Nove Grandes Livre Pensadores e Dissidentes Religiosos na História

Tradução José Filardo

Publicado em AlterNet

Aqui estão alguns ateus que deixaram uma marca profunda.

24 de maio de 2012  |

Que tipo de mundo teríamos se a maioria da raça humana fosse ateia?

Se escutássemos os apologistas religiosos dizer isso, o triunfo do ateísmo significaria uma decadência rápida para o egoísmo e o caos. Os defensores da fé argumentam que o ateísmo conduz inevitavelmente ao egoísmo e ao niilismo, e que somente a religião pode justificar a caridade ou a compaixão, unir as pessoas em comunidade, ou inspirar uma cultura viva e próspera. Mas, esta afirmação só pode ser sustentada ignorando as conquistas de pessoas famosas não-religiosas ao longo da história, dos quais tem havido muitos.

Para desfazer o mito de que os descrentes nunca contribuíram com coisa alguma de valor para a civilização humana, quero destacar alguns que deixaram sua marca nas artes, nas ciências e nas humanidades. Demonstrando que os ateus contam membros ilustres da raça humana entre eles é uma maneira de lutar contra esse preconceito e demonstrar que nós, também, temos um legado histórico que pode ser motivo de orgulho.

Nem todas as pessoas perfiladas aqui eram ateus rigorosos, mas todos eles eram livre pensadores  , mm termo mais amplo que engloba um arco-íris da heterodoxia, dissidência religiosa, ceticismo e pensamento não convencional. Não é nenhuma surpresa que tantos pensadores influentes e criativos vieram das fileiras destes revolucionários intelectuais. A religião organizada tende a recompensar as pessoas não por pensar criativa ou criticamente, mas por recitar e defender os dogmas da geração anterior. Ao longo da história humana, tem sido consistentemente verdade que teocracias obscurantistas estiveram atoladas em pobreza, atraso e estagnação intelectual, ao passo que os avanços mais dramáticos surgiram em momentos e lugares onde as pessoas tinham a liberdade de pensar por si, questionar e debater livremente. As vidas dos homens e mulheres aqui narradas trazem um testemunho disso.

 1.  Albert Einstein  .  O gênio científico  arquetípico, Einstein inaugurou uma revolução na física que dá frutos até hoje. Suas teorias e equações embasam o século 20: tecnologias desde a energia nuclear aos satélites GPS só existem devido às suas descobertas. Mas, além de suas impressionantes contribuições científicas, ele era conhecido como um pacificador e defensor dos direitos civis: ele foi um dos primeiros a advertir o mundo sobre os perigos do nazismo, juntou-se a campanhas antilinchamento, opôs-se publicamente ao macarthismo e pediu o desarmamento nuclear em nível mundial. Mais tarde na vida, foi-lhe oferecida a presidência de Israel, mas ele recusou, dizendo que ele não estava qualificado.

Einstein fez famosas declarações como: “Deus não joga dados com o Universo” que inspiraram apologistas religiosos para tentar reclamá-lo como um dos seus, mas em outras ocasiões, ele deixou claro que isso não era nada mais que uma metáfora poética. Ele tornou suas opiniões conhecidas em cartas, escrevendo, por exemplo: “Eu não acredito em um deus pessoal e nunca neguei isso, mas o expressei claramente. Se há algo em mim que pode ser chamado de religioso então é a admiração ilimitada pela estrutura do mundo, até onde nossa ciência pode revelá-la. ” Em outra ocasião, ele escreveu: “A palavra Deus é para mim nada mais do que expressão e produto da fraqueza humana, a Bíblia uma coleção de lendas honradas, mas ainda assim primitivas, que são, no entanto, muito infantis.”

 2.  Robert Ingersoll.  Um dos mais famovos americanos de quem a maioria das pessoas hoje nunca ouviu falar, o Coronel Robert Green Ingersoll, conhecido em sua vida como o “Grande Agnóstico”, uma vez gozou de fama e renome nacionais. Em uma era antes da televisão e do rádio, a oratória pública era a principal forma de entretenimento, e Ingersoll definiu o padrão ouro. Ele era um dos mais requisitados palestrantes do país; ele atraia multidões de milhares, e em uma ocasião, depois de ouvi-lo falar, Mark Twain observou: “Que órgão é a fala humana quando empregado por um mestre!”

