Huzzé e a Barca de Ra

 

Por: Reinaldo Ramirez & Sérgio K. Jerez

 olho

A mitologia egípcia

Dos povos da antiguidade, os egípcios certamente são os mais estudados. Mesmo antes da descoberta da Pedra da Roseta, em 1799, a cultura egípcia já desafiava a curiosidade dos exploradores europeus. Riquíssima em personagens que possivelmente provêm de períodos anteriores ao dinástico (c. 3.100 a.C.), a mitologia egípcia sempre foi pródiga na criação de divindades, heróis, vilões e lendas para explicar não só acontecimentos corriqueiros do dia-a-dia, mas também para dar uma dimensão mágica às questões religiosas e espirituais.

Nas dezenas de séculos que durou sua civilização, tanto os personagens mitológicos quanto os relatos em que estes estavam envolvidos sofreram diversas mutações, adaptando-se às questões sociais e aos valores dos períodos históricos nos quais estavam inseridos. Assim, os mesmos deuses, semideuses e entes mágicos adquiriram personalidades, nuances e contornos diversos, tornando quase impossível uma descrição única de suas características ao longo das diversas dinastias. Horus, por exemplo, uma das divindades mais antigas, assume tantos papéis e desempenha funções tão diferentes ao longo dos séculos, que se tentássemos montar um painel dos traços comuns a todas as suas versões, talvez acabássemos apenas com seu nome.

Uma civilização sofisticada como a do Egito, desenvolvida no calor inclemente do norte da África, tinha, como não poderia deixar de ser, um rico folclore em torno do trânsito solar[1]. Dentre os vários relatos fantásticos que contam histórias sobre o Sol, o da Barca de Ra ou Barca do Sol ocupa um papel de destaque. É contado em duas versões principais. A versão cosmológica é uma criativa tentativa de justificar porque o Sol nascia para iluminar o dia e se punha, trazendo a escuridão da noite. Já a versão mística, embora se valha praticamente dos mesmos personagens da cosmológica, busca explicar um dos maiores mistérios da criação: o que acontece depois da morte? Para tanto, elabora uma série de situações que descrevem a peregrinação dos mortos no caminho do além-túmulo, até alcançarem o direito a uma nova vida.

As duas versões envolviam cultos próprios, revestidos da maior dramaticidade. Ambas dispunham de rituais diurnos e noturnos. Os rituais noturnos, especialmente, eram imersos em tensão e comoção, na eterna dúvida sobre se o Sol nasceria pela manhã[2] ou, no caso da versão mística, se o morto poderia viver novamente.

O que veremos a seguir é como eram esses mitos e o que eles têm a ver com a maçonaria e com o uso da palavra Huzzé.

 

A versão cosmológica

O Sol do poderoso deus Ra já havia desaparecido atrás das montanhas ao longe, deixando como prova de sua passagem apenas o vermelho-alaranjado do céu e a silhueta das figueiras que, pouco a pouco, iam perdendo nitidez.

Na Barca de Ra tudo era silêncio. À medida que o Sol se punha e que as trevas do submundo (Duat) envolviam a nau, o medo e a apreensão se instalavam no coração dos tripulantes. A partir daquele instante, navegariam nas águas do caos. Ra, ao centro, mantinha sua serena austeridade, como a transmitir confiança aos companheiros de viagem. Todos tinham um papel a desempenhar. Destacadamente, a atuação de Heka, Set, Hu e Sia[3] seria determinante. Se vencessem Apep[4], a demoníaca serpente, novamente o Sol faria jus ao ressurgimento no leste. Para tanto, Heka garantiria que as magias praticadas contra Apep pelos sacerdotes tivessem eficiência plena. Set, por sua vivência marcial, asseguraria ao monstro um oponente cuja fúria estava à altura de sua malignidade. Sia traçaria os planos para a previsivelmente turbulenta viagem e Hu se encarregaria de verbalizá-los, comandando as ações e garantindo que fossem desempenhadas adequadamente. Além de terem a incumbência de zelar pela segurança de Ra, ambos, Hu e Sia, seriam os principais responsáveis por levar a viagem a bom termo.

