Esta religião com a qual todos os homens concordam

Tradução J. Filardo

 

por Ch. Albert REICHEN

Novamente e como preâmbulo, gostaria de lembrar que a maneira de proceder neste exercício consiste em resumir um artigo publicado na Revista Renaissance Traditionnelle. Ou seja, tentar respeitar o melhor possível pensamento do autor. Além disso, a ordem deste resumo respeita a da publicação do artigo.

Charles Albert Reichen, em primeiro lugar, nasceu em 18 de agosto de 1907 em Pontarlier; depois de estudos superiores em Lyon, Besançon e Paris, ele acaba por se mudar para Lausanne, onde ele era professor de filosofia. Editor e animador da Revista Juventude, ele escreveu muitos ensaios, biografias e estudos sobre música, filosofia e ciência, e publicou uma coleção de poemas “Rythmes inactuels” (1963). Seus principais trabalhos são: “História da Astronomia, História da física, História da Química, A arte da música e sua evoluçãoe O fim do mundo é amanhã“. Charles Albert Reichen morreu em 17 de junho de 1992.

Ele foi um tradutor de muitos livros em inglês e é nessa qualidade que intervém nesta edição 38 de Renaissance traditionnelle de Abril de 1979. Na verdade, ele propõe dissecar à maneira universitária as traduções de certos textos revendo alguns erros de tipo “falsos cognatos” e toma como exemplo:

O TEXTO DAS SACROSSANTAS CONSTITUIÇÕES DE ANDERSON [QUE] NÃO FOGE À REGRA

De fato, traduzido muitas vezes e, infelizmente, muitas vezes por tradutores noviços, muitas interpretações erradas têm sido muitas vezes escritas. Para colocar o texto em seu contexto histórico, Reichen se aproveita de passagem para datar a Maçonaria de antes de 1717. Ele cita como exemplo um Laird Auchinleck, aceito na Loja operativa em Edimburgo em 1600, ou ainda o não menos famoso Elias Ashmole iniciado em Warrington em 1646. Assim:

A MAÇONARIA ESPECULATIVA É ANTERIOR A 1717

Ela está ligada à história dos Stuarts, em sua evolução, sua regressão, e, claro, seu exílio na França, em Saint Germain en Laye mais especificamente, que viu o nascimento da Loja “La Bonne Foy” induzindo no continente a multiplicação de oficinas e sistemas de altos graus. O autor dá sempre a data de 08 de dezembro de 1663 como data tentativa de criação da primeira Grande Loja, justamente pelos Stuartistas, depois aquela de 1717 nós conhecemos e que constitui a fundação da primeira Grande Loja pela dinastia Hanover.

É claro que é o Pastor James Anderson que vai redigir as primeiras Constituições, pastor presbiteriano[1] endividado e foi remunerado por seu trabalho de redação. Este último se apoia em dois manuscritos: o Poema Regius- 1390 e o Manuscrito Cookes (sic) – 1410; esta obra é dedicada a Lord Montagu, Grão-Mestre da Grande Loja em 1721/1722, e diante de quem, eu cito: “o Irmão Desaguliers se achata com uma subserviência dolorosa“… Você vai entender que o tom do artigo é bastante ácido, e isso continuará com, embora limitado ao primeiro parágrafo das referidas Constituições, por “a falta de jeito do Pastor Anderson […] causa muitos mal-entendidos“. Então, vamos lá!

“Um Maçom é obrigado, por dever de ofício, a obedecer a Lei Moral; e se ele compreende corretamente a Arte, nunca será um estúpido ateu nem um libertino irreligioso.

Reichen destaca algumas expressões, e em primeiro lugar a expressão inglesa “tenure” traduzida aqui por dever de ofício. Então “Stupid atheist”, estúpido ateu e não ateu estúpido, diz o autor, basicamente, por estúpido: não se trata de um adjetivo, que como sabemos desde a 6a. série é invertido em relação ao português, mas um epíteto aqui fazendo corpo com a palavra. Parece que a imagem, o clichê é clássico do século XVIII, e se refere a um negador da Divindade, um blasfemador bêbado ou um membro dos Clubes do Inferno (Hellfire Club) tradicionalmente ateu e dedicado ao Maligno. Finalmente, a fórmula “Irreligious Libertines” corresponde a pensadores um pouco dândis e o autor cita entre outros Grimm e Helvécio[2], que tentavam explicar o homem e o universo por teorias práticas e mecânicas influenciadas pela necessidade e o acaso.

“Muito embora em tempos antigos os Maçons fossem obrigados em cada país a adotar a religião daquele país ou nação, qualquer que ela fosse, hoje pensa-se mais acertado somente obrigá-los a adotar aquela religião com a qual todos os homens concordam, guardando suas opiniões particulares para si próprio, isto é, serem homens bons e leais, ou homens de honra e honestidade, qualquer que seja a denominação ou convicção que os possam distinguir. “

As palavras importantes são então “denominaçõese “convicção“. Então, primeiro: denominações parece absurdo para o autor traduzi-la por denominação porque no século XVIII e em Inglês trata-se pura e simplesmente de uma seita ou seitas que parecem florescer na época de Anderson! Havia os conformistas que respeitavam os 39 artigos da Igreja Anglicana e os não-conformistas. São citados no artigo: os Presbiterianos, os Anabatistas, os Antinomianos, aos quais o autor acrescentaria bem, de nossos dias (nota: em 1979) os Mórmons, Pentecostais e Testemunhas de Jeová, todos dignos, em um grande impulso de tolerância da parte de Anderson, de fazer parte da Maçonaria.

