O Futuro da Maçonaria na Inglaterra

Pesquisa encomendada pela GLUI a uma instituição independentes, não maçônica.  
(publicado originalmente no site Pietre-Stones )

The Social Issues Research Centre

2012

Tradução:  José A.S. Filardo – M.´. I.´.

“O FATOR COMUM É, E DEVE SER ACERCA DE DIVERSÃO E PRAZER”

 CONTEÚDO

 Prefácio de Nigel Brown Grande Secretário

 1 INTRODUÇÃO

1.1 métodos

1.2 relatório

2 Criando Vínculos

2.1 A necessidade de pertencer

2.2 Pertencimento – a visão do público

2.3 Afiliação – a visão dos maçons

3 Doar

3.1 o “problema” do altruísmo

3.2 Beneficência – A visão pública

3.3 Beneficência – a visão dos maçons

4 Ritual

4.1 rituais e rotinas – a visão do público

4.2 Ritual – a visão dos maçons

5 O futuro da maçonaria

6 Bibliografia e leituras selecionadas

“OS MAÇONS MODERNOS ESTÃO ANSIOSOS PARA  ACABAR COM OS MITOS  E EQUÍVOCOS QUE  HÁ MUITO TEMPO  CERCARAM A ORGANIZAÇÃO”

PREFÁCIO

À medida que o tricentenário da Grande Loja Unida da Inglaterra se aproxima, sentimos que é importante marcar a ocasião com um debate robusto e aberto sobre o que significa ser um maçom na sociedade contemporânea, e que isso vai significar para as futuras gerações. Como a mais antiga organização fraternal do mundo, a Maçonaria funda-se em princípios de honestidade, bondade e justiça – valores atemporais, que são tão relevantes para o mundo de hoje quanto eram trezentos anos atrás, quando foram estabelecidos.

Esses ideais se mantiveram inalterados ao longo da história da Maçonaria e, esperamos, continuem a fazê-lo, enquanto a organização prosperar. Mas, é importante notar que, enquanto mantém estes ideais centrais, a Maçonaria no século XXI tornou-se uma fusão do antigo e do novo, de tradição e inovação, e, portanto, se encaixa confortavelmente no mundo moderno.

“Maçons modernos estão ansiosos para acabar com os mitos e equívocos que há muito tempo cercaram a organização” Para fazer isso, ficou claro que precisávamos recorrer a ajuda de um órgão independente para embarcar em uma avaliação imparcial. Ao fazer isso, antecipamos a formação de uma discussão que não só ofereceria um relato aberto e transparente da Maçonaria para aqueles que estão fora da organização, mas também proporcionaria um ponto de vista renovado para aqueles dentro dela.

Foi com estes objetivos em mente que nos aproximamos do Social Issues Research Centre (SIRC) para realizar essa pesquisa. Além de oferecer a especialização antropológica que constitui o pano de fundo de grande parte deste relatório, eles se propuseram a compilar as visões e opiniões de um corte tanto de maçons quanto de não maçons. Como resultado, O Futuro da Maçonaria oferece um comentário perspicaz e oportuno, não apenas sobre a organização que se propôs a examinar, mas também sobre as complexas interações, percepções e valores da própria sociedade moderna.

Ao olharmos para os próximos trezentos anos, este relatório constituirá uma parte intrínseca de nossas discussões sobre a melhor forma em que Maçonaria pode evoluir, mantendo o carácter distintivo e os ideais que atraíram membros ao longo dos séculos, e esperamos fazê-lo pelos próximos séculos.

Nigel Brown

Grande Secretário

A Grande Loja Unida da Inglaterra

1 INTRODUÇÃO

O The Social Issues Research Centre (SIRC) teve a satisfação de ser contatado pelo Grande Secretário da Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE) para explorar o papel e a relevância da Maçonaria na sociedade de hoje e no futuro.

Em nossa pesquisa preliminar, consultamos alguns textos modernos sobre a Maçonaria, bem como recursos online para nos ajudar a identificar os temas centrais da pesquisa. Uma coisa que imediatamente se tornou evidente foi que a noção de Maçonaria como uma “sociedade secreta” era claramente inadequada. Em A Maçonaria: A Realidade, de Tobias Churton, por exemplo, encontramos mais ou menos tudo o que se precisava saber sobre os princípios centrais do movimento e os rituais a ele associados. Também fomos impactados por sua conclusão de que:

“A Maçonaria não pode ser para sempre associada à síndrome da sociedade secreta. Ela não é uma sociedade secreta, ainda que em caso de perseguição tenha tendido a ser discreta. Mas, uma sociedade saudável promoverá maior abertura e compreensão para todos. Não é bom para a Maçonaria se esconder; ela não tem mais segredos do ofício a defender”.

Um grande número de outros livros abriu o mundo da maçonaria à inspeção, incluindo detalhes de cerimônias de iniciação. O livro The Craft, de John Hamill, forneceu um relato muito útil das origens e da história da Maçonaria Inglesa, desfazendo uma série de mitos no processo, enquanto A Maçonaria: A Celebração do Ofício, editado por Hamill e Robert Gilbert ilustrou os ‘ideais’ e as ‘ virtudes’ da Maçonaria. Além desta leitura de fundo, examinamos o conteúdo do site da própria UGLE (www.ugle.org.uk ), que abriga uma série de informações e opiniões escritas por maçons seniores.

A resposta ao pedido do Grande Secretário começou a tomar forma. Nós nos propusemos a analisar a relevância de duas das principais doutrinas da Maçonaria no século XXI na Grã-Bretanha – as de “amor fraterno” e “ajuda” – traduzidas para os termos de ciências sociais mais familiares de “filiação” e “altruísmo” – e as questões que cercam a formação de vínculo masculino e a beneficência. Gostaríamos, também, de analisar se há um desejo de certo grau de ritual em nossas vidas modernas. Conversaríamos com membros de lojas em todo o país e as discussões seriam prospectivas – em que medida, na opinião deles, a Maçonaria pode/deve evoluir no século XXI? Para estas discussões tivessem lugar precisaríamos testar as alegações da Maçonaria de abertura e transparência.

Além disso, examinaríamos a conexão entre a Maçonaria e a comunidade mais ampla em grupos focais com os participantes que, até nosso melhor conhecimento, não seriam maçons. Com estes, estaríamos preocupados com as mesmas questões que nas entrevistas com maçons. Gostaríamos, por exemplo, de examinar a presença de, ou a necessidade de um elemento de ritual em nossas vidas; nossa necessidade de pertencer, as formas que expressar nossa generosidade em relação aos outros e à medida que nossas vidas cotidianas envolvem comportamentos rituais. Quão diferentes são os maçons de outras pessoas nesses contextos? Até que ponto a Maçonaria atende às necessidades atemporais, e quer que todos nós, de uma forma ou de outra, compartilhemos?

Este relatório é, até onde sabemos, um relato do primeiro estudo que já foi encomendado por maçons a uma entidade não maçônica. Nenhum dos membros do SIRC envolvidos no projeto é maçom, fato que provocou surpresa e foi igualmente bem recebido pelos membros da loja com quem nos reunimos. Muitos viram isto como uma oportunidade para comunicar “sobre o que é realmente a Maçonaria” a um público mais amplo e apresentar provas, se fosse necessário, da abertura prevalecente entre a fraternidade da Maçonaria.

Como estranhos, é claro, não experimentamos em primeira mão o que é realmente ser um maçom na sociedade pluralista de hoje, que é, em aspectos fundamentais, muito diferentes da que existia no início do século XVIII, quando a Maçonaria foi formada pela primeira vez. Enfrentamos o dilema do antropólogo social que, como um maçom colocou, só pode “arranhar a superfície” dos costumes tribais (normas e valores) que são o foco de seu estudo.

1.1 MÉTODOS

Os métodos que empregamos, embora reconhecendo as limitações de toda pesquisa etnográfica desta natureza, foram concebidos para fornecer o que é conhecido na antropologia como uma perspectiva “êmica” – um relato que se expressa dentro dos quadros de referência empregados por membros, em oposição a um quadro “ético” do entendimento de que é imposto a partir do ponto de vista do não membro. Realizamos entrevistas e discussões menos formais com cerca de 50 maçons em diferentes estágios de suas jornadas através da Maçonaria. Produzimos transcrições e resumos destas que, como em toda a pesquisa qualitativa do SIRC, foram “aprovadas” pelos participantes como refletindo exatamente as suas opiniões e percepções.

Conduzimos análise das transcrições utilizando o MAXQDA – software para o tratamento de dados qualitativos que permite a identificação eficiente dos principais temas dentro de relatos e as áreas de consenso e divergência. Transcrições dos dois grupos focais de não maçons foram submetidas à análise semelhante. Extratos de ambos os conjuntos de resumos foram usados livremente neste relatório para fornecer nossa leitura do saldo de pontos de vista dentro da Maçonaria que se relacionam com as questões fundamentais no âmbito da investigação.

1.2 RELATÓRIOS

Ao apresentar essas perspectivas, também fomos guiados por discussões com o Grande Secretário, Nigel Brown, sobre sua visão – que é compartilhada com os membros seniores dentro da organização – da direção em que a Maçonaria deveria agora estar se movendo, a fim de demonstrar seu verdadeiro papel e relevância na sociedade contemporânea. Dissipar mitos, efetivamente desafiar equívocos comuns e demonstrar sua verdadeira abertura tem sido apenas alguns aspectos da transição que já estão evidentemente em andamento.

Na seção final deste relatório, com base nas evidências disponíveis, tentamos identificar as mudanças específicas que já ocorreram dentro da Maçonaria nos últimos tempos, e onde poderiam se encontrar as oportunidades para demonstrar a abertura e transparência de que a organização agora se orgulha. Fizemos isso de um ponto de vista neutro e imparcial do “outsider”, mas que foi muito orientado por nossa compreensão dos pontos de vista internos, de modo a proporcionar uma conclusão para a tarefa que nos foi apresentada.

2 CRIANDO VÍNCULOS

2.1 A NECESSIDADE DE PERTENCER

Há uma necessidade atemporal e universal de as pessoas estabelecerem um sentido de pertença – sentirem-se enraizadas em uma comunidade de outros. Na hierarquia influente de Abraham Maslow das necessidades humanas, nossas exigências de contato social vêm depois somente das necessidades fisiológicas (ar, alimento, água e sono) e de segurança. Sem o vínculo social, de acordo com seu modelo, um sentimento de estima pessoal e o que ele chama de “auto realização” – atingir nosso pleno potencial – são impossíveis [i] Desde o tempo do estudo de Maslow, pertencer a um grupo e a centralidade que isso desempenha em nossas vidas representa uma grande parte da psicologia social. Roy Baumeister e Mark Leary, por exemplo, destacam que “A necessidade de pertença social, de nos vermos como socialmente conectados é uma motivação básica do ser humano.” [ii] Eles continuam observando que “um senso de conectividade social prevê resultados favoráveis… a percepção da disponibilidade de apoio social melhora a saúde física e mental.” Gregory Walton e Geoffrey Cohen[iii] assumem uma linha semelhante, examinando as maneiras em que um forte senso de identidade de grupo melhora o desempenho e o bem-estar em uma variedade de contextos. Muitos outros neste campo têm discorrido com mais detalhes sobre as maneiras em que os laços sociais são estabelecidos e as consequências negativas que surgem da alienação social ou simples solidão.

Na verdade, porém, não precisamos realmente de psicólogos para nos dizer o quão importante é, realmente, um sentimento de pertença. Todos nós sabemos disso – e todos nós provavelmente já experimentamos a sensação de dúvida pessoal e de baixo valor social, quando laços sociais próximos são interrompidos ou fragilizados. A frase “O homem é um animal social” pode soar um tanto banal, mas ela é, no entanto, verdade.

Como muitos outros aspectos fundamentais da condição humana, é provável que a nossa necessidade de afiliação social esteja implantada em nossos cérebros – não temos de aprender a partir do zero a buscar um sentido de pertença, nós o fazemos naturalmente. Conforme Mary Ainsworth[iv] e muitos outros pesquisadores destacam, essa propensão inata para o estabelecimento de laços sociais teve benefícios distintos para a sobrevivência e reprodução – por exemplo, a partilha de alimentos, parceiros em potencial, ajuda e cuidado com a prole, proteção contra rivais e uma maior eficácia na caça.

Na Maçonaria, é claro, o potencial para forte filiação e amizades duradouras é uma das principais atrações que todos os maçons identificam. Tal vínculo, contudo, é uma questão[v] totalmente masculina, encapsulada no conceito de amor fraternal.[vi]  Na sociedade contemporânea, onde instituições de gênero único desapareceram amplamente, o fato de que a adesão à loja é restrita a homens, e que aqueles vínculos maçônicos têm a ver somente com “irmãos”, pode parecer anacrônico. “Vínculo masculino”, no entanto, tem suas raízes em um período anterior da evolução humana – o período Paleolítico Superior ou Idade da Pedra Tardia, cerca de quarenta mil a cem mil anos atrás.

