Idosos dementes tratados com dignidade. Na Holanda

Cidade Holandesa Oferece Atendimento Digno para Quem Sofre de Demência

Por Barbara Hans em Amsterdã

SPIEGEL ONLINE

A aldeia na Holanda habitada exclusivamente por idosos com demência oferece uma nova resposta de como a sociedade pode lidar com o envelhecimento da população. É um mundo sem ontem ou amanhã onde os moradores têm muito mais liberdade do que podiam ter nas casas de repouso.

O momento em que o mundo passa a ser ilusório acontece inesperadamente. “Por favor, me acompanhe”, diz Jo Verhoeff, antes de dar um passo rápido à frente. Verhoeff é uma mulher orgulhosa, e sua sala de estar é o seu reino. “Que bom que você está aqui”, diz ela. Boas maneiras são importantes para ela. Ela lidera o caminho através do corredor, onde fotografias da festa de Ano Novo estão penduradas, então passa pela porta da frente que nunca está fechada e daí para o quintal, onde um boneco de neve sorridente ainda está de pé, embora o inverno já tenha passado. O sol da primavera brilha em sua barriga de plástico.

Estações, costumes, rotinas diárias, histórias – todas elas se misturam na pequena aldeia de Hogewey, localizada na comunidade holandesa de Weesp. É um lugar para pessoas com demência que já não têm juízo adequado ou uma percepção de sua própria segurança, mas anseiam por liberdade. Se uma coisa define esse lugar, é serenidade. Os moradores se arriscam sair sem casacos no inverno e usam dois no verão. Eles sentem a chuva em sua pele e deixam seus guarda-chuvas em casa. Eles bebem café antes de dormir e comem chocolate no café da manhã. Eles atravessam a rua com pressa e cantam para si mesmos corredor abaixo.

“É bom falar alemão novamente”, diz Verhoeff depois de uma longa saudação. “É bom ter você nos visitando, será um prazer lhe mostrar tudo.”

Mas, então ela pergunta: “Quem é você? Você fala alemão?”

Verhoeff é uma senhora alegre, que sorri com frequência e gosta de exercício. Ela também é um pouco vaidosa, remexendo seu cabelo cacheado, pulôver de malha e colar de pérolas até que eles fiquem bem certos. Suas mãos exibem compostura, principalmente movendo-se apenas nas pontas dos dedos delicados. Uma mulher bem-educada, Verhoeff frequentou a faculdade, aprendeu Inglês, Francês, Alemão e contabilidade. Ela era ambiciosa, trabalhava em um banco, e sua vida diária era definida por dinheiro, ordem, e supervisão clara.

Mas ela é também uma pessoa esquecida. Desde a demência devastou partes de seu cérebro, o caos domina sua mente. O passado tornou-se uma massa espessa, ocasionalmente cuspindo momentos de memória que podem estar relacionados ao presente, embora não necessariamente com a realidade. Mas, o que permanece é o ritmo de sua vida, que é pontuada com o decoro revelado na postura reta à mesa de jantar e a cortesia com estranhos.

A vila de Hogewey cria laços com o que permanece, apesar da demência, as parcialidades e sentimentos que são mais importantes porque o cérebro não funciona mais corretamente. A instalação fora de Amsterdam oferece uma resposta de como a sociedade pode lidar com a doença, da qual cerca de 1,3 milhões de pessoas sofre, só na Alemanha. Ao invés de isolar essas pessoas em casas de repouso, Hogewey as mantém secas, alimentadas e limpas, ao mesmo tempo em que providencia a satisfação de seus desejos e necessidades individuais.

Liberdade em um Ambiente Protegido

Jo Verhoeff tem 85 anos de vida em sua cabeça, mas o que permanece é só o presente. Ela vive o momento. Mas, o aqui e o agora também é esquecido dentro de um instante. É como se ela está estivesse sendo constantemente reinicializada. “Eu sou Brenda,” sua cuidadora diz que todos os dias dezenas de vezes. Verhoeff é cercada por estranhos, embora ela tenha vivido com muitos deles por anos. Eles compartilham a cozinha, o sofá, a televisão e a mesa de jantar, mas nada os une. Tudo é sempre novo – o caminho para o banheiro é um enigma, assim como o é a necessidade de ir até lá. Para aqueles que nada mais sabem, tudo é ameaçador.

Mas, Hogewey visa aliviar esse medo levando-o a sério.

A instalação, que abriu em Dezembro de 2009 e foi construída com um total de € 1,5 milhões (cerca de R$ 3.6 milhões) com financiamento de patrocinadores, é a única instituição do gênero na Europa. A Fundação Holandesa de Alzheimer elogiou a vila como “exemplar”, e está atraindo a atenção de cuidadores em toda a Europa e em todo o mundo. Algumas instituições na Alemanha, que cuidam dos quase 1,3 milhões de pacientes com demência no país enviou enviou trabalhadores a Hogewey para treinamento. E os planos para uma vila semelhante estão em andamento na Suíça.

Os 152 moradores de Hogeweay vivem em grupos de seis em uma pequena comunidade que está fechada para o mundo exterior. Há sete estilos de acomodação que correspondem a estilos de vida holandeses que foram meticulosamente pesquisados por um instituto de pesquisa: rústico, urbano, cristão, luxuoso, indonésio, culturalmente resolvido e familiar. Hogewey é uma cidade holandesa encolhida.

