Panorama da História da Maçonaria

Ir. Ricardo Mário Gonçalves
ARBLS “Quintino Bocaiúva” Nº 10 –
Or.´.de São Paulo – 2004

Feliz entre os homens da terra quem possui a visão desses mistérios!

Hino Homérico a Deméter

O que as viagens atualmente nos mostram em primeiro lugar são os nossos excrementos lançados à face da humanidade.

Claude Lévi-Strauss – Tristes Trópicos

1. Considerações Gerais:

Ao tratar da História Maçônica, quero inicialmente fazer uma distinção entre o “espírito maçônico” e a Instituição Maçônica. O chamado “espírito maçônico” está presente na História da Humanidade em todos os lugares e em todas as épocas, desde que o homem começou a construir, usando madeira e pedra, e se pôs a refletir sobre as implicações morais e espirituais da Arte da Construção. Assim, o conceito de Construtor(es) Cósmico(s) está presente na Antiga China (divindades primordiais ostentando o Esquadro e o Compasso), no Egito Faraônico (Ptah, o Deus construtor venerado em Mênfis), no Popul-Vuh, o livro sagrado dos Maias, na Filosofia Grega (o Demiurgo descrito por Platão no Timeu), etc. A Instituição Maçônica, porém, se restringe à Modernidade Ocidental: a Maçonaria que praticamos, dita Especulativa ou dos Aceitos, se constituiu lentamente na Inglaterra e na Escócia durante o século XVII, para atingir sua forma definitiva e completa em 1717, com a fundação da Grande Loja da Inglaterra, em Londres. Apresenta-se ela com duas faces, uma voltada para o passado e outra norteada para o presente e o futuro. Como instituição preocupada com o momento presente e com o futuro, esteve, desde sua fundação, numa posição de vanguarda, atuando como um dos principais canais de transmissão da Filosofia Iluminista e dos ideais democráticos e liberais. Como instituição enraizada no passado, recolhe e transmite toda uma herança de práticas e idéias de natureza esotérica e iniciática que remontam à mais remota Antiguidade.

2. Antecedentes: Religiões Antigas e Corporações Medievais:

A mais importante herança que a Maçonaria herdou do passado é a pedagogia iniciática, presente já nas religiões da Pré-História e mantida nas religiões do Antigo Oriente Próximo (Egito, Mesopotâmia, Síria e Palestina) e nos Cultos de Mistério Greco-Romanos, podendo ainda ser observada entre os remanescentes dos povos sem escrita, impropriamente chamados de “primitivos” ou “selvagens”. Ela compreende ritos de iniciação, em que o neófito morre simbolicamente como profano para renascer como iniciado. Esses ritos, que integram a categoria mais ampla dos chamados “ritos de passagem”, que compreende também casamentos, formaturas, funerais, etc., são compostos por três fases:

1 – separação: o neófito é retirado, de forma dramática, para fora de seu ambiente habitual de vida, o que equivale a uma morte simbólica;

2 – estágio intermediário: o neófito passa por uma série de provas físicas e/ou psicológicas, e, eventualmente, recebe uma série de instruções ou ensinamentos;

3 – integração: o neófito “renasce” simbolicamente como iniciado e passa a integrar o grupo social no qual foi assim introduzido. Recebe, eventualmente, os ensinamentos ou instruções sobre sua nova condição.

Entre os povos sem escrita, a passagem da infância para idade adulta é marcada por ritos iniciáticos a cargo de sociedades secretas, femininas no caso das meninas, masculinas, no caso dos meninos. Sociedades secretas masculinas e femininas também existiram em alguns cultos da Antiguidade. É por ter herdado essa regra da separação dos sexos que a Maçonaria Moderna se apresenta como uma sociedade exclusivamente masculina, e não por ter algum tipo de preconceito contra as mulheres. Nas religiões antigas, o iniciado era, de alguma forma, associado a uma figura divina ou semidivina masculina a respeito da qual se narrava um mito de morte e renascimento. Tal figura era geralmente identificada com o ciclo anual da vida vegetal, que morre no inverno e renasce na primavera, ou, às vezes, com o sol, cuja luz enfraquece ou desaparece na estação fria para recuperar seu vigor com o advento da estação das flores. Geralmente essa figura aparecia como marido, amante ou filho de uma Deusa Mãe a simbolizar a Terra, o Amor e a Morte.  Assim eram, por exemplo, os cultos da Deusa Inana e seu amante Dumuzi, entre os sumerianos, de Ishtar e Tammuz na Babilônia, de Isis e Osíris no Egito, de Cibele e Átis, na Ásia Menor. Uma exceção a essa regra é encontrada nos Mistérios de Eleusis, na Grécia, centrada em duas deusas, mãe e filha, Demeter e Perséfone (Ceres e Prosérpina, entre os romanos).

