O Conceito Maçônico de Liberdade – Maçonaria e o Iluminismo

Tradução José Filardo

por Ir.´. Alex Davidson
Past Master, United Masters Lodge no. 167 NZ Constitution
Past Master, Lodge of the Liberal Arts no. 500 NZ Constitution

O maçom recém-iniciado assimila rapidamente as admoestações da Ordem. Ele foi instruído a nunca propor, ou de forma alguma aceitar qualquer ato que possa subverter a paz e a boa ordem da sociedade, e para prestar devida obediência às leis do estado. Ele e orientado a se abster de discutir qualquer assunto político ou religioso em loja e, por inferência, na refeição ou ceia que segue a reunião.

Se ele eventualmente assume a cadeira de Salomão, significa a sua aceitação das Antigas Obrigações e Regulamentos, o terceiro dos quais lhe ordena não se envolver em intrigas ou conspirações contra o governo, mas pacientemente submeter-se às decisões do Supremo legislador. Ele recebe a aprovação de seus pares, se ele for um sujeito pacífico e cidadão cumpridor da lei.

No decorrer de seus esforços para fazer um avanço diário no conhecimento maçônico, nosso maçom hipotético descobre que a Ordem tem antigas imposições contra a discussão política e a ação revolucionária. Os antigos “Estatutos de Sinclair” da Escócia reconhecem explicitamente o patrocínio e a proteção da coroa, e em um manuscrito de meados do século XVII, exige-se de maçons:

“… que vocês sejam homens verdadeiros com o Rei sem traição ou falsidade, e que vocês não aceitem qualquer traição ou falsidade, mas vocês a corrijam ou então deem aviso dela ao Rei.” (Manuscrito Buchanan).

A segunda Obrigação das Constituições de Anderson (1723) contém a afirmação de que ‘um maçom é uma súdito pacífico dos poderes civis, onde quer que ele resida ou trabalhe, e nunca se envolvera em tramas e conspirações contra a paz e o bem-estar da nação. ‘ A situação pareceria ser bastante clara.

No entanto, após novas pesquisas, nosso bom maçom não pode evitar, mas observa uma gritante contradição na história da Maçonaria. Ele descobre que os líderes revolucionários americanos de 1776, muitos dos artífices de sua constituição e da Declaração de Direitos e, na verdade, os primeiros presidentes dos Estados Unidos eram ao mesmo tempo maçons e rebeldes contra seu governo legítimo e soberano. Ainda mais alarmante, muitos dos principais atores políticos da Revolução francesa, particularmente durante a sua primeira fase, eram proeminentes maçons franceses, mobilizado sob o slogan originalmente maçônico da ‘liberdade, igualdade, fraternidade’.

Avançando no tempo a partir de 1789, ele descobre que as grandes revoluções do século seguinte são lideradas por maçons: Simon Bolívar, José de San Martin e Bernardo O’Higgins na América do Sul; Vicente Guerrero e mais tarde Benito Juarez, no México; José Marti, em Cuba, José Rizal nas Filipinas e Giuseppe Garibaldi na Itália. E notavelmente, os texanos que se rebelaram contra o governo do México e lutaram uma bem sucedida guerra de secessão eram predominantemente maçons, e de fato, todos os presidentes e vice-presidentes da República do Texas também eram maçons! Que conclusão ele deve tirar de tudo isso?

O grande paradoxo da Maçonaria é que sua história está intimamente entrelaçada com a história das revoluções dos séculos XVIII e do século XIX, ao mesmo tempo em que seus escritos rejeitam firmemente a desobediência política e condenam a subversão e a revolta contra o governo de qualquer país. Minha intenção é desvendar este paradoxo por meio de duas abordagens; uma filosófica, a outra histórica. Para a primeira, adotei a tese avançada por Giuliano di Bernardo, professor de filosofia, e para a última, refiro-me particularmente a um volume de autoria de Margaret Jacob, professora de história (mas não, obviamente, um maçom). As duas abordagens, conforme veremos, são não apenas compatíveis, mas complementares.

Frequentemente, afirma-se que as Constituições originais da Ordem foram formuladas em um contexto histórico específico na Inglaterra, caracterizado por dissidências entre as casas reais de Hannover, por um lado e os apoiantes de James Francis Edward Stuart, ou James III para os jacobitas, por outro. Com adeptos de ambas as facções nas lojas Inglesas, foram feitas tentativas para evitar o conflito, protegendo a ambos. A situação era realmente mais complexa do que isso, conforme veremos, mas esta imagem faz um bom ponto de partida. Não querendo inflamar diferenças políticas entre os irmãos, reivindica-se que Anderson sabiamente excluiu o tópico do discurso educado em loja, e enfatizou a lealdade e a natureza pacífica de membros da Maçonaria.