A Idade da Pedra Tardia foi a era das tribos de caçadores-coletores e durante este período a maior parte dos processos formativos que moldaram as formas em que nossos cérebros evoluíram e nossos comportamentos consequentes eram evidentes. Este período, anterior ao desenvolvimento da agricultura, é muitas vezes referido como aquele de ‘comportamento moderno’, pois vemos nele provas para o desenvolvimento de padrões de comportamento que são surpreendentemente semelhantes aos de hoje. Podemos pensar que somos agora muito diferentes do que éramos quando sobrevivíamos e prosperávamos através de caça e coleta, mas, na verdade, evoluímos muito pouco como uma espécie desde aqueles tempos.

O papel das mulheres (principalmente), como coletores de frutas silvestres, nozes, etc., e dos homens (principalmente) como caçadores de proteína animal, lançou as bases para a separação de papel dos gêneros que ainda molda nossas vidas. Os homens tornaram-se caçadores por causa de sua (pequena) vantagem fisiológica sobre as mulheres em termos de força física e velocidade de corrida. Através da seleção natural, essas diferenças foram reforçadas e refletidas nas formas em que as comunidades Idade da Pedra Tardia se organizaram.

“NA MAÇONARIA O POTENCIAL DE FILIAÇÕES FORTES E AMIZADES DURADOURAS É UMA DAS PRINCIPAIS ATRAÇÕES QUE TODOS OS MAÇONS IDENTIFICAM”

No livro de Lionel Tiger, Homens em Grupos – Um olhar controverso de sociedades totalmente masculinas,[vii] ele observa:

Minha proposta é que a especialização para a caça aumentou o fosso entre o comportamento de homens e mulheres. Isso favoreceu aqueles “pacotes genéticos” que organizaram as coisas de modo que os homens caçassem cooperativamente em grupos, enquanto as mulheres se dedicassem a atividades maternais e de coleta. “

É este legado de longa data de vínculo masculino, argumentam Tiger e outros, que sobrevive em tempos modernos, de várias formas.

Isso não quer dizer que vínculos entre mulheres eram e são menos fortes. Fraternidades masculinas são espelhadas por irmandades femininas de todos os tipos – desde o Instituto das Mulheres até redes sociais femininas menos formais. É também o caso que, enquanto a UGLE não admite mulheres, há duas ordens de mulheres maçons que seguem cerimônias e tradições masculinas sem grandes adaptações – mesmo referindo-se umas às outras como “irmão”. Além disso, embora a adesão às lojas seja restrita aos homens, as mulheres estão longe de serem excluídas de visitá-los, como veremos na Seção 2.3.

2.2 PERTENCER – A VISÃO DO PÚBLICO

Em grupos focais, exploramos a visão dos participantes de onde eles tinham um sentimento de pertença e da importância que eles atribuíam a ele. Houve poucas surpresas em qualquer das discussões. Trabalho anterior do SIRC[viii] já havia estabelecido as principais fontes de um senso de identidade social, originário de famílias e amigos até afiliações profissionais e equipes de esportes. Essas noções foram reforçadas nas sessões de grupo mais recentes.

Houve um consenso generalizado entre outros participantes, no entanto, de que eles tinham uma forte necessidade de pertencer a algum lugar ou pessoas definíveis. Para alguns, um sentido de identidade era motivado, sobretudo pelo sentimento de pertença à família, enquanto que para outros, e a maioria, eram suas redes sociais de amigos que eram mais dominantes neste contexto. O participante seguinte sublinhou que suas redes sociais ofereciam mais do que apenas a oportunidade de se reunir e socializar; elas eram mais complexas do que isso. Ao invés, proporcionavam um processo de auto enriquecimento de mão dupla:

“Algo que vem de ter uma rede social, pessoas que você vê regularmente; você se tornará parte daquilo com seu próprio conjunto de “eu sou bom nisso, eu gosto disso” e de conhecer pessoas melhora sua própria visão daquilo em que você poderia estar interessado se expande muito. Você pode encontrar-se catapultado sobre várias etapas do saber um pouco sobre algo, de repente se encontrando sabendo muito sobre alguma coisa. Dependendo de como você trata suas amizades. Não se trata apenas da rede de apoio, eles lhe enriquecerão e você, os enriquecerá partilhando o que [você sabe ou desfruta].”

O conceito de amigos fundamentais é aquele com o qual muitos de nós estamos familiarizados, e que certamente fez coro com muitos dos maçons com quem

falamos. Amigos íntimos, ao que parece, são aquelas relações especiais que são seguras o suficiente para não exigir contato diário. Eles são construídos sobre uma base de experiências comuns, valores compartilhados e circunstâncias. Encontrar-se com amigos íntimos foi descrito por membros dos grupos focais como semelhante a “voltar para casa”.

‘… mais importante para mim é este grupo de amigos íntimos. Não importa se eu não falar com eles por um ano; sempre que eu faço é exatamente a mesma coisa. Eles são apenas cinco ou seis, mas eu sei que sempre conhecerei essas pessoas, e sempre terei algo em comum com essas pessoas pelo resto da minha vida. ”

Outros sublinharam o papel da comunidade local, bem como de redes específicas de amigos como fundamentais para os seus sentimentos de pertencimento:

“O que os define são a rede de apoio, bem como amigos e bons momentos. Se eu entro em uma loja local e me faltam dez pence, ele vai deixar-me levar e dirá “Não se preocupe, traga na próxima semana.” É aquela ideia de que as pessoas se conhecem e podem apoiar uns aos outros um pouco ‘.

“Como esperávamos, houve uma clara divisão entre os ‘participantes’ e os ‘não participantes”. Enquanto alguns participam ativamente de organizações, clubes e sociedades com a intenção de ampliar suas redes sociais, outros claramente preferem manter-se entre as redes informais existentes de amigos, familiares e vizinhos. Um “participante” masculino, comentou:

“Eu sou definitivamente um participante. Eu me mudei um pouco por ai e em toda parte em que eu fui eu sempre participei de clubes desportivos, especialmente equipes de futebol. Tem sido um verdadeiro salva-vidas às vezes porque você encontra pessoas que estão nas mesmas coisas e que, então, leva a outras coisas. Com os times de futebol de que você participa… você tem uma cena social pronta; você é convidado para trabalhos, para o bar, jantar, cinema, e isso cresce como bola de neve e você conhece outras pessoas”

Uma participante do sexo feminino também disse:

“Eu sempre participei de grupos; gosto de conhecer pessoas, e pessoas de diferentes origens. Eu gosto muito de estar entre pessoas que não são do mesmo meio socioeconômico ou educação. Eu sempre gostei de diferentes grupos de pessoas, porque eles lhe dão, e você lhes dá coisas diferentes na vida”.

Em contraste, outro participante do sexo feminino se baseava muito mais na sua rede de colegas de trabalho e não estava disposta a participar de outros grupos que pudessem reduzir o tempo que ela passava com eles.

“Eu não sou um participante… eu gasto tanto tempo no trabalho que eu simplesmente não quero. É realmente muito ruim, [pois] eu gosto de conhecer novas pessoas; gosto de coisas diferentes e quero ir até lá e fazer coisas diferentes. Mas, eu passo tanto tempo no trabalho que sinto que estaria negando a mim mesmo meu próprio tempo livre. Eu tenho uma boa rede social no trabalho, e eu realmente me dou bem com as pessoas com quem trabalho. Dois ou três deles estão começando a entrar no meu grupo íntimo de pessoas. As pessoas participam da equipe e deixam a equipe, e há uma série de personalidades diferentes lá.”

Tudo isso era um território familiar. Foi, no entanto, quando mudamos a conversa para o assunto de grupos do mesmo sexo que surgiram problemas. Entre alguns dos homens nos grupos em particular, houve uma forte relutância em acreditar em (ou admitir) a atração dos grupos exclusivamente masculinos. Um deles comentou:

“É bravata e que não é necessariamente o vínculo que você está procurando.”

Outros concordaram e sugeriram que esta necessidade de “estar apenas com os caras” era ultrapassada. Um participante disse:

“Eu sempre tive muito amigas realmente íntimas, assim como amigos, assim eu nunca pensei em [grupos exclusivamente masculinos]. Eu não mudo meu comportamento entre os dois…”

Houve um distinto senso de politicamente correto nos grupos com homens temendo, talvez, serem rotulados como chauvinistas se alegassem querer estar mais na companhia de homens ao invés de grupos mistos. Quando esta “correção foi desafiada”, no entanto, alguns sentimentos bastantes mais reveladores foram expressos. Um deles disse:

“Eu não acho que eu conscientemente faça isso [buscar grupos exclusivamente masculinos] só parece funcionar dessa maneira.”

Outro falou de seus vínculos com outros jogadores em seu time de hóquei:

“Isso é exatamente o que temos no clube de hóquei, realmente. Eu acho que serve a algum tipo de finalidade. Você pratica o esporte, você sai e socializa e bebe juntos e tem este vínculo ligeiramente exclusivo abertamente masculino. A ideia é que você faz isso quando vem jogar, você dá um pouco mais ao outro porque você vem fazendo seja o que for na noite anterior.”

Houve muita menos relutância, no entanto, entre as mulheres participantes em reconhecer o valor de vínculos exclusivamente femininos:

“Não é apenas um caso de todos gostarem das mesmas coisas, não é isso. É realmente os valores fundamentais nessas pessoas que você respeita e gosta e as características. Estes são exclusivamente mulheres. Eu tenho um monte de amigos, bem como um monte de amigas, mas este núcleo é feminino. ”

2.3 – FILIAÇÃO – A VISÃO DOS MAÇONS

Embora os sentimentos expressos nos grupos focais refletissem a forte necessidade contínua nas sociedades humanas de um sentido de identidade social e pertencimento, houve considerável divergência sobre como isso poderia ser mais bem alcançado. Entre os maçons que entrevistamos, no entanto, havia muito menos dúvidas.

O Grande Secretário da UGLE, Nigel Brown, destacou que a Maçonaria é essencialmente uma organização social:

“O mais importante é que [a Maçonaria] não é prescritiva e que a maioria das pessoas participará porque um amigo ou alguém de sua confiança perguntou se eles estavam interessados. Não é mais profundo do que: “Eu acho que você vai desfrutar da companhia das pessoas… que você vai encontrar.”

Este principal motivo para participar da Maçonaria, em primeiro lugar foi repetido por outros maçons de todo o país. Eles foram atraídos pelo potencial de uma rede de amizade ampliada e um forte senso de vínculo social que, eles acreditavam, as lojas proporcionariam. Os aspectos rituais que distinguem a Maçonaria da maioria das outras sociedades também foram vistos por muitos como reforço do potencial de ligação social:

“É o sentimento de simplesmente pertencer a algo”.

Na escola você tem seus colegas. Depois da escola eu entrei nas [forças armadas]; você tem os caras em torno de você e você tem esse sentimento de pertencimento. Em seguida, após as [forças armadas] entrei para o clube de ciclismo. Então saí dessa dele e não tinha nada a que eu me sentisse pertencente. Isso [a oportunidade de me juntar os maçons] apareceu e eu pensei: “perfeito”.

Acho que meu senso de ritual é que eu preciso pertencer a algum tipo de grupo. O aspecto ritual aumenta a sensação de pertencimento. Claro que sim. Você faz parte do trem condutor. Eu não sou um daqueles de sentar nas linhas laterais, fico entediado muito facilmente e eu tenho que me envolver. “

Outros enfatizaram o grau de confiança que estar em um grupo de companheiros maçons proporcionava:

“Há algo especial sobre os vínculos que você desenvolve dentro da loja, absolutamente. Do meu ponto de vista, é a confiança. Na Maçonaria as pessoas não estão lá para tirar coisas de você, na verdade é o inverso. A Maçonaria simplesmente está lá [a este respeito]. Eu voo, eu jogo golfe – estas são [atividades] bastante individuais. No golfe [e outros esportes competitivos], você descobre que as pessoas vão lhe humilhar, sua etiqueta ou a maneira de se vestir, mas em maçonaria você não tem isso. Em noventa e nove por cento dos casos, eles estão lá para ajudá-lo … É algo muito especial.”

Este senso de confiança dentro da loja, outros maçons acharam, estendeu-se além dos seus limites físicos para a comunidade em geral. Um deles disse:

“O que isso significa para mim é que eu não acredito que todo mundo é um vilão como eu fazia antes… Eu costumava desconfiar das pessoas e agora eu não desconfio. Especialmente se eles são maçons eu sei que eles não estão lá para me fazer algum mal. As salas cheias de amigos, alguns que você nunca encontrou antes, mas eles são todos seus amigos. Esse é o relaxamento que eu consigo e estou preparado para fazer qualquer coisa por qualquer um agora, não apenas outros maçons e isso me acordou ao longo dos últimos anos. Quando estava ativo, eu era uma pessoa muito ambiciosa e todas as falhas que acompanham isso, agora eu percebo que as outras pessoas são mais importantes do que eu. Eu não sei se isso vem com a idade ou com a maçonaria, mas vou creditar a maçonaria por isso e eu mudei a minhas opiniões.”