Durante tais ritos iniciáticos era comum o neófito vivenciar “viagens” simbólicas de passagem através dos quatro elementos – terra, água, fogo e ar – o que é mantido na iniciação maçônica. O escritor latino Lúcio Apuleio, iniciado nos mistérios de Isis, menciona essas “viagens” em seu romance O Asno de Ouro e este que agora vos fala teve também a ocasião de vivenciá-las no Japão, em 1973, quando de sua iniciação ao Shugendô, uma antiga ordem iniciática nipônica. Lembro aqui que, na Antiguidade Clássica, as viagens eram consideradas um excelente meio de adquirir educação, como vemos em historiadores como Heródoto e Diodoro da Sicília.

Dentre os antigos cultos de mistério de origem oriental que floresceram durante o Império Romano, o que mais semelhanças apresenta com a Maçonaria é o Mitraísmo, de origem persa, muito popular entre os militares. Como os maçons de hoje, os mitraístas se organizavam em pequenos grupos comparáveis às Lojas Maçônicas. A estrutura iniciática do Mitraísmo compreendia sete graus em que os adeptos eram introduzidos através de iniciações sucessivas: Corvo, Noivo, Soldado, Leão, Persa, Corredor do Sol (Heliodromos em grego) e Pai. A passagem por esses sete graus equivalia à ascensão da alma do iniciado por sete esferas celestes regidas, respectivamente, pelo Sol, pela Lua, por Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. Algumas representações mostram neófitos sendo conduzidos de olhos vendados, como na iniciação maçônica. Assim como a Maçonaria, o Mitraísmo era uma organização exclusivamente masculina. Aproveito para lembrar que vendar os olhos do neófito e retirar-lhe a venda no momento de seu renascimento para a Luz, é também uma prática regular do Budismo Esotérico, tanto na sua vertente tibetana (Lamaísmo) como em seu ramo japonês (Shingon).

Na Antiguidade Tardia, isto é, nos últimos séculos do Império Romano (sécs. III – V), aos cultos de mistério juntaram-se doutrinas de natureza esotérica como o Hermetismo, a Gnose, a Alquimia, a Astrologia e, em certo sentido, o Neoplatonismo. Com a cristianização do Império, as formas iniciáticas e essas doutrinas foram cristianizadas, isto é, recobertas com um novo simbolismo e uma nova linguagem de origem bíblica. Tais práticas e doutrinas não desapareceram de todo, foram transmitidas através dos séculos como uma “anti-história de uma antifilosofia” e reativadas na Renascença, principalmente através da ação da Academia Platônica de Florença. Nos séculos XVII e XVIII, parte delas foi incorporada à Maçonaria Moderna.

Das guildas ou corporações de pedreiros e construtores da Idade Média, a Maçonaria herdou sua denominação – lembremos que a palavra maçom significa pedreiro – sua estrutura iniciática básica compreendendo Aprendizes, Companheiros e Mestres, seu linguajar próprio, inspirado no dos canteiros de obras, o uso do avental de trabalho como paramento e todo um repertório de símbolos em que as ferramentas de trabalho do construtor nos convidam a meditar sobre virtudes morais e espirituais.