Ele era um abolicionista convicto que serviu com honra a União na Guerra Civil, e passou a defender causas progressistas, tais como a liberdade de expressão, direitos das mulheres, antirracismo e a abolição dos castigos corporais. Embora os políticos repetidamente procurassem seu apoio e seus talentos retóricos, a posição mais alta que o próprio Ingersoll jamais ocupou foi procurador-geral de Illinois – devido, sem dúvida, à sua vontade de expressar eloquentemente pontos de vista de livre pensamento. Em um elogio, o  New York Times  observou que apenas seus pontos de vista  irreligiosos francos o impediram de assumir “aquele lugar na … vida pública de seu país aos quais, por seus talentos, ele teria eminentemente o direito.” Não que o próprio Ingersoll tivesse desejado fosse de outra forma: conforme declarou, um homem verdadeiramente espiritual “ataca o que ele acredita ser errado, embora defendido por muitos, e ele está disposto a defender o direito contra o mundo.”

 3.  W.E.B. DuBois.  Ao contrário da impressão popular, a comunidade negra nos Estados Unidos tem uma longa tradição de envolvimento com o livre pensamento e o secularismo, conforme exemplificado por um dos seus mais influentes ativistas da justiça racial, W.E.B. DuBois. Um dos primeiros negros a obter um Ph.D. de Harvard, DuBois foi um dos fundadores da NAACP e um escritor prolífico e aclamado pela crítica, educador e historiador.

Nas palavras do próprio DuBois, ele foi criado religioso e frequentou um colégio ortodoxo missionário, mas suas dúvidas sobre religião floresceram enquanto estudava na Europa. Quando voltou à América, ele ensinou em uma faculdade Metodista negra, Wilberforce University, mas atraiu a ira dos administradores da escola por se recusar a conduzir os alunos em oração. Conforme Susan Jacoby cita em seu livro  Freethinkers  “Eu simplesmente recusei novamente para me juntar a qualquer igreja ou assinar qualquer credo de igreja. A partir dos 30 anos, eu tenho cada vez mais considerado a igreja como uma instituição que defendeu males tais como a escravatura, castas de cor, exploração do trabalho e a guerra. ” Ele também disse que queria “tornar a Igreja dos Negros um lugar onde homens e mulheres de cor de educação e energia possam trabalhar pelas melhores coisas, independentemente de suas crenças ou descrenças em dogmas sem importância e credos antigos e ultrapassados.”

 4.  Zora Neale Hurston.  Como DuBois, Zora Neale Hurston era uma influente livre pensadora negra e uma aclamada autora do início do século 20. Ela freqüentou a Columbia University com uma bolsa, e enquanto vivia em Manhattan, no auge do Renascimento do Harlem, reunia-se com estudiosos e artistas como Margaret Mead e Langston Hughes. Ela mesma escreveu ficção e trabalhos antropológicos sobre a comunidade negra.  Sua obra prima, o romance de 1937  Their Eyes Were Watching God , foi julgado um dos 100 melhores romances em língua inglesa do século 20.

Em sua autobiografia,  Dust Tracks on a Road, Hurston torna seus pontos de vista de livre pensamento claros e nega que a perspectiva da não existência após a morte traga consigo qualquer medo para ela:

