Isaac Newton, o herege – Parte VIII

Tradução – José Antonio de Souza Filardo

‘A MAIS BRANCA ALMA’: NEWTON COMO CRENTE

De seus dias de Cambridge Newton ganhou uma reputação como um teólogo. Em 1692, Abraham de la Pryme, então um estudante em St. John’s referia-se a Newton como ‘um matemático excelentíssimo, filósofo, teólogo, etc. Embora o termo ‘teólogo’ pudesse ser simplesmente uma ampliação frouxa de uma caracterização de Newton como um polímata, não é inconcebível que refletisse uma imagem que tinha adquirido naquela época. Por volta da mesma época, o crítico textual John Mill, que tinha tomado conhecimento de um extenso trabalho de Newton neste campo, procurou a assistência deste último com a sua edição crítica do Novo Testamento. No final dos anos 1670, Newton preparou e, provavelmente, proferiu em sua faculdade um ou possivelmente dois sermões leigos. Buscando conselho, Thomas Burnet enviou a Newton um projeto de pré-publicação de material de seu Telluris theoria sacra no final de 1680, e os dois homens tinham uma curta troca epistolar sobre a interpretação dos primeiros capítulos do Gênesis. Sabemos também que já em 1680, Newton tinha realizado um debate aprofundado na Universidade de Cambridge com Henry More sobre a interpretação do Apocalipse. A habilidade teológica de Newton é confirmada por aqueles que o conheceram melhor. Locke descreveu Newton como ‘um homem muito valoroso não somente por sua maravilhosa habilidade em Matemática, mas também em teologia e seu grande conhecimento das Escrituras até onde eu sei, tem poucos iguais’. Em 1700, quando o Mestrado de Trinity foi oferecido a Newton sob a condição de que ele se ordenasse, o Arcebispo Tenison o ‘importunou para assumir qualquer posição na Igreja’, pedindo: ‘Por que não? você conhece mais teologia que todos nós juntos’, Newton respondeu equivocadamente, ‘por que então serei capaz de prestar-lhe mais serviço do que se eu fosse ordenado’.

Testemunhos da fé de Newton centrada na Bíblia também estão registrados. Conduitt escreveu de Newton que ‘o livro comumente colocado diante dele e que ele lia com frequência no final era uma bíblia in duodécimo. Uma atestação semelhante foi feita no Elogio de Fontenelle. Stukeley, ignorando a ironia terrível da intenção herética, contesta:

Nenhum homem na Inglaterra lia a Bíblia com mais cuidado do que ele, nenhum a estudou mais, como aparece em suas obras impressas, por muitas peças que ele deixou que não estão impressas, e até mesmo pela Bíblia que ele comumente usava, toda marcada de dedos, como eles chamam, em um grau extraordinário, com a frequência de uso.

Flamsteed também relatou ter visto uma Bíblia no quarto de Newton em 1700.

Embora Conduitt e Stukeley estivessem tentando construir uma imagem de Newton como estudante piedoso das Escrituras, podemos cortar esta produção de mito e corroborar este testemunho com provas físicas e documentais mais substantivas. Primeiro, há a expressão do próprio Newton do ideal para estudar a Palavra, escrevendo ao seu leitor sobre a necessidade de ‘busca a ti mesmo nas escrituras [através] de leitura frequente e constante meditação sobre o que tu lês’. Muito mais tarde na vida ele escreveu que depois do batismo e admissão à comunhão, os homens devem ‘estudar as escrituras até ao fim de suas vidas e aprender o máximo que eles puderem delas e viver de acordo com o que eles aprendem’. Newton claramente agia sobre esses ideais, pois seus manuscritos teológicos revelam uma familiaridade próxima e ampla com as Escrituras Sagradas, demonstrando, como diz Manuel, que ‘estudar este livro foi o culto de Newton’. Outra medida impressionante de estudos bíblicos é a coleção de Newton de mais de trinta bíblias – incluindo textos em Inglês, grego, latim, hebraico, francês e sírio. Uma bíblia descrita como anotada por Newton – um in duodécimo de 1660 e possivelmente a Bíblia que Conduitt viu – que se acredita perdida, mas a descrição sobrevivente implica que ela era bem gasta. Uma das bíblias sobreviventes de Newton, uma in octavo de 1660, também contém anotações e seus cantos dobrados e pesada sujidade mostram sinais de leitura e estudo constantes. Tudo isso oferece um vislumbre convincente do que era uma fé intensamente privada e individual.

