O Real Segredo na América antes de 1801

por Brent Morris, 33°, Grã-Cruz

                                                                                                                                  Tradução: S.K.Jerez

Trinta e um de maio de 1801 é a data mais significativa na história dos altos graus da Maçonaria nos Estados Unidos. Naquele dia, o Supremo Conselho Mãe do Mundo foi aberto por John Mitchell e Frederick Dalcho em Charleston, Carolina do Sul, e no decorrer do ano “todo o número de Grandes Inspetores Gerais foi completado agradavelmente com as Grandes Constituições”. Por este ato, a Ordem do Real Segredo, de vinte e cinco graus (muitas vezes chamado de Rito de Perfeição) foi transformada no Rito Escocês Antigo e Aceito, de trinta e três graus.

Antes da criação do Supremo Conselho Mãe, os altos graus foram espalhados por meio de um sistema inconsistente de inspetores, cada um dos quais poderia nomear também um número ilimitado de inspetores, com autoridade ilimitada. Os registros são escassos, mas dois inspetores parecem ter vindo trabalhar no hemisfério ocidental antes de 1761: “Lamolere de Feuillas, feito adjunto antes de 1750, na França, e Bertrand Berthomieu, feito adjunto por Feuillas, em 1753, nas Índias Ocidentais.” Não se sabe se Feuillas ou Berthomieu nomearam novos inspetores.

Em 1761, Etienne Morin recebeu uma patente em Paris que o autorizava a propagar o Rito em todo o mundo. Ele chegou na Jamaica em 1762 ou 1763 e logo nomeou seis inspetores gerais, incluindo Henry Andrew Francken, como Inspetor Geral Adjunto. Francken por sua vez, estabeleceu uma Loja de Perfeição em Albany, Nova York, em 1767, e estabeleceu seis outros adjuntos da Inspeção Geral. Ele também preparou pelo menos três livros com os rituais traduzidos para o inglês. No fim, cinquenta e dois inspetores eram herdeiros de Francken e, no total, pelo menos setenta e cinco inspetores foram nomeados na América antes de 1801.

Os inspetores e os Adjuntos fizeram mais do que apenas reproduzir-se; conferiram os graus inefáveis (4°-14°) e Sublimes (15° e acima) para Mestres Maçons e, ocasionalmente, estabeleceram corpos. Novamente, os registros são escassos, mas pelo menos os oito corpos abaixo relacionados foram estabelecidos antes de 1801:

  1. 1764 – Loge de Parfaits d’Écosse, New Orleans, Louisiana;
  2. 1767 – The Ineffable Lodge of Perfection, Albany, New York;
  3. 1781 – Lodge of Perfection, Filadélfia, Pensilvânia;
  4. 1783 – Lodge of Perfection, Charleston, Carolina do Sul;
  5. 1788 – Grand Council, Princes of Jerusalem, Charleston, Carolina do Sul;
  6. 1791 – King Solomon’s Lodge of Perfection, Holmes’ Hole (agora Tisbury), ilha de Martha Vineyard, Massachusetts;
  7. 1792 – Lodge of Perfection, Baltimore, Maryland;
  8. 1797 – Sublime Grand Council, Princes of the Royal Secret, Charleston, Carolina do Sul.

 

Estes fatos básicos da atividade de altos graus antes da criação do Supremo Conselho são bem conhecidos e têm sido repetidos em muitos lugares. O que eles não conseguem fazer é nos informar como os altos graus atraíram maçons americanos, como os inspetores espalharam os graus e como os corpos operavam. As respostas a estas perguntas nos ajudam a compreender a aceitação do Supremo Conselho Mãe.

 

Os atrativos dos Altos Graus para os maçons americanos

Por volta de 1730, os Graus do Ofício (Craft) ou Azuis[i] já estavam sendo conferidos na América. Vinte e três anos depois, em dezembro de 1753, a Loja Fredericksburg, na Virginia, registrou quando, pela primeira vez, foi conferido o Grau do Real Arco. Os Mestres Maçons americanos logo perceberam que não tinham recebido todo o relato da Palavra do Mestre e que o Real Arco era necessário para completar a história. A Maçonaria do Real Arco tornou-se popular à medida que mais maçons procuravam completar seu conhecimento maçônico. A constante propagação do Real Arco foi auxiliada pelo domínio crescente, na América, das lojas Antigas que conferiam o grau sob a autoridade de seus mandados de Ofício. Pelo menos cinco capítulos independentes de lojas foram criados em torno de 1794, o Grande Capítulo da Pensilvânia foi instituído em 1795 e o Grande Capítulo Geral dos Estados da Nova Inglaterra foi formado em 1796. O grau de Cavaleiro Templário foi conferido pela primeira vez em 1769 e há evidências esporádicas da respectiva ordem até 1796, quando o primeiro Acampamento (agora Comanderia[ii]) foi formado em Connecticut. Os dez graus e ordens do que veio a ser conhecido como o “Rito de York” americano foram resumidos e receberam ampla publicidade no Freemason’s Monitor; or, Illustrations of Masonry (1797) de Thomas Smith Webb.

Os maçons americanos buscavam entusiasticamente mais luz na Maçonaria, mas como a Ordem do Real Segredo era de origem francesa e não tinha nenhuma tradição em lojas inglesas, estes altos graus eram pouco conhecidos. Suas cerimônias devem ter parecido sedutores rumores, provenientes de lojas não-inglesas remotas ou de viagens de conferencistas maçônicos. O conhecimento fragmentário da Maçonaria Sublime era auxiliado por tentadoras menções ocasionais em livros maçônicos.