Em seguida, persuasões, ou seja, as diferentes religiões. Para Anderson, parece que estes são os protestantes e católicos, eventualmente os Ortodoxos, se ele tivesse ouvido, o que não apareça provável, ou a título histórico: os Coptas, os Socinianos e os Sabeus, mas excluindo, certamente, os judeus e a fortiori os Muçulmanos, budistas e outros taoístas. Assim, pode-se dizer que esta religião na qual todos os homens concordam é bastante limitante … Anderson somente poderia, como era o caso para todos, naquela época, conceber a Maçonaria como cristã.

A INTERPRETAÇÃO DADA HOJE AO SEU PENSAMENTO O TERIA ESCANDALIZADO

Na verdade, devemos simplesmente considerar que a finalidade de Anderson é simplesmente esclarecer seus contemporâneos sobre alguns termos bastante vagos, de onde talvez um foco em 1738, para esclarecer melhor o pensamento às vezes desajeitadamente expresso do compilador.

Além dos erros de sentido em que podem dizer respeito à religião, Reichen em seguida, retoma os erros de tradução presentes em grande número, incluindo “Lord“, que classicamente significa Senhor e é muitas vezes traduzido como tal, mas que neste contexto corresponde ao “mestre de obras.”

Finalmente, um último exemplo, a respeito dos excluídos da maçonaria, trata-se segundo Anderson de “escravos, mulheres, homens imorais ou escandalosos” que encontramos frequentemente traduzidos como: escravos, homens e mulheres imorais e escandalosos. Primeiro, não havia mais escravos no momento da redação das Constituições, pelo menos na Inglaterra, e por outro lado, não é certo que suas damas apreciariam, mesmo naquela época, colocar-se em pé de igualdade com todas essas pessoas … Na verdade, isso simplesmente retrata um pouco a moral um pouco frouxa da época, perturbando um pouco os salões, e que não se queria ver corromper a maçonaria, como diz o autor, resultando “nas mesmas dificuldades daqueles cujas Oficinas mistas nos dão muitos exemplos“.

A última frase de sua conclusão que eu lhes dou exatamente como é: “Moral: deixe aos tradutores profissionais o trabalho e a responsabilidade de interpretar textos difíceis ou mal escritos. A cada um o seu ofício! Pelo menos é o que diz o ditado! “

Publicado em Renaissance traditionnelle N ° 38 – abril 1979 p 100 – Volume X

Escrito por D.S.

 

[1] O regime sinodal Presbiteriano (ou presbítero-Sinodal) é uma das formas de organização das igrejas protestantes, e é a mais utilizada nas igrejas reformadas. Este sistema supõe uma complementares dos níveis local e nacional, uma submissão mútua consentida. O nível local de governo da igreja é o dos Anciãos do consistório, dito também Conselho Presbiteral (do grego presbuteroi, os mais velhos, já designando os responsáveis pela cidade ou pela comunidade). Ele é diretamente responsável pela vida espiritual e material da comunidade, e, geralmente, nomeia e demite o(s) pastor (es). Ele participa dos custos comuns definidos pelos sínodos. O nível do governo da união é o de sínodos, compostos por pastores e delegados de Conselhos presbiteriais.

[2] 1715-1771. constitutivo do espírito humano, que é, segundo ele, totalmente suscetível de se instruir igualmente. Ele é fortemente inspirado por Locke, de quem ele lê muito cedo o Ensaio sobre o Entendimento Humano. Suas ideias sobre a constituição do espírito humano serão significativamente influenciadas por ele. Ele, contudo, quer exceder toda ideia de Deus, defendendo um ateísmo relativo. Ele considera a crença em Deus e na alma como o resultado da nossa incapacidade de compreender o funcionamento da natureza, e vê nas religiões, incluindo a religião católica, um despotismo que só tem como finalidade a manutenção da ignorância para uma melhor exploração dos homens. Frequentemente apresentado como um fisiocrata e filósofo materialista, Helvécio está no entanto mais próximo de um filósofo nominalista e deísta. Encontramos em seus textos várias referências a Deus e à sua existência “o ser supremo“, “o eterno“, “o legislador celestial” são expressões que voltam várias vezes em sua obra De l’Homme; ali ele até mesmo define Deus como sendo “a causa desconhecida da ordem e do movimento“. A razão deste amálgama é em parte devida à recuperação política dos seus textos, tanto para desacreditar seu trabalho (jesuítas, jansenistas, o Papa Clemente XIII ou ainda o poder real de Louis XV) ou para fazer dele um pensador fundamental do socialismo científico (marxistas). Assim, se Helvécio é anti-cristão, ele não nega a existência de uma força na natureza e defende até mesmo a ideia de uma filosofia mais positiva nesta religião, uma vez purgada de seu fanatismo, superstição e instituições. Ele também era maçom e membro da Loja Nove Irmãs. (O materialismo é um sistema filosófico que não admite nenhuma outra substância que não seja a matéria. Ele se opõe à religião e ao conceito de alma imaterial. Segundo o sensualismo, todo o nosso conhecimento e ideias surgem de sensações , onde elas são apenas a combinação cada vez mais complexa. O sensualismo opõe-se à atividade espontânea do espírito).Entre os enciclopedistas e materialistas de seu século, Helvécio desenvolve um sensualismo materialista, onde somente o interesse dirige os julgamentos e considera a educação como o principal elemento

Publicado on julho 13, 2017 at 9:17 am  Comentários desativados em Esta religião com a qual todos os homens concordam  
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