Como a Maçonaria Uniu a Itália

Tradução José Filardo

13.12.2012

Por Mirella Ionta

Com estruturas que acomodavam atividades maçônicas ainda de pé atualmente nas principais cidades do mundo ocidental, somos muitas vezes lembrados da existência de uma sociedade secreta que se acredita ter controlado os eventos políticos e financeiros da história moderna. Um famoso discurso feito pelo Presidente John F. Kennedy em 1961, sublinhando o perigoso poder de tal fraternidade tão ativa “em uma sociedade livre e aberta,” confirma a natureza maligna de uma “máquina eficiente” que está equipada com empresas militares, diplomáticas, científicas, econômicas e políticas e é apoiada por intelectuais de elite não eleitos, e banqueiros financeiros privados. Em um tempo em que o Federal Reserve, o cartel de bancos centrais possuído por banqueiros ricos como os Rothschilds e Rockefellers, realizou uma firme parceria com o governo americano, ao qual emprestou grandes somas de dinheiro com juros, a preocupação de Kennedy evocava uma preocupação mais antiga expressada pela autoridade papal durante o período do Risorgimento, na Itália. Como o anterior fora deixado com o pesado encargo de informar publicamente o seu povo da sua eterna dívida com uma empresa ilegítima, o Papa Pio IX, cuja ordem “divina” foi ameaçada e eventualmente tornou-se marginalizada pelo movimento maçônico na Itália revolucionária, reagiu com a mesma urgência Kennediana à “propaganda” anticlerical que se espalhava como fogo em uma floresta em sua época.

Não é uma tese que seja fácil de desenvolver a de que a atividade maçônica era necessária para minar o poder do estado papal que se acreditava dificultar o processo de Unificação na Itália. A documentação insuficiente que existe à nossa disposição limita nosso entendimento de tais encontros maçônicos ocultos, marcando um grande desserviço à busca da verdade. A partir do que está disponível ao escrutínio público, ninguém pode confirmar com certeza que o “underground” italiano estava baseado exclusivamente em um genuíno desejo patriótico de unir a Itália. Declarações de misteriosas inclinações  dos maçons em direção ao satanismo e ocultismo tornar suspeitas as atividades dessa sociedade. Além disso, o envolvimento do poeta nacional oficial da Itália unida, Giosue Carducci em uma aliança maçônica estabelecida, ajudou a forjar uma nova tradição literária, manchada por convicções radicais. Fornecendo uma retórica literária e cultural para a sociedade secreta, o poema “Ode a Satanás” é um perfeito reflexo das visões da “Nova ordem mundial”, que eram interpretadas como sendo graves ameaças à Ordem do Velho Mundo. A reação do Papa à Maçonaria, cuja doutrina da espiritualidade da nova ordem mundial pode ter inspirado a sensibilidade poética de Carducci revela a grave implicação que se considerava ter a operação clandestina tido em uma mudança da sociedade italiana.

Hoje, com o benefício da retrospectiva, afirmar que uma sociedade secreta composta por um pequeno grupo unido de poderosa aristocracia foi responsável por guerras mundiais, divisões políticas, esquemas de Ponzi em nível global, crises econômicas e o 11 de Setembro, não seria considerada altamente especulativa ou improvável. Mesmo no risorgimento italiano, o Papa Pio IX, em um esforço para preservar seu poder absoluto, percebeu os efeitos nocivos que de tal sociedade teria sobre a supremacia e a duração do seu reinado. Lilith Mahmud, uma pesquisadora publicada pela Universidade da Califórnia, admite que a prática de discrição foi o que tornou e o que ainda torna a sociedade prejudicial para processos mais transparentes e legítimos. Ela cita Giacomo Casanova de Seingalt ao descrever a natureza da fraternidade: “Aqueles que pensam que o segredo da Maçonaria consiste em sinais ou palavras estão redondamente enganados. O segredo é realmente uma experiência vivida, e, portanto, é apenas um segredo na medida em que ele é incomunicável em palavras humanas.”