Curiosamente, no entanto, as Constituições de 1723 especificamente proibiam a expulsão de um irmão por crimes políticos tais como fomentar revolução, embora eles insistissem que ‘a Irmandade leal precisa e deve renegar sua rebelião. A chave para compreender a atitude equívoca em relação à dissidência é o conceito de liberdade e o contexto filosófico, dentro do qual os irmãos da época entendiam esse termo.

Os registros de loja do século XVIII falam muito da ‘liberdade’ dos irmãos, ou coloca a ênfase sobre o termo mais antigo, ‘fraternidade’, ou, na busca de descrever a relação entre todos os irmãos, fala em ‘igualdade’. O que, precisamente, os maçons da época queriam dizer com estas palavras? ‘Liberdade’ era claramente concebida como algo diferente do costume da guilda de conferir aos seus membros “liberdade e privilégios” de praticar seu ofício. A Enciclopédia maçônica de Mackey do início do século XX anota:

‘A palavra liberdade não deve aqui para ser tomada em seu sentido moderno da liberdade, mas sim em seu primitivo significado anglo-saxão de franqueza, generosidade, uma generosa disponibilidade para trabalhar ou realizar um dever. ‘

De fato, para os maçons da Grã-Bretanha do século XVIII, a palavra ‘liberdade’ era compreendida não neste sentido primitivo, mas precisamente na interpretação dada a ela pelo filósofo John Locke em seus Dois Tratados de Governo, de 1690.

Afirmava-se que Locke era um maçom com base em uma carta sua datada de 1696. Isso é hoje considerado evidência fraca, mas o ponto importante é que todos os maçons piedosos da época acreditavam firmemente que Locke tinha sido iniciado na Ordem. Ele tinha, na verdade, sido feito um Fellow da Royal Society, um viveiro de Maçonaria em 1668, e seus amigos particulares lá eram Robert Boyle, um conhecido maçom e Isaac Newton, membro de uma sociedade quase-maçônica. A Maçonaria no século XVIII, por vezes, tem sido descrita como Rousseauniana, mas acima de tudo, ela também poderia ser e foi diretamente no final de 1760 Lockeanos, bem como sendo essencialmente republicana.

Os Dois Tratados de Governo foram o fruto de anos de reflexão sobre os verdadeiros princípios na política, uma reflexão baseada em observações próprias de Locke. Governo, sustentava Locke, é uma relação de confiança; sua finalidade é a segurança da pessoa e da propriedade do cidadão; e o súdito tem o direito de retirar sua confiança no governante quando este falha na sua tarefa. Governo e poder político são necessários, mas assim é a liberdade do cidadão; e em uma monarquia constitucional, democrática, um tipo de governo é possível em que as pessoas ainda são livres.

Locke escreveu que não podemos ser obrigados a um governo ao qual não damos algum sinal de consentimento (Livro II, §. 119), e que ‘o fim da lei é preservar e ampliar a liberdade “(II, 57). Os governos são dissolvidos quando o ‘legislativo ou o Príncipe, qualquer deles agir contrariamente à sua confiança’ II, 221, e o ‘Poder reverte ao povo’, que pode então estabelecer um novo legislativo e executivo (II, 222). São as pessoas que decidem quando ocorreu uma quebra de confiança, pois só o homem que goza do poder pode dizer quando ele é abusado (II, 240). No caso de disputa ‘o apelo final é a Deus’, pelo que Locke especificamente queria dizer a revolução.

A liberdade é a antítese da tirania, porque ‘ como usurpação é o exercício do poder, a que outro tem direito; assim a tirania é o exercício do poder além do direito, a que ninguém pode ter um direito. E isso é fazer uso do poder qualquer que todos têm em suas mãos; não é para o bem daqueles que estão sob ele, mas para sua própria vantagem privada separada.’ (II, 199). “Quando qualquer um, ou mais, tomam para si fazer leis, a quem as pessoas não nomearam para fazê-lo, eles fazem Leis sem Autoridade, que as pessoas, portanto, não são obrigadas a obedecer;.’ (II, 212).

‘O fim do governo é o bem da humanidade, e o que é melhor para a humanidade, que as pessoas devam ser sempre expostas à vontade infinitas da Tirania, ou que os Governantes sejam, por vezes, susceptíveis de serem contestados, quando eles aumentam de forma exorbitante o uso de seu Poder e o empregam para a destruição e não a preservação das Propriedades de seu Povo? (II, 229). Em tal situação, justifica-se a revolução, porque ‘quando um rei se destronou e se colocou em um estado de guerra com seu povo, o que deve lhes impedir de perseguir aquele que não é nenhum rei, como fariam a qualquer outro homem, que se colocou em um estado de guerra com eles;. . .’ (II, 239).

