Mitos Solares e Cinema

Por José Antonio S. Filardo – M.´. I.´.

2007

Oceanos de tinta foram gastos na polêmica entre Criacionistas e Evolucionistas.

 

O Grande Arquiteto (William Blake)

Os Criacionistas, por um lado, trazem à discussão a posição do Cristianismo centrada no Livro Gênesis da Bíblia, defendendo a idéia de que o mundo foi criado por um Deus onipotente, onisciente e onipresente, em sete dias, e que o Homem foi por Ele criado a partir do barro, e a Mulher a partir de uma costela do Homem. Ao ceder à tentação de ter acesso à árvore do conhecimento, o Homem e a Mulher caem em desgraça e são expulsos do Paraíso.

Os Evolucionistas, com base na teoria de Charles Darwin, sustentam ter o homem, assim como todas as espécies, passado por um processo de evolução, a partir do denso caldo de cultura criado nos mares, quando se amenizaram as condições da Terra, milhões de anos atrás.

Segundo a teoria, tudo o que existe na Terra, que se possa chamar de vida, é o resultado possível das condições existentes.

A condensação de elementos químicos e sua organização em sistemas mais complexos somente foi possível devido ao resfriamento da terra até o ponto em que a sobrevivência daqueles sistemas complexos fosse viável. Daí, a necessidade forçou sua evolução, em organismos progressivamente mais complexos, sempre balizados pela possibilidade, dentro das condições existentes. Mutações acontecem aos milhões, mas somente as mutações possíveis sobrevivem.

No período geológico cambriano, cerca de 500 milhões de anos atrás, houve uma explosão de mutações daqueles sistemas produzindo diferentes formas que submetidas à seleção, levou à sobrevivência das mais aptas.

Entre estes sobreviventes, um filo em particular nos interessa. Era vertebrado,  independente, ou seja, não estava ligado a outro organismo ou à terra. Tinha um centro nervoso central que se ramificava por todo o organismo. Era dotado de um tubo digestivo que se encarregava de suprir as necessidades da musculatura. E consumia oxigênio em seus processos alimentares. A organização do esqueleto era uma coluna vertebral, uma caixa torácica e extensões articuladas.

Esta organização sistêmica presente nos vertebrados, desde peixes, mamíferos, répteis, etc. indica uma origem comum. E estes, juntamente com outros organismos cresceram e se multiplicaram pela superfície da terra….

O paraíso existiu. Ficava na África. Antes do deserto do Saara ser um deserto. Sua principal característica era a abundância e o equilíbrio ecológico. Dessa forma, as espécies viviam em harmonia com a natureza. E não precisavam evoluir. Mas, o crescimento populacional gerou forte desequilíbrio ambiental e uma espécie em particular foi precipitada das árvores e obrigada a evoluir. E, expulso do paraíso, o elo perdido teve, a partir daí, de ganhar a vida “com o suor do próprio rosto…”

Refúgios da Era Glacial – em magenta e laranja

O elo perdido sofreu uma mutação eficiente há alguns milhões de anos e este mutante saiu da África iniciando a Diáspora e espalhou-se pelo mundo, evoluindo ao longo dos milênios e ocupando a Europa ao sul do meridiano 45, que corta o norte da Espanha, o Sul da França, o norte da Itália e o Mar Cáspio, pois o mundo passava por uma Idade do Gelo. Estes ocupantes da Europa eram os Neandertais, hominídeos rudes e fortes, vivendo da coleta e da caça.

Mais recentemente, há cerca de 200.000 anos, uma outra mutação do elo perdido caído das árvores do paraíso, o Homo Sapiens, deixou o Leste da África tomando direções distintas.

Recriação artística do Homem de Neanderthal

Alguns grupos ficaram perambulando pelo continente, ao sul e a oeste. Outros grupos seguiram para a Europa e Ásia, via Oriente Médio. Um outro grupo, ainda, seguiu pela costa do Oceano Índico e ocupou a Austrália, ramificou-se para o Sudeste da Ásia, a China e prosseguiu pela costa do Oceano Pacífico até chegar à América.

Parte do grupo que fora para a Índia fez o caminho inverso, voltando à Ásia menor e seguindo rumo norte até a região do Cáucaso e sul da Rússia. Eram os indo-arianos que desenvolveram uma sociedade pastoril e nômade. Avançaram pela Sibéria, cruzando o Estreito de Behring, na época coberto de gelo formando uma ponte natural para a América e a povoaram.