O primeiro livro americano sobre Maçonaria foi a reimpressão das Constituições dos Maçons Livres, de Anderson, em 1734, por Benjamin Franklin. E 626 volumes tratando sobre Maçonaria foram publicados na América até 1800; dez deles tratavam de precursores do Rito Escocês. Para o estudante de Maçonaria interessado, esses dez livros forneciam indícios da existência de conhecimentos que iam além dos que eram encontrados em lojas de origem inglesa. Eram eles:

1787 – The Memorial of Lodge, No. 40, on the Registry of Pennsylvania, to the Right Worshipful Grand Lodge

Este panfleto de dez páginas é uma queixa de que a Grande Loja dos Antigos Maçons de York da Carolina do Sul (a Grande Loja dos Antigos) teria sido formada de modo irregular. No entanto, a página 5 dá pistas intrigantes de uma forma de maçonaria diferente da praticada na Inglaterra. “O Irmão Joseph Myers, Jr. era então, e ainda é (sob a jurisdição do último monarca prussiano) um Inspetor Geral e Grão-Mestre de e sobre os Graus Inefáveis da Maçonaria. O segundo, irmão James Fallon, é, e era, um Past-Master regular … empossado e instalado em uma … Loja de Inefáveis Maçons na Filadélfia, em uma comissão regular. …”

1797 – [Charles Louis Cadet de Gassicourt], The Tomb of James Molai.

Esta é uma tradução de 22 páginas do original francês de 1796. A página 8 explica que Jacques de Molay estabeleceu quatro capítulos com vinte e sete membros cada um, que têm privilégios especiais em lojas maçônicas: “Quando eles entram em uma Loja têm o direito exclusivo de cruzar no meio do tapete que fica em frente do trono. Todos os maçons de Lojas ignoram quem eles são”.

1797 – Thomas Smith Webb, The Freemason’s Monitor; or, Illustrations of Masonry.

Este foi o primeiro “monitor” americano de graus maçônicos, trazendo orações, responsabilidades e trechos não-secretos do ritual. Foi amplamente distribuído, traduzido para o espanhol, e passou por várias edições antes da morte de Webb. A parte II deste livro, nas páginas 227-66, contém as descrições dos onze graus de uma Loja de Perfeição, incluindo informações sobre quem substituiu Hiram Abiff no templo do rei Salomão, como os malfeitores foram tratados, e como a palavra perdida foi recuperada. O monitor de Webb foi extremamente influente na criação e divulgação do ritual “americano padrão”. Sua ampla popularidade deve ter atraído a curiosa atenção de muitos maçons americanos para os graus sublimes.

1798 – John Robison, Proofs of a Conspiracy against All the Religions and Governments of Europe.

Esta é a primeira edição americana deste livro influente, que criou histeria com a ideia de que os Illuminati estavam secretamente infiltrados nos governos do mundo e, possivelmente, no da América. Na página 384, Robison faz comentários sobre rituais de Cavaleiro do Sol e Cavaleiro Rosa Cruz, do Abbé Barruel. Aqui está outro exemplo de referências tentadoras sobre graus maçônicos desconhecidos para a maioria dos maçons americanos.

1798 – John Robison, Proofs of a Conspiracy. The second American edition.

1799 – Augustin de Barruel, Memoirs, Illustrating the History of Jacobinisn, Vol. I.

Como havia três impressões separadas para os quatro volumes, Walgren atribui a cada uma delas uma entrada separada em sua bibliografia. Há mais sugestões provocantes de forças invisíveis na Maçonaria: “lojas ocultas” (que Barruel denominava de “arrieres loges“)

1799 – Augustin de Barruel, Memoirs, Illustrating the History of Jacobinisn, Vol. II.

O leitor pode encontrar descrições do grau do Eleito (página 161), Cavaleiro do Sol (página 163n), graus mais elevados da Maçonaria escocesa (páginas 163-68), grau de Rosa Cruz (páginas 168-72), Maçonaria Mística (páginas 172-74) e Cavaleiro Kadosh (páginas 174-75).

1799 – Augustin de Barruel, Memoirs, Illustrating the History of Jacobinisn, Vol. III.

Este volume trata especificamente com graus de Iluminismo de Weishaput, mas, para o leitor Maçônico em geral, ele aponta para graus mais continentais, desconhecidos pelas lojas inglesas.

1799 – Augustin de Barruel, Memoirs, Illustrating the History of Jacobinisn, Vol.IV.

Outras referências aos graus continentais: Irmãos Africanos, Cavaleiros da Águia, o Adepto, o Sublime Filósofo (página 81); Cavaleiros da Palestina, Cavaleiros Kadosh, Diretório Escocês (páginas 97-100); Arquiteto Escocês (página 328).

1800 – Robert Griffith Wetmore, A Feeble Attempt to Promote the Felicity of Campbell’s Mark Master’s Lodge in Duanesburgh [,New York].