Enquanto isso, nos templos de Abydos, desde o início do poente, os sacerdotes se revezavam em fervorosas preces, buscando com isso fortalecer os integrantes da Barca e aumentar a intensidade dos feitiços e maldições que, através de Heka, fariam exaurir as forças da horrenda e descomunal serpente.

As águas do caos pareciam calmas quando, repentinamente, um grito aterrador atravessou a escuridão. Tomada de surpresa, a tripulação mal havia se recomposto do susto quando a quilha da Barca bateu em algo que a fez adernar. Era Apep, que contorcia seu enorme corpo sob a pequena embarcação na tentativa de tombá-la e garantir desta forma que a escuridão eterna se instalasse no céu do Egito.

À medida que a noite avançava, mais intensas eram as sensações de que o naufrágio era iminente e maior o desespero. Bramidos alucinantes, urros encolerizados. Deuses contra monstro, luz contra trevas. Por horas a fio Hu e Sia, com manobras audazes, conseguiram evitar que as investidas de Apep tivessem sucesso. Mas estavam à beira da exaustão.

Já era alta madrugada e a serpente parecia perto de conseguir seu intento, quando Ra fez um sinal e Hu ordenou a Set que tentasse destruí-la.

A primeira oportunidade logo surgiu. Foi numa tentativa do descomunal réptil abocanhar Ra. Set saltou sobre ele como um raio e, valendo-se do elemento surpresa, tentou asfixiar a fera. O que se seguiu foi aterrorizante. Set e a serpente engalfinharam-se, revolvendo furiosamente as águas do caos e fazendo com que a Barca ficasse ao sabor das ondas e redemoinhos, quase soçobrando não fossem a precisão das orientações de Sia e a firmeza de Hu ao comandar. Lamentos, gemidos, gritos, ruídos indecifráveis. Terror. O cheiro do medo no ar… inquietação. Por fim, ao perceber a serpente extenuada pelos vãos esforços de afundar a Barca, pelas maldições que lhe foram lançadas e pelos golpes que lhe aplicara, Set conseguiu imobilizá-la e desferiu-lhe uma estocada sob a base da cabeça, matando-a instantaneamente.

Prova tua morte, ó Apep! Retrocede! Retira-te, ó inimigo de Rá! Cai! Sê repelido! Volta e recua! Eu te faço voltar e te corto em pedaços! Ra triunfou sobre Apep! Prova a tua morte, Apep![5] , ecoavam os hinos no templo.

Trazido de volta à Barca, Set foi recebido com alegria pelos companheiros. Mas, acossado pela vaidade, ufanou-se de ter sido o único responsável pela morte da traiçoeira cobra, o que provocou a ira de Ra, que imediatamente o fez abandonar a embarcação, deixando-o numa das margens do caos.

Hu prosseguiu no comando, ordenando as manobras previstas por Sia, até que, finalmente, com Ra são e salvo, puderam concluir sua vitoriosa peregrinação pelo submundo.

A estrela da manhã brilhava no céu. A despeito das dificuldades e obstáculos da viagem, a Barca de Ra, trazendo consigo o astro-rei, poderia novamente cumprir sua viagem no firmamento egípcio.

Os primeiros raios de luz apontavam no horizonte.

Reunidos num dos altares e banhados pela claridade, desgastados, mas ansiosos por aquele momento, os sacerdotes, num misto de alívio e intensa emoção, saudavam os principais responsáveis pelo feito. Ajoelhavam-se em direção ao nascente e exclamavam a uma só voz: Hu Sia! Hu Sia!, Hu Sia!

O Sol voltara a brilhar…

 

A versão mística

Como dissemos antes, esta versão da Barca de Ra se utiliza basicamente dos mesmos protagonistas da versão cosmológica, embora com diferentes ênfases.