Já no antigo Egito os construtores de templos, pirâmides e túmulos organizavam-se em confrarias. Ao contrário do que muitos pensam hoje em dia, eles não eram escravos, mas sim trabalhadores livres que gozavam de várias regalias e privilégios. Viviam em verdadeiras “vilas operárias” protegidas por muros e fortificações, possivelmente com o objetivo de vedar aos estranhos o acesso aos segredos da profissão. Os túmulos dos arquitetos das pirâmides, recentemente descobertos, atestam, por sua suntuosidade, que seus donos eram personagens de elevada posição na hierarquia social, gozando de grande prestígio na corte faraônica.

No mundo grego existiram associações profissionais denominadas hetairias. Roma Antiga também teve suas corporações de ofício ou collegia fabrorum que, segundo Plutarco, foram instituídas por Numa Pompílio, o segundo dos reis a governarem a Cidade Eterna na fase mais remota de sua história. Eram associações em que os artesãos se congregavam para tratar de seus interesses comuns, para proporcionar funerais dignos aos associados e também para prestar culto a uma divindade protetora, em honra da qual celebravam-se festas e banquetes.

Não existe nenhuma documentação que prove a existência de uma ligação direta entre os collegia romanos e as corporações de pedreiros e arquitetos da Idade Média, responsáveis pela construção das catedrais, esses maravilhosos monumentos que expressam a fervorosa fé do homem medieval. Tais corporações formavam o que em História Maçônica se convenciona chamar de Maçonaria Operativa, isto é, a Maçonaria formada por profissionais da construção, pedreiros e arquitetos. Como seus colegas do Egito Faraônico, os arquitetos medievais gozavam de muito prestígio. Um dos mais famosos foi Villard de Honnecourt, que trabalhou por volta de 1250 e escreveu um caderno de anotações e esboços que chegou até nossos dias, precioso documento que nos permite avaliar o elevado nível cultural e a sólida formação técnica do arquiteto medieval. O mais antigo documento sobre a organização da Maçonaria Operativa que chegou até nós é o Manuscrito Regius, poema inglês em que estão registrados os Antigos Deveres (Old Charges) ou estatutos que regulamentavam a vida e as atividades dos pedreiros de Londres; data de 1390, aproximadamente.

Lembremos que a Maçonaria é uma instituição de origem exclusivamente britânica e escocesa, pois é na Inglaterra e na Escócia que ocorre, durante o século XVII, o processo de transição da Maçonaria Operativa para a Moderna, denominada Especulativa ou dos Aceitos. Existem duas teorias que procuram explicar a origem desta última: a mais antiga nos diz que as Lojas Operativas, em decadência no início da Modernidade, teriam aceitado como membros personagens ilustres alheios à profissão que lhes proporcionavam apoio e proteção; dessa forma, foram pouco a pouco se transformando em uma instituição de nova índole, uma “sociedade de pensamento” não mais vinculada ao ofício de construtor. A segunda teoria, mais recente, considera a Maçonaria Moderna uma instituição totalmente nova, calcada porém, no modelo da corporação medieval para melhor proteger seus membros, já que na época as associações de homens pensantes eram vistas com desconfiança pelas autoridades profanas e pelas igrejas.

3. O Iluminismo e a Maçonaria Moderna:

Em 24 de junho de 1717 nasce em Londres a Maçonaria Moderna, após um período de gestação de pouco mais de um século: quatro Lojas londrinas não-operativas se unem para formar a Grande Loja de Londres e Westminster, a primeira Grande Loja do mundo, tendo por Grão-Mestre o gentleman Anthony Sayer. O segundo Grão-Mestre, George Payne (1718-1719) ordena a coleta de documentos antigos da Maçonaria Operativa visando a elaboração das constituições da nova instituição. Estas serão editadas em 1723, em nome do pastor protestante James Anderson, mas parecem ter sido compostas, na verdade, por Jean Theophile Désaguliers, pastor huguenote de origem francesa, físico, amigo e colaborador de Isaac Newton e terceiro Grão-Mestre da Ordem. As Constituições de Anderson definem a Maçonaria como uma associação de homens livres e de bons costumes de qualquer religião, obedientes às autoridades constituídas. São barrados os ateus e libertinos.