Este tipo de “transformação” através da Maçonaria também se estendeu, conforme observamos em outro lugar, em aumento da confiança e da capacidade de se colocar diante de grupos de pessoas e falar sem nervosismo ou constrangimento.

Um maçom falou neste contexto do aumento do senso de tolerância que ele tinha desenvolvido depois de entrar na loja:

“Eu sou muito mais tolerante com outras pessoas do que costumava ser. Se alguém está com raiva ou chateado com alguma coisa, eu tentarei acalmá-lo e lhes dizer: “Isso é realmente importante o suficiente para se preocupar”?” Certamente dentro da loja tem havido algumas pessoas que precisavam de um pouco de ajuda, ou mesmo orientação. Se você pode mostrar-lhes que eles são valorizados … desde que você adote a mesma política para irmãos quanto para aqueles que não estão na Maçonaria, você vai longe. O amor fraternal não é apenas para aqueles dentro da Maçonaria, você tem que expressá-lo a outras pessoas também. Tem que ser uma parte de você, em oposição a algo que você só pratica dentro da loja. ”

Outros enfatizaram as maneiras pelas quais suas competências sociais e de confiança se desenvolveram por ser um membro de loja:

“Obviamente, a vida social é muito boa e você conhece pessoas. Outra coisa que eu encontrei é que ajuda você a falar com as pessoas. Eu costumava ser um pouco tímido e falar com as pessoas é muito mais fácil quando você está na Maçonaria. Você tem que falar muito… o que ajuda um bocado com a autoconfiança e esse tipo de coisa.”

Neste caso, é claro, que a quantidade de tempo gasto pelos maçons em suas lojas, ou mesmo na companhia de outros maçons pode ser relativamente limitada. Para alguns, é uma questão de apenas três a seis reuniões por ano, enquanto que outros que ocupam cargos específicos dentro de uma loja vão dedicar muito mais do seu tempo. É esta flexibilidade que é vista por muitos maçons como uma proposta atraente, acomodando tanto aqueles com tempo livre limitado quanto aqueles com muito mais tempo.

O sentido do desenvolvimento pessoal expresso por maçons foi particularmente marcante.

‘… você olha para as pessoas de forma diferente depois de um tempo. Eu acho que você tende a olhar para os seus pontos positivos ao invés dos negativos… Algumas das pessoas de quem você não gostava, de repente você descobrir que elas têm seus pontos positivos. Você precisa ajudar as pessoas e você precisa ser tolerante. A Maçonaria efetivamente lhe ensina a paciência. ”

Em nossas entrevistas com maçons, levantamos as questões específicas da criação de vínculos masculinos. Havia algo de especial sobre o fato de que “amor fraternal” tratar-se, ao que parece, de grupos de homens ao invés de homens e mulheres?

“A Maçonaria é um coisa de macho. Se você está procurando por algo que é para ambos os sexos, então, há outras coisas lá fora. Para mim, definitivamente, e acho que posso falar por praticamente todos os outros caras. Acho que você precisa dessas oportunidades de grupos exclusivamente masculinos lá fora.”

A maioria dos maçons sentia que havia uma forte necessidade de os homens serem capazes, por uma pequena parte de seu tempo, de estar exclusivamente na companhia de outros homens. Isto, combinado com os comportamentos rituais compartilhados que caracterizam a Maçonaria, é o que aprofunda os laços. Tal vínculo ocasional, no entanto, não pareceu diminuir as motivações dos maçons e as habilidades de interagir com mulheres – em suas famílias, seu local de trabalho ou a comunidade em geral. Em todas as lojas que visitamos, houve ocasiões regulares em que os membros estavam acompanhados por suas parceiras e membros da família do sexo feminino para funções sociais e “sessões brancas”. Os dias abertos regulares organizados por muitas lojas eram igualmente aberto a ambos os sexos.

Outro aspecto dos vínculos estabelecidos nas lojas era que eles transcendiam as demarcações tradicionais de status social e riqueza. Os maçons viam as lojas como grandes “niveladores”. Um deles observou que quando estavam todos de pé em ternos escuros vestindo aventais e luvas brancas, seria difícil dizer quem fazia o quê. Esta observação é interessante, e uma das principais razões pelas quais os membros são obrigados a deixar seus “trabalhos do dia” (e também seus pontos de vista políticos) na porta, antes de entrar na loja. Discussões políticas não são permitidas em reunião na loja ou em outro lugar dentro da Maçonaria, e nem é uma rede de negócios – os maçons são proibidos de usar a associação para se promover, ou promover negócios, interesses pessoais ou profissionais de qualquer outra pessoa.

O Grande Secretário também destacou o caráter de nivelamento da maçonaria:

“Vivemos em uma sociedade muito diversificada. A alegria da Maçonaria é que os membros vêm de todas as raças, religiões e todos os níveis socioeconômicos da sociedade. Então, na verdade você tem um mix completo de pessoas sentadas lado a lado em harmonia e igualdade. E eu diria a você, que outras organizações podem fazer isso em um mundo que está cheio de conflitos?

As razões oferecidas para se tornar um membro de loja em primeiro lugar eram tão variadas quanto os próprios maçons. Para alguns, foi o fato de que alguém na sua família era, ou tinha sido um membro. Para outros, foi um encontro casual com um maçom existente que articulou os benefícios de se tornar um membro. E, na sua maior parte, foi a ênfase colocada na rede de amizades em que eles seriam iniciados e que foi o fator decisivo.

Os maçons não promovem qualquer recrutamento ativo, embora aproveitem as oportunidades para defender sua organização diante de estranhos. E enquanto a maioria dos novos membros passa por processos informais de admissão, algumas lojas adotam procedimentos mais formais. O Grande Secretário explicou:

“Algumas pessoas ingressam através de um [processo] muito mais oficial. Eles podem ter sido recebidos por um comitê e as esposas ou companheiras teriam sido visitadas. Mas, essencialmente, quando você ingressa, como em qualquer clube, precisa de um proponente e um apoiador. Na reunião antes de você ser iniciado haveria uma moção, bastante curta, mas se o proponente e o apoiador são pessoas respeitadas, isso é mera formalidade. Então, na reunião seguinte, há uma votação… E então o cara é iniciado.”

Uma rota um pouco menos formal, no entanto, é mais comum, mesmo sendo necessária a aprovação em algum lugar ao longo da linha por um comitê. Como lembrou um membro de loja:

“Fiz algumas perguntas: “O que é isso? Por que você faz isso? O que você ganha com isso? ”Foi-me explicado que você se encontra com um grupo de pessoas. Todos vocês se conheceram com base na mesma premissa de que vocês se reúnem para passar umas horas agradáveis. Você faz um pouco de ritual. Isto foi explicado a mim na época como uma peça de Shakespeare; ela pode parecer um pouco complicada até que alguém explique alguns dos significados dela e [isso inicialmente] você pode não apreciar completamente a verdadeira mensagem subjacente”.

Outro ingressou na Maçonaria, através das redes sociais:

“Eu conhecia alguns maçons, mas não era algo que eu realmente queria fazer ou algo que eu quisesse escolher. Foi exatamente isso. Eles eram amigos e íamos a fins de semana das esposas e… eles deram a entender que seria um bom Maçom, e um dia eu disse: “Ok, caras, vamos fazê-lo”. Foi uma decisão no momento e eu acho que posso dizer honestamente que eu nunca olhei para trás.”

Outros maçons ingressaram na organização depois de fazer algum dever de casa:

“Havia algumas coisas bastante específicas sobre a Maçonaria que me atraíam: beneficência, [e] a capacidade de me abrir para a sua rede social. Muitas pessoas parecem encontrar barreiras para conhecer pessoas fora de seus próprios grupos socioeconômicos e a Maçonaria afasta isso completamente. Muito cedo, antes que fosse iniciado, o comportamento que eu via dos maçons era de aceitação e confiança. Eu fiz alguns bons amigos aqui e isso me permitiu socializar mais.”

OS MAÇONS SÃO PROIBIDOS DE USAR SUA CONDIÇÃO PARA PROMOVER SEUS PRÓPRIOS INTERESSES, OU INTERESSES COMERCIAIS, PROFISSIONAIS OU PESSOAIS DE OUTRAS PESSOAS.

A ênfase, então, para a maioria dos maçons, é a natureza sociável da organização. Embora alguns possam enfatizar a atração dos aspectos de beneficência de ser um maçom e outros a atração de encenar peças de um ato nos rituais, a atração principal é o que eles esperam que seja um ambiente de sociabilidade agradável que transcenda as habituais barreiras de classe social.

A questão da ‘diversão’ e seu apelo imediato também foi mencionado por vários dos maçons entrevistados – especialmente no contexto dos rituais. Enquanto para estranhos estes possam parecer bastante sérios, os próprios maçons os veem de forma muito diferente.

“Sim, nós nos divertimos imensamente com a nossa atuação. Se não fosse agradável, não estaríamos fazendo aquilo. Tem que ser divertido e eu me certifico de que seja divertido. ”

Esta questão foi também algo que foi muito salientado pelo Grande Secretário:

O fator comum é e deve ser de acerca de diversão e prazer. Não queremos pessoas entrando que se levam demasiado a sério ou que tomam muito a sério a Maçonaria. ”

A ideia de que a Maçonaria é algo que não deva ser levado muito a sério pode chocar as pessoas de fora como surpreendente – afinal esta é uma organização que remonta ao século XVIII e está rodeada por tradição, pompa e comportamentos cerimoniais que estão associados a forte imperativos morais. Tal visão também está um pouco em desacordo com alguns maçons que levam seu Ofício como algo mais sério, como observamos na Seção 4.2.

“UMA CONSEQUÊNCIA DO QUE PODERÍAMOS DESCREVER COMO “INSTINTO DE DAR” É QUE ALGUNS MEMBROS TERÃO, EM TERMOS SIMPLES, MAIS DO GENE ALTRUÍSTA DO QUE OUTROS”.

3 DOAR

3 3.1 O “PROBLEMA” DO ALTRUÍSMO

O fato de que, universalmente, as pessoas estão preparadas para agir de maneira que beneficiem outros a um custo para si há muito tempo apresentou um problema para as ciências sociais e biológicas – e particularmente para as teorias da evolução. A premissa fundamental da biologia evolutiva, por exemplo, é que os custos e benefícios são medidos em termos de “aptidão reprodutiva” – a capacidade de um animal de acasalar e produzir descendentes, garantindo assim o futuro de seus genes. Isto se aplica aos seres humanos, tanto quanto a qualquer outra espécie do planeta. A difícil questão aqui, porém, é que essa forma de seleção natural opera sobre o indivíduo e não em nível de grupo. Ela é a capacidade de se espalhar meus genes, ou de meus parentes próximos que partilham os meus genes, e não aqueles de membros independentes de minha tribo ou grupo social.

É verdade que estamos mais dispostos a fazer o maior sacrifício para o benefício ou a sobrevivência de nossos parentes mais próximos. Se eu salvar a vida de, digamos, o meu filho enquanto perco a minha própria, eu terei garantido que a parte de mim que é meu filho (meus genes) sobreviverão em uma geração futura. Mas, por que devemos ajudar os nossos vizinhos ou aqueles em partes do mundo que nunca conheci, e nunca conhecerei?

Podemos, é claro, argumentar que a teoria da evolução não mais se aplica à raça humana e que fomos além das forças que moldam a vida dos animais inferiores. Somos seres conscientes, cujas vidas são dirigidas mais por códigos morais do que por instintos básicos. E mesmo assim, talvez desconfortavelmente, o altruísmo é tão em evidência em aves e mamíferos quanto é em nós. Muitas espécies soam o alarme para seus companheiros quando identificam um predador por perto, expondo-se a um risco considerável, ao se tornar mais visível. Esses tipos de comportamento altruísta são os mesmos que aqueles que vemos como características fundamentais de uma raça humana “civilizada”.