Com a chegada do Homo Sapiens à Europa, os Neandertais, menos aparelhados e menos inteligentes foram pouco a pouco reduzidos em número e acabaram extintos por volta de 30.000 anos atrás. Os recém-chegados eram os Cro-Magnon, hábeis fabricantes de ferramentas, caçadores e coletores.

Rotas de Migração do Homo Sapiens

Uma parte do grupo tinha ficado no Oriente Médio e ali descobriram a agricultura na Mesopotâmia. Mais tarde, grupos destes agricultores migram para a Europa via Bálcãs, transferindo a tecnologia agrícola aos Cro-Magnon e fixando-os à terra, como agricultores. A coesão destes grupos era relativamente frouxa, e a vida tribal girava em torno da mulher. Desenvolveu-se assim, uma sociedade agrícola matriarcal com o culto a deusas, as geradoras da vida. São desta época os monumentos megalíticos, tais como Stonehenge, pois os agricultores precisavam dominar o conhecimento das estações para desenvolver a agricultura.

Enquanto isso, aqueles grupos que tinham se desenvolvido ao sul da Rússia viviam em tendas, domesticaram o cavalo, inventaram a roda e o carro e eram muito belicosos. Sua sociedade era guerreira, patriarcal, e seus deuses eram masculinos.

A Hipótese Kurgan

Com o tempo, estes grupos guerreiros Indo-Arianos invadiram a Europa e mudaram o perfil genético, lingüístico e cultural europeu que passou de matriarcal a patriarcal. Foi agregado ao aspecto agrícola um outro aspecto: o guerreiro. A cultura da velha Europa não desapareceu totalmente, foi sincretizada em um panteão de Deuses arianos e Deusas européias, com predominância de deuses masculinos. Esta cultura localizou-se principalmente ao redor do Mediterrâneo, mas, com o fim da Idade do Gelo, ela expandiu-se em direção norte até a Escócia e nordeste até os confins da Sibéria.

Os povos primitivos em geral tinham um comportamento religioso motivado pelo  medo de fenômenos além da compreensão deles. Não davam grande importância a fenômenos corriqueiros ou repetitivos como o sol e a lua. Acreditavam em um poder divino terrível que se manifestava através das tempestades, de catástrofes, e a este poder divino eles oravam e sacrificavam, visando acalmá-lo.

Com o passar do tempo e com a evolução cultural, aumentou a capacidade de abstração e o Homo Sapiens começou a procurar causa e efeito para os fenômenos do mundo. Neste momento surgem as primeiras religiões.

 

A Carruagem de Apolo – Helios

Uma das primeiras manifestações religiosas teve como objeto o Sol. Talvez por sua beleza e por seu papel na sobrevivência, logo foi transformado em um dos principais deuses do panteão dos povos primitivos.

Entre os indo-arianos, havia uma entidade maior – Dyaeus, que representava o Universo, não uma individualidade divina. Existia uma série de “filhos” desta entidade maior, entre eles o Sol, representado por um deus guerreiro que cruzava os céus em uma carruagem puxada por cavalos. Assim é, que este mito solar evolui e atinge sua maior expressão na Grécia com o culto a Apolo.

Vejamos agora o que nos conta a tradição hindu:

5.000 anos atrás, Mithra ou Mitra era venerado como Itu (Mitra-Mitu-Itu) em cada casa de Hindus na Índia. Itu (derivado de Mitu ou Mitra) era considerado um deus da vegetação. Acreditava-se que este Mithra ou Mitra (Deus Sol) fosse um mediador entre Deus e o homem, entre o Céu e a Terra. Diz-se que este Mithra ou [o] Sol nasceu em uma Caverna em 25 de Dezembro. Também é uma crença que Mithra ou o Deus-Sol nasceu de uma Virgem. Ele viajou muito. Ele tinha doze satélites considerados seus discípulos… Os maiores festivais mitraicos eram observados no Solstício de Inverno e no Equinócio Vernal – o Natal e a Páscoa. Seu símbolo era o cordeiro… (Swami Prajnanananda)

Isso soa familiar?

Quem era ele?