O Sol da versão cosmológica transforma-se aqui no morto que almeja o renascimento ou, como querem alguns, a libertação eterna. Para conseguir seu intento, o finado deveria, durante a vida, ter pautado suas atitudes pela pureza e pela correção.

O julgamento de sua conduta seria conduzido por Ma’at, agora à frente da Barca, garantindo, em primeiro lugar, que o coração do morto fosse colocado no prato de uma balança e comparado com o peso de uma pena no outro prato. Isso indicaria a pureza de suas ações. Fosse bom, e o coração seria mais leve que a pena. Caso a balança de Ma’at pendesse para o lado do coração, estaria condenado à escuridão e aos tormentos perenes no submundo, que eram reservados aos adeptos do mal. Um lugar de incessantes castigos, repleto de entes maléficos gerados pelas perversidades mundanas, que despiriam o corpo do falecido e destroçariam suas entranhas como abutres, deixando-o ao sabor da decomposição.

Os maus teriam seus corações arrancados e suas almas ba ficariam perdidas, sem terem como voltar ao corpo original. Ficariam entregues à sede e à fome, e só teriam acesso às águas pútridas emanadas das fossas da impiedade. Ma’at não mais ouviria suas súplicas e, como Set, teriam que deixar a Barca. Seu tormento jamais cessaria. Já os bons, veriam suas esperanças de renascimento se materializarem como um raio de luz ao amanhecer, enquanto os sacerdotes responsáveis por ajudá-los em sua vitória sobre a morte cantariam hinos e comemorariam exultantes. Celebrariam a força de Ra e saudariam aqueles que transportaram o morto pelas águas do caos e o levaram incólume ao seu auspicioso destino final, bradando: Hu Sia! Hu Sia! Hu Sia!

 

Ecos de Hu e Sia

Não temos como afirmar que a lenda da Barca de Ra era exatamente assim. Algumas versões posteriores transformam Ra em Horus e, ao que parece, surge por isso um novo relato para a epopeia da Barca, embora com moral condizente com a anterior. Os egiptólogos nos dão conta de que em algumas dinastias acreditava-se na existência de duas barcas, uma noturna (Mesektet) e outra diurna (Mandjet), cujas tripulações variavam entre si, embora na versão diurna Hu e Sia sempre estivessem presentes, em geral apresentados como uma dupla inseparável. Tão inseparável, que nos tempos que se seguiram passaram a ser referidos por uma palavra só: husia e variações desses fonemas.

Acreditamos que o Huzzé do Rito Escocês Antigo e Aceito venha daí.

Até há algum tempo os estudiosos imaginavam que Sia e Hu pudessem ser personagens menores no panteão egípcio, mas as descobertas das últimas décadas mostraram que eram deuses importantes, e mesmo o Papiro de Ani, também conhecido como Livro dos Mortos, relata cerimônias realizadas em sua homenagem[6]. Sia personificava a percepção, o planejamento perspicaz. Hu representava a voz de comando, a fala que infunde respeito.

Indícios de sua influência podem ser encontrados na cultura árabe pré-islâmica, onde Uzza era uma deusa cultuada como uma das três filhas do deus supremo, protetoras da cidade de Meca. A tradição diz que era a estrela da manhã (Vênus), o que mostra que, de fato, está relacionada a Hu e Sia. Seu nome tem a mesma raiz de Izza, que significa glória. Os nabateus, povo ancestral semita, a consideravam a deusa da fertilidade. Uma notável surpresa para nós maçons é que, posteriormente, na época de Maomé, havia uma tribo numerosa, denominada Ghatafan, que reverenciava a acácia egípcia sob este nome[7].

Na mesma linha das semelhanças fonéticas, a tradição judaica menciona um certo Husai, Uzzah ou Uzziah, fiel conselheiro de Davi[8], e, mais tarde, o Sefer Zohar[9] refere-se a Uzza como um anjo que se opôs à criação do homem. Já na Grécia, Aristóteles utilizava a palavra Ousia para expressar as qualidades essenciais de algo.

