Por que James Joyce teve que sair de Dublin para se encontrar

 

Tradução  J. Filardo

 

Por Ian Walker

James Joyce (1882-1941)

 

Ulysses é a história de um lugar – Dublin – tanto quanto qualquer outra coisa. Então, por que James Joyce teve que sair da cidade para escrever sua obra-prima?

Em 10 de junho de 1904, James Joyce, enquanto caminhava pela rua Nassau em Dublin, viu uma jovem chamada Nora Barnacle. Ele se apaixonou instantaneamente. Ele era um escritor talentoso, mas empobrecido que apesar da falta de sucesso publicado, fazia parte da vida cultural e artística da cidade. Ela era uma jovem camareira de Galway. Eles eram um casal improvável.

No início, Barnacle ignorou os avanços de Joyce, mas ele persistiu e, quase uma semana depois, eles saíram juntos para a praia em Sandymount, nos arredores de Dublin. Uma vez lá, as coisas ficaram um pouco íntimas, o que não foi realmente uma grande coisa para ninguém além dos dois jovens amantes – mas foi uma grande coisa para Joyce que escolheu essa data, 16 de junho de 1904, como o dia em que os eventos em sua novela modernista Ulisses ocorreram.

Ao longo daquele dia, a novela segue seus dois principais protagonistas, Leopold Bloom e Stephen Dedalus, enquanto percorrem Dublin resolvendo seus negócios do dia-a-dia. Eles vão trabalhar, fazer compras lojas, vão a pubs, mas nada há de banal no que eles fazem. Joyce eleva o cotidiano ao nível do épico. Ele encontra no lugar comum a própria essência da vida.

O romance é sobre a classe, amor, tempo, sexo e morte. É sobre religião. É sobre política. É sobre nossos corpos. É sobre linguagem e como dizemos e escrevemos coisas. É sobre como pensamos e como vivemos. E é uma medida do amor de Joyce por Nora Barnacle que este romance, que contém tanto, que se esforça para conter tudo, e que termina com a linha de afirmação de vida e amor “sim, eu disse sim, eu vou, sim”, é definido no dia em que ela, Nora, primeiro disse sim a ele.

E este mundo inteiro que está contido em Ulisses, está contido em Dublin. O romance está enraizado no próprio tecido da cidade. As personagens que conhecemos são as pessoas que Joyce conhecia, os bares e as casas e as ruas do romance são os bares e casas e ruas de Dublin. Ele não é o livro mais fácil de ler. Você realmente tem que trabalhar nele, mas se você trabalhar nele, você entra nesta cidade precisamente imaginada e pulsante, que é uma descrição de um tempo e lugar vibrantes, como qualquer uma que você encontrará em toda a literatura.

Mas essa criação literária de Dublin por Joyce foi feita a partir da memória. No final da novela está a nota de rodapé: Trieste – Zurique – Paris. 1914-1921. Foi onde Joyce escreveu o romance – como um exílio, como alguém que virou as costas para Dublin e mudou-se para a Europa.

Por que Joyce deixou a Irlanda? Por que esse homem que realmente só escreveu sobre a Irlanda e Dublin abandonou o lugar com o qual ele estava artisticamente obcecado?

As respostas – uma mistura do pessoal e da política – estão lá em seus livros; não apenas Ulisses, mas também na coleção de contos Dubliners, sua novela autobiográfica Um retrato do artista como um jovem e em Finnegan’s Wake. Mas as maiores pistas estão em Ulisses, o que não é realmente tão surpreendente visto que Joyce deu o nome ao seu romance de acordo com a personagem da literatura clássica – um homem muito sinônimo de exílio e a busca por seu lar.

Intrigante é que o romance abre com eventos em torno da época que Joyce deixou Dublin. Em 1904, pouco depois de conhecer Nora Barnacle, Joyce mudou-se para a Torre Martello (um pequeno forte costeiro) em Sandycove, ao sul de Dublin. A torre foi alugada por Oliver St. John Gogarty, um amigo de universidade de Joyce.

Também morava nesse enclave boêmio Dermot Chenevix Trench que era um pouco desequilibrado e que, uma noite, começou a atirar em algumas panelas penduradas acima da cama de Joyce. No dia seguinte, Joyce saiu da torre e caminhou as 10 ou mais milhas de volta a Dublin. Ele nunca voltou à torre. Logo depois, Joyce e Barnacle deixaram a Irlanda.

Ulisses começa com uma cena montada na Torre Martello, na qual Gogarty é reimaginado como a personagem Buck Mulligan (as palavras de abertura do romance são “Majestoso, o gordo Buck Mulligan …”). Joyce é reimaginado como Stephen Dedalus, Trench é reimaginado como Haines. O incidente de tiroteio é incluído. Na novela, Dedalus irritado por Mulligan e com medo de Haines, deixa a torre, inicialmente somente para continuar com as tarefas do seu dia. Mas, em última análise, seu dia se torna uma busca, uma odisseia por um novo lar e algo para ancora-lo no mundo longe dos boêmios empunhando armas. Ele encontra isso em Bloom, a outra personagem central (talvez a principal sobre quem trata em última instância, sua odisseia) e que termina atuando como figura de pai substituto para Dedalus.