Mithra, a origem do mito Jesus

O Mithraismo chegou à Ásia Menor via Pérsia pelas mãos de Alexandre o Grande, e tornou-se a religião do império romano.

Uma das características do mito solar, é o próprio ciclo do Sol que nasce, morre, renasce. A noção da ressurreição e também seu papel na preservação da vida são fundamentais. Assim é que o solstício de Inverno sempre representou um momento muito importante na vida dos povos europeus e de outros povos submetidos ao inverno rigoroso do hemisfério norte. Depois do declínio da natureza sob a neve, quando virtualmente morre, o Sol reinicia sua trajetória em direção ao zênite, voltando para salvar a humanidade. E ele percorre doze segmentos temporais em seu percurso ao longo do ano.

Neste contexto cultural e religioso, temos a figura que se tornou o centro de uma das maiores religiões do mundo.

Sua biografia, construída ao longo dos séculos tem tantos pontos correspondentes à figura de Mithra e outros mitos solares que nos permitem considerar a hipótese de se tratar de uma montagem de lenda, um sincretismo criado para cooptar os seguidores do Mithraismo, então a religião oficial de Roma. O Mithraismo era uma religião que aceitava somente homens e seu culto acontecia em cavernas cuja disposição era muito semelhante às lojas maçônicas atuais.  O cristianismo, ainda que exigisse exclusividade de crença, não estabelecia distinção entre servo e senhor, homem ou mulher, pobre ou rico e, assim, empolgou as massas com suas promessas de vida eterna e salvação.

Era o messias anunciado por um precursor, João Batista, que nasceu de uma virgem, no solstício de Inverno, em uma caverna, tinha doze apóstolos, desafiou o poder temporal de sua época,

Com vocês……   Joshua Ben Youssef, filho de Yussef e Maria, marido de Madalena… foi traído, morreu para salvar a humanidade e ressuscitou com o sol no solstício de inverno.

O popular J.C.

E foi representado de mil formas e faces, constituindo a base para uma religião que dominou o mundo ocidental. e até mesmo teve sua face reconstituída por procedimentos de antropologia.

* * *

No correr dos tempos, diferentes meios foram empregados para a transmissão da Tradição. Em nossos tempos, o cinema é um deles. E não estou falando das repetidas filmagens da lenda do Jesus Cristo ou de estórias bíblicas. Estou falando do uso de informações tradicionais em obras contemporâneas.

Matrix, a Trilogia

Em 1999, foi lançado pelos Irmãos Wachowski o primeiro Matrix, de uma trilogia cujo último filme foi lançado em 2003. A trilogia conta a epopéia high-tech de uma personagem, Neo, e a salvação do povo de Sião.

Interpretações psicanalíticas vêm sendo dadas ao filme que já se tornou um clássico da filmografia de Holywood. Trata-se de uma produção com inúmeras referências e citações que apelam a uma audiência de alto nível cultural. Minha interpretação é apenas uma das possíveis.

Uma série de índices incluídos na estória orienta o espectador para a identificação da estória de Neo com a estória de um herói solar como Cristo.

Os nomes das personagens: Trinity (a santíssima trindade) que desempenha o papel de Madalena esposa e Madalena apóstolo; Anderson (o filho do homem – nome real de Neo); a nave Nabucodonosor (o rei da Babilônia que escravizou os judeus); o povo de Zion (Sião); os nomes das pessoas que habitam Zion são geralmente nomes hebraicos; o Merovíngio (dinastia que alega ser descendente de Jesus); na primeira cena da nave Nabucodonosor, aparece em uma placa no deck da nave: Mark III – 11 (Evangelho de Marcos, capítulo 3, versículo 11) – “Os espíritos imundos, quando o viam prostravam-se diante dele e gritavam ’Tu és o filho de Deus’.”

Chapa em aeronave no filme

Neo teria sido clonado pelas máquinas, logo foi concebido sem o pecado original; sua vinda foi anunciada pelo Oráculo (a Bíblia?); havia um precursor (Morfeus – João Batista); Neo desafia o poder, ressuscita Trinity (Lázaro) é tentado, torturado, traído por um de seus discípulos e, finalmente, morre crucificado na presença do Dyaeus ex-machina e salva Sião (a humanidade). Soa familiar?