Giuliano di Bernardo molda seu argumento sobre liberdade em torno das ideias de Locke e do filósofo utilitarista do Século XIX, John Stuart Mill, raciocinando que se a validade incondicional das proscrições maçônicas da rebelião fosse admitida, então maçons seriam obrigados a respeitar qualquer poder de estado civil, seja democrático ou tirânico:

‘ Mas então, como pode a fidelidade ou a indiferença ser conciliada com a antropologia filosófica maçônica que postula a própria liberdade entre os elementos fundamentais que constituem um maçom? Liberdade e tirania não são compatíveis entre si e na verdade elas são abertamente contraditórias. Portanto, a Maçonaria não pode ser indiferente à tirania. ” (p. 141).

A interpretação de di Bernardo é que ‘um maçom é uma súdito pacífico desses poderes civis que garantem a expressão da liberdade fundamental.’ Porque:

‘ Se isso não fosse verdade, então não seria possível entender por quê, por exemplo, os maçons americanos (Washington, Jefferson, Franklin e outros), depois de ter aceito as Constituições de Anderson… , conspiraram e declararam guerra contra a mãe pátria. Além disso, ainda não estaria claro por que os maçons de todo o mundo, em épocas diferentes, lutaram contra todas as formas de tirania, e finalmente, seria difícil entender os pensamentos e ações daqueles maçons que dedicaram suas vidas a afirmaram os princípios que tornaram possível passar de um tipo medieval e autoritário de sociedade para uma sociedade fundada sobre os direitos do homem e das Nações.’ (p.141f).

A liberdade, então, é um trunfo em debate maçônico sobre os direitos e deveres dos maçons. Agora começamos a entender por que membros proeminentes da Ordem foram centrais para as revoluções dos séculos XVIII e XIX. A questão permanece, no entanto, por que os maçons ingleses (e, na verdade, escoceses) do século XVIII fizeram tanta questão de enfatizar a obediência ao poder e o respeito pela lei em suas Constituições e outros escritos. Para responder a esta pergunta e completar a nossa resolução do grande paradoxo da Maçonaria, devemos agora voltar nossa atenção da filosofia para a história.

A Maçonaria especulativa existe na Inglaterra desde pelo menos 1646, quando Elias Ashmole foi feito maçom em uma loja em Warrington. No início, membros não-operativos constituíam uma pequena minoria, mas registros de loja do final século XVII e início do século XVIII revelam uma rápida conversão das guildas de maçons operativas em sociedades privadas de cavalheiros maçons ‘livres e aceitos’. Simultaneamente, houve uma consolidação do poder do Parlamento para governar a nação, os Whigs aumentaram sua ascendência como guardiões da herança revolucionária de 1688-89 e o poder econômico das corporações de ofício declinou. A Maçonaria ‘especulativa’ pode ter-se desenvolvido a partir da influência de William Schaw na Escócia e posteriormente disseminada para Inglaterra, mas a essência da Maçonaria iluminista é caracteristicamente inglesa, e o que foi reexportado para a Escócia no início do século XVIII era algo novo. A ênfase em constituições, leis e governança originou-se em Londres.

Alguns pesquisadores afirmam que a Maçonaria permaneceu ‘prudentemente silenciosa’ durante o Protetorado e isso é só depois da Revolução Gloriosa de 1688-89 que ele surgiu na consciência geral. Até 1717 ela estava suficientemente estabelecida e as lojas suficientemente numerosas, para que quatro lojas de Londres tomassem para si constituir uma ‘Grande Loja’. Até os 1720’s Companheiros da Royal Society eram proeminentes nas lojas de Londres, e até 1725 havia 64 lojas na Lista da grande loja.

A guilda de ofício tinha gradualmente evoluído para “uma sociedade” que manteve algo da antiga, incorporando os interesses e os valores das classes superiores que agora tinham sido recrutadas, e que rapidamente viriam a dominar. Bernard Jones observa que as Antigas Obrigações há muito tempo tinham perdido a maior parte de sua utilidade, mas que continham algum material que era desejável salvar e preservar de forma um pouco diferente. A linguagem religiosa antiga desaparece, e a guilda, completa com seus mitos e rituais foi adotada apenas para ser transformada em algo novo.