Em 1732, em Bordeaux, é fundada a primeira Loja Maçônica francesa. Em 1736, um cavalheiro escocês, André-Michel de Ramsay, pronuncia na Loja Louis d’Argent, na França, seu célebre Discurso que expõe os princípios básicos daquilo que será futuramente o Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) organizado em Charleston, Estados Unidos, em 1801, como uma sistematização de uma série de novos graus maçônicos, conhecidos como Altos Graus ou Graus Escoceses formados na França durante o século XVIII. Além de definir a Maçonaria como uma fraternidade de cunho universalista, o Discurso de Ramsay introduz uma nova tese sobre as origens da Ordem: ela teria sido uma criação das Ordens Monásticas de Cavalaria da época das Cruzadas, como os Hospitalares (Cavaleiros de Malta) e os Templários. Desde então, vemos muitas vezes os maçons se apresentarem como herdeiros da Ordem do templo, extinta no início do século XIV, acusada de heresia. Historicamente, nenhum documento aponta para uma ligação direta entre a Ordem do Templo e a Maçonaria Operativa. O máximo que se pode dizer é que, como faz o historiador maçônico francês Paul Naudon, ao promover a construção de igrejas e de sedes regionais fortificadas – Comendadorias – algumas vezes os Templários atuaram como patronos das  agremiações obreiras encarregadas do trabalho.

A partir de Londres, a Maçonaria se expande rapidamente pela Europa e pelas colônias britânicas espalhadas pelo mundo. Já mencionamos sua instalação na França em 1732. Em 1729 ou 1730 é fundada a primeira Loja norte-americana em Filadélfia, a Saint-John. No mesmo ano de 1730é fundada a primeira Loja da Índia, em Calcutá. A introdução da Ordem na Espanha e em Portugal remonta a 1728 e ao período entre 1735 e 1740, respectivamente.

O século XVII, em que lentamente é gerada a Maçonaria Moderna, é um dos mais fascinantes da História do Ocidente. Século de crises econômicas, rebeliões populares, guerras sangrentas – lembremos a Guerra dos Trinta Anos entre 1615 e 1645 -, rebeliões populares e revoluções – destacamos a Revolução Inglesa de 1640, em que, pela primeira um monarca é destronado, julgado e levado ao cadafalso -. foi apelidado de Século de Ferro pelo historiador inglês Henry Kamen. Século de transição, nele ocorre uma importante mudança de paradigmas e nasce uma nova ciência: é superado o velho paradigma estático e dogmático medieval, fundamentado em Aristóteles e Sto. Tomás de Aquino, subordinando a busca da verdade filosófica e científica à autoridade dos teólogos, e, depois de um breve interregno marcado pela predominância do paradigma hermético do Renascimento – que deixará, aliás, impressa sua marca na Maçonaria – nasce, com Descartes e Newton, um novo paradigma, dinâmico e antidogmático, em que a Razão e a Experiência serão reconhecidas como os únicos caminhos válidos para se chegar a um conhecimento autêntico e útil. Entretanto, o nascimento do novo não implica no imediato desaparecimento do velho: o século XVII é iluminado simultaneamente pelas novas luzes da Razão e pelo brilho sinistro das fogueiras em que são queimadas as acusadas de bruxaria… Nunca é demais lembrar que a epidemia de caça às bruxas que assolou a Europa não foi um fenômeno medieval, mas sim um triste episódio da Modernidade nascente… Essa ambigüidade está presente até mesmo nos pais fundadores da Ciência Moderna: Descartes procura entrar em contacto com os misteriosos Rosacruzes, Newton se dedica à Alquimia, ao estudo de profecias bíblicas e, possivelmente, a práticas de magia. Filha de um tal século, é natural que a Maçonaria apresente uma dupla face: uma voltada para o passado, cujas veneráveis heranças recolhe, conserva e transmite, outra voltada para o presente e o futuro, que a leva a assumir um papel de vanguarda. Assim, atuará ela como um importante canal difusor do Iluminismo ou Filosofia das Luzes, corrente de pensamento que inspirou e mesmo ajudou a preparar as revoluções de cunho liberal e democrático dos séculos XVIII e XIX. Na esteira da Revolução Científica acima mencionada, uma plêiade de filósofos dentre os quais destacaremos o inglês John Locke e os franceses Montesquieu, Voltaire, Rousseau, Diderot e Condorcet, desenvolveu uma nova concepção do mundo, do homem e da sociedade baseada na primazia da Razão e da Experiência como fontes do conhecimento e na crença no progresso e na perfectibilidade do ser humano. Os iluministas criticaram os abusos de poder das monarquias absolutas e das autoridades religiosas e estabeleceram os fundamentos ideológicos das modernas sociedades liberais, democráticas e republicanas. Lutaram eles ainda pelo respeito das liberdades civis, pela tolerância religiosa e pela separação entre Igreja e Estado. Inspiraram um movimento de reformas por parte de alguns monarcas e ministros do século XVIII que se mostraram receptivos às novas idéias, fenômeno conhecido por Despotismo Esclarecido. Foram Déspotas Esclarecidos: Catarina II, a Grande (Rússia), Frederico II, o Grande (Prússia), José II (Áustria), e os ministros Aranda, Floridablanca e Campomanes (Espanha) e ainda Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal (Portugal). O Iluminismo forneceu ainda o alicerce ideológico para uma série de movimentos de cunho burguês, democrático, liberal e democrático que, a partir do século XVIII, podem ser detectados em vários pontos do mundo, principalmente na Europa e nas Américas. O historiador francês Jacques Godechot forjou a expressão Revolução Atlântica para designar esse conjunto de revoluções, já que a maior parte das mesmas ocorre nas duas margens do Oceano Atlântico, isto é, na Europa Ocidental e nas Américas. Seus principais episódios seriam: a Independência dos Estados Unidos (1776), a Revolução Francesa (1789) e seus prolongamentos europeus, e os movimentos de independência na América Latina, Brasil inclusive (1822).