Um aspecto nos interessa particularmente: o grupo de Morfeu, ele próprio, Trinity e Neo envergam longas vestes talares negras

Longas vestes talares…

e pertencem a uma confraria dedicada ao bem da Humanidade, libertando seres humanos de sua alienação. Não são sacerdotes da religião de Sião.

Pavimento Mosaico e escada de Jacó?

A sala onde Neo e Morfeu se encontram pela primeira vez é acessível por meio de uma escada espiral que parte de um pavimento mosaico, e Neo bate à porta para ser recebido por Morfeus. Sentam-se em poltronas entre as quais uma mesa com um tripé e uma estrutura composta de três hastes em triângulo sustenta um copo com água.

Quando ele se decide pela pílula vermelha, passa por um processo (iniciação?) onde renasce, é precipitado nos esgotos da Matrix e é resgatado por Morfeus e seus seguidores e içado à luz entre três holofotes em triângulo.

Ascendeu à luz…

Em um certo ponto de sua trajetória, ao receber a chave do Chaveiro, Neo abre uma porta, vê a luz e se encontra com o Grande Arquiteto da Matrix.

Estes elementos não parecem ser coincidência, visto que Larry, um dos irmãos Wachowski, autores da história seria membro da Ordem Maçônica, além de serem filhos de maçom. Curiosamente, um dos produtores é Andrew Mason…. e o outro irmão Wachowski se chama Andrew.

Grande Arquiteto da Matriz

Branca de Neve e os Sete Anões

 

 

 

Cartaz do Filme

 

 

 

Outra obra, Branca de Neve e os Sete Anões de 1937, uma produção Walt Disney Productions é uma fábula tradicional na cultura européia reinterpretada pelo De Molay Walt Disney em um desenho animado que povoa nossas infâncias.

 

Em resumo, trata-se da Natureza (Branca de Neve)  que morre com o Inverno  (a Bruxa),

A bruxa-má

aqui existe um elemento de interferência religiosa, na medida em que a maçã, motivo da desgraça de Eva também é a desgraça de Branca de Neve. Depois de ser velada pelos anões, ela é reavivada pelo beijo do Sol (O príncipe). Mais um exemplo de mito solar, tratando da ressurreição da Natureza no Solstício de Inverno.

E maçã de Eva?

Mas, o pitoresco nisso tudo é que Disney, De Molay e maçom, portanto, tinha uma vivência em nosso meio, colocou na estória um grupo de sete anões.

Hummmm!

Estes anões trabalham em uma mina onde retiram pedras preciosas.

A Loja

Hummmm!

Disney teria atribuído nomes a cada um dos anões que refletem o comportamento de irmãos em Loja ou características de personalidade de irmãos ?

Assim temos:

Mestre

Feliz

Zangado

Dengoso

Soneca

Atchim

E, finalmente

o Mudinho Dunga

Também soa familiar?

Vemos, assim, que nada há de novo sob o Sol. Nossas crenças são recicladas e preservadas, modernizadas e transmitidas. E cabe a nós preservar e transmitir esta sabedoria que não mais encontra lugar no mundo moderno. Cabe a Maçonaria preservar a chama das tradições humanas, ao mesmo tempo em que age como a confraria de Morfeus, resgatando aqueles que se encontram presa da ignorância e da alienação da vida moderna.

Libertá-los é nossa missão!

*

*         *

 

Bibliografia:

Matrix, a trilogia –  Warner Bros Pictures – direção Andy e Larry Waschowski- 1999 – 2003

A Bíblia  – tradução do Pe. João Ferreira d’Almeida – edição 1877

Kelmer, Ricardo.  Matrix e o despertar do herói, Ed. Miragem, 2006

Diversos sites na Internet:

http://users.cyberone.com.au/myers/gimbutas.html

http://en.wikipedia.org/wiki/Genetic_history_of_Europe

https://www3.nationalgeographic.com/genographic/index.html

http://www.truthbeknown.com/mithra.htm

Publicado on março 27, 2011 at 12:21 pm  Comments (1)  

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  1. Esplêndido!!

    Não sou inciado na sublime ordem maçônica, apesar de almejar um dia ser aceito. Mas me sinto feliz e agraciado por encontrar essas publicações que me ensinam muito e incentivam cada vez mais ao estudo.

    Parabéns e obrigado pelas mesmas.


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