Maçonaria: Os atores do nascimento dos Estados Unidos

Tradução José Filardo


Uma noite de verão em 1737, um aprendiz de farmacêutico de Filadélfia tem um encontro marcado em um jardim. Ele deve ser iniciado ali. Será ensinado o sentido dos sinais ocultos de significação para o “profano”; ele será obrigado a fazer um juramento ao diabo; e ele será obrigado a beber um laxante de um só gole. Enfim, um dos gozadores baixa suas calças e nosso pobre ingênuo deve abraçar sua bunda… A anedota diz por si mesma sobre a percepção popular desta sociedade secreta, dos ritos iniciáticos misteriosos. Nada pode ser menos exato. Conforme declara com humor Benjamim Franklin, que introduz a maçonaria nas colônias britânicas da América, sobre os maçons: “Seu grande segredo é que não existe nenhum segredo”.

A Maçonaria se desenvolve na América do Norte nos anos 1730. Vinda da Inglaterra, ela corresponde assim a uma forma de sociabilidade para as elites coloniais muito afastadas da metrópole e com falta de regras de comportamento. As lojas não constituem um mundo secreto e separado da sociedade, mas ao contrário, são plenamente integradas em sua comunidade, principalmente ao perseguir o ideal da harmonia social e do bom viver. Os irmãos não se ocultam. Bem ao contrário, eles gostam de se mostrar em público em procissões, principalmente nas duas festas de São João (Junho e Dezembro) ou em noites no teatro.

OS ADEPTOS SE DIVIDEM EM ANTIGOS E MODERNOS

Em 1755 em Filadélfia, eles são mais de cento e vinte, reunidos em três lojas da cidade, desfilando em grande pompa. Entre eles numerosos notáveis, dos quais o governador da Pensilvânia e o prefeito trazendo uma almofada púrpura adamascado, sobre a qual trazem a bíblia e o livro das Constituições de Anderson. Em New York, em Filadélfia (Pensilvânia) ou em Charleston (Carolina do Sul) eles se exibem juntos no teatro. Em Savannah (Geórgia) um residente se queixa que a loja organiza banquetes ruidosos todos os sábados à noite e um ou dois durante a semana. Outra testemunha que os maçons permanecem na taverna até duas da manhã antes de retornar à casa! Eles se encontram em uma atmosfera festiva.

O que eram as lojas comparadas aos múltiplos clubes que animam a vida das cidades norte-americanas? Em Charleston, cidade rica e próspera, cerca de quinze clubes e sociedades se reúnem regularmente. Certos deles são organizados por grupos nacionais: a Sociedade St. Andrew para os escoceses, A German Friendly Society para os alemães, o Welsh Club para os galeses, e a South Carolina Society para os hugenotes.  Outros se reúnem em torno de uma mesma paixão como, por exemplo, o Beef Steak Club para partilhar a boa mesa, a St. Cecilia Society para a música ou ainda, a St. Andrew Hunting Society para a caça.

Sua missão é dupla: permitir aos cavalheiros confraternizar entre si ao mesmo tempo em que assegura uma missão beneficente junto à comunidade. Como estes clubes, as lojas americanas recrutam entre os colonos mais prósperos. Seus membros? Negociantes, plantadores, oficiais ou artesãos, joalheiros e relojoeiros que trabalham para clientes ricos. Um maçom de Boston compara as lojas ao paraíso, pois elas aceitam os homens “de todas as religiões, igrejas, opiniões, nações e países”. Entretanto, apesar desta aspiração à universalidade, a maçonaria é ainda um fenômeno elitista. Não entra em loja quem quer…

O consenso se rompe ao fim dos anos 1750. Como na Grã-Bretanha, as novas lojas aparecem na América com um recrutamento mais diversificado e menos elitista. Apegados às lojas da Escócia e da Irlanda, e desejando preservar o espírito e usos originais da maçonaria, estes novos irmãos recebem o nome de “antigos”! E rotulam seus concorrentes que, entretanto, fundaram lojas em terras americanas havia mais de vinte anos, com o título de “modernos” Em uma época onde cada um venera a antiguidade e a tradição, o adjetivo veicula uma conotação pejorativa. A maioria dos “Antigos” maçons são artesãos, capitães de navios ou mercadores modestos. Poucos são notáveis ou cavalheiros. Eles não são pobres, longe disso, mas eles não compartilham o refinamento das primeiras lojas. Esta disparidade reflete as mutações sociais, efetivas, sobretudo no meio urbano que caracterizam a América pré-revolucionária. A formação destas novas lojas anuncia os redemoinhos da revolução americana (1765 a 1783) e da guerra da independência (1775 a 1781). Seu número se multiplica rapidamente depois do cisma, porque os “antigos” não hesitam em abrir lojas, principalmente nas vilas no interior das terras.

Estes maçons não partilham o desdém das elites urbanas da costa em relação aos colonos das zonas mais rurais. Esta evolução geossociológica reflete um movimento mais geral da sociedade: o impulso da população em direção ao oeste. A loja de Fredericksburg (Virginia) onde foi iniciado George Washington em 1752 se situa a mais de 160 quilômetros a noroeste de Williamsburt, na época a capital da colônia.

FINALMENTE UMA LOJA É FUNDADA EM CADA UM DOS ESTADOS

Esta vila não conta com mais de 3.000 habitantes em 1770, contra 20.000 para Filadélfia. Estas lojas situadas no interior dos territórios incluem membros da elite local que possuem bens imóveis e certo status. Eles não podem, entretanto, rivalizar neste domínio com aqueles das grandes cidades portuárias.