Maçonaria espalhou-se rapidamente na Escócia e na Irlanda e para a América e Europa; primeiro a França e a Holanda, depois para os Estados alemães e outros países. Isso é muito familiar: Pretendo agora dar uma olhada mais de perto no pensamento e prática maçônicos em relação à política e sociedade e sua relação com esse fenômeno histórico que agora chamamos de Iluminismo.

No momento da formação da primeira grande loja, a situação britânica era única. Como resultado de suas revoluções de 1640 e 1688, eles tinham garantido o Governo Constitucional e parlamentar. No entanto, a Maçonaria não causou nem participou destas revoluções. Para garantir a respeitabilidade, os maçons ingleses permaneceram em silêncio sobre o papel que seus membros possa ter desempenhado, e os maçons continentais cuidadosamente reconstruíram a mítica história das origens de Hiram e do templo do rei Salomão, passando pelas cruzadas e Templários, até a Inglaterra do século XVII.

A história do Cavaleiro Jacobita Católico Ramsay da Maçonaria, chegando à França através de reis medievais da Escócia era popular, pois ela ignorava completamente as revoluções inglesas. Os próprios maçons britânicos evitaram cuidadosamente qualquer menção de associação com estes levantes. As origens especificamente britânicas da Maçonaria já a tornavam suspeita na maioria dos países continentais onde parlamentos, revoluções, declarações de direitos e atos de tolerância eram vistos como intrinsecamente subversivos.

Desde os primórdios de sua história, a Maçonaria foi acusada de possuir intenções democratas e republicanas, se não comunistas, primeiro pela Igreja Católica, mais tarde pelos adversários da Revolução Francesa. Os críticos clericais foram rápidos em identificar o GADU com o deus das deístas. Em 1738, o papado condenou a Maçonaria, e sua principal ofensa era que ela ‘… imita um aspecto do governo das repúblicas. Seus líderes são escolhidos, ou demitidos, à sua vontade. ‘ Isso era considerado escandaloso. O mito de que Cromwell tinha sido o fundador da Maçonaria era difundido na França. No entanto, ele contém uma verdade simples: esta sociedade privada foi uma invenção britânica, não uma invenção Continental.

As lojas britânicas foram uma inovação surpreendente na medida em que seus membros se reuniam através de ‘convivência’ como indivíduos nas lojas, e não dentro dos limites da família, Igreja, Confraria ou outros organismos tradicionais que refletiam principalmente a sua posição na sociedade em geral. Há uma razão importante que esta forma de socialização ter surgido primeiro na Grã-Bretanha. Seus ofícios e guildas tinham sido enfraquecidos mais cedo do que acontecia no continente, e a economia de mercado estava ainda mais avançada. Mesmo as guildas de comerciantes escoceses tinham tido negados seus privilégios de monopólio pelo Parlamento escocês já em 1672. Por volta dos anos 1720, a sociedade britânica permitia interações sociais mais abertas e descontraídas (embora não necessariamente o casamento) entre Lordes, pequena nobreza e plebeus. Em seus escritos, um jovem francês visitando Londres na década de 1720, Voltaire, tornou famosa esta familiaridade. Com ela veio um grau de tolerância religiosa desconhecido, exceto na República Holandesa.

Quem eram esses maçons, e em que consistia sua ‘sociabilidade’? Os registros sobreviventes mostram que eram alfabetizados, de educação moderada a avançada e suficientemente ricos para poder pagar as taxas substanciais: em outras palavras, eles eram provavelmente congruentes com 20 por cento dos cidadãos britânicos masculinos, que eram emancipados. Sua socialização frequentemente incluía comer e beber em excesso, apesar de suas palestras e escritos hipocritamente censurar tal comportamento sibarita. Eles conversavam, debatiam e discutiam, e temos conhecimentos suficientes da natureza de suas discussões para reconstruir sua visão de mundo, política e importância para uma sociedade em mudança.

No entanto, estes maçons faziam mais do que simplesmente se reunir e conversar. Em sua sociabilidade privada, eles estabeleceram uma forma de autonomia, completa com Constituições e leis, eleições e representantes. Eles concederam soberania sobre este governo e lhe prestaram fidelidade, ao mesmo tempo em que ela a poderiam alterar ou remover pelo consentimento da maioria dos irmãos. As Lojas tornaram-se microscópicos governos civis, novos espaços públicos, na realidade, escolas de governo constitucional.