Na página 6, Wetmore diz: “Quando me tornei próximo a você, eu estava na posse de trinta graus na Maçonaria (incluindo aqueles denominados inefáveis) e, portanto, me considerava como tendo chegado ao ne plus ultra. …”

O Webb’s Freemason’s Monitor foi o primeiro guia oficial a trabalhar os dez graus e ordens de rito de York americano: Ofício [Craft] (três graus), Real Arco (quatro graus), e Cavaleiros Templários (três ordens). Ele também dava informações emocionantes sobre um tipo exótico de Maçonaria conhecido por alguns maçons americanos, e deve ter gerado grande curiosidade entre os seus leitores. O ambiente de uma loja americana típica era simplesmente decorado com colunas, no Ocidente, um altar no centro e um “G” iluminado, no Oriente. Compare essa austeridade com a descrição pródiga que Webb dá para apenas um dos Graus Inefáveis:

Observações sobre o Grau de Preboste e Juiz

Esta loja é decorada com vermelho, e iluminada por cinco grandes luzes; uma em cada canto e uma no centro. O mestre é colocado no Oriente, sob um dossel azul, cercado com estrelas, e é denomado [sic], Três Vezes Ilustre.

O Venerável Mestre de um Ofício americano ou Loja Azul usava suas roupas habituais com uma fita em volta do pescoço da qual pendia um quadrado. O avental era provavelmente feito em casa e decorado por sua esposa, irmã ou mãe. Há muitas imagens de George Washington e Benjamin Franklin em tal vestimenta simples, mas digna. Novamente compare a descrição que Webb dá para o traje de luxo do presidente do “Grau de Cavaleiros do Nono Arco, ou Real Arco:

O mais poderoso grão-mestre, representando Salomão, no Oriente, [está] sentado em um trono, sob um rico dossel, com uma coroa em sua cabeça, e um cetro na mão. Ele está vestido com vestes reais amarelas, e um paramento de cetim azul guarnecido de arminho, atingindo o nível dos cotovelos; uma ampla fita roxa do ombro direito até o quadril esquerdo, à qual é pendurado um triângulo de ouro.

Depois de ter sido atraído desde a década de 1760 com alusões e insinuações da existência de graus maçônicos misteriosos que preservavam a história completa da Arte, os maçons americanos receberam informações claras em 1802. O Supremo Conselho Mãe publicou a sua Circular Para os Dois Hemisférios, anunciando-se e explicando os graus sob seu controle. A Circular pode ser vista como um catálogo de vendas maravilhosamente escrito, seduzindo candidatos a se filiarem, ao explicar por que os Graus Inefáveis e Sublimes são necessários para compreender plenamente a Maçonaria. Ela dava muitos exemplos do por que os Altos Graus são tanto superiores quanto essenciais:

  • O Conselho Supremo sozinho é governado com documentos historicamente corretos.

Grande parte da história da Maçonaria nos primeiros tempos é tão misturado com fábulas e envolvido com a ferrugem do tempo que pouca satisfação pode ser obtida; mas quando nos aproximamos mais de nossos próprios tempos temos registros autênticos para nosso governo.

  • Os três primeiros graus são apenas uma preparação para os graus mais elevados.

[Os três primeiros, ou Graus Azuis] foram conferidos como o teste do caráter e capacidade dos iniciados, antes que eles devam ser admitidos ao conhecimento dos mistérios mais importantes.

  • A verdadeira Palavra do Mestre foi perdida para os Graus Azuis com a morte de Hiram Abiff, mas os Graus Inefáveis e Sublimes ainda a possuem.

É bem conhecido do Mestre Azul que o rei Salomão e seu visitante Real estavam de posse da palavra verdadeira e pura, mas da qual ele deve permanecer na ignorância, a não ser que seja iniciado nos graus sublimes.

  • Os Graus Inefáveis e Sublimes preservaram suas cerimônias incólumes.

       Muita variedade e irregularidade, infelizmente, penetrou nos graus Azuis em consequência de … aqueles que não estão familiarizados com o idioma hebraico, no qual todas as palavras e palavras-de-passe são dadas… Não é assim nos graus superiores, onde elas aparecem naquela Sublime vestimenta que seus fundadores lhes deram. …

  • Os Graus Inefáveis e Sublimes continuam a tradição dos cruzados e baseiam seus graus em registros autênticos descobertos na Palestina.

Enquanto [27.000 maçons que acompanhavam os príncipes cristãos nas Cruzadas estiveram] na Palestina, eles descobriram vários manuscritos maçônicos importantes entre os descendentes dos antigos judeus, que enriqueceram nossos arquivos com registros escritos autênticos sobre os quais alguns dos nossos graus estão fundamentados.

Desde a introdução do Real Arco, em 1753, até a Circular Para os Dois Hemisférios, em 1802, os maçons americanos tinham sido avisados, direta e indiretamente, que os graus do Ofício não contam toda a história da Maçonaria. Nem todo maçom era induzido a perseguir a luz, mas, para aqueles que eram, deve ter sido um desafio saber quando parar. Insinuações sobre revelações adicionais, talvez o ne plus ultra[iii] – poderiam vir com o próximo visitante chegado do exterior, na mais recente publicação ou nas mãos de um palestrante maçônico itinerante.