Testemunhos posteriores realçam a piedade de Newton. O Bispo Gilbert Burnet favoreceu Newton com a observação de que o grande homem era `a mais branca alma que ele jamais conhecera’. Voltaire, chocado durante a sua conversa de 1726 com Clarke de que este último sempre mencionava o nome de Deus com grande reverência, soube por Clarke de que ele tinha aprendido o hábito com Newton. Isto se compara bem com os manuscritos de Newton, que criticam nomear Deus ‘em vão e sem reverência’. Conduitt, acalmando seu próprio alarme com a recusa de Newton de receber o sacramento em seu leito de morte, escreveu que toda a vida de Newton ‘foi uma preparação para outro estado’ e que ‘ele tinha a sua lâmpada sempre acesa e pronta e um cinto na cintura’ – aludindo a Lucas 12: 36. Na verdade, não obstante sua cronologia apocalíptica, as próprias palavras de Newton implicam que ele orava diariamente pelo Reino do por vir. Dificilmente o racionalista frio e religiosos de algumas narrativas, ele também fala de Jesus como ‘nosso Senhor’ e de ter ‘feito uma expiação por nós e ter satisfeito a ira de Deus merecia o perdão e ter lavado nossos pecados em seu sangue’. Newton se preocupava com o bem-estar espiritual dos outros também. Ele ajudou Fatio que passava por uma crise espiritual em 1692, com o matemático suíço expressando sua gratidão a Newton: `Eu agradeço a Deus e minha alma é extremamente tranquila, para o que você deu a ajuda fundamental. Em 1716 ou pouco antes, Newton agiu como um conselheiro espiritual de Joseph Morland, que assegurou ao primeiro, ‘eu fiz e farei o melhor de mim enquanto viver para seguir seu conselho e arrepender-se e acreditar’ e então acrescentou: ‘Pelo que me escreve sua opinião se no todo eu possa morrer com conforto.

Havia também muita caridade não apregoada. O filho do companheiro de quarto de Newton, Wickins, fala de uma ‘beneficência de Caridade’, que Newton passou em particular através de seu pai e ele para a distribuição de ‘muitas dúzias de Bíblias envidas por ele para pessoas pobres’, que o filho de Wickins acrescenta que, ‘mostra a grande consideração que ele tinha pela Religião’. Newton deu £ 10 para um esquema de criação de escolas de caridade em Cambridge, (e tornou-se um assinante pago da Comissão para aliviar prosélitos pobres.) Ele também colocar o dinheiro na reparação de sua igreja paroquial de infância em Colsterworth. Além disso, uma nota em sua Bíblia in octavo atesta que Newton a deu à mulher que cuidou dele em sua doença final. Estes são apenas alguns exemplos ilustrativos; Westfall registra numerosos atos de caridade de Newton para a família e estranhos, concluindo que era ‘bem acima da média’ para um homem de suas posses.