Presumia-se que as virtudes procuradas pelas lojas fossem aplicáveis à governança, ordem social e harmonia e à esfera pública[i]. Sua significância era sua capacidade de ensinar homens distintos por seu mérito assumido como integrar valores iluminadas aos hábitos de governança. As lojas esforçaram-se para civilizar, ensinar boas maneiras e decoro, aumentar a sociedade civil. Elas ensinavam os homens a falar em público, a manter registros, a pagar ‘impostos’, a ser tolerante, a debater livremente, a votar, a moderar suas comemorações e dedicar devoção ao longo da vida aos outros membros da sua Ordem. Assim, eles se tornaram cidadãos, no sentido moderno da palavra, ao invés de meros ‘súditos’.

A essência da retórica maçônica era invariavelmente cívica. As miniaturas de políticas criadas eram destinadas não só a possuir o governo interno, mas também era, sociais e intelectuais em sua natureza. Elas nunca foram destinadas a serem políticas no sentido partidário do termo. Pode-se dizer que as lojas estavam profundamente preocupadas com a política sem nunca querer se envolver no dia-a-dia da política. Os registros maçônicos são claros sobre a falta de envolvimento político específico por parte da maioria das lojas europeias. As Constituições maçônicas oficiais publicadas em Londres em 1723 proibiam ‘quaisquer discussões sobre religião ou nações ou política de estado… nós… estamos resolvidos contra toda política, pois isso jamais conduziu ao bem estar da Loja. “Mas, para entender esta posição, precisamos saber o que os maçons de Londres entendiam por política”.

‘Política’, na Inglaterra da década de 1720 significava algo um pouco diferente do resto da Europa. Quando se discute ‘política’ as Constituições maçônicas queriam dizer política partidária, o conflito de grupos organizados, precipitado pela evolução de uma nova nação política como o resultado do Revolution Settlement de 1688-89. ‘Política’ era a competição pelo poder entre os partidos Whig e Tory, Jacobitas e Hanoverianos em um Parlamento constitucionalmente protegido.

No entanto, evitar a política não significava negar o cívico. Conforme proclamavam as Constituições, a Maçonaria era praticada ‘ quando os poderes civis, abominando a tirania e a escravidão, deram o devido escopo ao gênio brilhante e livre de seus súditos felizes. . .’. O gozo da harmonia social pelos membros da loja dependia de paz e liberdade conforme garantidas pelas autoridades civis. Cada loja era concebida como um microcosmo da sociedade civil ideal.

Maçonaria inglesa tinha características civis e políticas distintas, moldadas por um contexto social derivado da Revolução Inglesa. Conforme nota Margaret Jacob:

‘ Com linguagem marcadamente política, as Constituições elogiaram o reinado do imperador romano Augusto, usando uma linguagem contemporânea que sinalizava a identificação com o regime de Hannover e os Whigs, que tinham subido ao domínio político em 1714. Previsivelmente, a liderança britânica mais antiga da Grande Loja fundada em 1717 tendia a ser Whigs do tipo ‘corte’, isto é, os partidários de governo ministerial forte e por sua própria definição os herdeiros da Revolução de 1688-89. ‘ (p. 46).

O objetivo do governo ao consentir, dentro do contexto de subordinação em ‘legitimar’ a autoridade foi vigorosamente perseguido pelo Grande Loja de Londres e foi exigida de todas as lojas afiliadas a ela. Assim, as lojas eram sociedades políticas, não em um sentido do termo partido ou facção, mas em uma conotação maior. A forma da loja tornou-se um dos muitos canais que transmitiam uma nova cultura cívica e política, baseada em constitucionalismo, que se opunha aos privilégios tradicionais e estabeleciam a autoridade hierárquica.

Esta nova cultura, com a Maçonaria em sua vanguarda, é conhecida hoje como o Iluminismo, uma passagem fundamental no desenvolvimento europeu. Ela começou na Inglaterra, mas é fortemente identificada com a França, onde eventos tomaram um rumo mais dramático. Ela argumentava que hábitos de pensamento das pessoas eram baseados em irracionalidade, poluídos pelo dogma religioso e excessivamente conformados ao precedente histórico e tradição irrelevante. A maneira de escapar era buscar o verdadeiro conhecimento em todas as esferas da vida, estudar as artes liberais e as ciências, estabelecer a verdade e construir com base nela. Suas premissas eram liberais, pró-ciência, antisuperstição, e que o Estado era o veículo adequado para a melhoria da condição humana.

A essência da filosofia do Iluminismo era a razão. A lógica tinha sido emprestada dos gregos desde o tempo de Thomas Aquinas, mas Descartes e outros filósofos do século XVII tinha aplicado a razão às questões tradicionais, julgando a ser uma poderosa avenida até a verdade. Eles compreenderam que lógica sozinha poderia ser usada para defender todo tipo de noção absurda e insistiram em combiná-la com este novo princípio, que englobava o senso comum, a observação e seus próprios preconceitos não reconhecidos em favor do ceticismo e da liberdade.

