Maçonaria na Literatura: “O Cemitério de Praga”

Umberto Eco

“Um dos problemas que enfrentamos foi como caracterizar o general Pike, o grão-mestre da Maçonaria Universal que, de Charleston, dirigia o destino do mundo. Porém, não existe nada mais inédito do que aquilo que já foi publicado.

Assim que iniciamos a publicação de Le Diable, saiu o esperado volume do monsenhor Meurin, arcebispo de Port-Louis – onde diabos ficava isso? – La Franc-Maçonnerie Synagogue de Satan; e o doutor Bataille, que mastigava o inglês, havia encontrado durante suas viagens The Secret Societies, um livro publicado em Chicago em 1873, de autoria do general John Phelps, inimigo declarado das lojas maçônicas.

Precisávamos apenas repetir o que havia nesses livros para desenhar melhor a imagem daquele Grande Ancião, grão-sacerdote do paladismo mundial, talvez fundador da Ku Klux Klan e participante do complô que levara ao assassinato de Lincoln. Decidimos que o grão-mestre do Supremo Conselho de Charleston ostentaria os títulos de Irmão Geral, Soberano Comendador, Mestre Perito da Grande Loja Simbólica, Mestre Secreto, Mestre Perfeito, Secretário íntimo, Preboste e Juiz, Mestre Eleito dos Nove, Ilustre Eleito dos Quinze, Sublime Cavaleiro Eleito, Chefe das Doze Tribos, Grão-Mestre Arquiteto, Grande Eleito Escocês da Volta Sacra, Perfeito e Sublime Maçom, Cavaleiro do Oriente ou da Espada, Príncipe de Jerusalém, Cavaleiro do Oriente e do Ocidente, Soberano Príncipe Rosa-Cruz, Grande Patriarca, Venerável Mestre advitam de todas as Lojas Simbólicas, Cavaleiro Prussiano Noaquita, Grão-Mestre da Chave, Príncipe do Líbano e do Tabernáculo, Cavaleiro da Serpente de Bronze, Soberano Comendador do Templo, Cavaleiro do Sol, Príncipe Adepto, Grande Escocês de Santo André da Escócia, Grande Eleito Cavaleiro Ka- dosch, Perfeito Iniciado, Grande Inspetor Inquisidor Comendador, Claro e Sublime Príncipe do Real Segredo, Trinta e Três, Potentíssimo e Potente Soberano Comendador-Geral Grão-Mestre do Conservador do Sacro Paládio, e Soberano Pontífice da Franco-Maçonaria Universal.

E citávamos uma carta dele em que se condenavam os excessos de alguns irmãos da Itália e da Espanha que, movidos por um ódio legítimo ao Deus dos padres, glorificavam o adversário deste sob o nome de Satanás – um ser inventado pela impostura sacerdotal, cujo nome jamais deveria ser pronunciado em uma loja. Assim, condenavam-se as práticas de uma loja genovesa que havia ostentado, em uma manifestação pública, uma bandeira com o texto Glória a Satanás!, mas posteriormente se descobria que a condenação era contra o satanismo superstição cristã, ao passo que a religião maçônica deveria ser mantida na pureza da doutrina luciferiana. Foram os padres, com sua fé no diabo, a criar Satanás e os satanistas, bruxas, bruxos, feiticeiros e magia negra, enquanto os luciferianos eram adeptos de uma magia luminosa, como a dos templários, seus antigos mestres. A magia negra era dos sequazes de Adonai, o Deus mau, adorado pelos cristãos, que transformou a hipocrisia em santidade, o vício em virtude, a mentira em verdade, a fé no absurdo em ciência teológica, e do qual todos os atos atestam a crueldade, a perfídia, o ódio pelo homem, a barbárie e a repulsa à ciência. Lúcifer é, ao contrário, o Deus bom que se opõe a Adonai, como a luz se opõe à sombra.

Boullan tentava nos explicar as diferenças entre os vários cultos daquilo que, para nós, era simplesmente o demônio:

– Para alguns, Lúcifer é o anjo caído que se arrependeu e poderia tornar-se o futuro Messias. Existem seitas apenas de mulheres que consideram Lúcifer um ser feminino, e positivo, oposto ao Deus masculino e malvado. Outros o veem de fato como o Satanás amaldiçoado por Deus, mas consideram que Cristo não fez o bastante pela humanidade e, por conseguinte, se dedicam à adoração do inimigo de Deus – e esses são os verdadeiros satanistas, aqueles que celebram missas negras e assim por diante. Existem adoradores de Satanás que seguem apenas seu gosto pela prática de bruxaria, pelo envoûtement, pelo sortilégio, e outros que fazem do satanismo uma verdadeira religião.

Entre eles há pessoas que parecem organizadoras de cenáculos culturais, como Joséphin Péladan, e, pior ainda, Stanislas de Guaita, que cultiva a arte do venefício.

E, finalmente, existem os paladianos. Um rito para poucos iniciados, do qual fazia parte até um carbonário como Mazzini – e dizem que a conquista da Sicília por Garibaldi foi obra dos paladianos, inimigos de Deus e da monarquia.

Perguntei-lhe por que acusava de satanismo e de magia negra adversários como Guaita e Péladan, ao passo que me constava, através de mexericos parisienses, que justamente ele era acusado de satanismo por esses dois.

– Eh – respondeu Boullan -, nesse universo das ciências ocultas são delgadíssimos os limites entre Mal e Bem, e aquilo que é Bem para uns, é Mal para outros. Às vezes, até nas histórias antigas, a diferença entre uma fada e uma bruxa é só de idade e aparência bonita ou feia.

– E como agem esses sortilégios?

– Dizem que o grão-mestre de Charleston entrou em contato com um certo Gorgas, de Baltimore, chefe de um rito escocês dissidente. Então, conseguiu obter, corrompendo a lavadeira, um lenço dele. Colocou-o para macerar em água salgada e, a cada vez em que acrescentava sal, murmurava: Sagrapim melanchtebo rostromouk elias phitg.

Depois, fez o tecido secar expondo-o a um fogo alimentado com ramos de magnolia; em seguida, por três semanas, a cada manhã de sábado pronunciava uma invocação a Moloch, mantendo os braços estendidos e o lenço desdobrado sobre as mãos abertas, como se oferecesse um presente ao demônio. No terceiro sábado, à tardinha, queimou o lenço em uma chama de álcool, colocou a cinza em um prato de bronze, deixou-a repousar por toda a noite e, na manhã seguinte, misturou a cinza com cera e fez uma boneca, um bibelô. Tais criações diabólicas se chamam dagyde. Colocou a dagyde sob um globo de cristal alimentado por uma bomba pneumática com a qual produziu, dentro do globo, o vácuo absoluto. A essa altura, seu adversário começou a sentir uma série de dores atrozes, cuja origem não conseguia entender.

– E morreu disso?

– São sutilezas, talvez ele não quisesse chegar a tanto. O que importa é que com a magia se pode agir a distância, e é isso o que Guaita e seus companheiros estão fazendo comigo.

Não quis me dizer mais nada, mas Diana, que o escutava, acompanhava-o com um olhar de adoração.”

Publicado em:

http://york.blog.br/maconaria-na-literatura-o-cemiterio-de-praga-de-umberto-eco/

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Publicado on agosto 23, 2017 at 10:18 am  Comentários desativados em Maçonaria na Literatura: “O Cemitério de Praga”  
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