Modelada segundo religiões que designavam certos rituais, símbolos, templos e estátuas como sagrados e transcendentais, a sociedade exclusiva dependia fortemente e ainda depende desses elementos para legitimar sua visão de mundo coletiva e suas aspirações. Eles também desenvolveram uma capacidade de identificar outras membros fora dos limites dos seus templos “sagrados”. Símbolos distintos como o compasso em um esquadro e pingentes com o formato de um pelicano ou uma estrela foram designados para representar a organização. Gestos calculados, apertos de mão, acenos e estilos de vestimenta foram todos estabelecidos para servir como características que permitiriam aos Membros reconhecerem-se em ambientes comuns. Nascida em Londres no século XVIII, a Maçonaria foi inspirada na ideia iluminista de “racionalidade”. Com a razão humana, os maçons acreditavam no seu poder de afetar e alterar os eventos políticos e históricos dos tempos. Na Itália, a construção de lojas maçônicas no século XIX coincidiu com outras associações nacionalistas conspiratórias como o Carbonária que eram a favor do desenvolvimento de um nacionalismo italiano, da criação de uma monarquia constitucional e erradicação do absolutismo.

Isso leva uma pessoa à pergunta de um milhão de dólares: A existência de sociedades secretas foi necessária para construir a nação-estado da Itália? Descobrir que uma sociedade subterrânea – que se desvia as normas do Estado e desafia as decisões tomadas pelo atual comando governamental que não leva em conta a população – lança um esforço concertado para opor-se a uma situação injusta pode oferecer algum alívio aos oprimidos. Entretanto, incitar dessa forma coercitiva a mudança na sociedade ou desenvolver uma identidade cultural pode não ser a solução certa para dilemas sociais e políticos existentes ou futuros.

Seria uma simplificação exagerada e ingênua supor que a sociedade secreta, sob um mandato emitido para si mesma poderia, sozinha, proteger a população contra soberanos ambiciosos tanto do Estado quanto da Igreja. Perguntas sobre como eles eram financiados e se sua visão estava em consonância com o que a maioria da população que não era membro continuam a surgir quando se discute a “possível” legitimidade do grupo. Os cidadãos não serão provavelmente patrióticos em relação a um Estado-nação que se baseia em ideais e valores não compartilhadas entre eles e aprovados pela maioria dos seus cidadãos. Uma vez que a maioria das pessoas está fora do círculo exclusivo de segredo, seria difícil para eles identificar e compreender as práticas maçônicas, mesmo que fossem basear-se em uma agenda patriótica. Pelo simples princípio de exclusão, uma população é deixada no escuro sobre o destino do território compartilhado. Além da realidade do sigilo, o que preocupava mais o Vaticano era que o Satanismo era aberta e orgulhosamente praticado como uma forma de espiritualidade por maçons.

Considerando que os habitantes da Itália acreditaram em um Deus Cristão por muitos séculos antes do período do Risorgimento, eles achariam difícil digerir que um período crucial da sua história cultural, que tinha sido em grande parte moldada por princípios cristãos, foi montado sob um feitiço demoníaco lançado por maçons. De acordo com o livro de Enrico Nassi sobre a Maçonaria, os maçons acreditavam em ideologias e “retórica que mantinha o povo dividido” (24). Do ponto de vista do Papa, o Satanismo não era uma premissa legítima sobre a qual deveria se basear qualquer sociedade que quisesse penetrar os sistemas políticos, econômicos e sociais. Entretanto, para importantes intelectuais como Cavour, que foi um dos principais líderes do movimento do Risorgimento, o apoio estratégico de um lobby secreto não só era considerado crucial para o sucesso do projeto dos nacionalistas, mas procurou-se que fosse eficiente e bem sucedido.

Militarmente, enquanto Giuseppe Garibaldi e seu exército de mil homens estabeleciam um governo revolucionário no centro e sul da Itália no início do início da década de 1860 e proclamavam Vitorio Emmanuele rei de uma nação unida, Carducci estava escrevendo seu poema anti-clerical blásfemo. Enquanto Garibaldi falhava durante muitas vezes em libertar Roma das garras do absolutismo papal, que estava impedindo estas regiões de participar na unificação, o poema de Carducci foi publicado, primeiro em 1865 e, depois, em 1869. Enquanto a cidade eterna só era libertada quando a guarnição francesa retirou suas defesas dela para investir na guerra da França contra a Prússia em 1870, dando aos italianos a chance de reconquistar sua cidade, Carducci estava escrevendo seus primeiros trabalhos durante um tempo quando o sentimento republicano e anti-clerical era alto. Fornecendo uma retórica cultural para apoiar e alimentar uma agenda política, Carducci primeiro leu o poema como um brinde em um jantar maçônico. Um recurso admite que mesmo o mais liberal dos republicanos sentados entre seus companheiros maçons sentiram-se desconfortáveis com a forma radical de Carducci se opor ao Papa. É importante ter em mente que Satanás foi escolhido pelo poeta para simbolizar o progresso moderno devido ao seu status intimidativo, maldito e poderoso.

