ENTREVISTA:  Marie-Thérèse Besson, Gran Mestra da Grande Loja Feminina da França

Tradução José Filardo

 

 –  por  Hélène Cuny

Marie-Thérèse Besson, Gran-Mestra

Marie-Thérèse Besson, Gran-Mestra

Foto NGH Presse

Em 2016, as irmãs da Grande Lodge Feminina da França celebram 70 anos de sua potência fundada em 1945.  Para a ocasião, uma série de eventos foram organizados durante todo o ano, em toda a França.  Marie-Thérèse Besson, eleita Gran-Mestra  em junho destaca a forte identidade de uma potência que não perdeu seu caráter militante, inteiramente resumido no slogan “mulheres livres, arquitetas do futuro”. Um canteiro de obras, segundo ela, que nunca é concluído.

Hélène Cuny:  Como você definiria, hoje, a Grande Loja Feminina da França?
Marie-Thérèse Besson:
 A potência é estruturada em torno de mulheres que vêem a si mesmas como construtoras. Deve-se ressaltar que nos anos 40, em termos de direito e liberdade das mulheres, tudo estava por ser construído. Hoje, detentoras desse patrimônio, estamos colhendo os frutos, com a presença em nossas colunas de mulheres que ao mesmo tempo investem em uma jornada pessoal, tendo, para a maioria delas um compromisso social. Isso se manifesta na manutenção e na implantação do secularismo, no respeito pela democracia, mas também na defesa dos direitos das mulheres e sua emancipação. Não nos esqueçamos de fato que em nível internacional há muito por fazer e estamos aqui para fornecer ajuda e apoio às mulheres que precisam dele. Eu faço a observação de que através de nossas ações, nós nos tornamos um grupo de mulheres conhecidas, reconhecidas como uma corrente de pensamento, que é regularmente convidada em nível institucional para enriquecer o debate de ideias.

HC:  Pode-se dizer então, que desde a sua criação, além do aspecto iniciático,  a GLFF conserva  uma identidade militante.  Quais são os grandes combates atuais para a potência?
MTB:
Identidade militante sim, mas não estamos mais nos anos 70, nos tempos fortes  do feminismo, quando as mulheres ganharam direitos, especialmente no domínio da saúde (planejamento familiar, aborto). Eu diria que nada é garantido e que devemos sempre permanecer vigilantes. A igualdade de direitos é um dos principais temas sobre os quais trabalhamos, porque nos textos, se o Estado a favorece,  sua colocação na prática continua a ser menos evidente. Nós também nos mobilizamos sobre todos os temas atuais com os quais nossa República é confrontada, é verdade, com predominância de questões que afetam as mulheres. A prostituição é uma delas, e nós recentemente nos posicionamos pela penalização do cliente.

HC:  A potência reagiu sobre o destino dos migrantes* em campos de Calais e Grande-Synthe.   Você realizam ações em favor deles?
MTB:
 Decidimos em nossa última assembleia geral, em janeiro, ajudar a Associação Ginecologia Sem Fronteiras, que com poucos recursos presta assistência a mulheres em perigo.  Esta decisão foi tomada após a minha visita ao campo de Grande-Synthe (Norte), onde se concentraram milhares de pessoas em pobreza total. As mulheres encontram-se ali em uma situação muito vulnerável. Algumas estão grávidas, outras sofrem abusos ou são forçadas à prostituição, com o risco de desenvolvimento de doenças sexualmente transmissíveis. Estamos diante de um enorme risco sanitário. A Ginecologia Sem Fronteiras tenta apoiar estas mulheres e realiza um trabalho de campo notável. Para apoiá-los, fizemos uma chamada em nossa potências, junto às mulheres profissionalmente envolvidas neste domínio (parteiras, médicas, etc.). Também foi feito um pedido de materiais de que a associação pode precisar, e, finalmente, um apelo por doações. Além disso, nós também pretendemos agir de forma que as diferentes estruturas envolvidas possam unir forças e trabalhar juntas. Nós, as potências, deveríamos utilizar nossos recursos para facilitar a organização dessa ajuda. No local, falta tudo. Não é normal que não existam construções sólidas. Deveria haver chuveiros, sanitários para garantir um mínimo para esses homens e mulheres abandonaos à sua sorte. É lamentável que outros interesses notadamente políticos  impeçam qualquer progresso no terreno.

HC:   A questão  dos migrantes afeta toda a Europa.  Como a GLFF se faz ouvir em nível europeu?
MTB:
 Desde 2009, dispomos de uma estrutura, o Instituto Maçônico Europeu (IME), que visa nos representar junto às instituições europeias através de uma delegada permanente. Especificamente, o Parlamento Europeu acaba de apresentar um projeto de relatório sobre a situação dos refugiados que procuram asilo na União Europeia. Graças ao IME, vamos intervir no processo através da participação em grupos de trabalho. Em paralelo, nossa potências também é um membro do CLIMAF, o Comité de Ligação da Maçonaria Feminina que agrupa as potências femininas europeias belgas, alemãs, suíças, espanholas, portuguesas e turcas. Nós nos reunimos regularmente. Em dezembro, tomamos a iniciativa de elaborar um comunicado de imprensa sobre a situação das mulheres migrantes.

