Desenhar o painel da loja?

Tradução José Filardo

 

Por Roger Dachez

Entende-se por “painel da loja” ou “tapete da loja,” o traçado simbólico que, na maioria dos Ritos, é colocado no centro da loja e muda sua composição de acordo com o grau em que a loja está trabalhando.  Isso se diz em inglês “tracing board“.  Essa última expressão também pode ser traduzida como “prancha traçada”, mas também e, sobretudo “prancha de traçar” – o que, no contexto maçônico francês refere-se a algo muito diferente  [1]  e permite mais uma vez destacar as armadilhas da tradução do inglês maçônico para o Francês maçônico…

Painel da Loja de Aprendiz-Companheiro -(1744)

Painel da Loja de Aprendiz-Companheiro -(1744)

 

 

Assim é que a origem dos tracing boards é complexa.   Não há nenhuma evidência, é claro, de que durante o período operativo houve alguma coisa parecida nas oficinas de trabalho que eram as lojas de canteiro de obra.  Em muitos casos, como em York onde o traçado permanece, a loja se situava adjacente à câmara do traçado ( tracing house ) no chão da qual se traçavam as plantas e os gabaritos.  A memória deste uso também pode explicar por que os tapetes de loja são colocados, com frequência sobre um tipo de xadrez de casas brancas e pretas, o “pavimento de mosaico” ( mosaic pavement ) denominação, ela mesma, enigmática e que cujo significado tem dado origem às mais diversas interpretações.   Da mesma forma, na Escócia, de onde nos vêm os mais antigos rituais maçônicos conhecidos até hoje (1696-1715), não parece ter existido um painel no centro da loja.   Este último não aparece e nos é iconograficamente conhecido apenas no final da década de 1730 e no início da década de 1740, na França assim como na Inglaterra.   A partir desta data, a documentação é bastante abundante e segura.

Deve notar sobre isso que os Antigos, a Grande Loja rival daquela de 1717 – conhecida como os Modernos – ignorava o uso do Painel.  O centro da loja correspondia nas lojas dos Antigos, a uma disposição específica, mas o painel não aparecia ali, enquanto que nos Modernos ele tornou-se um elemento essencial no centro da loja.   Daí o compromisso curioso da União de 1813: manteve-se o painel dos Modernos, mas não no centro da loja.   Ele era colocado de pé contra o triângulo do Segundo Vigilante.

Plano da Loja dos Antigos (1760)

Plano da Loja dos Antigos (1760)

Originalmente, temos numerosos testemunhos de que as lojas se reuniam em locais temporários, mais frequentemente em albergues, onde era traçado o painel sobre o solo, seja com carvão ou giz, que este era apagado ao final da sessão.   Mas desde o início da década de 1740, por conveniência, mas também para assegurar a realização de uma composição gráfica e simbólica sempre exata, tornou-se o costume de os realizar sobre suportes de madeira ou lona que se colocava sobre o solo durante a sessão.   Bem cedo no século XVIII, este costume se impôs universalmente e nunca mais foi revogado.

Nas últimas décadas, o uso apareceu na França em alguns círculos maçônicos – e em algumas lojas tornou-se mesmo um costume estabelecido – consistente em traçar o painel antes de cada sessão, da antiga forma, e considerando que este traçado simbólico “extemporâneo” é o único que pode realmente permitir abrir a loja.   Muito claramente, esta é uma manifestação simpática, mas bastante dogmática de uma forma de extremismo maçônico.

O que interessa é a composição do traçado que aparece sobre o painel.   É irrelevante que esse traçado seja renovado a cada vez, ou que ele figure, preparado antecipadamente e, assim perfeitamente realizado, sobre um suporte permanente.   Dizer que o traçado manual da loja é um ato quase sagrado que cria o ambiente da loja , como se ouve dizer com frequência, tem sua origem em uma visão quase mágica da abertura dos trabalhos, sobre um fundo de “guénonismo” de pretensão operativa – inclusive por meio de uma referência de fato irrelevante à prática “Compagnonica” da “arte do traço”.  Isso não provoca danos a ninguém, é claro, mas não deve ser considerado um procedimento mais autêntico nem mais “tradicional” que aquele consistente em se recorrer a painéis prontos.

trestle board

Por outro lado, o estudo dos paineis, seus comentários e sua interpretação livre, mas baseada em referências consistentes são tarefas essenciais para a compreensão do corpo simbólico da Maçonaria e das lições que ela contém.  Ao invés de gastar o tempo desenhando com mão desajeitada os paineis, muitas vezes incompletos ou arbitrários, é melhor gastar o esforço em uma prática muito antiga e lamentavelmente negligenciada, mas reintegrada em várias lojas da Grande Loja Nacional Francesa, principalmente no Rito Francês tradicional: a sessão em torno do “cavalete” (trestle board) de que temos muitos testemunhos iconográficos do século XVIII.  Os Irmãos, reunidos no centro da loja, estão em torno de uma mesa posta sobre um estrado e sobre o qual repousa o próprio painel – em vez de tê-lo colocado no chão como de costume.   Os Oficiais são colocados ao redor deste painel e os trabalhos decorrem sob a orientação do Venerável Mestre.   Podemos, então, analisar e comentar os diferentes elementos do painel que estão à frente dos Irmãos e alternar este trabalho com a citação e o comentário das Instruções que se relacionam a ele nos diferentes graus.

Entendemos, assim, por que no século XVIII, para designar o painel, se dizia simplesmente “a loja”. .

 


 

 [1]  Isto significa, em particular, o registro escrito dos trabalhos que o Secretário deve fazer aprovar na sessão seguinte. Quanto à “prancha de traçar”, ela qualifica aquilo sobre o qual o Mestre Maçom deve trabalhar.

 

Publicado originalmente no Blog do Irmão Roger Dachez

Publicado on agosto 10, 2014 at 5:50 pm  Deixe um comentário  

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