A crescente classe comerciante foi a força motriz do Iluminismo. Eles acreditavam firmemente que sua recém-encontrada riqueza era o resultado de seu mérito individual e trabalho duro, ao contrário da riqueza herdada de aristocratas tradicionais. Mas os obstáculos principais para a reformulação da Europa pela classe comerciante eram as mesmas enfrentadas pelos filósofos racionalistas: reis absolutistas e igrejas dogmáticas. Durante a luta, o individualismo, a liberdade e a mudança substituíram a comunidade, a autoridade, a estabilidade e a tradição como valores fundamentais europeus. A religião sobreviveu, mas foi enfraquecida e muitas vezes transformada em algo irreconhecível; a monarquia iria diminuir ao longo do próximo século até uma pálida sombra do seu antigo ser.

Na Inglaterra, embora a liberdade política e a liberdade de expressão fossem limitadas antes da Revolução Gloriosa, as chamadas ‘coffee-houses’, que tinha surgido no período de 1670-85, estabeleceram um local onde a crescente classe média podia se encontrar e se envolver em discussão. Jürgen Habermas, filósofo alemão proeminente, argumentou-se que esta “esfera pública” apareceu primeiro na Inglaterra na década de 1690, no rescaldo da Revolução Inglesa, e ele vê a Maçonaria como antecipando a adopção em nível europeu desta esfera como uma alternativa ao absolutismo. Aqui ele localiza os primeiros momentos na formação da sociedade civil moderna. A loja, a sociedade filosófica, a academia científica tornaram-se a base, conforme filósofos como Habermas e alguns historiadores acreditaram desde há muito tempo, para as formas republicanas e democráticas de governo que evoluíram lenta e irregularmente na Europa ocidental desde o século XVIII.

Entretanto, não demorou muito antes que a divisão ocorresse na Maçonaria inglesa, sob a forma de um cisma entre a Grande Loja e um grupo separatista de lojas que chamavam a si mesmas ‘os Antigos’, alcunhando a Grande Loja de ‘os modernos’. Entre 1739 e 1751 os separatistas formaram uma grande loja rival, e os dois não se reconciliaram até 1813. Bernard Jones atribui isso à apatia e à negligência da Primeira Grande Loja e sua aparente incapacidade de governar a Ordem, por um lado e as diferenças na prática ritual e cerimonial de outro. Certo elemento irlandês sem dúvida também desempenhou um papel na cisão.

Estes pontos são bem conhecidos, mas Margaret Jacob revela uma divisão política e social por trás do Cisma, que é um pouco mais interessante e persuasiva. Embora os maçons falassem de todos os irmãos como ‘iguais’, isso não deixava óbvio o papel que as lojas desempenhavam enquanto locais que replicavam a hierarquia e a ordem social, com base não no nascimento em si, mas em uma ideologia de mérito. As lojas espelhavam a velha ordem, assim como elas estavam criando uma forma de sociedade civil que, em última análise a iria substituir.

Apesar de sua retórica de igualdade, as primeiras lojas eram elitistas, buscando a maioria de seus membros nas classes educadas e moderada a enormemente ricas. A liderança era esmagadoramente Whig e Whigs poderosos e influentes nisso. Originalmente, os Whigs tinham sido a força revolucionária por trás do constitucionalismo e da liberdade: agora eles se tornaram parte do Establishment e procuravam desencorajar ainda mais o fervor revolucionário, enfatizando a o comportamento pacifico e cumpridor da lei. Isso, mais que sensibilidades jacobitas e Hanoverianas é a fonte das proibições maçônicas sobre subversão e até mesmo a discussão da política em loja. Jacob observa:

‘ O maçom cobiçava a riqueza; ele queria prosperidade, mas sem decadência. É dele a consciência de que aqueles senhores Whig que queriam viver como a corte e colher seus benefícios, enquanto gerenciavam de alguma forma para evitar o deslize inevitável para a libertinagem e corrupção. Assim, os publicistas maçônicos enfatizam os aspectos ritualísticos e fraternos de comida, bebida e música, buscando transformá-los em expressões simbólicas de moderação, a harmonia e a unidade maçônicas.’ (p. 67).

