estratégias terapêuticas mais eficazes para interromper o uso.

Os profissionais relatam na verdade uma dificuldade de seguimento de consumos de cocaína problemáticos, e mais ainda o tratamento na ausência de protocolos terapêuticos apropriados.

Alguns especialistas experimentam, fora de qualquer protocolo validado, tratamentos medicamentosos não-específicos contra a dependência da cocaína. Soluções adaptadas próprias para cada público também são recomendadas, tais como o fato privilegiar um contato duradouro e acompanhado ao invés de uma solução medicamentosa, pouco adequada para os usuários de crack precarizados, ou um apoio “fora dos muros”, a fim de seguir uma vida social e profissional normal para os pacientes inseridos. Finalmente, quando há uma demanda, ela se manifesta principalmente como uma necessidade de informação ou de atendimento de emergência, resultante do uso de cocaína.

Em termos de prevenção do uso de drogas, de acordo com a lei, as ações são baseadas em uma abordagem generalista, com um lembrete da proibição e informações sobre os riscos sociais e de saúde. Exceto no meio profissional, onde ela é tratada como as drogas mais comuns (tabaco, álcool e maconha), a cocaína não é objeto de esforços de prevenção dirigidos, especialmente nas escolas. As campanhas focadas unicamente em cocaína ainda são raras.

As detenções incriminando a cocaína (em forma de cloridrato ou de crack) representam 3,5% das prisões por uso de drogas e 12,7% daquelas por o uso e revenda ou tráfico em 2010, tornando-a o terceiro produto em questão, atrás da cannabis e da heroína. Estas prisões aumentaram ao longo dos últimos vinte anos, qualquer que seja a razão, mas a um ritmo mais rápido para o uso que para a revenda ou o tráfico.

Mais de 85% destas prisões envolveram homens. No entanto, o perfil sociodemográfico difere dependendo da forma da substância: usuários de cocaína presos têm uma situação social menos precária e são ligeiramente mais jovens do que aqueles de crack (30 anos vs. 33 anos), sendo estes últimos principalmente concentrados nos departamentos ultramarinos do Atlântico e em Seine-Saint-Denis.

As categorias sócio profissionais menos favorecidas estão sobre-representadas entre os detidos por uso, enquanto que a participação dos grupos abastados e alunos-estudantes aumentou significativamente desde 1990. Os usuários revendedores e os traficantes e traficantes presos caracterizam-se por sua vez por uma alta proporção de pessoas desempregadas e estrangeiros.

Embora seja impossível definir o produto em questão e comparar o arquivo no sentido estrito de prisões e os de condenações, a tendência geral do Ministério Público para o uso é caracterizada, na última década, por um tratamento penal mais sistemático, com menos condenações e mais medidas alternativas (70% dos casos). É difícil seguir o destino das pessoas presas por tráfico e uso-revenda, mas a taxa de condenação parece bastante maior do que para o uso (51% vs. 14%).

As percepções

As percepções relacionadas com a cocaína podem ser apreendidas interrogando-se a população em geral sobre os produtos e as políticas públicas implantadas; pode-se ainda considerar as percepções dos profissionais de saúde e dos usuários do produto ou ainda estudar o lugar ocupado por esses assuntos na mídia.

Em relação ao público em geral, os franceses com idades entre 15 e 75 anos foram entrevistados sobre suas percepções em matéria de drogas em 1999, 2002 e 2008. A esmagadora maioria (89%) acredita que a cocaína é uma droga perigosa, começando com sua experimentação. Apesar da propagação entre a população e a boa imagem de que ainda gozava esta droga, particularmente em certos meios, as opiniões sobre ela, assim como sobre outros produtos (incluindo as lícitas), se intensificaram. Em relação aos usuários do produto, 82% dos franceses acreditam que eles são perigosos para aqueles ao seu redor, e a maioria se recusa a isentá-los de sua responsabilidade sob o pretexto de doença ou história familiar difícil. Esta intolerância é mais pronunciada para os consumidores de cocaína do que para os consumidores de heroína ou para aqueles que consomem grandes quantidades de álcool.