 

A propagação do Altos Graus por conferencistas maçônicos

A Maçonaria veio para os Estados Unidos proveniente de muitas fontes e de variadas formas. As primeiras lojas tiveram pouca orientação para seus rituais e cerimônias, provavelmente contando com doses iguais de tradição oral e exposições[iv] impressas. Quatro exposições rituais foram publicadas na América antes de 1801, todas cópias de originais ingleses: The Mystery of Free-Masonry (1730); Masonry Dissected (1749-1750); Hiram: Or the Grand Master-Key (1768); Jachin e Boaz (1774-1801). “Antes da publicação da obra de Morgan, [Illustrations of Masonry by one of the fraternity (1826)], [Jachin and Boaz] foi a exposição mais importante publicada em solo americano e muito auxiliou a uniformidade ritual.” Embora houvesse, sem dúvida, outras exposições importadas disponíveis, foi Jachin and Boaz, com o seu trabalho Antigo, a que mais influenciou o ritual americano. Ela passou por dez edições americanas antes de 1801, enquanto as outras três exposições americanas não foram reimpressas. Podemos inferir, a partir de sua popularidade, que Jachin and Boaz foi amplamente utilizada, ainda que informalmente, por lojas americanas, como guia para seus rituais.

A natureza abomina o vácuo, e no vácuo do ritual maçônico americano apareceram conferencistas maçônicos itinerantes. Esses empreendedores exclusivamente americanos viajaram o país ensinando trabalhos uniformes dos três graus do Ofício, dos quatro graus do sistema do Real Arco americano (Mestre Maçom da Marca, Past Master, Mais Excelente Mestre e Real Arco), e graus “secundários”. O grande unificador do ritual americano foi Thomas Smith Webb, que é conhecido por ter usado Jachin and Boaz para ensinar seus alunos. Webb formalizou as cerimônias contidas em Jachin and Boaz, ajustando o idioma ao vernáculo americano e preenchendo as lacunas procedimentais. Ele estendeu a linguagem e as formas de sua obra do Ofício para o Real Arco e ensinou e certificou outros conferencistas. Em 1797, Webb publicou o The Freemason’s Monitor, que era uma ferramenta de ensino que ajudava a consolidar a codificação de seu ritual. Como observado antes, ele também deve ter despertado o interesse nos altos graus.

Pouco se sabe sobre as práticas comerciais dos conferencistas maçônicos, mas podemos fazer algumas inferências razoáveis com base no registro de 1782-1808 de Abraão Jacobs e no diário de Jeremy Ladd Cross, de 1817-1820. Se assumirmos que cada inspetor da Ordem do Real Segredo era um conferencista itinerante de algum tipo, então talvez um total desses 100 a 150 vendedores ambulantes ofereciam seus serviços para corpos maçônicos e maçons individuais. Além de “palestras” sobre o Ofício e Graus do Real Arco (o que significava ensinar de memória o ritual e os trabalhos de solo), estes docentes venderam ou deram graus laterais para os seus clientes e licenciaram vários corpos sob a sua autoridade.

O diário de Jeremy Cross nos dá uma boa ideia sobre o negócio de um conferencista bem-sucedido. Embora suas entradas de diário sejam de 1817-1820, as finanças não poderiam ter sido muito diferentes no período anterior a 1801. Sua taxa para lecionar por um dia, em 1817, parece ter sido de US$4, cerca de US$55 em 2003, e ele estabeleceu Conselhos de Mestres Selecionados por US$20, cerca de US$275 hoje. Tornou-se conferencista maçônico em 1814, mas em 1818 ainda estava em débito e com a esperança de se estabelecer. Em 17 de agosto de 1817, ele começou a partir de Haverhill, New Hampshire, viajando de diligência e barco, e chegou em Richmond, Virginia, em 4 de dezembro: uma viagem de 635 milhas. Muitas vezes ele ficava com os maçons e regularmente jantava com eles, mesmo quando ficava em um hotel. Durante a viagem de dezessete-semanas a Richmond, ele estabeleceu pelo menos seis Conselhos de Mestres Selecionados (US$120) e passou uns 29 dias ensinando nas Lojas e Capítulos ($116). Sua renda total para a viagem até Richmond foi cerca de US$236.

Para que se tenha uma estimativa muito grosseira de suas despesas, note-se que durante a sua estada em Washington, DC, ele pagou US $ 8,75 por 3 1/2 dias de quarto e refeições no Thomas Crafford Union Hotel, ou seja, US$ 2,50 por dia. O custo de hospedagem em cidades menores deve ter sido menor, digamos, cerca de US$1,50 por dia. Se ele usou hotéis ou bares entre metade e dois terços de sua viagem e ficou com irmãos no resto do tempo, então gastou cerca de US$90 em hospedagem, quase metade de sua renda. No momento em que se adiciona seu transporte e despesas diversas, é fácil ver porque após quatro anos de palestras ele ainda tinha dívidas.

Seu diário é impreciso sobre o número de Conselhos criados, dias de palestras pagos, e suas taxas, mas ainda podemos ter uma ideia de suas economias na sua viagem de 1.817 de New Hampshire para a Virgínia, olhando para suas entradas no diário entre 9 e 16 de outubro de 1817, oito dias particularmente atarefados para ele.

 

Diário de J. L. Cruz de 9-16 outubro, 1817 Comentários
Dia 9. Às 04h00 peguei meu lugar na diligência e por volta das 8h00 cheguei em Lantwecks Bridge, uma pequena aldeia ao sul de New Castle, [Delaware] parei em uma pequena Taverna. … Conheci os irmãos na véspera e dei uma palestra . • US$4 por palestra

 

Dia 10. Passei o dia com o Maj. Moody olhando a pequena, mas agradável, aldeia. Passei a noite em sua casa … e voltei [para a Taverna e] mantive algumas outras conversas com os irmãos e recebi o meu centavo. O “outras conversas com os irmãos” pode significar palestras, e “recebi meu centavo” significa que ele foi pago.