Como o clero experimenta grande desconforto com qualquer menção de Satanás, tentando ao longo de suas santas vidas afastar seus maus caminhos com óleos de exorcista, a poeta convida o diabo a desafiar a mentalidade antiquada dos retrógrados. Satanás é um herói para Itália moderna porque ele não é facilmente influenciado ou fácil de controlar. Ele se rebelou contra a palavra de Deus como Lúcifer e construiu seu próprio domínio sobre o qual ele governa como rei. No entanto, além de seu papel bíblico, Carducci dá a Belzebu um papel de liderança na história italiana, pois ele vem para representar a sensualidade, a beleza, a liberdade, o prazer, a alegria, a inovação intelectual e o progresso tecnológico. Além disso, ele simboliza as qualidades de coragem e ferocidade que Itália ganharia ao avançar para o futuro. Ele não deveria regredir com antigas tradições e absolutismo papal, mas deveria se libertar das amarras do pensamento limitado. O símbolo representa a liberdade de pensamento e de maneira radical do poeta de impô-la a uma população reprimida.

Uma vez que a Igreja era culpada de exportar a propaganda e a violência para as Américas e de oprimir seus seguidores ao longo de muitos séculos, qualquer credibilidade ainda lhe restasse, tinha finalmente sido derrotada pela razão humana. Encarnando a Razão, Belzebu lidera a nação moderna que anteriormente era flagelada pelo sentimentalismo e irracionalidade da Igreja. Há uma certa vulgaridade sobre Satanás que serve como valor de choque, também. Claramente, com a intenção de instigar a Igreja a reagir ao seu poema, o poeta refere-se a muitos intelectuais na esfera religiosa, que eram considerados hereges e que foram executados pela Igreja por seguir um padrão racional de pensamento. Entre estes rebeldes, Martinho Lutero é listado, uma figura histórica, cujas dúvidas sobre a autenticidade da Igreja Católica o levaram a fundar o que é conhecido hoje como a religião protestante. O poema termina com a imagem do motor de vapor, uma invenção do demônio, prometendo prosperidade à Itália, derrotando o atraso da Igreja, levando a nação unida ao mundo moderno e deixando para trás um rastro de vapor para anuviar seu passado cristão, para que ele caísse no esquecimento. Satã, o rebelde ativo com sua própria agenda pessoal foi utilizado como uma ferramenta para provocar as mentes conservadoras a pensar sobre o futuro da Itália em um mundo moderno.

Poderia o legado de Carducci ter existido se ele não fosse afiliado à Maçonaria? O próprio Carducci considerava sua aliança com a Maçonaria necessária para provar seu amor por sua terra natal, para empurrar a agenda nacionalista e minar o poder do clero. Ele não era discreto em sua crença de que o estabelecimento cristão servia de obstáculo à consolidação das regiões italianas divididas. Se a pergunta “Era necessário que a sociedade maçônica existisse para unir a Itália?” lhe fosse feita, Carducci provavelmente teria respondido “sim”. Carducci foi iniciado na Loja Galvani de Bolonha e também se tornou membro da Propaganda Uno, outra loja maçônica em Roma em 1886. No entanto, o livro de Angelo Martelli revela que em muitas cartas Carducci revela sua fé na existência de Deus, e que essa associação maçônica não exigia uma renúncia obrigatória à religião de nascimento.

Ao contrário de outros registros sobre admissões à sociedade maçônica, Martelli expressa que o maçom estava livre para praticar a religião que quisesse. Devido à sua natureza escandalosa, o livro teoriza que o símbolo ousado de Satã de Carducci para representar o progresso ofusca quaisquer crenças religiosas tradicionais que ele possa ter tido, especialmente ao final de sua vida. O Papa Pio IX, certamente sentiu que a supremacia de Cristo tinha sido atacada por projetos maçônicos. Em uma encíclica datada de 1867, o Papa expressou suas preocupações com o crescente sentimento anti-cristão, incitando seus irmãos companheiros “a afligir-se com as más abominações que agora poluem a infeliz Itália.”