O próprio Charles Darwin era intrigado com isso – sua teoria da seleção natural – muitas vezes inadequadamente descrita como “sobrevivência do mais forte” – com sua ênfase no indivíduo, não funciona muito bem. Por um lado, ele argumentava que “Aquele que estava pronto para sacrificar sua vida, como mais de um selvagem esteve… não deixaria filhos para herdar sua natureza nobre.[ix] ‘(1) Implacável, no entanto, e quase por passe de mágica, ele introduziu uma qualificação substancial:

“Uma tribo incluindo muitos membros que, por possuir em alto grau o espírito de patriotismo, fidelidade, obediência, coragem e simpatia, estivesse sempre pronta para ajudar uns aos outros, e se sacrificar pelo bem comum, seria vitoriosa sobre a maioria das outras tribos, e esta seria a seleção natural ‘ . [x]

O que temos aqui agora é um foco no grupo, ao invés de interesse individual. Tal ênfase não deixa de ter seus críticos, entre eles Richard Dawkins.[xi] Perspectivas atuais, no entanto, em geral apoiam a visão de que os genes que nos levam a ser generosos com nossos parentes também podem nos levar a expressar o altruísmo de uma forma mais generalizada, desde que isso não reduza a nossa aptidão pessoal até um grau prejudicial. Um produto vantajoso disso é o aumento da aptidão da tribo, comunidade ou sociedade em que vivemos que, por sua vez, aumenta o que é conhecido como adaptação ‘inclusiva’ – uma noção que abrange a aptidão pessoal de uma pessoa mais a aptidão de todos os membros das espécies na população.[xii]

Uma consequência do que poderíamos descrever como “instinto de dar” é que alguns membros terão, em termos brutos, mais do gene altruísta que outros. Nós, como no reino animal, sempre temos ‘caronas’ – aqueles que se beneficiam do altruísmo dos outros dando pouco ou nada em troca. Mas isso, em si, não representa um problema grave até que os doadores são superados em número pelos receptores. A seleção natural, ao que parece, é voltada para a prevenção deste estado de coisas.

Embora nossa predisposição para dar aos outros e às nossas famílias, em particular, parece ter uma base biológica, há muitas outras formas de explicar atos altruísticos individuais. Uma maneira óbvia é o sendo de retidão moral que vem com atos de beneficência – nós sentimos melhor sobre nós mesmos depois de “fazer o bem” desta forma e que nos permite confirmar as nossas auto percepções positivas. Este fator “sentir bem”, no entanto, também pode ter raízes biológicas. Estudos recentes indicam que os atos de beneficência acionam centros de recompensa do cérebro e aqueles associados a emoções e comportamento social.[xiii]  Há também aumentos na secreção de dopamina neuroquímica, novamente levando às sensações de recompensa, nestes momentos. Estes, por sua vez, são responsáveis pelo “brilho caloroso” que experimentamos – não é algo que “inventamos”, ele já está ligado em nossos cérebros.

3.2 – BENEFICÊNCIA – A VISÃO DO PÚBLICO

Os britânicos, em geral, são ao que parece um povo generoso quando se trata de fazer beneficência, em comparação com muitas outras nacionalidades – aparecemos em oitavo lugar entre 153 países e está em terceiro lugar junto com a Tailândia em termos de doar dinheiro ao invés de tempo. Somos vistos por estrangeiros, incluindo americanos, canadenses, franceses e cinco outras nacionalidades, como sendo as pessoas mais generosas no mundo.[xiv]  Em 2009, 73 por cento da população britânica fez uma doação para a beneficência. Doações por débito direto em 2009 somaram £ 26 milhões, com a contribuição média individual em 2008 de £ 12,26. Apesar da recente recessão este nível de doação caiu apenas ligeiramente para £ 11,95. As beneficências realmente experimentaram um aumento de rendimento naquele ano. Aquelas que trabalham com crianças, jovens e famílias têm os mais altos níveis de doação média, de £ 13,11.

Scott Gray, o Diretor Gerente da Rapidata Services que coleta essa informação, comentou sobre as tendências observadas:

“Podemos ver este comportamento dos doadores em temos coletivos como generoso e empático. Principais conclusões… mostrou que as nações mais felizes, e não necessariamente aquelas mais ricas, provável doarão quantias maiores para a beneficência, que ajudar estranhos foi a principal forma pela qual o mundo como um todo (45 por cento) dá para a beneficência e que, globalmente, quanto mais velhos ficamos, mais provavelmente doaremos para beneficência.”

Tais formas de generosidade do povo britânico, tanto em termos de doações monetárias e de doar tempo para trabalho voluntário, foram refletidas nos comentários dos participantes de nossos grupos focais. Um deles salientou que a sua vida ocupada no trabalho significava que ele era incapaz de dedicar tempo ao trabalho voluntário, mas estava feliz em contribuir com dinheiro:

“Para mim eu dou financeiramente e não em termos de tempo. Eu tenho muita coisa no trabalho e com a faculdade e tudo o mais seria demais. Eu gostaria de fazer coisas, mas no momento simplesmente não é possível.”

Em contraste, uma participante do sexo feminino aposentada disse:

É mais fácil para mim doar tempo agora, porque estou aposentada. Eu trabalho duas tardes por semana em uma loja de Oxfam, e coloco preços em seus livros colecionáveis para eles em casa às vezes. Eu sempre acreditei em – Eu não tenho certeza se “dar algo de volta” é a frase certa… dar em termos de tempo, esforço e dinheiro. Uma das melhores coisas que fiz recentemente foi patrocinar um cão-guia para cegos. Não custa muito e você recebe atualizações sobre este filhote… eu acho que faz parte da vida, se preocupar com coisas e se preocupar com pessoas fora você mesma. Os anos oitenta eram muito “eu, eu, eu” e eu cresci em uma época em que você realmente pensava sobre o que mais estava acontecendo no mundo e sobre as pessoas que eram menos afortunados em uma variedade de maneiras. Eu sempre fui interessada nisso e recebo muito dele também.”

“EU ACHO QUE É PARTE DA VIDA, ESTAR PREOCUPADO COM AS COISAS E ESTAR PREOCUPADOS COM AS PESSOAS ALÉM DE SI MESMO”

Outros, e mulheres em particular, enfatizaram mais a obrigação de fornecer ajuda em nível local e familiar:

“Eu acredito realmente que a beneficência começa em casa. Eu acho que não tem sentido doar dinheiro se você não é digno e útil para as pessoas ao seu redor, especialmente com seu tempo.

“Eu preferiria sentar com uma pessoa idosa por uma hora do que dar cinco libras ao abrigo onde eles estão vivendo. Eu sei realmente que aquela pessoa quer contar suas histórias para mim e quer bater um papo. E, na verdade, eu ganho muito com isso. As pessoas mais velhas que eu conheço gostam de ter essas conversas com as pessoas.”

Tomando uma linha um pouco diferente, os homens falaram mais sobre débitos diretos que tinham tirado a fim de apoiar grandes instituições de beneficência:

“Eu tenho dois débitos diretos que saem a cada mês; uma para Pesquisa sobre o Câncer e outro para a Anistia.”

“Eu tenho um débito [direto] para Marie Curie e dou um pouco a cada mês. Eu não sinto que tenha uma enorme quantidade de tempo, enquanto que dez anos atrás eu costumava dar algumas aulas de matemática, que eram gratuitas, ajudando as pessoas que tinham alguma dificuldade com os números.

Espero que no futuro tenha mais tempo para doar. “

Havia também preocupações expressas nos grupos focais sobre quanto das doações monetárias de fato chegam aos destinatários da ajuda, ao invés de serem engolidas por custos de administração e salários:

Metade da batalha com as pessoas é a apatia: “Qual é o ponto em fazer isso porque você sabe que metade dele está indo para algum outro lugar?” Se era absolutamente visível que digamos 80 por cento estava indo para uma boa causa, então as pessoas realmente dariam mais.

As recompensas que vêm de se envolver em atos de beneficência foram subavaliadas no grupo. A ênfase esteve nos benefícios para os destinatários de altruísmo seja em termos monetários ou como resultado de assistência ativa através da doação de tempo e esforço. Um participante, no entanto, havia mencionado que ele tinha feito “alguma carpintaria para a pré-escola local e… evitado para elas a despesa de contratação de alguém para fazê-lo”. Outro participante perguntou: ‘Você se sentiu melhor por fazer isso por eles?’ ‘Sim’, ele respondeu: ‘você está certo, eu provavelmente obtive – talvez – algum “ganho filantrópico”. Esta noção de “ganho filantrópico” é interessante e confirma muito da teoria psicológica que aborda a questão do altruísmo.

3.3 – BENEFICÊNCIA – A VISÃO DOS MAÇONS

Em nossas discussões iniciais com o Grande Secretário, ele fez o que nos pareceu ser uma observação interessante sobre o papel da beneficência dentro da Maçonaria:

“Para ser absolutamente claro, não é a Maçonaria que está fazendo qualquer bem na comunidade, por que”… ela não é um movimento político e não tem influência. Eu preferia que você olhasse para isso ao contrário. Uma pessoa em sua comunidade está desempenhando um papel integral? Seja em uma grande cidade ou uma comunidade rural, aquela pessoa decente está desempenhando um papel integral em sua comunidade? [É provável que você obtenha uma gama bastante ampla de respostas] desde absolutamente zero de contribuição até para aquelas muito grandes, porque você tem toda a gama. Ele pode ser um sacristão, comandar comissões, ou estar na junta da paróquia e este tipo de coisa. De um modo geral temos essas pessoas decentes vivendo no seio de suas comunidades, e… entre as muitas coisas a que pertencem, eles são também maçons.

Esta suave diminuição da importância do papel da Maçonaria como uma organização de beneficência é compreensível, embora um dos seus princípios centrais ou ‘virtudes ‘ seja a noção de ‘ajuda’ – ‘doação para beneficência e atividades para auxiliar o bem-estar de maçons e da comunidade como um todo’. A ênfase é colocada sobre o papel e a responsabilidade moral do indivíduo, ao invés de sobre a organização em si.

A Grande Beneficência dos Maçons que recebe pouca atenção nos meios populares, doa cerca de metade do seu rendimento a causas não maçônica em níveis internacional, nacional e de comunidade local. Ela é, dependendo de quem você ouve, o segundo ou terceiro maior contribuinte para beneficência da Loteria Nacional. O fator importante aqui, entretanto, é que o dinheiro vem ‘do próprio bolso dos maçons’ e não a de “sacolinhas” ou outras atividades de levantamento de fundos. E eles parecem se beneficiar de saber como seu dinheiro é gasto.

Alguns maçons consideraram que esta oportunidade de ter uma influência direta e pessoal em causas filantrópicas foi uma das razões pelas quais eles aderiram à organização, em primeiro lugar. O Grande Secretário, no entanto, pensava que o problema era um pouco mais complexo:

“Você vai descobrir ao conversar com os membros, que a coisa mais fácil [para eles] é falar sobre beneficência. Mesmo assim, eles não aderiram para fazer beneficência… uma das principais coisas é que estamos procurando pessoas que sejam cavalheiros (que não é uma classificação social) que considerem as necessidades dos outros. E, portanto, quando entra, você tem uma evolução natural naquele processo de pensamento – pensando nas necessidades dos outros, você então pensaria em coisas beneficentes, tanto no sentido de dinheiro físico, que sai do seu próprio bolso, porque nós não fazemos qualquer angariação de fundos, bem como doar tempo e experiência.”

“DOAR DINHEIRO É FÁCIL, MAS DOÁ-LO À PESSOA CERTA PODE SER UM POUCO MAIS DIFÍCIL. O QUE EU NÃO QUERO É O PROBLEMA DE FAZER ESSA ESCOLHA. SE EU O DOÁ-LO AOS MAÇONS ENTÃO EU SEI ONDE ELE ESTÁ INDO”

A questão de beneficência, então, é vista como sendo aquela que é desenvolvida pela Maçonaria e sua ênfase em códigos morais e ‘verdade e integridade’, ao invés de ser a atração mais alta da organização desde o início. Um maçom comentou:

“Eu não topei com o lado beneficente até ter entrado.”

Outro, entretanto, havia reconhecido a atração do lado beneficente de ser maçom, mas em um contexto mais amplo:

“E [beneficência] é outra coisa que me atraiu para [a Maçonaria]. É fácil dar na Maçonaria porque nós nos divertimos ao mesmo tempo.”

Em nossas entrevistas com maçons de todo os países membros, eles frequentemente se referiam às oportunidades que a organização oferecia não só para dar, mas, ao mesmo tempo, saber onde seu dinheiro estava indo. Um deles comentou:

‘Dar dinheiro para beneficência – dar dinheiro é fácil, mas dá-lo à pessoa certa pode ser um pouco mais difícil. O QUE EU NÃO QUERO é o problema de fazer essa escolha. Se eu o doá-lo aos maçons, então eu sei onde ele está indo. “Eles publicam todos os anos a quem eles doam e eles não cobram por isso, não há taxa de administração”.

Outro enfatizou:

“A coisa boa sobre doar para beneficência através da Maçonaria é que ela é bem administrada, é muito bem organizada e você sabe que qualquer dinheiro que você dá, mesmo pequenas quantias, é mais provável que tenha um impacto maior no final da linha do que poderia ter se você dá a uma caixa de coleta na rua, que tem todos os custos administrativos associados.

Alguns maçons também enfatizaram a velocidade de entrega de suas contribuições aos beneficiários:

“A outra coisa poderosa sobre isso é a velocidade com que o dinheiro pode ser aplicado. Tudo é feito com base na confiança. Porque nós confiamos uns nos outros na maneira de aplicar o dinheiro, fomos capazes de entregar £ 75.000 no dia seguinte ao tsunami e para a área mais atingida.”