• US$4 por palestra?

Recebido: US$8 por palestras de 9 e 10 de outubro

 

Dia 11. Depois do almoço eu parti para Dover, [Delaware] … e cheguei em Dover por volta das 14h00. Logo tornei-me familiarizado com o Hon. William Hall. … Lecionei para os Companheiros ao anoitecer . • US$4 por palestra
Dia 12. Domingo. …

 

Cross observava fielmente os sábados e não realizou nenhum trabalho no dia.
Dia 13. Passei o dia na maior parte com o Ir. Hall. Na véspera eu conheci os Companheiros. Exibi trabalho no Capítulo e estabeleci um Conselho de Mestres Selecionados. Estas poderiam ser instruções particulares para o Ir. Hall.

• US$4 por palestra

• US$20 por um Conselho de Mestres Selecionados.

Dia 14. Passei o dia com o irmão. Hall e o anoitecer com os Companheiros.

 

Esta poderiam ser mais instruções particulares para o Ir. Hall.

• US$4 por palestra?

Dia 15. … Dei algumas instruções sobre disposições etc etc

 

Encomendei US $ 20 em provisões indica que ele provavelmente ficou em uma taverna.
Dia 16. Terminei com os Companheiros e recebi o meu pagamento, tive um jantar com [Dr.] Naudim e por volta das 14h00 peguei a diligência e rumei para Milford, [Delaware] onde eu [cheguei] no pôr do sol. Parei no Mr. Godwin Hotel. Recebido: US$32 para dar palestras em 11, 13 e 14 de outubro e para estabelecer o Conselho de Mestres Selecionados em 13 de Outubro

 

 

O preço diário de US$4 por palestra parece ter sido a taxa aceita. A Grande Loja de Massachusetts, em 22 de Julho de 1805, designou Benjamin Gleason como Grande Conferencista e, após um ano lecionando para as lojas de Massachusetts recebeu US $ 1.000 ou cerca de $ 15.600 em 2003. Se Gleason palestrasse cerca de vinte e um dias por mês, receberia sobre a mesma remuneração por palestra que Cross.

A sorte de Cross como conferencista melhorou significativamente em maio de 1818 quando a Grande Loja de Connecticut o nomeou “Grande Conferencista, para visitar as vários Lojas nesta jurisdição, e instruí-los no modo correto de trabalhar e palestrar; e que cada Loja subordinada seja chamada a pagar à Tesouraria da Grande Loja a soma de dez dólares, quando – ou próximo – da Grande Comunicação, com a finalidade de custear a despesa de tal visita. “Além disso,” cada Loja pagará ao Irmão Cross” despesas quando efetivamente utilizado por tal Loja para dar palestras e instruções; e nenhuma Loja será obrigada a pagar esta soma de dez dólares, a menos que primeiro tenham tido o benefício das referidas palestras pelo menos dois dias e meio.”. Cross estava agora cobrando os US$ 4 “padrão” por dia, mais despesas, e tinha mais ou menos garantido o emprego em cada uma das lojas de Connecticut. Em 1818, havia cerca de cinquenta e oito lojas em Connecticut, o que geraria cerca de US $ 580 / $ 9048 em taxas de palestras; ele também instituiu uma dúzia de Conselhos de Mestres Selecionados por outros US$240 / $3,744. Outro impulso para a sua prosperidade veio em 1819, quando ele publicou The True Masonic Chart or Hieroglyphic Monitor. Este livro popular passou por oito edições em 1850 e foi seguido por The Templar’s Chart or Hieroglyphic Monitor, em 1820 (duas edições em 1850) e por um negócio de venda de aventais gravados e outros suprimentos maçônicos.

Abraham Jacobs não parece ter lecionado nos graus do ofício, nem o seu registro indicam quais eram seus honorários. No entanto, sabemos que Cross e Gleason recebiam US$4 por dia para instruir nos sete graus do Ofício e Real Arco por volta dessa mesma época e que Cross recebia US$20 para estabelecer um Conselho de Mestres Selecionados, conferindo apenas um grau. Além disso, em 1806, Antoine Bideaud, do Supremo Conselho Sulista, conferia os graus de 4 a 32  em Nova York, para J.J.J. Gourgas e outros quatro por US$46, ou cerca de US$1,50 por grau. Assim, não é razoável supor que Jacobs recebesse US$10-20 por indivíduo quando conferia os treze graus da Loja de Perfeição e do Conselho de Príncipes de Jerusalém, talvez dando um desconto para uma classe maior de candidatos.

Em 9 de Novembro, 1790, Moisés Cohen iniciou Jacobs como “Cavaleiro do Sol, com plenos poderes para iniciar irmãos e constituir Lojas”, e foi isso que ele fez. Ele conferiu o Inefável, Sublime, e outros graus “secundários” para complementar sua renda de professor de hebraico. Embora seu registro não traga nenhuma informação sobre sua renda, ele nos dá uma visão de como ele conferia graus, a partir do que podemos conjecturar sobre os métodos de outros inspetores.

Em dezenove dias – de 10 de Junho a 3 de julho de 1792 – Jacobs conferiu treze graus de Mestre Secreto até Príncipe de Jerusalém a dezesseis irmãos de Augusta, Georgia. Seu registro do dia 14 de junho era típico de como os graus eram conferidos:

Dia 14 de Junho. Neste dia conferi os graus de Preboste e Juiz para os irmãos Zimmerman e Prescott, e também os graus de Intendente do Edifício, ou Grande Mestre em Israel. O Irmão James Gardner participou e recebeu os graus de Mestre Secreto e Mestre Perfeito, com todas as instruções necessárias.