Isso permanece como prova de que a associação maçônica era uma força poderosa na sociedade italiana. Ele abordou os poderes malignos que destruiam a providência da Igreja: “Pelos esforços de muitos, especialmente aqueles que detêm o poder na Itália, os veneráveis comandos de Deus e as leis sagradas da Igreja são completamente desprezados.” Ele se refere àqueles no poder como “os rebeldes de Deus”, os homens que laboram em impiedade e lutam sob o padrão de Satanás. “Corrompendo a palavra de Deus, eles são comparados a “lobos vorazes ofegante após suas presas, eles derramam sangue e destroem almas com seu grave escândalo”. O Papa considerava a situação como uma ameaça à centralização da Igreja: “Eles planejam elevar o padrão de mentiras nesta nossa cidade amada, diante da própria cátedra de Pedro, o centro da verdade e unidade católica.” Um sucessor do Papa Pio IX, o Papa Leão XIII também abordou e condenou a Maçonaria em toda a sua administração. Ele se opôs a credos e práticas que estavam alegadamente relacionados à Maçonaria, tais como o naturalismo e extremo secularismo (um estado que não reconhece ou não é modelado segundo a palavra de Deus).

Assim como o Vaticano pode ter sido um obstáculo à unificação política da Itália de acordo com os maçons, crenças e práticas radicais da sociedade secreta também podem ser vistos como um obstáculo impedindo a unificação espiritual e o crescimento de uma população cristã. Se é verdade que o poeta não conseguiu, mesmo ao fim de sua vida, transcender qualquer ressentimento que sentia em relação à instituição Católica ou à situação política do seu tempo, a fim de finalmente aceitar o amor infinito de Deus, então seus esforços intelectuais para unir a Itália foram baseado no poder e provocação, ao invés de em amor sincero pelo povo de sua nação. Qualquer campanha para a unidade política lançada por um poeta, sociedade secreta ou um político eleito não deve ser derivada do caos espiritual interno. Uma vez que as atividades maçônicas se baseavam em motivações políticas e sentimentos tóxicos, a Nova Ordem Mundial controlada por sociedades secretas e governos seculares corruptos não serviria como um bom substituto para o absolutismo Papal, que se tinha provado ser igualmente negativo.

Mirella Ionta

Publicado originalmente em: http://english.pravda.ru/opinion/columnists/13-12-2012/123153-freemasons_italy-0/

Publicado on janeiro 4, 2013 at 1:28 pm  Comments (4)  

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4 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Uma curiosidade:

    Albino Luciani, também conhecido por ter sido o Papa João Paulo I, elogiou, durante o Angelus do dia 17 de Setembro de 1978, o maçom, poeta e senador Giosuè Carducci, autor de uma Ode ou Hino a Satã. A história nos oferece, vez outra, estas combinações tão pouco ortodoxas. Um Papa a falar de um poeta havido como satanista.

    A SATANA

    Ei passa, o popoli, Satana il grande

    A te, de l’essere
    Principio immenso,
    Materia e spirito,
    Ragione e senso;

    Mentre ne’ calici
    Il vin scintilla
    Sí come l’anima
    Ne la pupilla;

    Mentre sorridono
    La terra e il sole
    E si ricambiano
    D’amor parole,

    E corre un fremito
    D’imene arcano
    Da’ monti e palpita
    Fecondo il piano;

    A te disfrenasi

    (…)

  2. Caríssimo B.’. Pr.’. Filardo,
    Li, o que julgo ser o suficiente, para “começar” a entender a história do Risorgimento,
    Grandes nomes contribuiram, Carducci foi um deles.
    Mas, o título “Como a Maçonaria uniu a Itália” me soa um pouco abusivo, a ponto de escrever à um amigo, Ir.’. e B.’. Pr.’. usando o seguinte: “B.’. Pr.’.. Agora, depois de o ovo estar frito, a “maçonaria” foi quem unificou a Italia. Pra fritá-lo, será que usaram avental, colar e luvas??? Essa é uma das hipocrisias que aborrece!!! Abbracci”.
    A Senhora Mirella Ionta pode ter fontes extraordinárias; mas, pergunto: enquanto a maçonaria trocava o avental pelo uniforme militar, pegava em armas e unificava a Itália, os CARBONÁRIOS unificavam o que? Ou melhor, enquanto a Itália se unificava pela maçonaria, os carbonários se escondiam onde? Em quais lojas?
    V.’. e B.’. V.’.
    TAF

    • Meu B.´. P.´. Caccialupo,

      A impressão que tenho é que a autora do artigo não tem conhecimentos suficientes para distinguir entre Carbonaria e Maçonaria, o que é compreensível.
      Isso exige um entendimento que entre nós, maçons e carbonários, é pacifico com relação à Itália.
      Se notar bem, verá que o tom do artigo chega a ser antimaçônico, bem de acordo com a provável origem ideológica da autora.

      V.´. e B.´. V.´.

      TAF


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