O verdadeiro pai de Joyce era John Stanislaus Joyce. Em seu romance Retrato do artista quando jovem Joyce descreveu seu pai como: “Um estudante de medicina, um remador, um tenor, um ator amador, um político gritador, um pequeno senhorio, um pequeno investidor, um bebedor, um bom sujeito, um contador de histórias, secretário de alguém, alguma coisa em uma destilaria, um coletor de impostos, um falido e, atualmente, um louvador de seu próprio passado “.

John Stanislaus Joyce tinha sido um brilhante estudante de medicina no primeiro ano – e esse era provavelmente o ponto alto para ele. Envolvido em dramatização amadora e em política, ele era ao mesmo tempo um gerente de campanha bem-sucedido que apoiava o nacionalista irlandês Charles Stewart Parnell. Quando Parnell foi destruído politicamente por um caso amoroso, as fortunas políticas de John Stanislaus Joyce entraram em declínio e este grande bebedor tornou-se um alcoólatra em tempo integral.

Ele teve 13 filhos; 10 sobreviveram; Joyce era o mais velho. Ele vivia de dívida em dívida. À medida que a família aumentava, as casas ficavam menores, ou estavam em partes cada vez mais pobres de Dublin. Quando a mãe de Joyce estava morrendo, ele testemunhou seu pai bêbado e furioso com ela, dizendo-lhe para continuar com aquilo.

A morte da mãe de Joyce também surge nas cenas de abertura do romance. Joyce rejeitara a fé católica e, portanto, não conseguia se ajoelhar ou orar por ela enquanto morria. A culpa por isso o assombrava; não a culpa por sua fé perdida – seu ateísmo era bastante robusto – mas a culpa por sua incapacidade de proporcionar consolo à sua mãe moribunda. Nos seus sonhos e na memória, a mãe de Dedalus aparece, muitas vezes como um cadáver. Sua morte é a morte de seu passado – tudo o que foi deixado eram cinzas e culpa.

Assim é onde o romance começa; com essa sensação profundamente pessoal de exílio; de Dedalus sem família e sem lar. E no mundo real, o mesmo era verdadeiro para Joyce. Sua mãe estava morta, seu pai estava não tinha jeito e havia muito pouco para mantê-lo e a Nora em Dublin.

Mas não foram apenas essas coisas pessoais que levaram Joyce ao exílio. Também era o mundo religioso, político e cultural de Dublin e da Irlanda que o afastaram. Vale a pena examinar cada um deles de cada vez.

A Irlanda, em 1904, era um país dominado pela religião católica. Os padres dirigiam a educação, dirigiam o bem-estar, tinham uma grande influência em política. A educação de Joyce começou no prestigioso internato jesuíta Clongowes, embora as dificuldades financeiras de seu pai significaram que ele precisou ser transferido para uma Escola dos Irmãos Cristãos antes de entrar no colégio jesuíta Belvedere, em Dublin.

Em Retrato do artista quando jovem, Joyce traça seu próprio desenvolvimento intelectual (novamente representado na personagem Dedalus) de ser um católico devoto até a rejeição dessa religião especificamente porque, quando ele começou a se ver como artista, ele entendeu que isso exigia que ele fosse aberto ao mundo. O evento específico no romance é quando Dedalus vê uma menina vadeando na Praia Dollymount e ele percebe em uma epifania (Joyce era grande em epifanias – esses momentos dramáticos de clareza e percepção surgem ao longo de seu trabalho) que a única maneira de expressar a beleza no que ele estava vendo era a arte e não a religião.

No mundo real – e isso aconteceu enquanto ele ainda era muito jovem – Joyce visitou prostitutas e descobriu no mundo sensual e físico do bordel uma verdade mais honesta do que o que ele havia encontrado na religião. Para Joyce, a moralidade da Igreja não tinha jeito quando se trata de lidar com a sexualidade e essa era uma das pedras angulares de sua literatura. Ulisses é sobre a carne. É sobre sexo, desejo e ciúmes.

No entanto, Joyce nunca rejeitou inteiramente todos os aspectos do catolicismo. A influência da filosofia de São Tomás de Aquino, com ênfase na razão baseada na observação e na experiência, é fundamental para grande parte da sua escrita – daí o questionamento da verdade religiosa à luz dessa experiência de prazer sensual com prostitutas. Você também pode encontrar a linguagem e rituais e imagens da Igreja ao longo de seu trabalho. Mas a Igreja Católica limitou a imaginação de Joyce (e a imaginação de muitos outros) e sua rejeição à Irlanda era uma rejeição à Igreja.