Geralmente um ou dois graus eram conferidos a cada noite, mas já que nem todos poderiam estar presentes, graus eram repetidos, como em 14 de junho. Jacobs não tinha nenhuma ajuda para conferir os graus, e assim as cerimônias eram “tudo, menos completas.” É razoável perguntar: Por que demorou tantas noites para conferir os graus? A explicação pode estar na frase do registro de Jacobs em 14 de junho, “com todas as instruções necessárias.”

Arturo de Hoyos, Grande Arquivista e Grande Historiador do Supremo Conselho do 33°, S. J.[v], acredita que Jacobs ditava as cerimônias para os candidatos, e eles transcreviam os rituais para seu uso pessoal. Em apoio desta tese, os Arquivos do Supremo Conselho do 33°, S. J., tem vários pequenos livros desamarrados com graus individuais transcritos neles. Considere a página de título de um livro sem data com os rituais de Cavaleiro Kadosh escritas em cinquenta e oito de sessenta e quatro páginas de 12′ ou 16,5 cm.

Cavaleiro de Kadoch

ou Águia Branca & Preta

Inspetor de todas as lojas

Grande Eleito

24o

29º grau

Gd eleito Cvl de

Kadosh

 

O que é significativo é que o “24” é riscado e substituído por “29”. Antes de 1801 o Grau de Kadosh era o vigésimo quarto na Ordem do Real Segredo, mas a Circular para os Dois Hemisférios lista o Kadosh como o grau vigésimo nono (e mais tarde tornou-se o trigésimo). Assim, de Hoyos data o manuscrito de algum tempo antes de 1801. Ele foi preparado sob a égide da Ordem do Real Segredo, mas logo após o seu proprietário deve ter transferido a obediência para o novo Conselho Supremo e o ritual foi renumerado e renomeado por uma mão diferente. Note-se que só era necessário renumerar graus acima do 22°, Príncipe do Líbano, uma vez que até ali os dois sistemas concordam, e é graças a essa renumeração que livros dos graus podem ser confiantemente datados como tendo sido escrito antes de 1801. O Supremo Conselho convidou todos os detentores de patentes da Ordem do Real Segredo a transformá-las e receberem uma patente do novo corpo.

Poucos destes livros ainda existem por, provavelmente, várias razões. Em primeiro lugar, nunca houve muitos recipiendários destes graus, como testemunham os poucos corpos estabelecidos antes de 1801 e a escassez de comentários nos anais da Grande Loja. Em seguida, durante o Período Antimaçônico Americano de 1826-42 maçons que renunciavam à Ordem eram incentivados a destruir toda a sua parafernália maçônica. Por fim, ninguém menos que uma autoridade como Albert Pike encorajou a destruição de versões anteriores e não aprovadas de graus do Rito Escocês e recomendou que “cahiers velhos e inúteis de graus, sejam lançados às chamas.”

Agora podemos montar um modelo de como os inspetores propagavam os altos graus. Armados de suas patentes, eles se reuniam com um ou vários candidatos, resumiam as cerimônias de grau, e ensinavam as palavras e toques. Depois de cada cerimônia abreviada, os inspetores ditavam os rituais para os novos membros que os transcreviam para seu uso pessoal. Alguns inspetores, como Abraão Jacobs, encorajavam seus candidatos a solicitar mandados de autoridade competente, embora, obviamente, poucos o fizessem. Livres dos regulamentos da Grande Loja, os inspetores tinham liberdade para vender suas mercadorias onde quer que encontrassem candidatos dispostos. Seus clientes, quer atraídas pelo discurso do vendedor sobre graus exclusivos ou seduzidos pela obtenção de mais luz na Maçonaria, ansiosamente pagava pela informação. Os graus eram conferidos tão bem quanto possível pelo Inspetor, talvez com alguns irmãos a auxiliá-lo. Os novos candidatos tinham, então, permissão para transcrever os rituais para seu uso e estudo posterior, e talvez para a organização de um Corpo de Altos Graus com um mandado.

 

O funcionamento dos Corpos de Altos Graus na América antes de 1801

De acordo com o primeiro censo dos EUA, em 1790, a população total era de 3.893.635, e as cinco maiores cidades eram New York City (33.131), Filadélfia (28.522), Boston (18.320), Charleston, SC (16.359) e Baltimore (13.503). Cinco corpos de altos graus estavam localizados em três das cinco maiores cidades americanas, com Charleston contando sozinha com três corpos. Albany (3.498) era a décima-nona maior cidade americana e tinha um corpo. Uma localização surpreendente para um corpo de altos graus era Holmes’ Hole, na ilha de Martha’s Vineyard, em Massachusetts. O censo de 1790 mostra apenas cerca de 350 pessoas na cidade, embora no entorno do condado de Dukes houvesse uma população de 3.245, que se fosse uma cidade seria classificada como a vigésima maior. Assim, os Corpos da Ordem do Real Segredo eram localizados principalmente nos maiores centros urbanos, o que lhes daria uma excelente exposição aos maçons.