É impossível garantir que todos esses nomes tenham Hu e Sia como origem, mas, certamente, alguns deles são repercussões da exaltação àquelas divindades nos vibrantes rituais egípcios.

As variações que julgamos potencialmente provenientes de Hu e Sia são aquelas que têm conotação de aprovação, regozijo ou júbilo – algo equivalente às interjeições salve ou viva em português – ou que, de alguma forma, mostram semelhanças com o papel que ambos representavam nos mitos.

 

O caminho para os nossos rituais

A primeira citação de huzza na lingua inglesa data de 1573. O Dicionário Oxford de Inglês diz que nos séculos XVII e XVIII huzza era um cumprimento ou saudação usada por marinheiros para homenagear quem embarcava ou desembarcava. Na realidade, uma interjeição exclamativa. Menciona-se também que a expressão era um grito repetido em uníssono, sincronizadamente, quando os marujos atuavam em conjunto para puxar os cabos das velas ou as amarras da embarcação[10].

Há relatos de que nos séculos XVIII e XIX três huzzas eram dados pelo exército britânico antes das cargas de infantaria, como meio de ganhar moral e de intimidar o inimigo. Há quem diga que eram dois huzzas curtos seguidos de um terceiro, mais longo, dado durante a carga final.

De todo modo, e embora não existam provas documentais sobre isso, é possível deduzir que, a partir do Egito, a reverência a Hu e Sia tenha se espalhado por todo o Oriente Médio, como ocorreu com várias divindades[11]. O Olho de Horus, por exemplo, era – e ainda é – presença frequente na proa das embarcações mediterrâneas. Da mesma maneira, é bem plausível que Hu e Sia tenham se tornado, por motivos óbvios, inspiradores ou padroeiros dos navegantes da região e que seus vestígios tenham sido repassados a outros povos.

Foi dessa forma, acreditamos, que o brado utilizado no R.E.A.A. deve ter chegado aos marinheiros ingleses e depois, pelo fato da Inglaterra ser um país onde as atividades navais ocupavam grande destaque, passado ao resto da sociedade não só como exclamação de alegria e aprovação, mas também como designativo de união e atitude solidária. Disso, talvez, advenha sua adoção pela maçonaria.

Mackey diz os que antigos manuscritos franceses do R.E.A.A. mencionavam a palavra Hoschea como aclamação, que ele supõe que seja uma corruptela do Huzza inglês. No mesmo livro, apresenta um poema que parece ser um ritual em versos, datado de 1750, que diz numa de suas estrofes, “A multidão com três huzzés conclui.”[12].

O mais antigo ritual impresso do R.E.A.A., do ano de 1804[13], publicado na França, já faz menção à tradicional manifestação.

 

Conclusão

São várias as lições que podem ser tiradas do simbolismo subjacente à mitologia que envolve Hu e Sia. A mais evidente é que, como Sia, temos que desenvolver nossa sensibilidade e nossa capacidade de percepção para, com isso, podermos, como Hu, comandar nossa vida com sabedoria e serenidade. Outra, é que a vida é um ciclo que alterna claridade e escuridão e que, se nos momentos mais críticos tivermos tranquilidade e acreditarmos firmemente na superação dos obstáculos, voltaremos a navegar em águas plácidas, rumo a um recomeço ou, se preferirmos, um novo amanhecer. Outra ainda, é que, por mais sucesso que tenhamos em alguma atividade, nossas vitórias são resultantes, direta ou indiretamente, da participação de várias pessoas. Não reconhecer isso é sucumbir ao feitiço da vaidade, uma inimiga capaz de nos deixar à margem do que seria nosso processo de crescimento.

