Maçonaria e os Cavaleiros Templários: mais um trote…

Tradução José Filardo

Por Ir.´. Ruben Gurevich, 32, RAM, QCCC, SRRS, MPS
Amherst Lodge No. 981, Grand Lodge of F. & A. M., State of New York, USA

Nota: Este trabalho é a resenha do livro: The Knights Templar of the Middle East – The Hidden History of the Islamic Origins of Freemasonry, por “HRH Prince Michael of Albany” e Walid Amine Salhab.

Nas mãos de estudiosos de verdade, a premissa indicada deste livro poderia ter resultado em um trabalho verdadeiramente digno de atenção. Primeiro, a sugestão de que as práticas e ideias Islâmicas influenciaram a criação das Ordens Militares Cristãs remonta pelo menos à década de 1840s (José Antonio Conde, Historia de la Dominación de los Árabes en España, Barcelona, 1844) e continua a ser objeto de uma discussão animada entre historiadores até hoje (cf. os diversos artigos em favor dessa tese, da Professora israelense Dra. Elena Lourie e seus seguidores, e do americano Dr. Alan Forey e seus seguidores contra ela.)

Em segundo lugar, a idéia de que a Maçonaria moderna é descendente direta da ordem do Templo através de um grupo de Templários que se refugiaram na Escócia após a dissolução da ordem em 1307 é algo que se recusa a morrer, apesar da falta de evidência comprovada disso. Hoje, a maioria dos historiadores de boa-fé ou se declararam contra ela, ou, na melhor das hipóteses, emitiram um veredicto de “não comprovado”.[i]

Assim, qualquer pesquisa que teria adicionado novas informações a esses caminhos batidos teria sido muito bem-vinda por aqueles indivíduos que, como eu, estão interessados apaixonadamente pela história das ideias. Infelizmente, é evidente que o autodenominado – e discutivelmente falso [ii][ii] – “Sua Alteza Real Príncipe Michael de Albany” e seu colaborador, o cineasta Walid Amine Salhab, tinham uma agenda diferente quando escreveram seu livro.

Como é frequentemente o caso com obras tendenciosas, os autores começam com alguns fatos verdadeiros, ou seja,

a) a maioria de nós no Ocidente demonstramos uma grave falta de conhecimento e entendimento sobre o Islã, seus princípios, sua história e seu desenvolvimento;

b) estudiosos islâmicos, tanto através de seus próprios trabalhos originais, assim como através da preservação e a transmissão de um vasto acervo de trabalhos filosóficos, místicos, matemáticos e científicos grego e asiático, obras clássicas, foram um dos canais através dos quais a Europa Ocidental recuperou o contato com o conhecimento que, com o tempo, desencadeou sua própria renascença; e

c) a história da maioria das organizações religiosas (os autores convenientemente omitem o Islã de sua lista) mostra inúmeros exemplos quando alguns de seus líderes, enquanto seres humanos falhos, estavam (estão?) envolvido em comportamento tacanho, preconceituoso e, por vezes, absolutamente cruel. A partir daí, “Albany” e Salhab continuam tecendo uma teia tendenciosa, sensacionalista e, em última análise, desagradável de meias-verdades, fatos em comprovação e mitos em causa própria.

Depois de vadear por uma litania de diatribes anti-judaicas, anti-Israel e anti-católicas (exatamente como o primeiro de exemplos freqüentes, veja a Ordem dos Templários, p. 3) e sendo submetido ao desdém completo dos escritores por todos os historiadores profissionais – que, pelo simples fato de discordar deles prova sua teimosia e incompetência – o leitor é deixado com as alegações familiares e sem suporte expostas por meio de uma prolífica produção de escritores mutuamente endossados como Laurence Gardner, Lynn Picknett & Clive Prince, Tim Wallace-Murphy & Marilyn Hopkins.

Com o sucesso fenomenal de o Código Da Vinci de Don Brown (EUA, Doubleday, 2003), essas alegações atingiram um mega status. Fico imaginado se os Srs. Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln tinham alguma idéia de progenitura indesejada que iriam gerar com seus Best-sellers de 1982, Holy Blood, Holy Grail (Inglaterra, Jonathan Cape, 1982)?

Nas próprias palavras de “Albany” e Salhab:

… and sua busca de poder [a dos príncipes Hasmoneus que tinham sido deslocados por Herodes o grande (meu parêntese)] culminou em um casamento realizado em Caná, entre um descendente da casa real de David, Jeshua ben Joseph e uma princesa de Hasmoneus, Myriam de Migdal. Hoje, eles são mais conhecidos como Jesus Cristo e Maria Madalena. Os Cavaleiros Templários p. 7

Ironicamente, esta afirmação familiar, ainda que completamente sem suporte, segue-se logo após eles terem afirmado:

A Igreja Católica Romana (sic) promove uma história que é, no mínimo, um pouco editada. Na verdade, do ponto de vista do historiador correto, há pouca verdade na historicidade da igreja cristã como um todo. Os Cavaleiros Templários p. 6

Quem está chamando o roto de esfarrapado?

A primeira parte de The Knights Templar não passa de uma reiteração de e especulações sobre o significado e implicações da genealogia “Rex Deus” dos supostos descendentes de Jesus e Maria Magalena – que, naturalmente, inclui um dos autores, “Michael de Albany” – intercaladas com uma série de outras reivindicações surpreendentes, a maioria das quais é, uma vez mais, nem original nem provada, tais como: Moisés era realmente o Faraó Akhenaton; a antiga Israel estava localizada no oeste da Península Arábica; a Cabala não é judaica mas persa; Hugues de Payens (um dos co-fundadores dos Templários e o seu primeiro Grão-Mestre) era um criptomuçulmano anticatólico, assim como era São Bernard de Clairvaux, juntamente com o resto da hierarquia Cisterciense-Templária e da rede de famílias Reais “Deus Rex” (descendentes de Cristo) que o apoiaram, etc, etc.