A revolução americana e a escolha que ela impõe engendram divisões mesmo no seio dos irmãos e acentua a marginalização dos “modernos”. Os maçons como todos os colonos, devem escolher entre permanecer fiéis a Londres e à Grã-Bretanha ou de se separar dela. Todas as lojas são afetadas por este fenômeno, mesmo que os Legalistas – os colonos que se opunham à independência – sejam mais numerosos entre os “modernos”. Mas aqueles do interior onde dominam os Patriotas foram menos afetados por estas divisões.

Problema: como sustentar o movimento revolucionário sem cortar os vínculos maçônicos com a mãe-pátria? As principais lojas americanas, chamadas provinciais, tinham suas cartas constitutivas emitidas por grandes lojas britânicas. Na ausência de uma grande loja que pudesse federar todas as outras, a revolução colocava em perigo a legitimidade da maçonaria americana. Esta questão ocupa o espírito dos irmãos de 1778 a 1790. Finalmente teve a oportunidade de se pronunciar sobre a independência fundando uma grande loja federal, uma loja será criada em cada Estado no dia seguinte à revolução. Esta organização é ainda a regra nos nossos dias.

A guerra de independência e a ocupação militar britânica perturbava a vida maçônica impedindo que os irmãos se reunissem regularmente. Mas isso estimula a criação de lojas militares. Uma dezena delas são fundadas durante o conflito

QUASE A METADE DOS OFICIAIS SÃO “IRMÃOS”

Quase metade dos generais americanos adere à maçonaria, consolidando assim o espírito de corpo no seio do exército independentista. A fraternidade maçônica cria um vínculo entre os oficiais de graus e níveis sociais diferentes. Ela participa da vitória ajudando a estruturar uma tropa menos numerosa, sem experiência e com um recrutamento heteróclito.

Certas lojas são muito implicadas na ação revolucionária. É o caso da loja dos “antigos” de St. Andrew que participa da preparação do Tea Party em Boston. Relembremos os fatos. Londres decide garantir à Companhia das Índias Orientais (East India Company), à beira da falência, concedendo-lhe o monopólio da venda de chá nas 13 colônias norte-americanas. Um mercado enorme e florescente. Os colonos que reagem ao escândalo opõem-se fortemente. Temendo levantes, a companhia escolhe não enviar navios nem a New York nem a Filadélfia. Em Charleston, os Patriotas aceitam que o chá seja descarregado, mas recusam que ele seja vendido. O chá é, assim, depositado nos armazéns. Em Boston, os Patriotas, respondendo pelo nome de Filhos da Liberdade, que se reuniam na Taverna Green, sede da loja St. Andrew, decidem impedir que o chá seja descarregado. Na noite de 16 de Dezembro de 1773, eles se disfarçam de índios Mohawks, pintando os rostos, e investem sobre os dois navios da companhia que tinham chegado a pouco ao porto. Todo o chá é jogado ao mar. Ou seja, mais de 300 caixas em um valor de 10.000 libras esterlinas! Paul Revere, um joalheiro patriota de Boston, membro da St. Andrew escreve: “O levante do chá foi um evento maçônico tão digno quanto um lançamento de pedra fundamental, o que ele foi e muito bem.” Este engajamento em um evento revolucionário é excepcional. Porque a influência da maçonaria sobre a revolução é menos direta, mais difusa.

Os Patriotas maçons mantêm vínculos com seus correspondentes europeus, principalmente franceses. O Marquês de La Fayette e o Barão Von Steuben, os dois voluntários para apoiar a causa dos Insurgentes, o general Rochambeau, comandante em chefe das tropas francesas durante a guerra da independência são maçons.  Esta rede permite aos americanos promover seu caso nos meios intelectuais e decisórios da França. Além disso, eles exercem uma influência junto a seus compatriotas no domínio das ideias, e o funcionamento republicano das lojas reflete e acentua, por sua vez, as transformações sociais e políticas.

EM 1790, 1% DA POPULAÇÃO DOS EUA É “INICIADA”

A revolução constitui um período magnífico para a maçonaria americana. Nos anos 1760, os irmãos representam 3% da população de Filadélfia e 2,5% da população de Boston. Eles pertencem a uma centena de lojas permanentes e cinquenta lojas militares. Boston tem seis; Filadélfia uma dezena. Durante a guerra, seu número dobra na Nova Inglaterra; passa de 32 para 47 nas colônias do centro (New York, New Jersey, Pensilvânia, Delaware); e atinge cerca de 30 no sul (Virginia, Maryland, as duas Carolinas e a Geórgia). A todas estas, convém acrescentar as lojas militares britânicas e francesas que atravessam o Atlântico. Logo após a independência, o primeiro recenseamento federal dos Estados Unidos em 1790 relata um número de 3.000 maçons, ou seja, quase 1% da população.

A maçonaria americana sai, assim, reforçada ao mesmo tempo em termos quantitativos quanto em termos de influência. Um de seus membros, George Washington, herói da guerra da independência não é eleito o primeiro presidente dos Estados Unidos em 1789? É nesta função, alias, que em 18 de Setembro de 1793, envergando paramentos maçônicos que ele inaugura a pedra angular do Capitólio, o futuro Congresso Americano. Com esta glória e este reconhecimento, como imaginar então a reversão que conhecem as obediências trinta anos mais tarde, tornando-se o alvo de um violento movimento antimaçônico?

( Bertrand van Ruymbeke  http://www.historia.fr/  – Abril 2012)

Publicado on maio 2, 2012 at 10:37 am  Deixe um comentário  

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