HC:  A GLFF se espalhou ao redor do mundo.  Quais são as expectativas de mulheres que ingressam na potência?
MTB:
 Minha intenção é estar perto das irmãs, onde quer que estejam.  Eu viajo por ocasião de incorporações de lojas, mas também aos lugares que não receberam a visita da Gran Mestra  há muito tempo, como o Tahiti, a Ilha Maurice, Nova Caledônia e Reunião. Eu tenho em projeto vistar  os países africanos, onde nossas irmãs estão presentes: Camarões, Congo, Togo, Gabão, Senegal e Benin.  É dessa forma também que se desenvolve um sentimento de pertença. Eu aproveito essas visitas para me reunir com as instituições e a mídia local, um meio de dar a  conhecer nossa potência e posicionar nossas lojas nesses territórios, como vetores de ideias. Isso também permite tomar conhecimento de seus problemas in loco, diferente dos nossos. Na África, por exemplo, temos um verdadeiro trabalho em nível de emancipação das mulheres. Sabemos muito bem que quando a democracia avança,  os direitos das mulheres também avança. Estamos aqui para ajudá-las a se construir e, a partir daí, eles ousarão se posicionar na sociedade. Em loja, elas aprendem a discutir, falar, é um lugar de “disputa”.

HC:  O que vocês organizaram para o aniversário de 70 anos da potência?
MTB:
 Nós solicitamos que as iniciativas partissem das lojas. Mais de cinquenta eventos estarão, portanto, previstos durante todo o ano: palestras públicas, sessões brancas, espectáculos e exposições. As irmãs são muito criativas. Em nível nacional, em 12 de março, organizou-se uma conferência sob a égide da nossa comissão dos direitos das mulheres: direitos das mulheres e conteúdos teológicos, um confronto inevitável. Um tema que não tem nada de anódino e que levanta a questão do lugar deixado para as mulheres nas diferentes religiões. Ao ouvir as mulheres, pastores, rabinos ou representantes da Igreja Católica, percebemos que as posições das mulheres permanecem “por baixo”. Mas não digo mais … O melhor é vir a assistir à conferência.

Dois ícones marcaram o início da GLFF:  Anne-Marie Pédenau-Gentily e Gisèle Faivre
Foi necessário a tenacidade combinada com um sólido senso de interesse comum para que nascesse o projeto de uma potência independente, após o fim da II Guerra Mundial. Em 1935, no entanto, os irmãos da Grande Loja de França, que criaram lodges de adoção desde 1906, colocaram claramente a questão da autonomia das irmãs, durante sua Assembléia Geral. Estas últimos não estavam, então, prontas para alçar vôo. Não foi senão em 1945, ano em que as mulheres francesas ganharam o direito de votar, para que a ideia fosse, dessa vez amadurecida e defendida. Duas mulheres entram em cena. Anne-Marie Pédenau-Gentily foi iniciada em 1925 na loja de adoção Nova Jerusalém da Grande Loja de França. É ela que vriai a se tornar a Primeiro Gran Mestra da União Maçônica Feminina de França que viu a luz em 21 de outubro de 1945. Tudo estava por construir ou reconstruir, a guerra tendo trazido sua parcela de desolação. Carismática, Anne-Marie Pédenau-Gentily, então, fará todos os esforços para construir uma potência  “grande, forte e bela”. Gisèle Faivre, iniciada na loja de adoção Minerva lodge em 1934 será a Gran Mestra da potência, de   1948 até outubro de 1950. Em 1952, ele fará votar a mudança de nome da potência que se tornaria  Grande Loja Feminina de França. Visonária, seu compromisso será inabalável. Descrita como “uma lutadora que vai à frente, uma irmã calorosa, fraterna, pura e desinteressada”, ela saberá insuflar durante mais de cinquenta anos um dinamismo e estado de espírito no seio da potência que afetará todos os seus membros que ela desejava criar mulheres cavalheiras. Fontes: Pionnières II – Bâtisseuses d’avenir (2015), coleção Voix d’initiées, Edições Conform

Alguns eventos públicos organizados para o aniversário de 70 anos da potência
– 27 de Fevereiro em Beaune (Côte d’Or) e 8 de Março em Montmorency (Val d’Oise), Marie-Thérèse Besson falará sobre o tema “a abordagem maçônica,  uma resposta aos nossos questionamentos”
– 12 de Março, em Paris, conferência sobre “Direitos da Mulher e conteúdos teológicos, um confronto inevitável
– 17 de março em Lens (Pas-de-Calais), conferência sobre “feminismo, uma nome feio? ” e ” as mulheres e o futuro da humanidade “.
Para mais informações sobre as conferências, vá diretamente ao site da GLFF:  www.glff.org

Publicado em 24 de fevereiro de 2016 em REVISTA FRANC-MAÇONNERIE

 

 

Publicado on maio 31, 2016 at 3:24 pm  Deixe um comentário  

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