Por fim, talvez devamos admitir a participação divina em nossa evolução, embora reconhecendo que esta é, paradoxalmente, individual e precisa ser conquistada por cada um de nós, pelos nossos próprios esforços, mormente considerando que há mesmo “muito mais coisas entre o céu e a terra…”.

Para tanto, precisaríamos aceitar, também – porque se aguçarmos a percepção, como Sia, sentiremos isso em nossas vidas – que essa evolução se processe pelo enfrentamento corajoso das provas interpostas em nossos percursos, todas elas cada vez mais sutis, exigindo decisões também sempre mais refinadas, que são aprimoradas e fortalecidas pelos valores e vibrações da corrente iniciática a que estivermos ligados no trajeto até a liberdade.

Essas provas, das menores às maiores, sempre nos apresentam a opção de dois caminhos, como uma polaridade divina necessária, metafísica, evidentemente preservando nosso livre arbítrio. Mas isso todos nós já sabemos razoavelmente bem. O que difere esta concepção das demais é a constatação de que uma sequência de caminhos adotados equivocadamente, os chamados caminhos de esquerda – das paixões e intransigências – ilusórios e mais fáceis, pode nos levar à perda irreparável de valores edificantes, arremessando-nos irremediavelmente, perdidos, para dentro do velho e dantesco labirinto, em cujo portal está a sentença: “lasciate ogne speranza, voi ch’entrate[14]”. Para evitar isso, é necessário fortalecer nosso Hu interior para que ele nos guie à senda da luz.

Essa dicotomia, entendida como instrumento de evolução, nos é transmitida pela sagrada iniciação e nos oferece um ciclo específico de experiências que precisamos viver e vencer para aprender como chegar ao reino dos céus conscientemente… entrar, enfim, num próximo ciclo por opção própria, jamais por intermediação de terceiros nas nossas relações com Deus.

Assim, a partir dessa divina dualidade, e segundo decisão pessoal inarredável, podemos construir nossas próprias pontes, saltando o abismo da morte definitiva, o labirinto onde poderemos ficar irremediavelmente presos, deixando no lugar de partida tudo o que já não se preste ao progresso ou que deva ser descartado para, quem sabe, aproveitamento em outro estado de evolução.

Entretanto, essa polaridade, inevitável, parece claro, nos oferece a salvação -gradativamente, em cada etapa do trabalho para a evolução da consciência – para nos tornarmos heróis de nós mesmos, verdadeiros Hércules, vencedores de todos os difíceis trabalhos que irremediavelmente se sucedem e precisam ser vencidos, como condição “sine qua non” para termos o direito de vivenciar o novo ciclo, como Hiram, que a cada nova volta do sol – ele próprio – percorre[15] as 12 colunas de vivências indispensáveis e conquista o direito de renascer para uma nova luz, sem que ela o cegue.

Será que é isso mesmo?! Ou isso é apenas o caminho de aproveitamento das energias que contemos, e que a verdadeira Maçonaria nos propõe, mas que, por não entendermos direito, desperdiçamos pela estrada da vida apaixonada, onde prevalecem as ilusões dos sentidos. “Chi lo sa?[16]

Em resumo, é possível aceitar a mortalidade da alma humana que não alcança os níveis mínimos de consciência para o novo ciclo, nesta vida ou em futuras. Mas, destaque-se, faz-se referência aqui à alma universal – “mahatma” – que registra, para aproveitamento futuro, as experiências de todos que conquistam o direito de entrar na barca da salvação.

Disso tudo, evidencia-se a necessidade de conhecer, pelo menos em linhas gerais, “a constituição oculta do homem”, antes estudada nos excelsos colégios iniciáticos, ora levemente citada e simbolizada no avental maçônico.

Mas, ainda assim, os mistérios do pós-vida permanecerão.

Coincidentemente, o mito da Barca de Ra faz lembrar também os relatos daqueles que passaram por experiências de quase-morte: o túnel, a escuridão inicial, a luz magnífica, tangível, envolvente. Depois, a paz indizível, o encontro com entes queridos, a doce alegria, a ternura do amor.