A História da Maçonaria está indissoluvelmente ligada à do Iluminismo e da Revolução Atlântica. A Ordem Maçônica teve notável papel no processo de difusão das novas idéias, o que lhe valeu a perseguição por parte das autoridades policiais e religiosas das monarquias absolutas. É errado, porém, considerá-la responsável pela deflagração das Revoluções Americana e Francesa, como fazem certos escritores maçônicos demasiadamente entusiastas, e também os detratores da Ordem que ainda hoje insistem em apontá-la como cabeça de uma conspiração subversiva mundial. As Revoluções contaram com a participação de maçons que, como indivíduos, encontraram nas Lojas uma escola de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, mas a Ordem como tal não se envolveu em nenhum movimento. Assim, no Despotismo Esclarecido encontramos monarcas maçons como Frederico II, e tradições presentes na Maçonaria Espanhola e Portuguesa consideram maçons, sem apresentarem o devido respaldo documental, o Conde de Aranda e o Marquês de Pombal. Líderes e participantes ativos das Revoluções Americana e Francesa também foram maçons, como George Washington, Benjamin Franklin, Paul Jones, La Fayette, Mirabeau, Condorcet e Marat. Alguns dos filósofos iluministas também pertenceram à Maçonaria, como Montesquieu e Voltaire.

Não dispondo de tempo para abordar a História recente da Maçonaria Mundial, passo agora a discorrer sobre a trajetória da Ordem em nosso país.

4. Trajetória da Ordem no Brasil:

A História da Maçonaria Brasileira principia com a presença, nas Lojas lusitanas de fins do século XVIII, de obreiros nascidos no Brasil. Quanto aos envolvidos na Inconfidência Mineira, é certa a afiliação maçônica de José Joaquim da Maia, José Álvares Maciel e Tomás Antônio Gonzaga, mas a do Tiradentes parece ser puramente lendária, já que não existem documentos atestando sua qualidade de maçom. Muitos estudiosos afirmam que a Maçonaria Brasileira nasceu em 1796, com a fundação, pelo botânico pernambucano Manuel de Arruda Câmara que estudara em Montpellier, do Areópago de Itambé, agremiação de cunho político e literário de natureza paramaçônica, na localidade de Itambé, na fronteira de Pernambuco com a Paraíba. Entretanto, não existe documentação a respaldar tal tradição.

Igualmente desprovida de comprovação documental é a tradição, aceita por certos historiadores maçônicos, de que a primeira Loja brasileira teria sido a Cavaleiros da Luz, tida por fundada na Bahia em 1797. Por outro lado, não existem dúvidas a respeito da fundação da Loja União em Niterói, no ano de 1800. Várias Lojas surgiram depois na Bahia e no Rio de Janeiro, antes de uma primeira repressão desencadeada pelo Conde dos Arcos em 1806. Com a vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil em 1808, instaurou-se um clima de maior tolerância que permitiu a multiplicação das Lojas no Rio e em Pernambuco.

Intensa foi a participação maçônica na Revolução Pernambucana de 1817, cujos principais líderes como Domingos José Martins e Frei Joaquim do Amor Divino Caneca pertenceram à Ordem. Maçom foi também Hipólito José da Costa, cujo Correio Brasiliense publicado em Londres desde 1808 marca o início da imprensa brasileira. Em 1818, violenta repressão sufocou a Maçonaria Brasileira, que só voltou a ressurgir com o regresso do rei D. João VI a Portugal em 1820. Duas facções maçônicas, uma monarquista, liderada por José Bonifácio de Andrada e Silva, e outra republicana, capitaneada por Joaquim Gonçalves Ledo, agiram junto ao Príncipe D. Pedro, atraindo-o para a Ordem, e fazendo-o proclamar a Independência do Brasil em 7 de setembro de 1822, pouco antes de elegê-lo Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, fundado a 17 de junho de 1822. Entretanto, as veleidades absolutistas de D. Pedro, agora Imperador de uma nação independente, levaram-no a fechar o Grande Oriente e a suspender as atividades maçônicas no país em 21 de outubro do mesmo ano. Em 1828 teve lugar uma primeira tentativa de retomada dos trabalhos maçônicos, mas só em 1831, depois da Abdicação do Imperador, o Grande Oriente foi reaberto. Desde então, até as primeiras décadas do presente século, a História da Maçonaria no Brasil praticamente se confunde com a trajetória da oligarquia rural que dominava o cenário político da nação, já que era nela que a Ordem recrutava a maioria de seus quadros.

Maçons foram ilustres líderes políticos do Brasil Monárquico como Francisco Ge Acayaba Montezuma, Antônio Francisco de Paula de Hollanda Cavalcanti de Albuquerque, Antônio Hermeto Carneiro Leão e Saldanha Marinho. Maçom foi o mais ilustre militar brasileiro, Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias. Muitos maçons militaram no Movimento Abolicionista, como Luís Gama, José do Patrocínio, Antônio Bento de Souza e Castro, Ruy Barbosa, Joaquim Nabuco e o poeta Castro Alves. O Movimento Republicano também contou com uma considerável participação de maçons como Quintino Bocaiúva, Silva Jardim, Francisco Glicério, Américo de Campos, Pedro de Toledo e Aristides Lobo.

De inspiração maçônica foi a primeira Constituição republicana brasileira, promulgada em 1891, que, entre outras medidas, estabeleceu a separação entre Estado e Igreja, laicizou os cemitérios e instituiu o casamento civil. Maçons foram vários dos primeiros Presidentes da República, como o Marechal Deodoro da Fonseca, Campos Salles, Prudente de Moraes e Delfim Moreira. Na segunda década do século XX, registraram-se as primeiras fissuras a abalar o modelo econômico brasileiro, fundamentado no latifúndio especializado na agricultura de exportação. A crise econômica, a crescente urbanização, as primeiras tentativas de industrialização e o tímido despontar de uma classe operária são alguns dos fatores que explicam o profundo anseio por mudanças radicais que está na raiz da Revolução de 1930, o primeiro movimento realmente modernizador de nossa História. Na mesma época, desejos de renovação e mudanças mobilizaram também o povo maçônico, levando à eclosão do movimento encabeçado pelo Irmão Mário Behring que resultou na fundação das Grandes Lojas Estaduais em 1927. três anos antes do fim da chamada República Velha. A Maçonaria Brasileira iniciava então uma nova fase de sua História, em que pouco a pouco deixava de representar um movimento das velhas elites oligárquicas para começar a se redefinir como uma instituição ligada às classes médias em ascensão.