Outros colocam toda a questão da beneficência em uma perspectiva muito mais ampla:

“Eu também tenho a crença de que você precisa dar de volta também à sociedade. A Maçonaria é uma maneira de você poder dar a volta à sociedade… Para ser honesto, eu gosto de ir à [nome da loja]; nós comemos bem, jantamos bem, bebemos bem e há um bom grupo de pessoas. Isso torna todo o processo mais agradável. É uma combinação destes fatores, que no conjunto a torna um bom caminho para eu escolher e através do qual dar à sociedade. Eu sei que, como todas as pessoas que passaram pela [nome da escola], que todos nós viemos de famílias extremamente privilegiadas e eu sempre fui educado, muito antes que Maçonaria fosse parte da minha vida, com a filosofia de que é importante devolver à sociedade. Acho que é uma boa maneira de fazer isso.”

Outros maçons tentaram desafiar a noção de que “os maçons cuidam apenas deles mesmos”, apontando para o seu crescente envolvimento na comunidade em geral. Um deles observou:

“Isso vem acontecendo mais nos últimos dez a quinze anos, aonde causas não maçônica vem sendo apoiadas. Desde o centro administramos cerca de uma dúzia de motonetas para mobilidade.

O que estamos fazendo agora é oferecê-las às pessoas em necessidade real fora da Maçonaria. ”

“Também estou envolvido com a Maçonaria na Comunidade… realizamos iniciativas e projetos para idosos, festas de Natal. Nós também levamos crianças com deficiência ao centro ferroviário. Tudo é financiado pela Província e vimos fazendo isso há alguns anos. As pessoas estão começando a ouvir sobre isso e… de repente as pessoas estão vindo até mim e me agradecendo por oferecer à sua mãe um bom passeio. Lentamente, está aparecendo, e não apenas através da mídia, mas através de pessoas falando. Você ganha um pouco de agitação com isso.”

Muitos maçons, naturalmente, acham que suas atividades de beneficência eram em grande parte desconhecidas pelo público em geral:

“O problema com a Maçonaria e a as notícias desfavoráveis, em minha opinião, é que ninguém diz nada a ninguém sobre isso… Você pega a Round Table, todos os dias você ouve alguma coisa sobre alguém dando algo para a beneficência da Round Table. Os maçons dão muito mais, mas mantêm o silêncio sobre o assunto e não levantam dinheiro de outras pessoas, é o nosso próprio dinheiro. Eu nunca vendi um bilhete de rifa a qualquer um dos meus amigos de fora da Maçonaria para arrecadar dinheiro. A boa publicidade que a Round Table obtém por arrecadar dinheiro para beneficência, nós não nos beneficiamos, porque não anunciamos o fato.”

Houve um consenso geral de que “ostentar” sobre o trabalho de beneficência não era o modo dos maçons:

“Acho que [doar para beneficência] é uma das partes mais importantes da Maçonaria. Outra coisa é que a doação para beneficência não é anunciada… Só perdemos para a Loteria Nacional. É muito importante porque você está praticando a ajuda aos seus irmãos na vida e você está ajudando outras pessoas. Este é um dos princípios fundamentais…
Eu acho que eles conseguiram o equilíbrio certo. A Maçonaria abriu-se o suficiente, vamos dizer, para acalmar os receios de algumas pessoas sobre as razões pelas quais ela existe, mas manteve humildade suficiente atrás disso, de não gritar aos quatro ventos.”

O Grande Secretário também destacou a necessidade de um elemento de modéstia em torno das atividades beneficentes dos maçons…

“… como um maçom você não faz nada para ganho pessoal ou por louvor; você não dá a ninguém para receber o título de cavaleiro ou coisa desse tipo.”

Outros maçons, no entanto, gostariam de um maior reconhecimento do papel beneficente das organizações, embora não defendam “o gritar aos quatro ventos”:

“As pessoas com quem me envolvi na maçonaria não gostariam de ir pela rua balançando uma lata. Estamos orgulhosos do dinheiro que levantamos entre nossas próprias fileiras. Eu acho que é melhor agora que estamos dizendo ao mundo [sobre] o dinheiro que estamos levantando… Eu recebo o relatório da Grande Beneficência todos os anos e… eles listam todas e cada uma, e eu acho que foi cerca de 6 a7 milhões de libras. Quando há um terremoto ou um desastre, estamos entre os primeiros a enviar dinheiro e ninguém sabe disso. Meio milhão [foi] para o Haiti… [e] não há uma palavra dita e eu gostaria de ver mais disso nos jornais: “A Grande Loja Unida da Inglaterra enviou…” Isso não acontece.

SEM UMA COMPREENSÃO DOS SIGNIFICADOS ASSOCIADOS AOS ATOS SOCIAIS, NUNCA PODEMOS EXPLICAR O COMPORTAMENTO SOCIAL OU CAPTAR A VERDADEIRA ESSÊNCIA DO QUE É SER UM SER SOCIAL.

4 RITUAL

Um elemento que distingue a Maçonaria de quase todos os outros grupos sociais na Grã-Bretanha, com exceção de serviços religiosos organizados, é o ritual. Para muitos não maçons isto domina a sua percepção da Maçonaria. Mas os rituais maçônicos se estendem muito além do ritual na maioria dos outros contextos; comportamentos simbólicos e textos caracterizam cada etapa através do qual um novato passará em seus ritos de passagem para se tornar um Mestre Maçom. Ele aprenderá de cor e salteado, e será obrigado a recitar contos alegóricos bastante longos e adquirir pleno conhecimento das trocas simbólicas em que ele vai se envolver com seus irmãos.[xv]  Tudo isso pode parecer fora de lugar em nossa “moderna” sociedade do século XXI – uma relíquia dos tempos antigos, talvez até simples superstição.

Tal visão, no entanto, falha em não reconhecer a medida que a vida cotidiana envolve repetidas trocas simbólicas e na medida em que ela é, em essência, ritualizada. Isso é atualmente, amplamente, reconhecido como um truísmo nas ciências sociais. Sem uma compreensão dos significados associados a atos sociais nunca podemos explicar o comportamento social ou capturar a verdadeira natureza do que é ser um ser social. A vertente da ciência social conhecida como o interacionismo simbólico desenvolveu-se pela primeira vez em 1930 na obra de Herbert Blumer [xvi] que colocou grande ênfase na noção de que “os seres humanos interpretam ou ‘definem’ as ações dos outros ao invés de meramente reagir a elas. Sua “resposta” não é feita diretamente às ações uns dos outros, mas, ao invés, baseia-se no significado que eles atribuem a tais ações”.

Este enfoque sobre o significado de comportamentos, mais do que nos próprios atos físicos, levou outros, mais significativamente Erving Goffman a recapturar um sentimento tão eloquentemente expresso por William Shakespeare em As You Like, três séculos e meio antes:

“O mundo todo é um palco,

E todos os homens e mulheres meros atores:

Eles têm suas entradas e saídas;

E um homem desempenha muitos papéis ao mesmo tempo. ”

O livro mais significativo de Goffman, neste contexto, é apropriadamente intitulado Ritual de Interação – uma coletânea de ensaios que começa com Sobre Reboco: Uma Análise dos Elementos Rituais na Interação Social. Aqui, ele argumenta:

“Cada pessoa vive em um mundo de encontros sociais, envolvendo-o, quer em contato face a face ou mediado com outros participantes. Em cada um desses contatos, ele tende a agir fora o que é chamado, às vezes, uma linha – que é um padrão de atos verbais e não verbais pelo qual ele expressa sua visão da situação e, através desta sua avaliação dos participantes, especialmente de si mesmo “.

Há muita ênfase no trabalho de Goffman sobre a noção de “face” – em termos das personas que apresentamos a outras pessoas com quem interagimos e a necessidade de “salvar a cara” em vários encontros. Mas no coração de sua perspectiva está o reconhecimento da natureza ritualizada dos elementos admitidos como certos, aparentemente triviais de interação social que são, na realidade, tudo, menos trivial. Tomemos, por exemplo, os rituais familiares de cumprimentos. Nós dizemos “bom dia” sem uma expectativa de o julgamento de “bom” ser contestado pela pessoa a quem dirigimos a frase. Da mesma forma, um “como vai?” não é uma pergunta – uma investigação séria sobre sua condição médica -, mas uma forma de saudação que é um precursor essencial para outros intercâmbios e interações.

Podemos ver outros rituais em quase todos os aspectos do nosso comportamento social cotidiano. As maneiras pelas quais expressamos deferência, status e conduta através de sutis comportamentos não verbais que vão desde a postura da direção do olhar são trocas simbólicas que são tacitamente entendidas e não reconhecidas conscientemente. Estamos cientes das regras bem definidas que estão por trás dos rituais somente quando nós ou os outros os violam – situações em que emoções variando desde o embaraço até a raiva são susceptíveis de resultar. Pessoas incapazes ou que não querem se envolver nas trocas simbólicas prescritas são aquelas que se tornam párias – seja visto como antissocial ou apenas ‘esquisito’.

A onipresença do ritual na vida quotidiana é ainda mais aparente nas ocasiões sociais e cerimônias com que marcamos as transições dos que nos rodeiam – casamentos, nascimentos, realizações, morte e assim por diante. Eles também estão em grande escala nos rituais cíclicos de religiões organizadas – Páscoa, Natal e, em consonância com o mundo multicultural em que vivemos hoje, Eid e Diwali. Enquanto a maioria dos britânicos cada vez mais carece de um forte compromisso para com a frequência à igreja ou até mesmo no sentido de uma crença religiosa formal, ainda sentimos a necessidade de nos engajarmos em rituais associados com o que são, aparentemente, marcas do cristianismo, embora sejam, em muitos casos, uma remodelação de cerimônias pagãs anteriores ao cristianismo. Em cada uma destas ocasiões, reafirmamos nossos laços sociais e familiares através de trocas simbólicas de presentes e lembranças, alimentos compartilhados e tempo fora da vida igualmente rotineira e ritualizada de trabalho ou educação formal.

Em outros lugares do mundo, cerimônias rituais destacam-se mais visivelmente devido à sua estranheza aos olhos ocidentais. A cerimônia japonesa do chá, ou Caminho do Chá é para nós uma série quase impenetrável de atos rituais centrados em torno de joelhos doloridos devido ao agachamento e o consumo de chá verde em pó. Na verdade, é uma celebração coletiva de Waban – humildade e moderação, calma e requinte sóbrio, gostos suaves e o reconhecimento da beleza na simplicidade de objetos sem adornos. Os rituais de iniciação e aqueles que marcam os ritos de passagem dos jovens nas sociedades tradicionais, do estado de criança para adulto, da mesma forma nos parecem “primitivos” e “estranhos”. E mesmo os batismos, crismas, bar mitzvahs, casamentos e ocasiões fúnebres com as quais estamos mais familiarizados não só têm raízes simbólicas semelhantes (embora menos dramáticas), mas também funções similares. Mesmo em muitas formas de casamentos civis britânicos em cartório é feita a pergunta: “Quem dá esta mulher?” – é normalmente o pai da noiva, que declara ‘Eu’ – e nas cerimônias mais formais, o casal recita a frase ensaiada: “Para ter e manter deste dia em diante, para melhor para pior, por mais rico ou mais pobre, na doença e na saúde, para amar e proteger até que a morte nos separe.” Como todos os rituais, no entanto, os votos de casamento evoluíram para estar de acordo com os conceitos modernos de correção. Hoje é muito raro, por exemplo, que uma noiva prometa “honrar e obedecer” o marido.

4.1 – RITUAIS E ROTINAS – A VISÃO DO PÚBLICO

Além de todos estes tipos de rituais cerimoniais que são rituais ‘privados’ – coisas aparentemente pequenas que fazemos para, algumas vezes conseguir o resultado final específico, mas muitas vezes devido à sensação de segurança que elas trazem. Exploramos alguns desses tipos de ritual em nossos grupos focais. Um homem disse:

“Eu estava na Marinha Real e para ir ao banheiro em um navio, em um espaço confinado, você mais ou menos tinha que realizar o seu banho e barba, e escovar os dentes em uma determinada ordem. Era quase como um processo, uma linha que permitia que o número máximo de pessoas passasse por este processo. Eu ainda escovo os dentes, faço a barba e tomo banho na mesma ordem, embora isso não tenha qualquer função.

Outro enfatizou o sentido de conforto oferecido pelos rituais:

“Até certo ponto, isso nos faz sentir mais confortáveis se formos capazes de manter um ritual. Eu me sinto muito desconfortável se os rituais são interrompidos.”

Uma participante ofereceu um exemplo um pouco mais supersticioso:

“Como um procedimento de entrevista, você poderia pensar que a menos que faça alguma coisa ou calce um determinado par de sapatos nada irá tão bem quanto, se você não fizer aquilo. Isso é uma coisa ritual que você pode ter criado. Há uma suposição de que o ritual vai servi-lo melhor.”