Temos muito poucos registros existentes de qualquer um desses corpos:

  •    O primeiro corpo de altos graus nos E.U.A. foi estabelecido em New Orleans. A Loge de Parfaits d’Écosse foi aberta lá, em 12 de abril de 1764, e trabalhava no “sistema de Bordeaux”, mas ser a primeira não garante a longevidade. Pouco depois a França cedeu New Orleans para a Espanha através do Tratado de Paris 1763, a Maçonaria ou passou à clandestinidade ou morreu completamente na cidade. Resta apenas um documento da Parfaits d’Écosse, que são as atas de duas reuniões; não sabemos nada sobre suas operações ou influência. Os altos graus não retornaram formalmente a New Orleans até 1807.
  •    A Inefável Loja de Perfeição de Albany foi licenciada por Henry Andrew Francken em 1768. O seu registro está nos arquivos do Supremo Conselho, 33°, N.M.J., e registra 123 reuniões de 1768 a 1774, sem nenhuma reunião realizada em 1772. As atas existentes são banais, e não refletem a promessa da sublime perfeição da Maçonaria de Ofício.
  •    O Livro de Atas da Loja de Perfeição em Filadélfia, estabelecido por Solomon Bush foi preservada pela Grande Loja da Pensilvânia e foi reeditado em 1915. Ele registra as reuniões desde a primeira, em 1781, à abrupta última, em 1789. Enquanto os membros realmente escrevessem para Frederico, o Grande, os processos nada têm de excepcional.
  •    Isaac Da Costa organizou a Sublime Grande Loja de Perfeição em Charleston, em 1783. “A 13 de junho de 5796 a sala de loja, registros, jóias e mobiliário da Inefável Loja de Perfeita e Sublime Maçons foram consumidos pelo fogo, o que, somado a outras causas, suspendeu as reuniões da Sublime Loja (exceto algumas ocasionais, para fins especiais). … “
  •    Cinco anos depois de Da Costa ter organizado a Loja de Perfeição em Charleston, Barend M. Spitzer, Abraham Forst e Joseph M. Myers abriram um Grande Conselho dos Príncipes de Jerusalém, em 1788, na cidade. A sua jurisdição sobre as Lojas de Perfeição e Conselhos de Príncipes de Jerusalém foi reconhecida, pelo menos por Abraham Jacobs, que instruiu seus iniciados para se inscreverem em Charleston para obter uma licença.
  •    A Loja de Perfeição do Rei Salomão em Holmes’ Hole (agora Tisbury), na ilha de Martha´s Vineyard, foi criada por Moses Michael Hays, vice-inspetor-geral, em 1791, quando ele estava servindo como Grão-Mestre da Grande Loja de Massachusetts (Antigos). Em 1797, o corpo entregou sua carta à Grande Loja e recebeu uma nova carta com o mesmo nome, mas apenas como uma Loja do Ofício. A Loja de Perfeição do Rei Salomão entregou suas jóias, licença e registros em 1822, e todos foram destruídos quando a Grande Loja em Boston pegou fogo.
  •    Henry Wilmans, “Grande Inspetor, Geral” estabeleceu uma Loja de Perfeição em Baltimore, mas o único documento remanescente é a “Constituição e Leis dos Grandes Eleitos, Perfeitos, e Sublimes Maçons” assinada por setenta e sete membros, em 1792, quatro dos quais tornaram-se Grãos-Mestres de Maryland. Há uma referência, em 1804, para que Loja Concordia No. 13 de Baltimore liquide uma conta de aluguel com a “Sublime Loja” por US$150. Isto parece indicar que a Loja de Perfeição sobreviveu pelo menos doze anos. Nada mais se sabe sobre ela.
  •    Charleston tornou-se o centro da Maçonaria de altos graus norte-americana, em 1797, quando um Sublime Grande Conselho de Príncipes do Real Segredo foi aberto lá sob a autoridade de Hyman Isaac Long. Este foi o último corpo de alto grau a ser formado antes de 1801.

Os únicos corpos Inefáveis ou Sublimes que ainda trabalhavam em 1801 eram, provavelmente, de Baltimore e, definitivamente, de Charleston. Embora não muitos desses corpos tenham sobrevivido mais que alguns anos, aqueles em Charleston proveram o solo fértil do qual emergiu o Supremo Conselho dos Estados Unidos. A maioria destes corpos de alto grau operavam junto a várias lojas azuis e outros corpos. Sua mera presença chamou a atenção de outros maçons em sua área para os Sublimes Graus, mas a atenção não foi suficiente para garantir o sucesso ou interesse.

Antes de 1801, os Corpos do Real Segredo operavam sem qualquer direção central; não havia nenhuma liderança estadual ou nacional para dirigi-los. Em contraste, por volta de 1791, havia Grandes Lojas em doze dos estados originais, com Delaware formando a sua Grande Loja em 1806. Algumas Grandes Lojas permitiam que suas lojas trabalhassem com a Marca, o Real Arco e outros graus em virtude de suas autorizações. Em 1801, o Rito de York estava começando a decolar. Havia Grandes Capítulos de Maçons do Real Arco em pelo menos sete estados, e a Maçonaria do Real Arco era vista como a extensão lógica e natural da Maçonaria de Ofício e os Cavaleiros Templários tinham um “Grande Acampamento na cidade da Filadélfia.”