Entrevistados como parte de uma pesquisa em nível europeu, mais de nove jovens franceses em 10 consideram que o uso de cocaína pode causar riscos à saúde médios ou elevados e são favoráveis à sua proibição.

Do lado dos profissionais de saúde, especializados ou não no campo das drogas, dois perfis de consumidores são classicamente lembrados: de um lado os usuários de cocaína “hiper inseridos” e, de outro, os usuários de crack e os poli usuários, muito precários. Esta percepção dualista ignora os consumidores inseridos que também pode apresentar usos problemáticos. Fundada em seu conhecimento em matéria de opiáceos, as percepções desses cuidadores em relação à cocaína são, por vezes prejudicadas, e podem minorar os perigos do produto.

Do ponto de vista dos usuários, esses profissionais conhecem ainda mal o produto e seus efeitos, e levam pouco em conta as suas demandas relacionadas à cocaína, ao contrário daquelas relacionadas aos opiáceos. Os usuários se sentem incompreendidos pelos profissionais de saúde e abordam pouco seu consumo de cocaína com eles; a ausência de intercâmbio sendo reforçada pela minimização ou negação entre esses usuários das dificuldades associadas a esse consumo.

Em seu relacionamento com a cocaína os usuários guardam uma imagem positiva de droga de festa, pouco perigosa e fácil de controlar. Eles elogiam seu lado estimulante, amigável e relativamente inofensivo; ela lhes dá um sentimento de confiança e desempenho. Mas, essa visão positiva tem mais nuances com a intensificação do consumo, a transição para o free base ou injeção, vividos como um início da perda de controle sobre o produto. O crack, por sua vez, mantém uma imagem sombria.

Na mídia, a cocaína é o tema de inúmeros artigos e Reportagens ao longo dos últimos dez anos. Embora as profissões intelectuais superiores, que incluem os jornalistas, sejam relativamente mais consumidoras da substância, isso parece provocar tanto um fascínio quanto uma rejeição profunda conforme ela se apresente sob a forma de pó ou free base. Ela permite um tratamento binário, tanto demonizante quanto glamorizante.

Os temas relacionados com o tráfico de cocaína são normalmente tratados como o componente sanitário, delegado a médicos especialistas, que detalham os riscos e as consequências associadas ao uso. Os temas de nível de uso, buscam objetivar a proposta, às vezes vêm para servir de dramatização. Assim como no testemunho de consumidores, com a particularidade para a cocaína de afetar celebridades, onde se faz a história dos derivados, antes de recolher, eventualmente, o seu mea culpa.

Se a abordagem dos assuntos é comum, a semântica também o é: os termos catastróficos se multiplicam, assim como os trocadilhos indicando certa proximidade com o produto e seus usuários, especialmente na imprensa jovem e urbana.

Mas, em relação ao crack, os termos são muito negativos e são acompanhados por imagens de privação e marginalização … O cracker gradualmente substituiu o viciado em heroína da década de 90 para encarnar a figura do toxicômano.

No final, a cocaína se beneficia de uma representação bastante positiva, mas certos sinais permanecem, apesar de pensar que estes poderiam evoluir. De um lado, algumas manifestações de uma deterioração da imagem da cocaína foram observadas entre os usuários, onde os mais experientes se ressentem dos efeitos adversos, com uma relação qualidade / preço considerada cada vez pior. De outro, algumas revistas em moda começam a desmistificar cocaína. Tal reversão já ocorreu no passado. Assim, na década de 30, depois de despertar o entusiasmo de certos círculos artísticos e da noite, a cocaína conheceu um declínio de popularidade.

Publicado on março 29, 2012 at 3:58 pm  Comments (2)  

The URI to TrackBack this entry is: https://bibliot3ca.wordpress.com/problema-das-drogas-na-franca/trackback/

RSS feed for comments on this post.

2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. so existe para combate as drogas medidas radicais,se as autoridade pudessem efetuar prisoes do usuario e traficante, nao haveria cadeia suficiente para tanta gente, entao uma soluçao eficiente seria a uniao de paises como o brasil estados unidos e outros enviando ultimatos aos paises produtores com uma ameaça de invasao erradicando o mal pela sua raiz.


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: