Maior ameaça à religião? Pessoas do Clero Tornando-se Ateus

AlterNet / Por Greta Christina –

Tradução José Filardo

Uma explosão de atenção da mídia vem-se concentrando em ateus de uma lista inesperada — membros do clero. Poderia a falta de crença do clero mudar a forma como vemos a religião?


O que acontece quando uma pessoa do clero — um pastor, um padre, um rabino, um imã – percebe que não acredita em Deus?

E o que acontece quando ele diz isso em voz alta? O que acontece quando eles se encontram; quando eles apoiam uns aos outros ao lidar com suas crises, quando eles ajudam uns aos outros com recursos e assistência prática de aconselhamento de emprego ou outro tipo de assistência? O que acontece quando eles incentivam uns aos outros a sair do armário?

Isso poderia afetar mais do que apenas essas pessoas do clero e seus seguidores? Poderia mudar como a sociedade como um todo pensa e sente sobre religião?

Isso é o que o Projeto Clero o está descobrindo. Nos últimos meses e anos, ateus têm estado nas manchetes. Mas, durante as últimas semanas, uma explosão de atenção da mídia tem sido focada em ateus de uma lista inesperada: membros do clero. E em particular, a atenção está indo para o Projeto Clero, um local de reunião on-line e grupo de apoio que existe especificamente para estas adições inesperadas às fileiras dos sem-deus.

O projeto foi inspirado pelo estudo-piloto de 2010 realizado por Daniel C. Dennett e Linda LaScola, “Pregadores que são descrentes” (PDF), que expôs e explorou o fenômeno surpreendentemente comum do clero descrente. A necessidade de dar suporte a essas pessoas – e se possível, uma estratégia de saída — foi imediatamente reconhecida na Comunidade ateísta e acionador de partida de financiamento para o Clergy Project foi rapidamente fornecido pela Fundação Richard Dawkins para a Razão e a Ciência. Fundado em Março de 2011, com 52 Membros, o Projeto Clero tem atualmente mais de 270 Membros – e desde que histórias de notícias recentes sobre o assunto começaram a aparecer, em veículos desde a MSNBC, a NPR , o Religious News Service e a CNN, pedidos de adesão vem aumentando a um ritmo ainda mais dramático.

A cascata de notícias começou quando a Pastora metodista Teresa MacBain veio à Convenção dos Ateus Americanos logo após a Passeata da Razão de Março último – e fez uma aparição não programada dramática no pódio, para anunciar que ela era atéia. “Estar em um grupo de pessoas com quem eu poderia compartilhar abertamente sem receio de perseguição me deu a coragem para me revelar,” ela me disse. “A oportunidade de estar diante da multidão, revelar-me como ateu e compartilhar sobre o Projeto do Clero era boa demais para deixar passar. Eu estava no fim de minha corda e eu sabia disso. Era agora ou nunca para mim. Enquanto eu caminhava para o pódium, eu senti medo como nenhuma outra vez. ”

MacBain vinha questionando sua fé desde sua adolescência, quando ela deparou com contradições na Bíblia. “Eu procurei meu pai para as respostas”, disse ela. “Ele simplesmente disse que os caminhos de Deus são muito maiores do que nossos caminhos e que não podemos entender tudo na Bíblia. Nossa resposta deve ser a fé, não a dúvida. Ele então me disse que duvidar era um pecado. Eu saí naquele dia e suprimi aquelas perguntas. Esta prática seguiu-me por décadas.”

Mas, com o tempo, as perguntas tornaram-se demasiadas. Ela abandonou seu literalismo bíblico, que, pela primeira vez a ajudou a resolver suas dúvidas sobre contradições bíblicas – mas isso logo abriu espaço para que outras perguntas a pressionassem. “Coisas como a teodiceia [o problema do sofrimento e do mal], a questão do inferno, a onipotência de Deus e, ao mesmo tempo, a falta de intervenção em eventos hediondos, a historicidade de Jesus… tudo isso borbulhava até a superfície e exigia serem respondidas,” disse ela. “Meu trabalho para responder a estas perguntas começou com o pensamento de que à medida que eu descobrisse a verdade, eu criaria uma fé mais forte e daria respostas confortadoras àqueles em minha Igreja que estavam lidando com as mesmas questões. Em vez disso, a verdade que eu encontrei levou-me para longe da fé.”

Esta experiência é comum entre os membros do Projeto Clero. As pessoas do clero, quase que por definição, são pessoas que levam a sério a sua fé. Elas tendem a pensar cuidadosamente sobre religião. Muitas vezes (mas nem sempre) elas estudam cuidadosamente a sua religião. Ao contrário de muitos crentes, elas realmente lêem a Bíblia, ou a Torah ou o Corão, seja qual for o texto sagrado de sua religião. Elas pensam muito sobre questões que os crentes mais casuais estão dispostos a deixar passar. Afinal de contas – este é seu trabalho.

Mas, como muitos ateus lhe dirão, pensar cuidadosamente sobre a religião é exatamente o que os levou a abandoná-la. Quando você pergunta a ateus, “o que fez você se tornar um ateu? ” ler a Bíblia é um dos itens mais altos na lista. E quando eu perguntei a Jerry DeWitt – diretor executivo de Recuperando-se da Religião, pós-graduado do Clergy Project e novo membro pesquisador do CP – quais os tipos de idéias e experiências que mais comumente levam membros do clero para questionar e eventualmente abandonar sua fé, ele respondeu simplesmente, “A incapacidade da religião de responder a ou aliviar o sofrimento humano.”

Lawrence Hunter compartilha esta experiência. Um antigo pastor adjunto da denominação Pentecostal Negra da Igreja de Deus em Cristo, ele diz que um casamento ruim “permitiu-me ver como vida realmente era, ao invés das versões de contos de fada defendidas a cada domingo… perguntas sobre o bem e mal, a Bíblia, casamento, sofrimento, dízimos, corrupção de Igreja e inferno encheram minha mente. Eu percebi que precisava expandir meu entendimento.”

Ele acrescenta que as falhas da religião em atender às necessidades humanas básicas – e as falhas de líderes da Igreja em viver segundo os padrões morais que eles exigem de seus rebanhos – contribuíram para seu questionamento. “Enquanto pregador”, diz ele, “eu podia ver que orações não estavam curando as pessoas e apesar de pregar sobre a riqueza, as únicas pessoas a enriquecer eram os pastores. Eu podia ver que muitas, muitas pessoas estavam mentalmente perturbadas com uma série de problemas. Sem mencionar os escândalos e o adultério. Isso levou-me a olhar mais profundamente e realmente descobrir a verdadeira essência da minha fé, e por que o espírito santo não estava ativo como supostamente esteve nos dias da Bíblia. O resto é história.”

E Catherine Dunphy, um dos 52 membros originais do Projecto Clero, concorda. “Eu sempre fui curiosa sobre a Bíblia,” ela me disse, “e lê-la, apesar do fato de que a Igreja e seus sacerdotes dissessem, ‘não se dê o trabalho’. Nela eu encontrei histórias ridículas que só favoreceram minha confusão.” Dunphy, ex católica, também teve sua fé abalada pelos escândalos generalizados de estupro de crianças na Igreja Católica – e pela resposta inexplicável da Igreja a eles. “O bispo de minha diocese, um imbecil chamado Colin Campbell, emitiu uma declaração dizendo que as vítimas eram responsáveis, pois elas continuavam voltando aos sacerdotes predatórios!”

Mas para Dunphy, o prego final no caixão da sua fé foi perceber que autoridades religiosas altamente treinadas não tinham qualquer razão melhor para suas crenças do que qualquer outra. “Lembro-me quão frustrada eu ficava em classe,” ela disse, “já que ele não me parecia que meus professores tivessem qualquer autoridade maior do que eu tinha!… Eu vim a perceber que nós éramos todos cúmplices em criar essas coisas durante a vida. ”

Para muitas pessoas, questionar e eventualmente abandonar a religião pode envolver conflitos profundamente emocionais e psicológicos. Ateus comumente dizem que sentem alívio, até mesmo libertação, quando finalmente renunciam à dissonância cognitiva que a religião exige, mas o processo é muitas vezes difícil. Isso é, muitas vezes, ainda mais pronunciado em pessoas do clero… que, mais uma vez, tendem a levar a religião mais a sério do que o crente médio comum.

Mas, para as pessoas do clero, esta luta interna é apenas o começo. Para as pessoas do clero, perder a religião não significa apenas fazer perguntas como, “Como eu aceito a permanência da morte?” e “Qual é meu lugar no universo?” Significa fazer a pergunta, “Como eu vou pagar o aluguel?” Para a maioria dos membros do clero, revelar-se como ateu significa a perda automática do seu sustento. Mas, ficar fechado no armário sobre seu ateísmo significa viver uma mentira. Como MacBain disse, “Assim que eu percebi que minha fé tinha ido embora, comecei procurando uma nova saída. Minha consciência me atormentava continuamente, mas eu sentia que as necessidades da minha família exigiam que eu trabalhasse meu caminho lentamente. Eu aceitei um trabalho temporário (que me fazia trabalhar 80 horas por semana) para pagar algumas contas que tornariam mais fácil a transição. À medida que as semanas passavam, a turbulência aumentou exponencialmente.”

E membros do clero que deixam sua fé não são apenas confrontados com a perda de seus meios de subsistência. Eles estão propensos a perder o status e o respeito que os líderes religiosos recebem comumente. E embora alguém que se revele um ateu possa ser alvo de hostilidade e fanatismo, o veneno pode chegar ao máximo quando ela é um membro do clero. Quando Teresa MacBain voltou para sua casa, da Convenção Americana de Ateus, “A liderança da Igreja trocou as fechaduras da Igreja e levei quase dois meses para recolher meus pertences. Meu servidor de e-mail, caixa de correio e mensagens de voz eram lotados diariamente com ameaças veladas, pronunciamentos cheios de ódio de minha desgraça iminente e mensagens francamente desagradáveis. Um cavalheiro afirmou que ele não podia esperar até que chegasse ao céu e olhasse para mim no inferno enquanto a carne de meu corpo queimava!”

Esta é exatamente a razão pela qual o Projeto Clero foi fundado. Nesta comunidade on-line confidencial, os membros podem discutir livremente os desafios que eles enfrentam para deixar o Ministério e estabelecer uma nova vida. Isso envolve apoio psicológico e emocional, é claro – ajuda na luta com questões éticas e filosóficas que muitas vezes surgem com o ateísmo; aconselhamento sobre como se revelar como ateu à família e aos amigos, e assim por diante. Mas, também pode envolver aconselhamento prático e apoio: os membros podem compartilhar idéias sobre como encontrar um caminho fora do Ministério e procurar de novas carreiras, e podem compartilhar recursos de que os recém-chegados ao ateísmo podem não estar cientes.

Neste exato momento, o Projeto Clero é essencialmente um grupo de apoio aos membros. Mas, a organização está trabalhando para expandir seu alcance, fornecer assistência mais tangível que as pessoas do clero atéias tão desesperadamente precisam. Eles estão se preparando agora para lançar um grupo de recursos que inclui preparação para reemprego – preparação de currículos, técnicas de entrevista, firmas de recrutamento que trabalharão com os membros para fornecer indicações — assim como aconselhamento secular, trabalhar Projeto Terapeuta para oferecer serviços de conselheiros seculares que estão doando seu tempo aos membros do Projeto Clero. E estão planejando — em breve, eles esperam — oferecer capacitação profissional, empréstimos de curto prazo e alojamento temporário para os membros do clero ateus que queiram deixar o clero.

Mas, eles não podem ter seu trabalho interrompido. Ninguém sabe ao certo quantos membros do clero são secretamente ateus (ou estão secretamente em cima da muro, com sérias dúvidas sobre sua religião). Mas, quase todo mundo com quem falei no Projeto Clero suspeita fortemente que os números são elevado — mais altos do que qualquer um poderia esperar. MacBain diz, “É definitivamente mais comum do que qualquer um pensa”. DeWitt concorda: “Minha experiência diz que é muito comum. Em mais de 25 anos de Ministério, testemunhei muito poucos exemplos de outra coisa que não fosse os pastores vivendo vidas ‘normais’ independentemente de suas reclamações sobrenaturais. Eles têm que ver a desconexão.” E Dunphy concorda: “Antes que eu descobrisse o Estudo LaScola, eu pensava que era algum tipo de esquizitice. Quero dizer, quem é que entra em teologia e sai um ateu? E parece que acontece com um monte de gente.”

O aumento do interesse no Projeto Clero parece confirmar isso. Desde que Teresa MacBain se revelou na Convenção de Ateus Americanos em Março, 77 novos membros aderiram ao projeto– e enquanto este artigo é escrito, há mais 86 candidatos aguardando entrevistas. Como diz MacBain: “Isso parece indicar que existem centenas, senão milhares, que estão presos na armadilha do púlpito.”

Então o que significa isso tudo? Por que este assunto, não só para o próprio clero ateu, mas para qualquer um que se preocupa com religião?

É importante porque, se membros do clero começam a abandonar publicamente a religião, todo o castelo de cartas poderia desmoronar.

Para a maioria dos crentes, religião não é algo sobre o que eles pensam com muito cuidado. A maioria dos crentes permanece em qualquer religião em que eles tenham sido educados enquanto crianças. A maioria dos crentes está apenas tentando continuar com suas vidas cotidianas, e caso lhes ocorram perguntas difíceis ou complicadas sobre suas fés, eles muitas vezes presumem que seus líderes religiosos sabem as respostas… da mesma maneira como presumimos que os pilotos sabem como manter aviões no céu. Como Lawrence Hunter disse, muitos crentes “são simplesmente incapazes ou não querem se dar o trabalho de ler e pesquisar sobre suas crenças e outros aspectos de suas vidas. É mais fácil se alguém diz em que acreditar, em quem votar, de quem comprar, etc. A religião é o bálsamo que acalma perguntas difíceis.”

Mas, se autoridades religiosas começam a reconhecer que eles também não sabem? Se as autoridades religiosas começam a reconhecer que eles têm exatamente as mesmas dúvidas e não encontraram boas respostas? Se as autoridades religiosas começam a reconhecer que elas tem apenas inventado à medida que prosseguem? Se as autoridades religiosas começam a abandonar o acordo tácito entre si  de que estas questões e dúvidas devem ser mantidas entre elas e não devem ser compartilhadas com seus seguidores? Se as autoridades religiosas começam a dizer em voz alta, que a melhor resposta que encontraram para estas perguntas foi “Deus não existe”? Se as autoridades religiosas começam publicamente a abandonar sua religião? E se eles começarem a fazer isso em números significativos?

Vai ser muito, muito mais difícil para os crentes comuns se agarrar às suas crenças.

Eu estava na platéia na Convenção Americana de Ateus quando Teresa MacBain se revelou. Foi um dos momentos mais dramáticos, mais poderosos que jamais experimentei. Não há muitas pessoas no mundo que têm aquela coragem, aquela integridade, aquela paixão feroz pela verdade. Não há muitas pessoas no mundo que estão dispostas a arriscar perder suas famílias, suas comunidades, seu status, os fundamentos emocionais e filosóficos de suas vidas, e até mesmo sua própria subsistência… porque priorizam a verdade sobre seu bem-estar pessoal.

Estas pessoas são uma inspiração. Independentemente do que você pensa sobre religião ou ateísmo, elas são uma inspiração. E há, claramente, um lugar na nossa sociedade para elas. Ouçam Lawrence Hunter: “Se eu fosse um pastor, que tivesse controle completo sobre minha Igreja, eu retiraria o título de “igreja” [e o alteraria] para «centro comunitário.» Eu não pregaria a Bíblia, eu citaria numerosas fontes da literatura e da sabedoria. Como um afroamericano eu enfocaria questões de vizinhança, tais como pobreza, falta de educação e um monte de outros males. Jogaria fora os rituais bobos de batismo e comunhão. Há tanta coisa que igrejas podem e devem fazer para ajudar suas comunidades, mas elas preferem ignorá-las.”

Há claramente um lugar na nossa sociedade para essas pessoas. E o Projeto Clero está tentando criá-lo.

Leia mais de Greta Christina em seu blogue.

Publicado AQUI em 10-06-2012

Publicado on junho 11, 2012 at 11:34 am  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Sou o primeiro ex-pastor a participar do Projeto Clero. Fui pastor presbiteriano por 14 anos e após estudos sobre a bíblia, a história da igreja e a filosofia, perdi a fé na igreja e logo em Deus também. Estou mais feliz, minha família está mais feliz, estamos buscando estabilidade financeira através de uma empresa que criamos. Hoje sou celebrante humanista, realizo casamentos de pessoas que não se identificam com nenhuma religião, ou que são atéias ou agnósticas. Estou muito feliz em ser um precursor das cerimônias humanistas no Brasil.

  2. Excelente artigo!Obrigado por postar.
    Diego Carneiro


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