Ela faz uma distinção entre o comportamento de ‘corte’ do grupo da Grande Loja e a oposição ‘rural’ que deu origem aos Antigos, que ela caracteriza como uma ‘revolta dos homens inferiores contra seus superiores. ‘ A celebrização de comerciantes e lojistas nos escritos dos Antigos é um tema constante; eles se opõem ao deísmo de Modernos; eles se veem como ‘reformistas’. Para adicionar um ar de respeitabilidade às suas inovações cerimoniais, eles as descrevem como ‘Escocesas’. Por outro lado, na década de 1760, os Modernos estavam preocupados em enfatizar a lei e a ordem contra o radicalismo Wilkesiano[ii] e reduzir a ênfase em sua própria herança revolucionária.

Vamos agora considerar a propagação da Maçonaria. Na década de 1730, a Maçonaria tornou-se estabelecida no Continente, especialmente na França e na Holanda. Essas lojas também consagravam os valores culturais britânico entrelaçados com as questões potencialmente subversivas de tolerância religiosa, confraternização descontraída entre homens de origem social mista e amplamente díspares, uma ideologia de trabalho e mérito e, não menos importante, o governo por Constituições e eleições. Esses valores eram os ideais louvados do Iluminismo, o movimento cultural internacional que afirmava o secular e o moderno.

Como essas lojas continentais eram réplicas de lojas britânicas, elas transmitiam formas de governança e comportamento sociais geradas dentro da cultura política exclusiva daquela ilha. Embora os homens tivessem votado em reuniões por séculos em ambos os lados do canal, foi só na Inglaterra que eles o fizeram dentro de um quadro constitucional e uma assembleia legislativa nacional onde votar era por indivíduo e não por propriedade ou localidade.

Esta forma distintiva da cultura política nutriu uma nova forma de sociedade civil. Indivíduos com direito de voto, naquele tempo uma minoria distinta na Grã-Bretanha, identificada com partidos políticos e problemas tanto em nível local quanto nacional. Estes homens liam e debatiam, formavam sociedades de leitura, clubes e lojas, onde eles testavam suas habilidades como oradores e comentaristas, ou como alunos de filosofia e literatura. Nas lojas, os homens também se tornavam legisladores e formadores de constituição.

O período revolucionário da Inglaterra havia passado, portanto ela podia prosseguir de forma relativamente suave e gradual no caminho para o que conhecemos como democracia moderna; mas a liberdade inglesa era dinamite quando transportada para a França, onde a resistência da Igreja e dos governantes era intransigente. O resultado foi, ironicamente, que enquanto a Inglaterra se manteve saturada com privilégio de classe e relativamente piedosa, a França estava para se tornar, após sua própria revolução, o estado mais igualitário e anticlerical na Europa – pelo menos em seus ideais. O poder da religião e da aristocracia diminuiu gradualmente na Inglaterra; na França eles foram violentamente subvertidos.[iii]

Em resumo, podemos dizer que a Maçonaria era um dos canais, talvez o principal canal, pelo qual os valores do Iluminismo foram transmitidos da Inglaterra para a América, França, Países Baixos e, eventualmente, a todos os países civilizados. O essencial da mensagem eram a liberdade, a tolerância e a sociabilidade, e de fato, conforme Immanuel Kant, o filósofo do Iluminismo tardio manteve, a ideia de que através da razão, todos os homens poderiam encontrar um modo de vida que fosse satisfatório e realizador. O que podemos finalmente dizer ao nosso hipotético maçom perplexo sobre o grande paradoxo da Maçonaria? Em primeiro lugar, podemos com segurança tolerável endossar a premissa de Giuliano di Bernardo de que ‘um maçom é um súdito pacífica desses poderes civis que garantem a expressão da liberdade fundamental. Sem liberdade, a Maçonaria não pode existir.

Em segundo lugar, podemos mostrar a partir da história que a Maçonaria deveria inevitavelmente ser a portadora das ideias revolucionárias do Iluminismo onde a liberdade não existia. Sabemos com certeza razoável que as lojas francesas não praticavam a política, mas sua filosofia não poderia deixar de fazer com que muitos dos seus membros fossem participantes ativos na política dos movimentos de libertação revolucionária. A Maçonaria pode ter sido oficialmente neutra, mas seus membros não o eram. E finalmente, podemos observar que todos nós somos, indiretamente, os beneficiários da Maçonaria e do Iluminismo: agora nós consideramos seus valores políticos gerais como tão normais que tendemos a admiti-los como certos. O secularismo, o constitucionalismo e o parlamentarismo são sua herança, tornando óbvia a necessidade de ação revolucionária para se conseguir a liberdade. Esta, talvez, seja a conclusão mais importante que pode ser tirada deste breve estudo.

REFERÊNCIAS

Consultei várias fontes na elaboração deste ensaio, das quais algumas das mais importantes são:

Di Bernardo, G. Freemasonry and its Image of Man: A Philosophical Investigation (Tunbridge Wells: Freestone, 1989).