Uma distinção sutil, mas importante, entre os procedimentos do Rito de York e da Ordem do Real Segredo, pode estar no fato de que os Graus Inefáveis e Sublimes tinham um apelo intelectual, enquanto os graus do Rito de York – especialmente nos graus do Capítulo – tinham elementos populares de humor rude. Esta diferença pode ser vista pela vontade de iniciados da Ordem do Real Segredo de pagar pelo privilégio de apenas transcrever os rituais – certamente uma abordagem erudita à Maçonaria, de maior apelo para os letrados. Poucos dos homens elevados pelos inspetores participavam de reuniões porque quase não havia corpos a serem frequentados. Assim, pareciam estar satisfeitos em ler e estudar os rituais.

Realmente não sabemos o que acontecia durante as reuniões maçônicas americanas antes de 1801, mas as exposições do Período Antimaçônico Americano (1826-1842) permitem que façamos tênues inferências sobre essa época inicial. O Light on Masonry (1829), de David Bernard, foi a principal exposição daquele tempo, passando por cinco edições cada vez mais detalhadas entre abril e dezembro de 1829, e o A Ritual of Freemasonry (1831), de Avery Allyn, foi seu principal concorrente. Ambos os livros procuraram destruir a fraternidade, expondo seus rituais e retratando-a da pior maneira possível. Assim, qualquer imagem negativa deve ser considerada à luz do objetivo final dos autores. Suas descrições refletiam variantes locais de rituais que podem ou não ter sido mais amplamente populares. Arturo de Hoyos salienta que tais variantes são uma consequência esperada da tradição do ritual de boca-a-ouvido do Rito de York. A tradição escrita dos Graus Inefáveis e Sublimes permite muito menos variação.

Se é possível acreditar nas exposições de Bernard e Allyn, os graus de um Capítulo do Real Arco ofereciam aos participantes turbulentas e maldosas brincadeiras de iniciação. Estes graus, especialmente o Real Arco, traziam uma conclusão lógica para o Grau de Mestre Maçom, embora aparentemente fornecessem algum divertimento inocente durante as cerimônias, uma combinação popular, com muito mais sucesso do que simplesmente transcrever e estudar rituais. As descrições que eles fizeram dos graus do Capítulo do Real Arco, o mais amplamente trabalhado dos altos graus, falam de várias oportunidades para constranger e surpreender os candidatos. Allyn até mesmo fornece desenhos cômicos das cerimônias, com destaque para a confusão do candidato.

Em contraste com os graus Capítulo, suas descrições de “Onze Graus Inefáveis”, são austeras e solenes, quase como peças teatrais históricas. Bernard tinha avançado até o 6°, Secretário Íntimo, e Allyn não tinha recebido nenhum dos Graus Inefáveis e Sublimes, e, portanto, tinham pouca evidência em primeira mão do que se passava em uma Loja de Perfeição. No entanto, nenhum dos autores perderia uma oportunidade para enfatizar qualquer aspecto negativo, mesmo rumores. A simplicidade de suas descrições apoia a ideia de que as cerimônias eram, de fato, sérias, sem recursos para divertir os observadores. Os Graus Inefáveis e Sublimes podem não ter se espalhado rapidamente porque faltaram a eles as humorísticas possibilidades de iniciação dos Graus do Capítulo do Real Arco. Mas isso provavelmente nunca saberemos.

 

Conclusão

O Supremo Conselho dos Estados Unidos apareceu num momento em que os maçons americanos foram tomando ciência de que havia conhecimento maçônico além das Lojas de Ofício. Essa consciência foi espalhada por conferencistas itinerantes, livros e Corpos da Ordem do Real Segredo. A Ordem, com os seus inspetores em grande parte não controlados, não tinha uma infraestrutura organizacional que a permitisse sobreviver. Sua filha, o Rito Escocês Antigo e Aceito, tinha as características que lhe garantiam a grandeza. Em duzentos anos, cresceu para se tornar o maior e mais generalizado ramo da fraternidade maçônica. Hoje tem até maiores possibilidades de esplendor do que em 1801.

 

Agradecimentos

Estou em dívida com dois de meus companheiros estudiosos de Mackey que generosamente me deram ajuda inestimável: o Ilmo. Ir. Arturo de Hoyos, 33°, Grande Arquivista e Grande Historiador, Supremo Conselho, 33°, S. J., me deu apoio, inspiração e orientação nas muitas conversas sobre a Ordem do Real Segredo. O Ilmo. Ir. Alain Bernheim, 33°, refinou minhas referências e sugeriu melhorias importantes no texto.

 

 Original extraído de: http://www.themasonictrowel.com/Articles/apendent_bodies/york/the_royal_secret_in_america_before_1801.htm

Notas

[i] Graus do Ofício ou Graus Azuis é a denominação dada nos E.U.A. (e em outros países de língua inglesa?) para os Graus Simbólicos. (N.T.)

[ii] Segundo o dicionário Merriam-Webster, Commandery (que é a palavra no texto original) é um distrito sob controle de um comandante de ordem de cavaleiros ou uma assembleia ou loja de uma ordem secreta. (N.T.)

[iii] Ne plus ultra é uma expressão latina que significa o ponto máximo a que se pode chegar ou o que há de melhor ou o supra-sumo (N.T.)

[iv] Que podem ser traduzidas como revelações ou vazamentos. (N.T.)

[v] Abreviatura de Southern Jurisdiction, ou, em português, Jurisdição Sulista. Refere-se ao Supremo Conselho de Charleston, no estado da Carolina do Sul, E.U.A.. (N.T.)

Publicado on outubro 8, 2016 at 9:36 am  Comentários desativados em O Real Segredo na América antes de 1801  
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