Outros no grupo referiram-se às suas experiências anteriores de rituais religiosos e os vínculos que estes tiveram com suas atuais atividades:

“Eu tenho uma formação cristã, mas não sou um cristão praticante, mas eu me lembro com muito carinho das lições de culto e da euforia e da unidade que você conseguia a partir dessa experiência, da experiência compartilhada, ou simplesmente daquela ação… Eu vou ao jogo do Tottenham Hotspur e fico com uma sensação de euforia semelhante.”

Para alguns participantes de outro grupo focal, era pegar no sono para dormir facilmente à noite que exigia preparativos ritualísticos. Um homem disse:

“Acho que isso tem a ver com a obtenção de um padrão regular, porque eu tenho problemas, por vezes, de não dormir; talvez minha mente não se encerre, por vezes, tão facilmente. Eu faria tudo na mesma ordem. Subiria para o primeiro andar, pegaria uma garrafa de água. Enquanto estava pegando a garrafa de água que eu acenderia a luz cabeceira e ligaria rádio. Então eu iria para baixo, voltaria e leria. É aproximadamente na mesma hora [todas as noites] em que estou em casa. Tentarei fazer as coisas na mesma hora e na mesma ordem para entrar no ritmo mental certo para dormir. Eu acho que isso é um ritual e eu o reconheço como tal.”

Uma mulher disse que tinha rotinas semelhantes:

“A minha é semelhante. Eu tenho apneia do sono, que descobri há alguns anos. O ritual é a parte Ir dormir. A minha é que eu ligo o rádio; que sempre tem que ser programa de conversas, porque na música eu me concentro. Então eu abaixo o volume e leio [até que] eu simplesmente começo a cochilar. Então eu coloco de lado o livro e em seguida ligo o rádio um pouco e vou dormir com o rádio ligado. Uma vez eu estava no exterior em um hotel e tinha se esquecido de trazer algo para ler e eu realmente não conseguia dormir. Em desespero, eu realmente peguei a lista telefônica de Chicago e a abri, tentando ficar muito calma e comecei a ler itens.”

Rituais associados ao sono parecem ser surpreendentemente comuns em todas as esferas da vida e parecem indicar a necessidade de um senso de segurança, fornecido por ações repetidas, antes do elemento de tranquilidade necessário para se ter um bom sono.

Existem, entretanto, muitos outros aspectos de nossas vidas onde rotinas fixas – embora talvez sem o simbolismo dos verdadeiros rituais – são vistas como essenciais para o desempenho de tarefas aparentemente triviais. Uma participante feminina do grupo focal contou:

“Eu tenho um monte de rituais; tudo. No trabalho, assim que eu passo pela porta. Eu tenho ritual antes de sair à noite. Geralmente eu costumo tê-los passando pela minha cabeça… Eu sou bastante distraído, portanto fazer as coisas em certa ordem – me ajuda a lembrar das coisas. Como quando eu vou nadar e tenho certa maneira de embalar minha mochila, que para mim é um ritual. Eu conto tudo como à medida que vou colocando-o dentro da sacola. Eu tenho uma bolsinha que só é usada para os dez pence do armário. Antes de sair eu bebo sempre um expresso em certa xícara pequena antes de sair de casa. Então você obviamente tem o ritual de sua maquiagem, em que tudo se passa em uma determinada ordem. Pentear o cabelo, organizar suas roupas antes de entrar no chuveiro…”.

Para outros nos grupos, e os homens, em particular, era o engajamento no esporte que estava cercado pelos aspectos mais ritualísticos de suas vidas:

“Quando vou para o ginásio, eu assumo certa maneira particular de fazer as coisas. Eu tenho um monte de superstições sobre esporte, certa maneira de fazer as coisas. Você vê isso na TV, as pessoas falando sobre superstições e isso entra na sua cabeça que se você quebrar aquele ciclo, então ele vai voltar contra você. São apenas pequenas coisas tolas, tais como amarrar os cadarços dos sapatos ou colocar suas caneleiras.

Existe, naturalmente, uma distinção a ser feita aqui entre ritual e superstição. Um ritual é uma forma de comportamento ou conjunto de ações que um desportista realiza na crença de que eles têm um propósito específico ou poder de influenciar seu desempenho. Uma superstição, por outro lado, é algo que é principalmente adquirida através de retrospecção – um resultado favorável foi obtido depois que certa ação ou conjunto de ações foram realizados – e estes são repetidos na esperança de que estes também resultarão em um algo igualmente favorável. Apesar destas distinções, no entanto, a maioria das pessoas, inclusive nossos participantes dos grupos focais, usam os termos mais ou menos indistintamente.

Há também uma distinção a ser feita entre rituais e rotinas, embora muitas pessoas novamente confundam os dois. Conforme argumentam Barbara Fiese[xvii]  e seus colegas, as rotinas não têm os elementos emocionais de rituais, uma vez que eles são concluídos, há pouco ou nada na forma de reflexão posterior ou resíduo emocional. Após a realização de rituais, por outro lado, as pessoas tendem a repetir as ações em suas mentes e reviver as emoções que eles experimentaram. Rotinas, no entanto, têm o potencial para se tornarem rituais quando elas deixam de ser comportamentos puramente funcionais e se transformam em atos em grande parte simbólicos. No exemplo de esporte acima, este parece ser o caso uma vez que as rotinas são frequentemente realizadas quando elas não conseguiram alcançar os resultados funcionais que lhes estão associados – por exemplo, amarrar cadarços do sapato de uma forma particular para conseguir uma vitória. Nesta fase, elas são puramente simbólicas da crença dos indivíduos em si mesmos como atores efetivos.

A associação de esporte e ritual, é claro, se estende além dos jogadores até os torcedores muito mais numerosos, especialmente na Grã-Bretanha no contexto do futebol. Aqui as ações simbólicas repetidas dos fãs – na forma de cantos, gestos, etc. – servem para criar uma atmosfera altamente emocional em que os laços entre os envolvidos são ainda mais reforçados. As palmas coletivas a um ritmo específico muitas vezes sincronizado a um grau notável – de até 1/64 de segundo – e simbolicamente comunicam a força dos laços dentro do grupo aos torcedores do adversário.[xviii]

Rituais muito mais mundanos, é claro, têm uma igualmente profunda característica social, como é o caso dos casamentos e as cerimônias cíclicas que mencionamos anteriormente. Observamos também o trabalho seminal de Erving Goffman que chama a atenção para a natureza ritualística dos encontros cotidianos. Os participantes dos grupos focais também se referiram a esses elementos Goffmanescos de nossas vidas:

“Sua roupa, qualquer coisa que você faz, você sempre pensa sobre o que vai vestir. Há rituais agora que não costumávamos ter. Quando você encontra alguém que você não necessariamente conhece muito bem, ocorrem os beijinhos na face. Isso é interessante e bastante agradável de certa forma. Existem alguns rituais que eu provavelmente chamaria simplesmente de tato; não se precipitar quando se conhece alguém pela primeira vez, conter-se até que você conheça as pessoas e entre em um ritmo que pareça certo”.

Um participante referiu-se ao exemplo mais visível do ritual na sociedade japonesa:

“Há aqueles rituais nos negócios japoneses, aonde eles vêm para trabalhar na parte da manhã, fazem ioga, ou seja, o que for, começam seu dia motivados juntos.”

“MESMO NA VANGUARDA DAS TECNOLOGIAS DE COMUNICAÇÃO DO SÉCULO XXI, NOSSA NECESSIDADE DE TROCAS SIMBÓLICAS QUE REFORÇAM LAÇOS SOCIAIS PERMANECEM TÃO EVIDENTES COMO SEMPRE FORAM.”

Outros comentaram sobre aquelas situações em que as regras sociais são menos claras, e onde os comportamentos ritualísticos servirão para esclarecê-las:

“Há rituais em torno do mal-estar, onde você perambula pela casa das pessoas e fica por ali e espera que lhe seja oferecida uma cadeira ou uma bebida. Você fica lá de pé, não inteiramente certo do que eles acham ser apropriado.”

É claro, então, que a ação simbólica, ao invés de ser um comportamento puramente funcional, está profundamente arraigada tanto na vida cotidiana quanto no que poderíamos chamar ‘ocasiões especiais’. Através da socialização da infância e transição para a idade adulta, aprendemos o significado e a importância de formas de interação, sem as quais não podemos sobreviver em qualquer sociedade como seres sociais competentes. Os rituais cíclicos que são as marcas registradas de todas as sociedades conhecidas, tanto tradicionais quanto modernas, servem para reforçar os laços familiares e de amizade, e reforçar noções de identidade social de uma forma muito precisa e concreta.

Hoje, é claro, também temos o Facebook e outras formas de redes sociais online onde as trocas igualmente formalizadas são evidentes – até mesmo a linguagem codificada de mensagens de texto e de twitters que em grande parte exclui aqueles que teimosamente se agarram à tecnofobia. Mas os sites de redes sociais não substituem os encontros face-a-face mais tradicionais. Nem o telefone celular, apesar de gritos em contrário, destruiu a arte da conversação. Ao contrário, ambos, em suas próprias maneiras ritualizadas, servem para facilitar a interação social e um sentido de pertencimento. A forma mais comum de mensagem de texto, por exemplo, está ao longo das linhas de “Vc estará na pça d sé às 8.30?

Até mesmo na vanguarda das tecnologias de informação e comunicação do Século XXI, nossa necessidade de trocas simbólicas que reforçam os laços sociais continua a ser tão evidente como nunca. Os rituais da vida cotidiana, bem como o simbolismo mais visível de ‘ocasiões especiais’ continuam a existir na mídia adicional e formas de comunicação. No fundo é a mesma necessidade humana – apenas expressa de uma forma um pouco diferente.

Se os rituais são tão evidentes em todas as esferas da vida humana, em que medida, então, são os rituais maçônicos diferentes daqueles em que todos nós nos engajamos? São eles apenas extensões de uma necessidade humana básica, social e cultural para a troca simbólica ou de alguma forma diferente?

4.2 – RITUAL – A VISÃO DOS MAÇONS

A maioria das pessoas está familiarizada com a composição de pelo menos alguns aspectos do ritual maçônico.

Raramente, porém, elas têm muita percepção de suas funções simbólicas e significados. Mas, por que esses rituais estão presentes e para que eles servem?

Nas palavras do Grande Secretário:

“O lado cerimonial é realmente um dos nossos grandes diferenciais, mas… eles são apenas peças teatrais… e eles são peças teatrais bastante agradáveis… são parábolas…”.

Ele acrescentou:

““… eles estão completamente abertos ao público.

Você pode ter cópias deles. Você pode atravessar a rua e comprá-los. Não há nada de secreto [sobre eles]. “

Em um sentido real os rituais maçônicos são versões teatrais de ritos de iniciação que sempre caracterizaram nossas sociedades e continuam a caracterizar até os dias atuais. Nas sociedades tradicionais, mesmo aquelas que tenham atingido um grau de aculturação às normas ocidentais, as iniciações que marcam as transições da infância para a idade adulta ainda são realizadas.

Em nossas entrevistas com maçons de todo o país enfocamos os aspectos rituais da vida dentro das lojas. Em que medida suas percepções anteriores do ritual maçônico os atraiu para a Maçonaria, em primeiro lugar? Ou foi o potencial de criação de redes sociais e de criação de vínculos a razão mais importante para sua adesão?

Talvez surpreendentemente, foram os maçons jovens que colocaram a ênfase maior sobre os rituais, vendo-os como uma atração diferente da Maçonaria desde o início. Um deles fez um comentário que era típico de muitos:

“O que eu conhecia era um pouco de pompa e teatro acontecendo. Minha vida era muito casual; camisas abertas, jeans, t-shirts. O simples fato da questão é que aquelas pessoas gostam de se vestir bem. Há pessoas nesta loja que realmente não gostam da pompa e circunstância, mas eu sou completamente o oposto, eu gosto disso. Provavelmente era, até certo, um fator que estava me levando para as forças armadas e uma das razões pelas quais eu ingressei em um dos Corpos de Cadetes. Se eu vou sair uma noite e eu posso fazê-lo vestindo-me formalmente, então eu o farei. Eu gosto da pompa e circunstância, aparecer com uma aparência elegante e fazendo o esforço.”

Pelo menos para alguns jovens existe uma percepção da necessidade de certo grau de formalidade ou “pompa” nos mundos de outra forma informais e descontraídos que eles habitam. À medida que os rituais mais formais da vida britânica decaem – pense na igreja, vestir-se para o jantar, vestir o “terno de missa”, etc. – as oportunidades de reunir em um grupo, vestir e atuar no que são histórias essencialmente alegóricas e contos morais tornam-se, para alguns, uma atração diferente.