Gould, R.F. A Concise History of Freemasonry (London 1903: reprint by Kessinger, 1998).

Habermas, J. The Structural Transformation of the Public Sphere (Boston: MIT, 1989).

Jacob, M.C. Living the Enlightenment: Freemasonry and Politics in Eighteenth-Century Europe (New York: Oxford University Press, 1991).

Jones, b.E. Freemasons’ Guide and Compendium (London: Harrap, 1973).

Locke, J. Two Treatises of Government (1690; this edition ed. Peter Laslett, Cambridge University Press, 1963).

Mackey, A. Encyclopedia of Freemasonry and its Kindred Sciences (Philadelphia: McClure, 1917).

NOTAS


[i] Esfera pública. Termo cunhado por Jürgen Habermas (1989) para se referir à emergente sociedade independente da Inglaterra do século XVIII e o crescimento de uma nova “esfera pública… que faz a mediação entre sociedade e o estado, em que o público se organiza como o portador da opinião pública.” A ideia de democracia representativa moderna conforme concebida primeiramente pelos filósofos do Iluminismo incluíam o reconhecimento de uma teia viva de comunicação de cidadão para cidadão, conhecida como ‘sociedade civil’ ou ‘esfera pública’. A esfera pública burguesa era uma área onde as pessoas, ‘desconsiderando por completo o status’, podiam se reunir para realizar debates abertos, falar livremente, ter maior acesso às informações e estar independente de controle econômico e estado. Estes fatores foram necessários para a criação de uma verdadeira democracia, onde todos podem participar na criação de uma sociedade que seja aberto e acessível a todos. O trabalho de Habermas depende de uma descrição de um momento histórico durante o século XVIII, quando coffee-houses inglesas, salões franceses e cafés alemães tornaram-se o centro do debate e estende isso a um ideal de participação na esfera pública atual. Ele desenvolve a noção normativa da esfera pública como parte da vida social onde os cidadãos podem trocar pontos de vista sobre questões importantes para o bem público, para que a opinião pública possa ser formada. A esfera pública se forma sempre que as pessoas se reúnem para discutir questões de interesse político.

[ii] John Wilkes (1725-1797), Maçom, político radical. Eleito deputado por Aylesbury 1725, fundou o The North Briton 1762, um jornal que atacava George III e seu primeiro-ministro nomeado. O rei tentou processar Wilkes por libelo sedicioso, mas o Lord Chefe de Justiça decidiu que, como deputado, Wilkes estava protegido por privilégio. O Parlamento então cassou esse privilégio, mas antes que Wilkes pudesse ser detido, ele fugiu para a França. Ele retornou à Inglaterra em 1768 e foi preso. Uma enorme multidão rodeou a prisão, exigindo a sua libertação. As tropas abriram fogo, matando 7 pessoas ‘(O Massacre dos Campos de St. George). Wilkes foi multado, expulso da Câmara dos Comuns e preso. Ao ser libertado, ele foi reeleito três vezes por Middlesex, mas o Parlamento anulou os resultados a cada vez. Ele então fez campanha pela liberdade de imprensa e começou a publicar os debates parlamentares. O governo ordenou a prisão de seus impressores, mas uma grande multidão cercou a Câmara dos Comuns, e o governo recuou. Em 1774 Wilkes foi eleito Prefeito de Londres e também Deputado por Middlesex. Ele fez campanha pela tolerância religiosa e a reforma do Parlamento. Ele apoiou a Revolução Americana, era um apaixonado adversário do rigoroso código penal e promotor da causa radical. A tendência conservadora na Maçonaria inglesa foi fomentada pela preocupação com Wilkes e mais tarde reforçada pelos excessos da Revolução francesa.

[iii] Revolução francesa. As limitações de espaço me impediram de expandir sobre as relações entre a Maçonaria e a Revolução francesa. O leitor é referido ao United Masters’ Transaction Vol. 31 Nr. 7, outubro de 1996, onde um trabalho de autoria do Ir.´. Hans Kracke intitulado ‘A Maçonaria e a Revolução francesa’ dá uma visão geral histórica desta relação.

Publicado originalmente em http://www.freemasons-freemasonry.com/Davidson.html

Publicado on novembro 9, 2012 at 3:25 pm  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. creio que não devemos sofrer a ação mas sim agirmos em prol de nosso próximo etc…

  2. A ideia que se faz é de que o maçom ao estudar e seguir corretamente todos os ensinamentos somente agiria sem errar, o que na prática, infelizmente não ocorre. A maçonaria não é somente um clube social ela serve para que as pessoas aprendam a agir.


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