A oração me parece um grito de fraqueza, e uma tentativa de evitar, por meio de artifícios, as regras do jogo estabelecidas. Eu não escolho admitir fraqueza. Aceito o desafio da responsabilidade. A vida, como ela é, não me assusta, pois eu fiz as pazes com o universo como eu o encontro, e curvo-me às suas leis … Parece-me que os credos organizados são conjuntos de palavras em torno de um desejo.  Eu não sinto nenhuma necessidade de tal coisa. Eu sei que nada é destrutível, as coisas apenas mudam de forma. Quando a consciência que conhecemos como vida cessa, eu sei que eu continuarei a ser parte integrante do mundo.  Eu era uma peça antes que o sol tomasse forma e irrompesse na glória da mudança. Eu era, quando a terra foi arremessada para fora do seu aro de fogo. Eu voltarei com a terra ao Pai Sol, e ainda existirei em substância, quando o sol tiver perdido seu fogo, e se desintegrado no infinito, para talvez, tornar-se uma parte do entulho que gira no espaço. Por que temer?  Meu ser é feito de matéria, sempre mudando, sempre em movimento, mas nunca perdida; assim, que necessidade de denominações e credos para negar-me o conforto de todos os meus semelhantes?

 5.  Elizabeth Cady Stanton.  Embora nenhuma pessoa mereça crédito exclusivo por estabelecer as bases para a 19a. Emenda, Elizabeth Cady Stanton chega bem perto. Stanton organizado e conduziu um dos eventos centrais iniciais do movimento sufragista, a  Convenção de Seneca Falls de 1848  , e ela desempenhou um papel fundamental na emissão da famosa  Declaração de Sentimentos  que pela primeira vez clamou pelo sufrágio das mulheres (contra a vontade dos outras participantes, algumas das quais sentiam que exigir o voto era radical demais, mesmo para elas).

Apesar de uma vida inteira organizando e influenciando pelo sufrágio feminino, Stanton foi muitas vezes posta de lado por seu próprio movimento por seus controversos e francos pontos de vista de livre pensamento e seus ataques à religião como justificativa mais importante para a contínua opressão das mulheres, incluindo sua mordaz  Bíblia da Mulher  . Em certa ocasião, ela escreveu, “tenho me esforçado para dissipar essas superstições religiosas das mentes das mulheres, e basear a sua fé na ciência e na razão, onde eu encontrei para mim, pelo menos, a paz e conforto que eu nunca poderia encontrar na Bíblia e na igreja. ”

Alguns dos descendentes espirituais de Stanton no movimento feminista tinham pontos de vista irreligiosos semelhantes. Uma das mais famosas era  Margaret Sanger  , uma das fundadoras do Planned Parenthood e uma cruzada destemida na luta para tornar o controle de natalidade disponível e legal para as mulheres americanas. O lema de Sanger era “Nenhum deus, Nenhum mestre”, e seu boletim tinha o título memorável  A Mulher Rebelde .

 6.  Asa Philip Randolph.  O movimento de direitos civis americano do século 20  é muitas vezes identificado com o cristianismo, o que se deve praticamente sozinho à influência do Rev. Dr. Martin Luther King Jr. Mas os humanistas seculares desempenharam um  papel quase  tão importante. Um deles foi Asa Philip Randolph, um organizador pioneiro de trabalhismo cuja carreira se estendeu pelo século 20 e que foi um dos pioneiros da estratégia de desobediência civil não violenta.

Randolph entrou no movimento dos direitos civis por meio do movimento operário, começando por organizar os trabalhadores da estrada de ferro, principalmente negros. Mas, ele logo levantou sua alça de mira, especialmente quando o país foi arrastado para a Segunda Guerra Mundial e a indústria de defesa estava crescendo. Ele assumiu a liderança  organizando marchas de direitos civis que convenceram os presidentes Roosevelt e Truman para emitir ordens executivas terminando a segregação em empreiteiras da defesa e das Forças Armadas. À medida que sua estrela subia, ele atuou como vice-presidente da AFL-CIO e ajudou a organizar a Marcha sobre Washington por Empregos e Liberdade, onde King pronunciou o seu discurso “I Have a Dream”.

Além de tudo isso, Randolph foi um livre pensador ao longo de toda a sua vida. Ele foi o fundador de uma revista literária, The Messenger  , cujo cabeçalho declarava que “A oração não é um dos nossos remédios … Nós consideramos a oração como nada mais do que um desejo ardente. ”  Ele também foi um dos signatários do  Manifesto Humanista  em 1970.