Alguns cientistas defendem que estas impressões são apenas decorrência da privação de oxigênio ou da liberação de endorfinas em casos de trauma. Quem sabe? Se for assim, todos nós, quando chegar a hora, usufruiremos de sensações similares.

Pelo sim, pelo não, já não tenho dúvidas sobre o que fazer e dizer quando chegar lá. Levantarei meus olhos e, com o coração tomado pela gratidão, exclamarei tão alto quanto possa: Huzzé! Huzzé! Huzzé! … e me deixarei levar pela divina luz!

 

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NOTAS:

[1]     A maioria das civilizações desenvolveu mitos solares, que são aqueles que, como o nome indica, usam figurativamente o ciclo do pôr e nascer do sol como uma metáfora para a existência. Eles contam histórias de deuses ou heróis, mostrando que foram capazes não só de vencer seus desafios em vida, mas também de triunfar sobre a morte. As lendas de Horus, Odin, Mithra, Prometeu,Thor, Osíris e muitas outras são consideradas mitos solares. Na maçonaria, a lenda de Hiram é, por excelência, um relato solar.

[2]     Imagine-se o terror e o desespero das pessoas quando ocorria um eclipse solar.

[3]     Pronuncia-se também sei, esia e esie.

[4]     Apófis, para os gregos.

[5]     Passagem do Livro para derrotar Apep, compilado por egiptólogos.

[6]     Na sua tentativa de convencer Ma’at, a deusa da justiça, de que é merecedor de outra vida, o morto diz: “eu realizei as cerimônias de Hu e Sia”, como prova de ter cumprido obrigações religiosas.

[7]     Albert Pike, no livro Moral e Dogma, faz menção a essa reverência. Diz ele: “A Acácia genuína, também, é a espinhosa tamareira, a mesma árvore que cresceu em torno do corpo de Osíris. Era uma planta sagrada para os árabes, que dela fizeram o ídolo Al-Uzza, que Maomé destruiu. É um arbusto abundante no Deserto de Thur, e dela foi feita a “coroa de espinhos” que foi colocada na fronte de Jesus de Nazaré. É um tipo de planta que era associada à imortalidade por causa de sua tenacidade em manter-se viva, pois era sabido que, quando colocada como batente de porta, criava raízes novamente e estirava ramos floridos sobre a soleira.”

[8]     Crôn 27:33 e outros. Em português, Husai se transformou em Osias. Pode ser que o nome derive de Hu Sia, mas não há qualquer indício que possibilite esta conclusão.

[9]     O Livro dos Esplendores, obra cabalística hebraica surgida na Espanha, por volta de 1.280 d.C..

[10]    O mesmo dicionário sugere a possibilidade de que huzza seja proveniente da mesma raiz que hoist = içar. Parece pouco provável, mas mesmo isso não descarta a hipótese de que Hu e Sia tenham dado origem às duas palavras.

[11]    Sabemos que as mitologias grega e romana, que são muito bem documentadas, incorporaram inúmeros deuses e deusas originalmente egípcios.

[12]    The mob with three huzzas conclude, no original. É preciso lembrar que, neste caso, a palavra huzza pode estar sendo usada como sinônimo de saudação ou exclamação.

[13]    O ritual de 1804, em linhas gerais, reproduz os procedimentos praticados pelos maçons da Grande Loja dos “antigos” de Londres.

[14]    Abandonem toda a esperança, vós que estais aqui!

[15]    Na visão geocêntrica, adotada pela Ordem.

[16]    Quem sabe? em italiano.

 

 

Bibliografia

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CASTEL, E., Gran Diccionario de Mitología Egipcia, Editorial Aldebarán, Madrid, Espanha, 2001

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The Oxford English Dictionary, Clarendon Press, Oxford, UK, 2013

 

Publicado on outubro 20, 2016 at 9:05 am  Comentários desativados em Huzzé e a Barca de Ra  
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