A ênfase sobre o papel do ritual e seu valor para muitos deles foi expressa muito claramente:

Rituais, onde começamos? A linguagem dos rituais é muito antiga e, até certo ponto, você tem que ter uma mente educada para investigar a linguagem e entender o que [está] dizendo. Eles usam palavras que não são inglês comum… Recebemos este ritual de duas horas em que você se senta e assistir uma e outra vez, e você começa a aprender o que o ritual está tentando lhe dizer. Se você fosse se encontrar com alguém que tivesse vindo para a loja há seis meses, eles iriam provavelmente lhe dizer que não têm ideia do que está acontecendo… Você ouve as palavras repetidas vezes e uma mente perspicaz as analisará. Os rituais, conforme me foram explicados, são mais um ensinamento sobre como você pode levar uma vida boa e como você pode aprender mais sobre si mesmo. ”

Este ponto sobre o propósito subjacente ao ritual – a transmissão de códigos morais – foi destacado por muitos outros maçons. Dentro de uma forma de atuação teatral que pode parecer estranha para os de fora, havia um significado que tornava todo o negócio merecedor e gratificante.

Acima de tudo, havia um sentimento de “se tornar uma pessoa melhor”:

“O ritual muda você. Você ouve a história, e a primeira vez talvez você não a entenda, então você vai atrás dela. Você ouve a história repetidas vezes e há todo o simbolismo da Maçonaria; as palavras que são faladas, as razões pelas quais as pessoas fazem certas coisas e dizem certas coisas. Todas elas têm um propósito … central para tudo o que deve fazer de você um homem melhor. Ele traz à tona as coisas boas em você.”

Foi nesta seção das entrevistas que os maçons tenderam a se tornar o mais articulados. Talvez sua experiência de aprendizagem de cor as frases e diálogos complexos e um tanto misteriosos foi responsável por isso, e muitos disseram que a experiência de participar do ritual maçônico lhes havia dado um maior senso de confiança para, por exemplo, falar em apresentações de negócios ou em público.

A transformação em um “homem melhor” ou “falante mais confiante” não foi, entretanto, algo que aconteceu do dia para a noite – nem mesmo da simples passagem através dos Graus. Ela tendia a vir após os aspectos dramatúrgicos e reflexão posterior sobre o que as frases antigas que eles tinham aprendido a pronunciar realmente significavam:

“Uma vez que as palavras foram entendidas, então as pessoas começarão a procurar pelo significado e obter realmente algo do significado. Isso certamente aconteceu no meu caso. Eu estudei o ritual e eu procurei palavras e frases, e até agora há coisas que surgem que você não tinha conhecimento, ou você não sabia a definição real. Você pensa: “Eu já disse isso tantas vezes que, mas eu não sabia que significava.” As pessoas [que] acham que podem se aborrecer com “o ritual de sempre” não estão, obviamente, olhando para ele”.

Outro comentou:

“Há uma incrível sensação de realização quando você fez a sua parte. Você foi capaz de transmitir seu conhecimento ao candidato e, igualmente, todo mundo terá desempenhado o seu papel na cerimônia… Igualmente, o ritual ainda te ensina coisas cada vez em que você é envolvido. Eu não acho que há uma única reunião da qual eu tenha saído da loja sem pensar: “Tenho certeza de que já ouvi falar isso antes, mas não era bem a essa luz.” Ou foi explicado de uma forma diferente. Você está constantemente pensando sobre o que cada parte do ritual significa. O ritual está lá porque se supõe que ele nos ensine um código moral usando várias alegorias e histórias. Há sempre uma corrente subjacente ao que ele está tentando lhe ensinar e o que você pode aprender dele.”.

Para outros, entretanto, embora reconhecendo os significados e componentes morais do ritual, a recompensa veio mais dos aspectos dramáticos:

‘… há uma espécie de lado, agradável e dramático do ritual. Em termos de substância, é sério e ele está ensinando elementos sérios de moralidade, mas ele também tem um aspecto agradável no sentido de que é alegórico, é quase uma forma de entretenimento; é até mesmo mais agradável porque você pode realmente se envolver, tocar e sentir… “

Outro maçom, que ocupa um cargo importante em uma loja universitária, também destacou o sentido do drama no ritual maçônico e enfatizou seu apelo aos membros mais jovens:

“O ritual é uma coisa estranha e sedutora. Como um estranho você se espanta com isso. Como um homem inteligente, você diria, “Isto é extraordinário”!” E ainda assim vejo esses [alunos] entrar na maçonaria e eles o adoram. E eles competem uns com os outros em uma espécie de jogo sério. Eles inserem palavras aleatórias no ritual para pegar uns aos outros. E então o outro voltar com outra palavra. É como ir a uma peça no West End com um elenco ilustre… porque eles brincam com o script sem estragá-lo para o público”.

Apoiando esse conceito, mas destacando os significados por trás dos elementos dramatúrgicos, outro maçom disse:

“O drama em ritual é instrutivo e ela é exclusivo… Eu acho também que, como qualquer tipo de aprendizado novo, pode muitas vezes ser a maneira como é ensinado, tanto quanto o que é ensinado que é importante. Com qualquer rito de iniciação em qualquer sociedade há a “realização” efetiva do rito de iniciação que é o principal; não é o conteúdo do rito de iniciação; é a reunião e todos compartilhando aquela experiência – e ter a certeza de saber que cada pessoa na sala, ou no grupo, passou por aquela experiência. E também é um maravilhoso quebra-gelo.”

Tais comentários, muitas vezes levaram a discussões mais amplas sobre o que, se alguma coisa na Maçonaria precisava mudar se for para ela ter apelo mais amplo no século XXI, uma questão à qual voltaremos na seção 5 deste relatório.

Embora fosse claro que para alguns maçons o ritual e a aprendizagem de cor que ele exigiu fosse uma senhora de uma tarefa, e que a principal atração da Maçonaria está em outro lugar, alguns enfatizaram o orgulho pela competência de suas lojas na condução dos rituais. Eles se referiram a outras lojas que tinham visitado como sendo um pouco “desleixadas” neste contexto.

‘Eu vou a algumas reuniões de [outra] loja e lá estão eles com um livro. Eles estão realizando a cerimônia e a estão lendo inteiramente!

Eles estão dizendo: “Eu tenho muitas outras coisas em que eu preciso me concentrar, portanto eu simplesmente não tenho tempo a perder aprendendo as palavras”. Esperemos que eles estejam, pelo menos, aprendendo o que está por trás das palavras. ‘

É importante notar que ao longo de seus quase 300 anos de história organizada, a Maçonaria tem acolhido como membros homens de todos os credos, e que a discussão religiosa é proibida durante as reuniões. Ela é tranquilamente orgulhosa de que, na época em que os não cristãos eram discriminados na vida pública e social, a Maçonaria os recebeu em suas lojas.

Pela maior parte de sua história, a Maçonaria afirma ter tido boas relações com a religião organizada, com exceção da Igreja Católica Romana, que primeiro baniu seus membros de ingressarem na Maçonaria por uma bula papal emitida em 1737. A base daquela proibição era o suposto segredo da Maçonaria e a existência nos séculos XVIII e XIX de muitos grupos paramaçônicos que eram anticlericais, mas, na verdade, não tinham ligações com a Maçonaria regular.

No século XX houve um movimento crescente contra a Maçonaria dentro das alas evangélicos das igrejas anglicanas e igrejas não conformistas. Ao citar seletivamente, e ocasionalmente citando erroneamente seções de ritual fora de seu contexto adequado, eles alegavam que a Maçonaria era uma religião oferecendo salvação através de ‘boas obras’, que não se referia a Jesus Cristo; que era anticristã, que o uso de vocativos, tais como o Grande Arquiteto do Universo para se referir a Deus é uma evidência de que os maçons adoravam um deus maçônico separado.

AO LONGO DE SEUS QUASE TREZENTOS ANOS DE HISTÓRIA ORGANIZADA, A MAÇONARIA ACOLHEU EM SUAS LOJAS HOMENS DE TODAS AS FÉS

A Maçonaria nega veementemente tais acusações, salientando que lhe faltam os elementos básicos da religião. Ela não tem nenhuma doutrina teológica. Ela não oferece sacramentos. No entanto, é um requisito para entrar na Maçonaria que a pessoa tenha a crença em um “ser divino”. Embora alguns maçons sejam membros ativos de congregações religiosas de uma série de religiões – a maioria manifestou pouco compromisso neste contexto. Eles reconheceram que muito do ritual maçônico envolve ensinamentos quase religiosos e que o Volume da Lei Sagrada (VAL), que aparece com destaque nos Graus é, na Inglaterra, na maioria das vezes chamado de Bíblia King James. Eles também estabeleceram uma distinção nítida entre loja e igreja.

5. O FUTURO DA MAÇONARIA

Vimos que a Maçonaria tem, em sua raiz, os preceitos morais e modos de conduta que estão longe de estar em desacordo com a sociedade em geral. Poucos questionariam a ênfase da organização na comunhão, filiação e o desejo dos maçons individuais de ser “as melhores pessoas que puderem ser” – um desejo que muitas vezes se manifesta através do trabalho voluntário que muitos empreendem, apoiando os membros menos favorecidos de suas comunidades. Vimos também que o ritual e os aspectos de cerimoniais da Maçonaria que a distinguem de organizações como a Round Table também não são tão desapegadas da vida quotidiana como possam parecer à primeira vista. Interações sociais de rotina, a forma como abordamos as pessoas, a maneira pela qual expressamos deferência e conduta e apresentamos as nossas personagens são, em todas as sociedades humanas, altamente ritualizadas. Os rituais maçônicos são, talvez, mais elaborados do que experimentamos na vida social e familiar cotidiana. Eles assumem a forma de peças teatrais de um só ato – cada um dos quais se refere alegoricamente a preceitos morais e formas de comportamento em relação aos outros. Eles são, num sentido muito real, parecidos com parábolas – histórias amplamente fictícias que destacam questões importantes, tais como a necessidade de perdão ou de usar o dinheiro sabiamente.

Qual é, então, o futuro da Maçonaria e o que mais ela poderia fazer para finalmente eliminar os mitos que têm persistido por tanto tempo, e garantir que a sua relevância na sociedade contemporânea seja mais facilmente reconhecida e entendida? Colocamos estas perguntas para os maçons que entrevistamos.

Uma área de consenso ficou evidente que destacou um novo capítulo de abertura e transparência que estava sendo defendido nos níveis mais altos da organização. Houve também uma forte evidência de que este espírito de abertura estava se filtrando até os maçons ‘comuns’ por todo o país, que estão cada vez mais felizes em declarar sua adesão quando sentem que fazer isso é relevante. Eles também ressaltaram que estavam igualmente motivados para introduzir as comunidades locais em suas lojas e desempenhar um papel mais amplo em seus bairros.

A Maçonaria precisa se abrir para a comunidade, ser mais transparente sobre as razões de nossa existência. Precisamos aceitar que existem certas coisas que alguns podem considerar peculiares ou diferentes sobre os maçons. A chave é conscientizar as pessoas de que trazemos o bem para a sociedade… precisamos destacar as coisas que estão acontecendo na Maçonaria hoje… todas as coisas boas que fazemos para a sociedade e toda a ajuda que oferecemos às comunidades locais. Começamos a nos abrir, mas temos que fazer mais, e estarmos mais presentes. ‘

Tais sentimentos foram enfatizados por outros maçons, mas com reservas sobre uma mudança excessiva e rápida demais. Este comentário era muito típico:

“Acho que devemos ser um pouco mais abertos e tentar levar as pessoas a entender o que fazemos e, talvez, incentivar alguns a ingressar. Há algumas pessoas boas lá fora… alguns deles dariam bons e alegres maçons. Isso é algo que eu acho que poderíamos visar no futuro. Fora isso, estou razoavelmente feliz com do jeito que está.”

Houve alguma preocupação com a perda de carácter distintivo da Maçonaria à medida que a organização se “moderniza” e, em particular, a necessidade de preservar os seus rituais e tradições únicos:

isso dá uma sensação de eternidade a ela. É algo que é um pouco mais substancial do que algumas das modas e modismos que você vê por aí.’

Um dos pontos fortes da Maçonaria é a manutenção de suas tradições e o fato de que isso não muda rápido demais. Isso proporciona ordem. “

“A MAÇONARIA TEM, EM SUAS RAÍZES, PRECEITOS MORAIS E MODOS DE CONDUTA QUE ESTÃO LONGE DE ESTAR EM OPOSIÇÃO COM A SOCIEDADE EM GERAL”

“Fiquei encantado com a [nome da loja], sua história e seu ritual. Ela tem uma história extremamente rica.” “Eu não gostaria de mudar o ritual”. ‘ “Eu acho que há mérito definitivo em reter alguma da mística.”

Houve um consenso igualmente forte em relação à retenção dos princípios fundamentais da Maçonaria, a fim de preservar o seu carácter distintivo:

O amor fraternal, ajuda e verdade é sobre honestidade … você não pode comprometer os princípios centrais da Maçonaria. Eles são a sua força. ”

Por outro lado, houve uma preocupação igual com a relevância e a atratividade da maçonaria para a geração mais jovem dos homens de hoje:

“A única preocupação que eu tenho… é que algumas das outras lojas já têm um monte de membros mais velhos e eles não estão recebendo novos recrutas.”