O resto do livro aborda a conexão alegada – ainda, mais uma vez, sem suporte – entre os Cavaleiros Templários e a Maçonaria, e entre a Maçonaria e a casa real de Stewart, ambos antes e depois da chamada “Revolução Gloriosa” de 1688 – os ter derrubado do trono britânico e os substituido pela Casa de Hannover.

Infelizmente, aqueles assunto – que, novamente, durante os últimos cem anos tem sido objeto de numerosos estudos por diferentes historiadores sérios, maçons e não-maçons – são descartados com a mesma falta de verdadeira erudição que os autores demonstraram nas seções anteriores de seu livro. (Eu ficaria feliz em fornecer uma lista representativa de “erros” a quem quiser vê-la).[iii] [iii]

De um ponto de vista técnico – e isso pode não ser culpa dos escritores – a edição de The Knights Templar em minhas mãos contém alguns termos impróprios (ou seja, Ariana em vez de Arriano em pelo menos duas ocasiões) e uma enxurrada de erros tipográficos e ortográficos (a lista é muito longa para ser incluída aqui).

Em conclusão: eventos atuais provam que precisamos de obras de erudição séria, livros que se limitem escrupulosamente a fatos comprovados; livros que promoverão melhor compreensão entre membros de diferentes culturas, etnias e filiações religiosas. Infelizmente, este não é um deles.

2. A Visão de Um Maçom

O “HRH Príncipe Michael de Albany” afirma que ele é um maçom pertencente “…Loja Robert Burns 1781, [Edimburgo] da qual sou membro.” Os Cavaleiros Templários p. 151.)

Se isso é correto, e o que o Sunday Mail escocês afirmou em 23 de julho de 2006 (ver Nota 2 abaixo) – que devido à natureza “falsa” de suas reivindicações, ele foi obrigado a fugir da Escócia, e sua cidadania britânica foi revogada – não é, para o seu próprio bem e para o bem da fraternidade, eu lhe rogo limpar seu nome e reputação. No entanto, se as declarações do Sunday Mail forem verdadeiras, penso que, independentemente das possiveis ramificações legais que poderiam derivar desses fatos, esta violação flagrante da “Lei Moral” que todos os que maçons são obrigados a obedecer constitui motivo suficiente para encerrar sua filiação maçônica.

Suas opiniões publicadas, porém, são simplesmente uma outra questão. Preconceito e intolerância não são incomuns. Má erudição, infelizmente, não é um crime. Portanto, uma das consequências inevitáveis de viver em uma sociedade livre e tolerante, é que todos os anos vemos aparecer uma série de livros preconceituosos, tendenciosos e seletivamente “pesquisados”.

Cabe, então, a cada um de nós – exercer os mesmos direitos gozados pelos autores desses livros – compra-los ou não, lê-los ou não. Geralmente, eu não desperdiço meu tempo lendo ou, muito menos, refutando qualquer um deles. No entanto, quando alguém que se declara um maçom publica opiniões que, claramente, contrariam o código maçônico mais básico de respeito e tolerância com todos os credos religiosos e denominações, eu me sinto compelido a duvidar se “Sua Alteza Real Príncipe Michael de Albany” é, na verdade, um Maçom. Se ele realmente é um, eu o convoto a agir como um.

Publicado em : http://www.freemasons-freemasonry.com/freemasonry_knights_templar.html


[i]  Um exemplo de erudição recentes nesse sentido é o livro absorvente, bem pesquisado e bem escrito por Robert L. D. Cooper, The Rosslin Hoax?, Inglaterra, Ian Allan Printing LTD, 2006. O Sr. Cooper, Curador do Museu e Biblioteca da Grande Loja da Escócia passou mais de doze anos pesquisando este trabalho e fez um extenso estudo de todos os documentos pertinentes e originais, algo que a maioria dos “historiadores” que apoiam uma opinião diferente não fizeram. Em uma afirmação, Mr. Cooper diz: “O mito de uma conexão linear entre a ordem medieval dos Cavaleiros Templários em um contexto escocês foi inventada por um maçom escocês, Chevalier James Burnes, para seus colegas maçons que estavam interessados na criação de uma ordem maçônica que espelhasse suas próprias atitudes e suas ideias cavaleirescas do século XIX”. (The Rosslyn Hoax?, p. 245)

[ii] Para um estudo aprofundado das alegações feitas pelo Sr. Michel Roger Lafosse, vulgo Michael James Alexander Stewart, também conhecido como “Sua Alteza Real Príncipe Michael de Albany”, consulte os artigos no Sunday Herald escocês de 2 de abril de 2006 e no Sunday Mail de 23 de julho de 2006, bem como o artigo sobre Michel Roger Lafosse na Wikipedia. O item na Wikipédia contém, também, links para outros sites, postando o que parece ser uma prova conclusiva contra as afirmações do Sr. Lafosse.

[iii] Mais uma vez, para um estudo bem pesquisado sobre esse assunto, consulte que o trabalho de Robert L. D. Cooper citado acima.

 

Publicado on novembro 12, 2012 at 2:25 pm  Comments (1)  

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  1. […] https://bibliot3ca.wordpress.com/maconaria-e-os-cavaleiros-templarios-mais-um-trote/ Uma boa leitura a todos os futuros cavaleiros andantes… […]


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