O Livro, Criador do Devir Iniciático

Tradução José Filardo

 Artigo | Revista Franc-Maçonnerie –  por ALAIN Pozarnik

le lvre

Existem livros de imaginação ou de biografia, livros de referência geográfica ou histórica, livros de ciência ou de filosofia livros de esoterismo ou ocultismo. Um livro pode satisfazer o gosto de escapar, uma curiosidade ou um requisito espiritual. O que pode ler, de preferência um iniciado? Qual é a sua atitude diante de um texto?

Após a construção da sua personalidade, um homem é naturalmente inclinado a um ou outro tipo de literatura. A recepção das impressões externas estimula o funcionamento dos seus sentidos e lhe dá a impressão de viver mais intensamente. Além disso, em geral, ele escolhe aumentar aquile que, nele mesmo, já é mais apto a receber um tipo de informação, mais que um outro.

As leituras de um homem comum são orientadas seja segundo sua natureza existente seja para lhe dar a ilusão de que ele é capaz de saber o que ele não tem a energia para realizar. Através de um livro, nos envolvemos em várias fantasias ou em conhecimento, mas nunca em um processo de experiências vividas de maneiras objetivas.

O tempo de leitura torna-se um tempo de esquecimento, um momento de autonegação, um tempo que permite à personalidade, ao ego, engrossar sua máscara, e para alguns aumentar a base social do aparecer e se distanciar da percepção humana do Ser de outros homens.

Por que não! Mas este não é o caminho de ações conscientes escolhidas por um iniciado.

Desenvolver o espírito crítico

Um iniciado percebe que ele já dedica muito pouco tempo ao seu despertar pessoal. Ele também aproveita cada instante de disponibilidade para se perguntar sobre diferentes olhares trazidos por outros sobre o Conhecimento da verdade. Além disso, ele sabe que a qualquer momento sua vida pode se quebrar e ele experimenta cruelmente o sentimento de sua responsabilidade para a realização da extensão de sua consciência humana durante a sua vida. Ele não quer se tornar um super-homem, mas introduz no domínio da razão, a noção de urgência de tornar-se, de trabalhar, de integrar a transcendência na imanência de sua vida diária. O tempo de que dispõe é precioso porque essa realidade é bastante curta e principalmente imprevisível.

As leituras de um iniciado dão uma orientação definida às suas reflexões, seus sentimentos, suas ações. Elas não escondem ou não embelezam a realidade, ela a revelam. Assim, não há necessidade de se perder nas filosofias abstrusas ou misteriosas e inúteis para se esperar alcançar a Realidade clara, simples e facilmente compreensível. Pelo menos ela lhe chega, talvez, com trabalho. O Conhecimento não está escondido, somo nós que ainda não somos capazes nem de o perceber nem de o receber. A Tradição levanta um canto do véu, cabe a nós levantar os outros três cantos, e talvez o véu na sua totalidade. Cabe a nós descobrir como!

Por agora, as verdades que percebemos são realidades relativas que vivemos como essenciais. Este por meio de um choque de despertar que podemos superar nossos equívocos e erros. Nesse movimento enérgico nossas verdades se dissolvem e são substituídas por outras verdades, muitas vezes também relacionadas com as anteriores. Também como um livro iniciático escrito por um maçom jamais afirma que ele expõe a verdade, mas na melhor das hipóteses, ele traça o caminho que conduz a ela, de forma gradual. Um livro sério não impõe qualquer crença, qualquer conhecimento, qualquer ucasse.

Para responder aos seus próprios questionamentos, aos dos homens e para não cair em certas armadilhas, um iniciado deve, através de suas leituras, desenvolver um espírito crítico e lógico, um julgamento distante e neutro, uma razão sã e sólida. Um pesquisador de verdades deve ser um homem educado e, ao mesmo tempo, um homem experiente e construído. O perigo é, por exemplo, que um intelecto ricamente suprido com dados permaneça inundado por emoções egoístas de ambição ou de vaidade, ou que uma experiência mal compreendida conduza o pesquisador a superstições tenebrosas.

Criar uma percepção diferente do mundo

A construção do edifício humano se eleva gradualmente, em linhas puras, por meio de um trabalho correto, simultâneo e harmonioso de todas as manifestações, sejam elas intelectuais, emocionais ou corporais.

Não há dúvida de que são necessários esforços para passar de uma vida totalmente automática para uma vida de observação, de autoconhecimento, de uma vida de autoconhecimento, seja para uma transformação, de um autoaperfeiçoamento para uma passagem dinâmica em direção à realização de um “eu sou” na eternidade.

Cabe ao leitor procurar a ideia viva escondida por trás das palavras e frases. As palavras e frases nunca tocam o interior vivo do Ser; elas são inúteis para fazer viver concretamente a sabedoria iniciática, mas são essenciais para a transmissão.

Todo livro cujo texto nos torna alertas para nós mesmos, para os outros e para o mundo é um livro aproveitável para um iniciado. Esse tipo de livro raramente nos diz o que teríamos de fazer para aprender a nos abrirmos, mas desperta em nós o desejo de viver de forma diferente. Ele nos ajuda a olhar para nós mesmos, e olhar o mundo através dos olhos da fraternidade e do amor. Ele reduz a diferença entre as nossas vidas e as dos outros.

Um livro iniciático não é um livro de moral nem um livro filosófico, mas um livro que estimula o nosso sentimento de pertencer à corrente comum da vida universal.