Alguns pedreiros acharam que o problema com os compromissos de tempo poderia ser superado:

“Um colega e eu estávamos tendo uma discussão em nossa última reunião e acho que ele estava falando sobre a tentativa de fazer com que as reuniões de loja [ocorressem] na hora do almoço para dar aos jovens, particularmente aqueles que estão trabalhando, a possibilidade de comparecer – para lhes dar mais oportunidades de comparecer regularmente.”

Para ajudar a superar esse problema em particular, um sistema de tutoria em nível nacional foi introduzido há dois anos, uma parte fundamental do que os maçons seniores veem como a “revolução silenciosa” de modernização, destinada a promover a progressão e a participação de novos membros.

No esquema, membros mais jovens recebem apoio contínuo e orientação de maçons mais experientes atuando como mentores dedicados à medida que progridem através dos diferentes graus. Houve evidência de sucesso do esquema com a redução do abandono por novos membros dentro dos primeiros dois ou três anos. Houve também uma evidência do valor do sistema de tutoria vinda dos próprios membros.

À medida que consideramos o futuro mais amplo da Maçonaria, talvez seja útil dar uma olhada de volta ao início do século XVIII, em que a UGLE foi fundada. A sociedade britânica, é claro, era muito diferente. Esta era a Idade da Razão – uma época em que as superstições da Idade Média estavam sendo substituídas por formas mais racionais de discussão e debate e consideração dos dogmas religiosos. Foi também um momento de rápido progresso nas ciências naturais. O campo da astrologia, por exemplo, foi sendo gradualmente substituído pelo da astronomia – uma abordagem genuinamente científica para entender o funcionamento do cosmos que ia muito além dos dogmas religiosos e seculares. Isaac Newton, considerado por muitos como um maçom, ainda estava vivo e seu influente Principia Mathematica estava em grande circulação. O novo espírito de investigação científica em breve seria evidente nos trabalhos de importantes estudiosos como Henry Cavendish e Michael Faraday. Movimentos similares se afastando do ‘pensamento da velha escola’ eram evidentes na filosofia que se tornou quase um sinônimo de pensamento “científico” na época do Iluminismo em meados do século XVIII. Central para esta escola eram as noções de liberdade, democracia e, acima de tudo, razão que se mantinham como desafios às interpretações literais da bíblia e noções como o “direito divino dos reis”. Noções de verdadeira moralidade estavam agora, talvez pela primeira vez, abertas ao debate genuíno.

A LOJA MAÇÔNICA ERA UM REFÚGIO DE PAZ E TRANQUILIDADE EM UM MOMENTO DE INCERTEZA POLÍTICA, QUANDO A MEMÓRIA DA GUERRA RELIGIOSA ESTAVA FRESCA NA MEMÓRIA DE TODOS OS HOMENS.

Hoje, é claro, tomamos como certeza a ciência e o racionalismo em uma nova era de inovação tecnológica e desenvolvimento sem precedentes. No século XVIII, entretanto, a turbulência que acompanhou a nova ordem, após a Guerra Civil Inglesa de meados do século XVII, e num momento em que o Reino Unido tinha apenas uma década de idade, era sentido mais fortemente. A Maçonaria “moderna” que foi estabelecido pela UGLE, em que os ‘Antigos’ que haviam inicialmente rejeitado sua autoridade iriam logo ser integrados, oferecendo o que alguns historiadores veem como um “refúgio seguro” para os livre pensadores. Por exemplo, o historiador chileno / israelense da Maçonaria Leon Zeldis conclui:

A loja maçônica era um refúgio de paz e tranquilidade em um momento de incerteza política, quando a memória da guerra religiosa estava fresca na memória de todos os homens, quando as primeiras descobertas e invenções estavam transformando a economia e abrindo novas perspectivas de progresso, quando a esperança de que a racionalidade e o humanismo baniriam do coração dos homens os males do fanatismo e da intolerância.”

Esses sentimentos têm clara – e talvez até maior – ressonância nos dias de hoje. Infelizmente, exemplos de “fanatismo e intolerância” estão à nossa volta, na forma de atos extremistas e sectários de violência em todo o mundo, destacados com muita frequência pelos meios de comunicação internacionais. Eventos também em grande parte no Oriente Médio nos lembram diariamente da fragilidade das ordens políticas baseadas em dogma e elitismo, ao invés de noções de democracia, liberdade e razão. Transformações em nossa própria ordem econômica – algumas positivas, outras bastante desastrosas – são ainda mais diretamente sentidas. Tudo isso pode nos levar de volta ao papel e a relevância da Maçonaria no contexto moderno.

Conforme observamos anteriormente, o Grande Secretário, Nigel Brown, enfatiza:

A alegria da Maçonaria é que os membros vêm de todas as raças, religiões e todos os níveis socioeconômicos da sociedade. Assim, na verdade você ter um mix completo de pessoas sentadas lado a lado em harmonia e igualdade… que outras organizações podem fazer isso em um mundo que é cheio de conflitos? O nível de conflito hoje em um mundo em rápida mutação está claro, e só podemos esperar que a crise atual leve a uma nova ordem mundial, mais estável e mais pacífica. ”

Tais sentimentos soam bem com os do Centro Roosevelt para o estudo da Sociedade Civil e Maçonaria nos Estados Unidos:

“Na ausência de nobres objetivos públicos, líderes respeitados, e a competição respeitosa de ideias, existe a preocupação de uma sociedade civil em rápida erosão ou pelo menos uma sociedade civil e esfera pública em mutação que precisam ser mais bem compreendidas”.

Olhando para o passado como um guia útil para explicar o presente, o Centro destaque que:

“A Maçonaria estava lá, nas origens da moderna sociedade civil, muitas vezes como a única organização onde poderia haver discussão livre, sem medo de censura e controle autoritário”.

O ponto é ecoado pelo Grande Secretário da UGLE que argumenta que, ao evitar a discussão política, religiosa e de negócios em reuniões de loja, a Maçonaria é um grande nivelador e pode fornecer o que ele vê como sendo um valioso fórum para discussão aberta e honesta entre amigos, sem risco de recriminação. O Centro Roosevelt vai mais longe, sugerindo que a Maçonaria pode ser uma força para o bem no contexto do desenvolvimento social, insistindo que ela pode ajudar a conduzir a discussão e o debate -, bem como escutar – com a participação de tantas outras ao redor do mundo. E prossegue, para concluir:

“A preocupação tradicional da Maçonaria com a filosofia comparativa e o pensamento, a tolerância de outras pessoas, filantropia e boa vontade, têm uma contribuição a dar no que se tornou um diálogo global, da mesma forma em que deu importantes contribuições no século XVIII. Ao mesmo tempo, a Maçonaria tem muito a aprender em envolver mais a sociedade civil como o fez tão bem na época do Iluminismo, aproveitando e fazendo avançar ideias sobre a cultura impressa e o fluxo livre e aberto de informações”.

O contínuo compromisso da organização com a abertura e a transparência, uma área em que há evidências de progressos significativos, é tão fundamental para a sua contínua relevância e valor no século XXI como o era no século XVIII.

Como vimos em outra parte deste relatório, em nível individual, a Maçonaria atende às necessidades atemporais de pessoas de um sentimento de filiação e de pertencimento. Os maçons argumentam fortemente que isso por si só torna a organização mais relevante do que nunca, uma vez que fornece uma combinação única de amizade e estrutura em nossa sociedade atualmente competitiva e fragmentada. Sendo semelhante a um ‘hobby’, conforme Grande Secretário a descreve, ao invés de uma vocação, ela não inibe vínculos igualmente fortes e um senso de pertencimento longe das lojas. E como qualquer outra organização da sociedade, seus membros são encorajados a colocar outras necessidades, tais como trabalho, família e sua comunidade – acima daqueles da Maçonaria.

A relevância do papel da Maçonaria – ou melhor, dos próprios maçons – em ajudar os outros através do trabalho voluntário e de beneficência, é igualmente forte. Conforme salienta o Grande Secretário:

“Não é a Maçonaria em si que está fazendo o bem na comunidade, mas sim a membros “decentes” individualmente que estão motivados para se preocupar com o bem-estar dos outros e que por acaso também são maçons.

“A MAÇONARIA ESTAVA LÁ, NAS ORIGENS DA MODERNA SOCIEDADE CIVIL, MUITAS VEZES COMO A ÚNICA ORGANIZAÇÃO ONDE PODERIA HAVER DISCUSSÃO LIVRE, SEM MEDO DE CENSURA E CONTROLE AUTORITÁRIO”.

É, naturalmente, possível que se tornar um maçom aumente a conscientização das pessoas em necessidade e incentive um papel mais ativo na comunidade, como muitos maçons relataram. Em nível coletivo e não individual, a Maçonaria dá contribuições muito consideráveis para a beneficência, com os maçons salientando que todo o dinheiro arrecadado vem diretamente de seus próprios bolsos, ao invés de coletas de rua ou qualquer outro tipo de captação de recursos externos. Do dinheiro arrecadado pela Grande Beneficência dos Maçons, cerca de metade é doada para causas não maçônicas, em nível local, nacional e internacional.

A relevância e o impacto de tal atividade beneficente contínua precisam ser visto no contexto da iniciativa “Big Society” atual que está sendo tentada pelo governo de coalizão. Independentemente de posição política aqui, é claro que isso resultará em uma diminuição da contribuição do Estado em muitas áreas da vida das pessoas, e um foco correspondente crescente na prestação de serviços por organizações do terceiro setor e através de os cidadãos serem obrigados a prestar assistência uns aos outros.

Essa transformação já está sendo sentida. O senso de “dever” de um indivíduo ou vontade de doar tempo ou dinheiro para ajudar as pessoas menos favorecidas não é, contudo, algo que pode ter aplicada a engenharia social ou ser conseguido através da manipulação política ou legislação. É algo que emerge naturalmente através de fortes laços sociais ou familiares com pessoas de mentalidade afim que compartilham códigos morais comuns. É neste sentido que a Maçonaria e as suas raízes históricas na benevolência humanista e a rejeição da intolerância, sem dúvida a tornam mais relevante hoje, em tempos de incertezas econômicas e sociais, do que jamais foi.

O que atrai os maçons para a Maçonaria varia enormemente, como vimos anteriormente neste relatório. Alguns são atraídos pelas amizades que eles fazem e o sentimento de pertencimento que ela infunde; outros pelo “empurrãozinho” que a Maçonaria oferece para viver uma vida mais altruísta. Outros, ainda, serão atraídos pelos rituais da maçonaria.

Muito parecido com os próprios rituais, no entanto, a Maçonaria pode merecer um olhar mais atento para se compreender e aprecia-la mais plenamente, e sua relevância e papel atual. Se a Maçonaria é capaz de concluir com sucesso a sua ‘revolução silenciosa’, enquanto ao mesmo tempo garante que suas características centrais sejam mantidas para preservar o “espírito” verdadeiro da Maçonaria, então o seu futuro pode muito bem ser assegurado – pelos próximos um ou dois séculos, pelo menos.

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NOTAS

[i] 1 maslow, a. (1943)

[ii] Baumeister, rf & Leary, mr (1995)

[iii] Walton, G. m. & Cohen, G. l. (2007)

[iv] Ainsworth, m. D. s. (1989)

[v] Or all-female affair in the case of women’s lodges – veja abaixo.

[vi] O preceito do amor fraterno é definido como: “Todo verdadeiro maçom mostrará tolerância e respeito pelas opiniões dos outros e comportar-se-á com bondade e compreensão com seus semelhantes.”

[vii] Tiger, l. (1970)

[viii] 8 – ver o relatório SIRC Pertencer – disponível em www.sirc.org/publik/belonging.shtml

[ix] Darwin, c. (1871) The Descent of man. p.1635

[x] Darwin, c. (1871) The Descent of man. p.166

[xi] 3 Dawkins, R.(1979) The Selfish Gene

[xii] ver Boyd, r. & mcilreath, r. (2007) Modelos matemáticos da evolução social. Chicago University Press

[xiii] Ver, por exemplo, mol et al., 2006; Tankersley, et al, 2007

[xiv] World Giving Index, 2010

[xv] Nós não pretendemos descrever em detalhes os rituais maçônicos associados à iniciação e progresso através dos Graus. Existem, no entanto, inúmeros relatos de precisamente o que acontece nestas cerimônias, incluindo o livro Maçonaria: a Realidade de Tobias Churton.

[xvi] O trabalho mais significativo de Blumer, no entanto, veio mais tarde na década de 60 com a publicação de seu Interacionismo Simbólico: Perspectiva e Método.

[xvii] Fiese, B. et al (2001); Fiese, B. et al (2002)

[xviii] Ver, por exemplo, Marsh, p. et al (1978)

O FUTURO DA MAÇONARIA(clique aqui para baixar o texto em PDF)

Publicado on março 24, 2012 at 6:20 pm  Deixe um comentário  

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