Juntamente com essas afirmações e sinais de piedade estão lembranças de austeridade moral e intolerância de Newton com a leviandade na religião. Sua meia-sobrinha Catherine Conduitt lembrou-se de como Newton ‘não podia tolerar ouvir qualquer falar levianamente de religião’ e que ele estava ‘frequentemente bravo com o Dr. Halley a esse respeito’ e até mesmo ‘diminuiu sua afeição por Bentley devido a isso. Benjamin Smith confirma este testemunho. Uma anedota mostra Halley ‘falando contra o cristianismo diante de Sir Isaac, e dizendo que queria uma demonstração matemática’, ao que Newton interrompeu Halley dizendo: ‘Homem, é melhor você segurar a língua; você nunca pensou suficientemente sobre o assunto’. Catherine Conduitt também relatou que Newton quebrou uma amizade de longa data com o químico John Francis Vigani, porque este último ‘contou-lhe piada cerca de uma freira’. A isso podemos adicionar a reivindicação de Whiston de que Newton lhe havia dito que ‘o comportamento mau dos cortesãos mais modernos’ tinha sido causado por ‘terem rido da Religião’. Que não haja engano; em seu biblicismo piedade e moralidade, Newton era um puritano pura e simplesmente.

Por fim, Newton apoiava esforços apologéticos contra a falta de fé. Craig escreveu que Newton ‘era muito mais solícito em suas pesquisas de Religião que da Filosofia Natural e que o motivo por ele mostrar os erros na filosofia cartesiana era porque ele pensava que ela havia sido criada de propósito para ser a base da falta de fé’. Manuscritos de Newton fundamentam seu ódio ao ateísmo, cujos defensores ele não tinha problemas em consignar ao ‘livro da morte’ de Deus. Um firme defensor do Argumento do Projeto, ele afirmava em suas famosas cartas a Bentley que pretendia que os Principia revelassem o Criador. Newton adicionou a isso o Argumento da Profecia para a revelação. Nem é insignificante que seus dois discípulos mais próximos, Whiston e Clarke, estavam entre os anti-deístas mais extrovertidos do período.

Certamente, como homens como Robert Hooke, Flamsteed e Leibniz puderam atestar, Newton estava longe de ser um santo perfeito, e um quadro abrangente deve incorporar todas as contradições. No entanto, o material apresentado nesta seção ajudou a localizar o meio religioso de Newton: apesar de ser um herege, ele tinha um grande respeito pela Escritura e a verdadeira religião, e era um oponente ativo da incredulidade. Com alguns dos testemunhos, no entanto, é difícil peneirar entre realidade e interpretação. Conduitt estava coletando material para uma biografia projetada de Newton e não estava aberto a registrar testemunho que estivesse em contradição com o que teria sido uma verdadeira hagiografia. Outro problema é a interpretação errada da devoção de Newton às Escrituras como um sinal de ortodoxia. Que tal interpretação errada possa ser acidental é revelado por Wodrow, que, ao ouvir que Locke tinha se dedicado a ler sua bíblia antes de sua morte, comentou: ‘É um dos mais eminentes casos de relação soberana de Deus com um dos principais próceres do Socinianos e Deístas e pode ser um meio de engajar seus admiradores nos valores das Escrituras’. Para Wodrow, um biblista antitrinitariano era uma contradição em termos. Embora não fosse possível fornecer ao mundo amostras da ortodoxia de Newton, Conduitt ainda podia usar Newton como uma arma contra a falta de fé. Assim, ele escreve,

Se há algum de tais princípios tão estreitos que não traga consigo não chegar ao ponto da mais alta ortodoxia, deixe-os refletir qual vantagem tem para o cristianismo em geral <nesta época de infidelidade> ter um leigo como filósofo e ter gasto tanto estudo sobre a divindade e tão publicamente < e extenuante>ª esposando <defendendo> isso.

Quanto a Stukeley, quando ele não foi capaz de apontar para confirmações diretas de ortodoxia, ele usou as melhores evidências disponíveis: A piedade de Newton, a leitura da Bíblia e frequência regular à igreja. Ao ler estas coisas como sinais de ortodoxia, os intérpretes não reconheceram (ou aceitaram) a complicação adicional do Nicodemismo de Newton. A seção seguinte demonstrará outra razão pela qual esses atestados foram considerados tão necessários.

Publicado on setembro 2, 2011 at 10:31 am  Deixe um comentário  

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