 7.  Robert Frost. O poeta mais famoso da Nova Inglaterra é justamente imortalizado por suas homenagens poéticas à natureza e à vida rural, mas o seu ceticismo religioso é menos conhecido. Os pontos de vista de Frost sobre Deus são complexos; por grande parte de sua vida, ele lutou com um medo supersticioso profundo que ele conseguiria descartar totalmente. Mas, após 20 anos de casamento, sua esposa disse que ele era ateu, e ele não o negava.

O que é interessante é que isso aparece inadvertidamente em sua poesia. Ao falar de seus companheiros seres humanos e suas relações, Frost é aconchegante, acolhedor, completamente humanista. Mas, quando ele se volta para o tema de Deus, ele com mais frequencia se torna sombrio e aterrorizante, descrevendo a ideia de uma divindade mais como uma força selvagem da natureza do que um objeto digno de reverência. Seu famoso poema “Design” chama o sofrimento e a predação na natureza de um “projeto de escuridão.” O poema “Once by the Pacific”, a visão de Frost do apocalipse, tem o poeta olhando para  ondas do oceano que se quebram e as imaginando como um prenúncio do fim do mundo. O poema “A Loose Mountain” vislumbra Deus como um destruidor cósmico esperando para lançar um meteoro contra a Terra, como uma pedra atirada de um estilingue, esperando para que ele possa liberá-la quando ela causará a quantidade máxima de devastação.

 8.  Emma Lazarus.  Como Robert Frost, Emma Lazarus era um poeta cujas palavras definiram a experiência americana. Ela não pode ter muitos clássicos em seu nome, mas a sua única realização coroadora pode ser ainda mais conhecida do que qualquer um dele: seu poema “The New Colossus”, mais conhecido como as palavras gravadas no pedestal da Estátua da Liberdade: “Dê-me suas massas cansadas, pobres, encurraladas ansiosas por respirar liberdade …” A estátua era originalmente um símbolo do republicanismo, mas o poema de Lazarus a recria  como um farol para os imigrantes de todo o mundo. Mesmo quando os Estados Unidos ficou aquém do ideal, estas palavras nos lembram que podemos fazer melhor e nos inspiram a trabalhar para uma mudança positiva.

Lazarus vinha de uma educação judaica, mas era conhecida como livre pensadora. Como registra a  Biblioteca Virtual Judaica , em uma ocasião, ela disse a um rabino que lhe pediu para contribuir para um livro de hinos, “eu serei sempre fiel a minha raça; mas eu não sinto o fervor religioso em minha alma.”

 9.  Yip Harburg.  E.Y. “Yip” Harburg não é um nome familiar, mas algumas de suas obras o são. Harburg foi o compositor da Broadway, que escreveu as letras de algumas das canções mais memoráveis e culturalmente significativas da América, incluindo “It’s Only a Paper Moon”, “Brother, Can You Spare a Dime?” e toda a música de  O Mágico de Oz  , Incluindo “Somewhere Over the Rainbow”. Harburg era conhecido como “a consciência social da Broadway” pelas mensagens progressistas de suas canções e musicais, incluindo “Bloomer Girl” e “Hooray for What”, que defendia temas feminismo e antiguerra, respectivamente. Em um certo momento ele esteve na lista negra do Comitê de Atividades Anti Americanas do Congresso de McCarthy, mas continuou trabalhando para o palco, pois ele foi banido da televisão e do cinema. Ele disse em uma biografia, “nunca a Casa de Deus teve muito apelo para mim. De qualquer forma, eu encontrei um substituto para o templo – o teatro ”

Para mais livre pensadores historicamente famosos, veja a minha série ”  As Contribuições dos Livre Pensadores  e o livro de Susan Jacoby,  Livre Pensadores: Uma história de secularismo americano   Dúvida: A História , de Jennifer Michael Hecht  .

Publicado on junho 21, 2012 at 6:22 pm  Comments (1)  

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  1. faltou Nikola Testa


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