5. Conclusão – A Maçonaria no Limiar da Pós-Modernidade:

Qual poderá ser o papel da Maçonaria neste inquietante início do século XXI, marcado pelo recrudescimento dos conflitos nacionalistas e religiosos, pela mortífera intolerância dos fundamentalismos, pelo fim da Guerra Fria, pelo advento de um Império à escala planetária, e pela violência inaudita do terrorismo? O historiador, cujo papel não é o de futurólogo, tem mais interrogações do que respostas, mas pode, pelo menos, dar seu contributo para melhor equacionar o problema, principiando por tentar compreender a natureza do momento em que vivemos.

Estaremos ainda vivendo na Modernidade? Lembremos que o projeto da Modernidade consistia em edificar uma sociedade igualitária, democrática e fraterna fundamentada na Razão e respaldada pelo progresso da Ciência e da Tecnologia. É óbvio que esse progresso não nos trouxe o Paraíso.Trouxe a ameaça das armas nucleares, a destruição do meio ambiente e o alargamento do fosso a separar a minoria rica da maioria dos pobres e miseráveis. Enquanto alguns fazem dietas e exercícios físicos para escaparem dos perigos da obesidade, milhões morrem de fome na África e em outros lugares. Como já dizia o antropólogo Claude Lévi-Strauss em Tristes Trópicos (1955) as viagens hoje servem para mostrar como lançamos nossos excrementos à face da humanidade.

Alguns acreditam que tudo isso se deve ao fato do projeto da Modernidade não ter ainda chegado a seu termo, haveria, pois, que concluí-lo de maneira satisfatória. Outros, como este que vos fala, concluem pelo fracasso do projeto modernizador e conseqüente advento de uma nova era que poderia ser chamada de Pós-Modernidade. Sejam bem-vindos ao mundo pós-moderno! Mas, tenham cuidado! Eventos como o 11 de setembro de 2001 (Nova Iorque) e 11 de março de 2004 (Madrid) são suficientes para entendermos que a Pós-Modernidade não é nenhum Paraíso. Pelo contrário, parece que estamos no limiar de um pesadelo.

Uma das características da Pós-Modernidade parece ser a recuperação de elementos rejeitados pela Modernidade, como a Religião, cujo fim próximo era previsto pelos filósofos da Razão. Assistimos hoje seu retorno triunfante, tanto para o bem como para o mal, tanto para a paz como para a guerra. Síntese equilibrada entre a fidelidade à Tradição de que é depositária e guardiã, e um espírito criativo e inovador voltado para o futuro, a Maçonaria, portadora de uma mensagem de universalismo, fraternidade e tolerância, poderá, acredito, ajudar a humanidade a transpor a salvo os mares tempestuosos da Pós-Modernidade.

BIBLIOGRAFIA

AMADOU, Robert – La  Tradition Maçonnique, Paris, Cariscript, 1986.

DACHEZ, Roger – Histoire de la Franc-Maçonnerie Française, Paris, PUF, 2003.

ELIADE, Mircea et COULIANO, Ioan P. – Dictionnaire des Religions, Paris, Plon, 1990.

KAMEN, Henry – El Siglo de Hierro, Madrid, Alianza Editorial, 1977.

LÉVI-STRAUSS, Claude – Tristes Tropiques, Paris, Plon, 1955.

LIGOU, Daniel – Dictionnaire de la Franc- Maçonnerie, Paris, PUF, 1987.

NAUDON, Paul –  Histoire Génerale de la Franc-Maçonnerie,HenryH

Paris, PUF, 1987.

SAUNIER, Eric (Dir.) – Encyclopédie de la Franc-Maçonnerie, Paris, Librairie Générale Française, 2000.

VAN GENNEP, Arnold – Os Ritos de Passagem, Petrópolis, Vozes, 1977 (1903).

 

 

Publicado on março 25, 2011 at 11:24 am  Deixe um comentário  

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