Em segundo lugar, há a questão da política irlandesa. A influência do líder nacionalista irlandês Parnell, não só sobre o pai de Joyce, mas sobre o próprio Joyce foi enorme e a humilhante derrota e queda de Parnell foi um evento político fundamental de sua juventude. O questionamento do escritor sobre a igreja católica veio em parte como resultado de a Igreja ajudar Gladstone em sua destruição de Parnell.

Então Joyce era um nacionalista irlandês? A resposta é sim, um tipo de. Mas a Irlanda encheu Joyce com desgosto e, em parte, porque a política para Joyce estava muito ligada a algo que ele considerava limitante. Ela era muito enredada com a influência venenosa da Igreja. Como ele disse: “Confesso que não vejo o que bem faz fulminar contra a tirania inglesa enquanto a tirania romana ocupa o palácio da alma”.

Talvez a política também estivesse muito ligada em sua imaginação com seu pai – um homem cuja carreira política levou ao alcoolismo, à pobreza e à derrota. Naquele mundo, política era falar e beber e muito pouco mais.

O que encontramos em Ulisses é algum desejo de libertação nacional subjugado na imaginação de Dedalus e de Bloom por um desejo pessoal de redenção ou pertença. Em outras palavras, para Joyce, o pessoal triunfa sobre o político.

A Irlanda nos primeiros anos do século passado era politicamente carregada. Foi um tempo em que a classe média católica (da qual Joyce fazia parte) começou a encontrar uma voz e se afirmar. Entretanto, embora Joyce possa ter sido parte desse mundo, ele deixou claro o que pensava dele em uma de suas linhas mais famosas de Ulisses: “História (…) é um pesadelo do qual estou tentando acordar”.

Mas talvez o mais importante de tudo seja o papel que a cultura artística da Irlanda desempenhou em despachar Joyce para o estrangeiro. A cultura literária em que Joyce se encontrou como jovem em Dublin era dominada pelo poeta W.B. Yeats. Joyce tinha um respeito invejoso, mas pouco tempo para Yeats. Ele era particularmente contra o Renascimento Literário inspirado de Yeats – um movimento que buscava inspiração no passado celta e gaélico da Irlanda. Este renascimento, às vezes apelidado de Crepúsculo Celta, era muito ligado à política nacionalista. Líderes do levante de Dublin de 1916, tais como Patrick Pearse e Joseph Plunkett, estavam envolvidos.

Joyce era contra tais coisas. Em Retrato do artista quando jovem ele escreveu: “(WB Yeats) lembra-se da beleza esquecida e, quando seus braços a envolvem, ele aperta em seus braços a beleza que há muito desapareceu do mundo. Não essa. Absolutamente não. Eu desejo apertar em meus braços a beleza que ainda não chegou ao mundo”.

A suada conquista de Joyce do artista como criador e do artista imerso na fisicalidade do mundo real não tinha tempo algum para o pensamento um tanto reacionário, atrasado e místico do Renascimento Literário. Ele queria produzir o que “ainda não chegara ao mundo”. E isso ele fez com Ulisses e ele fez isso no exílio, enquanto viajava pela Europa com sua amada Nora, longe da Igreja e do passado, e dos nacionalistas e de sua família.

Ulisses é um romance extraordinário porque rompeu com o passado. Dubliners, a coleção de contos de Joyce descrevia tanto a Dublin de onde veio Joyce, Retrato do artista quando jovem descreve o crescimento intelectual e artístico de Joyce e sua rebelião contra aquele mundo de Dublin. E Ulisses é aquela rebelião. O romance foi uma ruptura radical com o passado, uma revolta contra a forma como a literatura havia funcionado. Era uma nova maneira de nos descrever e nos entender.

O exílio de Joyce foi o catalisador de que ele precisava para produzir os livros pelos quais ele é famoso. Ele disse uma vez: “Quando a alma de um homem nasce neste país, existem rede lançadas sobre ele para impedi-lo de voar. Você me fala de nacionalidade, idioma, religião. Eu tentarei voar por entre essas redes”.

E foi no ato de fugir daquelas redes – de dirigir-se a Trieste e Zurique e Paris – que Joyce pode escrever sobre Dublin. Há muitas razões pelas quais você deveria ler Ulisses e muitas razões pelas quais ele é um romance extraordinário. Mas talvez uma das principais razões pelas quais é tão importante é que esta novela, que se revela nas minúcias da vida cotidiana em Dublin, foi o produto de uma imaginação verdadeiramente cosmopolita – e verdadeiramente europeia. Foi uma imaginação que ele encontrou movendo-se pelo mundo.

 

Publicado on junho 26, 2017 at 2:47 pm  Comentários desativados em Por que James Joyce teve que sair de Dublin para se encontrar  
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