Os moradores estão autorizados a circular livremente pelas ruas, sentar ao sol, passear na chuva ou entrar nas casas uns dos outros – as portas estão sempre destrancadas. Hogewey oferece liberdade em um ambiente protegido. Aqueles que se perdem são levados para casa pelos cuidadores. Há um supermercado onde os que esquecem suas carteiras ainda podem pagar as mercadorias, e os pacientes que enchem seus carrinhos com 14 frascos de molho de maçã podem levá-los para casa. Um atendente os devolverá mais tarde.

A casa que Verhoeff chama de lar é do tipo urbano, repleta de moradores de Amsterdam e proximidades. Eles trabalhavam na cidade como os banqueiros, empresários e motoristas de caminhão. Eles preferem de música popular a Bach. Eles dobram roupas lavadas na mesa da sala de jantar, descascam suas próprias batatas e comem simplesmente. As refeições são cozidos em cada casa todos os dias, e o aroma de cebola salteada paira no ar.

Convivência com Estranhos

O ambiente está cheio de referências ao passado, desde padrões de papel de parede até relógios antigos e opulentas luminárias. Em Hogewey, o tempo para, assim como ele fez para os seus moradores.

“Quando eu nasci?” Verhoeff pergunta, olhando para o teto como se lhe tivessem sido feita uma pergunta imprópria. “Em 1927, Tia Jo”, diz Brenda Smart, sua enfermeira. “Isso é muito tempo”, diz Tia Jo, balançando a cabeça como se devesse confirmar isso.

Três cadeiras ao lado senta-se um velho magro vestido com um paletó e gravata e com seu cabelo grisalho cuidadosamente penteado. Ele visita sua esposa todos os dias e joga paciência enquanto ela é levada a sala em uma cadeira de rodas. Ele pega a mão dela, ainda jogando cartas com a outra, e eles não falam. Em algum momento ela começa a chorar, as lágrimas escorrendo pelo seu rosto. A demência suspende inibições e se deixa as emoções livres. Sem uma palavra, o homem continua a jogar, enquanto sua esposa chora. Ela vai começar a chorar com frequência esta tarde, mas ela não vai falar.

Verhoeff senta-se perto das pessoas com quem ela compartilha sua casa, mas ela não os vê. Mesmo juntos, é cada um por si.

Enquanto isso, outra residente, Corry Otter, está tendo um dia ruim. Fisicamente deprimida pela idade, ela anda pelo apartamento, suas calças pretas flutuando ao redor de suas pernas finas, um casaco de lã cinza folgado sobre sua barriga e esticado apertado em suas costas, que são curvadas pelos anos de esfrega, polimento e lavagem. Seu cabelo é tingido de uma cor caramelo – há também um salão de beleza em Hogewey.

“Vai ser um verão ruim”, diz ela, agarrando a jaqueta de inverno que ela usa. “Um verão ruim.” Ela vai até a janela, onde coloca a cabeça para baixo como uma criança, em seguida, faz uma careta, arreganhando os dentes e resmungando em uma língua imaginária. Será assim pelo resto do dia. De volta ao corredor, ela toma uma nova rota – pela porta da frente usando chinelos. Isso não é um problema em Hogewey.

“Eu estou passando férias aqui, você sabia?” Verhoeff diz enquanto está sentada em sua cama, que tem roupa de cama estampada com o símbolo do time de futebol Ajax Amsterdam. Ela é uma mulher feliz. Seu diploma universitário, bem como muitos certificados de realizações estão dependurados na parede, prova da profundidade de sua educação. “Na próxima vez que você vier a Amsterdam”, acrescenta ela, “vou apresentá-lo aos meus pais.”

Publicado on março 29, 2012 at 5:07 pm  Comments (9)  

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9 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Ok obrigado pela atenção!

  2. Vou a Amsterdam em junho de 2015, consigo visitar este lugar?

    • Provavelmente sim. Mas lembre-se que a vila não fica em Amsterdam. Está a 114 km ao sul de Amsterdam, perto de Tilburg. Dá para ir de trem (duas horas) até Tilburg, dali até Udenhout e caminhar (um km) até Hogewey. Reserve um dia inteiro para isso.

  3. Gostaria muito de aprender com esses cuidadores.

    • Zelma, os dados da prefeitura de Weesp sao:

      Gemeente Weesp
      Nieuwstraat 70a
      1381 BD WEESP
      T: (0294) 491 391
      F: (0294) 414 251
      E: info@weesp.nl
      volg ons op

      Postadres:
      Postbus 5099
      1380 GB WEESP

      Estou certo de que se você escrever a eles, conseguirá informações importantes.

  4. Gostei muito da reportagem sobre essa aldeia de idosos em weesp

    • Os dados da prefeitura de Weesp sao:

      Gemeente Weesp
      Nieuwstraat 70a
      1381 BD WEESP
      T: (0294) 491 391
      F: (0294) 414 251
      E: info@weesp.nl
      volg ons op

      Postadres:
      Postbus 5099
      1380 GB WEESP

      Estou certo de que se você escrever a eles, conseguirá informações importantes.

  5. Eu adorei essa idéia, achei lindo, gostaria ate de poder trabalhar neste lugar!

    • Os dados da prefeitura de Weesp sao:

      Gemeente Weesp
      Nieuwstraat 70a
      1381 BD WEESP
      T: (0294) 491 391
      F: (0294) 414 251
      E: info@weesp.nl
      volg ons op

      Postadres:
      Postbus 5099
      1380 GB WEESP

      Estou certo de que se você escrever a eles, conseguirá informações importantes.


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