Uma das principais funções de um livro de sabedoria é nos tornar conscientes de que nossas percepções e julgamentos dos outros e do mundo, dependem mais de nossas interpretações limitadas que de suas realidades. Um livro útil para um pesquisador é um livro que abre caminhos inesperados, pontos de vista estonteantes, perspectivas inesperadas lhe faz querer seguir em frente, de se envolver efetivamente. Um livro útil para um pesquisador não está na riqueza de um texto revelando o pensamento do autor, mas no sentido que o leitor lhe dá. O sentido que o leitor atribui um texto pode ser diferente do sentido do autor, que se situa, talvez, em outro nível de compreensão, mas não significa menos que seu livro tenha permitido ao leitor tornar-se um criador de si mesmo.

Autodescobrir-se

Graças a um texto, o leitor entende-se de outra forma, ele aplica a si mesmo o olhar que o texto provoca. Graças ao texto, ele realiza um ato de compreensão de si mesmo. O iniciado não busca em um livro um pensamento que lhe convém, e que ele o torna seu, mas ele assimila o pensamento do autor, o reinterpreta em sua consciência e constrói a si mesmo. Um livro iniciático é uma obra de arte que interroga o leitor, o libera de suas amarras habituais, e lhe permite florescer, equilibrar-se e organizar seu devir mais humano.

Quando nossas imperfeições são vistas, essa visão apela ao nosso desejo de nos superarmos. Um livro iniciático não é a expressão de uma moral rígida ou de um misticismo terminado que devemos copiar para nos parecermos com um iniciado, ele nos coloca em relação com nossas imperfeições para criar em nós a força para nos afirmarmos, de afirmar uma outra maneira de ser.

Um livro iniciáticos oferece a cada leitor a responsabilidade de criar, ele esmo, com felicidade em um mundo que ele não compreende, que antes ele sentia como hostil.

Um livro aproveitável para um iniciado abre-se para a arte de viver. Nunca a arte de viver encontra um ponto final. A energia cósmica que flui através de nós tem uma efervescência infinita. Nas palavras de um texto iniciáticos nunca acabamos de encontrar uma interpretação sobre o ordenamento e o sentido da vida.

Um livro iniciático é lido lentamente, tranquilamente. Ao lê-lo, tomamos tempo para escutar vibrar nosso ser e nosso espírito tocado pela música das palavras e suas evocações. Deixamos a amplitude do sentimento desenvolver-se e crescer, antes de passar para a próxima frase. Ler com muita pressa pretexto sob o pretexto de entender mais tarde ou muito mais, torna-se um exercício puramente intelectual de pesquisa de ideias. As ideias se encadeia, se alternam, se contestam , mas não despertar aquilo que esperamos encontrar ali de excepcional. Desde os gregos e romanos, tudo foi dito de uma forma ou de outra, mas o que foi dito ainda não nos afetou pessoalmente da forma certa. Também, lendo-o hoje, não buscamos ideias revolucionárias, aprendemos, antes disso, a tomar o tempo para desfrutar nossa vida íntima, despertar nosso ser interior, saborear a vida de nosso ser.

Entrar em sintonia com as ideias

Há uma parte de esforço para viver o incomunicável, uma parte de confiança para avançar em direção ao inimaginável e uma parte de vigilância para permanecer na direção certa. Portanto, é importante não acreditar cegamente, verificar e experimentar por si mesmo todas as afirmações vindas de que e de onde quer que seja; abandonemos o hábito de transmitir as ideias dos outros, não vivamos de segunda mão para encontrar uma maneira nova de existir. Se uma ideia formulada por alguém nos parece atraente, experimentemo-la e verifiquemo-la em nós. Quando parecer que ela está viva em nossa carne, nosso espírito ou nosso coração, então poderemos afirmar sua veracidade, agora que ela terá um verdadeiro poder transformador.

O leitor pode percorrer uma primeira vez um livro iniciático para entender a direção que o autor lhe propõe seguir, então ele pode retomar uma segunda leitura, mais aprofundada para entender onde se situa sua própria experiência na estrada e, em uma terceira leitura ele se colocará em sintonia com as ideias para sentir vibrar em seu Ser o caminho descrito pelo autor.

No caminho iniciático tradicional, o que realmente importa não são as descobertas de outros, mas as interrogações que elas levantam e o caminho que elas nos permitirão realizar. Não leiamos para descobrir o que pensa o autor sobre um assunto, mas para saber quais pensamentos despertam em nós aquilo que pensa um autor. *

Quanto mais nós lemos e relemos um livro iniciático, mais nós encontramos interpretações que o texto continha ou não continha, mas que, de toda forma, não estávamos preparados para entender. Uma leitura pode alimentar o intelecto, uma outra os sentimentos, e uma terceira tocar e alimentar o Ser.

Nós fecundamos um texto com nossas próprias compreensões e além de nós mesmos, por nosso aperfeiçoamento progressivo. Assim, podemos transmiti-lo aos outros, não para que eles o aprendam de cor, mas apelando a que preencham, eles mesmos, os vazios infinitos encerrados nos limites das palavras.

* Veja o desenvolvimento, as páginas 12 e seguintes de a L’Agi e l’Etre Iniatique do mesmo autor publicado por Editions Dervy.

 

 

Sobre o autor

Alain Pozarnik

Alain Pozarnik ex-Grão-Mestre da Grande Loja De France é o autor de uma dezena de livros iniciáticos publicados pela Dervy.

Última obra publicada: Simbolismo do ritual de fechamento de loja maçônica, Editions Dervy, 2011

 

Publicado on novembro 1, 2013 at 3:08 pm  Comments (1)  

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