Briga do Papa com Cavaleiros de Malta revela a Posição do Papa Francisco contra a Maçonaria

Tradução José Filardo

Por Jason HOROWITZ

Janeiro 28, 2017

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Papa Francisco durante sua reunião em junho com o líder dos Cavaleiros de Malta, Matthew Festing.
Credito Gabriel Bouys / Agence France-Presse, via Associated Press

 

ROMA – Começou como uma briga por recursos humanos. Então veio uma disputa sobre preservativos, seguida por preocupações papais sobre Maçonaria. Agora tornou-se uma guerra total por procuração entre  Papa Francisco  e os tradicionalistas do  Vaticano  que se opõem a ele, tendo como campo de batalha um palácio renascentista ladeado pelas vitrines de Jimmy Choo e Hermès na Via dei Condotti, a rua mais exclusiva de Roma.

O palácio é a sede dos Cavaleiros de Malta, a ordem medieval católica romana. Durante meses, um conflito feio, ainda que silencioso sobre recursos humanos, se desenrolou por trás dos muros da ordem antes de derramar do outro lado do rio Tibre até o Vaticano, desencadeando um vai-e-vem entre os dois campos. Francisco e seus tenentes enviaram cartas iradas. Os Cavaleiros as ignoraram, alegando soberania.

Na semana passada, a disputa finalmente explodiu. Com o saco cheio, Francisco tomou as medidas extraordinárias exigindo a renúncia do líder da ordem – uma decisão que os Cavaleiros aceitaram oficialmente sábado – e anunciaram que um delegado papal intervirá.

Os conservadores prontamente denunciaram o que chamaram de uma anexação ilegal e purgação ideológica de um pontífice obcecado por poder, enquanto observadores liberais viram todo o episódio como resultante de um ato de subterfúgio pelo crítico mais público do papa na hierarquia do Vaticano, o cardeal americano Raymond Burke.

Uma disputa intracatólica aparentemente obscura tinha irrompido em um choque inesperado para a igreja com linhas falhas ideológicas correndo até o topo do Vaticano.

“O Vaticano é uma coisa construída de tradição”, disse John Thavis, o autor de “Diários do Vaticano” e um veterano analista da igreja, ” e uma vez que essas partes tradicionais começam a brigar uns com os outros, isso é um sinal perigoso”.

Francisco continua a ser uma das figuras mais populares do mundo, mas a briga com os Cavaleiros é um pequeno indicador de como as reverberações de tensões políticas em todo o mundo estão vivas também no Vaticano. Apenas um ano atrás, os apelos de Francisco para combater as alterações climáticas e ajudar os migrantes parecia colocá-lo na liderança de uma vanguarda mundial progressista, ao manter sua pressão por uma igreja mais acolhedora.

Agora, de repente, ele está mais isolado politicamente. A eleição do Presidente Trump e a ascensão da extrema-direita populista na Europa introduziram o início de uma era mais irada – e encorajou os tradicionalistas dentro do Vaticano que sentem que o papa outrora inexpugnável pode estar vulnerável.

Os Cavaleiros de Malta são um bastião da tradição católica. Fundada no século 11 por comerciantes Amalfitanos para ajudar peregrinos cristãos na Terra Santa, ela mais tarde se tornou uma força militar, em defesa da fé durante as Cruzadas e, eventualmente, afastando os exércitos do Império Otomano de sua fortaleza em Malta. O grupo, agora com membros ricos e aristocráticos de católicos de elite que desfilam em vestuário ornamentado, ela se especializou mais recentemente em ajudar os refugiados e os pobres em mais de 100 países.

Até a semana passada, a ordem era liderada pelo conservador e elaboradamente intitulado Eminentíssima Alteza, o Príncipe e Grão-Mestre da Ordem de Malta, Matthew Festing da Grã-Bretanha, um ex-representante da Sotheby que prestou um juramento monástico.

Tensões longamente acumuladas entre o Sr. Festing e o Grande Chanceler da Ordem, Albrecht von Boeselager da Alemanha, cujo pai participou de uma conspiração para assassinar Adolf Hitler, intensificaram-se nos últimos meses em meio a acusações de que o Sr. Boeselager tinha conhecimento e supervisionou a distribuição de preservativos enquanto chefe do braço filantrópico da ordem. Nesta situação volátil, entrou o Cardeal Burke.

Em 2014, Francis rebaixara o Cardeal Burke, um líder do movimento tradicionalista da Igreja, de sua posição na Corte Suprema do Vaticano. Os apoiadores do cardeal dizem que Francisco fez isso devido à oposição do Cardeal Burke à tentativa de abertura do papa e à possibilidade de permitir que católicos divorciados recebam a comunhão.

O exílio do Cardeal Burke era, pelo menos, confortável, pois o papa o nomeou como patrono dos Cavaleiros e oficial de ligação com o Vaticano, onde ele estaria fora do caminho.

Mas o cardeal de fala mansa fez sentir a sua presença.

Durante o verão, à medida que tensões cresceram dentro da ordem, Michael Hichborn, o presidente do Instituto Lepanto, uma organização católica conservadora na Virgínia, conduziu o que ele chamou de uma “curta investigação” sobre o braço internacional de auxílio da ordem, que o Sr. Boeselager supervisionara.

O Sr. Hichborn disse ter descoberto que a organização de ajuda promovera o uso de preservativos e outros contraceptivos na África e em Myanmar, uma violação das regras da igreja.

“Quando eu estava cavando por aí, pensei, ‘Bem, o Cardeal Burke deve saber sobre isso'”, disse o Sr. Hichborn em uma entrevista.

Em novembro, ele enviou um resumo ao escritório do Cardeal Burke e disse que lhe foi dito que o cardeal “estaria trabalhando em algo” a respeito da informação.

Poucos dias depois, o Cardeal Burke transmitiu suas preocupações sobre o Sr. Boeselager a Francisco. De acordo com os apoiadores do cardeal, o papa, em seguida, deu-lhe instruções para erradicar da ordem os elementos da Maçonaria, taquigrafia Vaticana para adeptos de uma visão moral secular. Mas outras pessoas familiarizadas com os eventos dentro da ordem, disseram que o papa também pediu ao Cardeal Burke e à liderança que resolvessem a disputa através de diálogo.

Em vez disso, o Sr. Festing e o Cardeal Burke reuniram-se com o Sr. Boeselager em 6 de dezembro e pediram a sua renúncia, alegando, conforme o Sr. Boeselager disse em um comunicado, “que isso estava de acordo com os desejos da Santa Sé”.

O Sr. Boeselager negou saber sobre o programa de distribuição de preservativos e considerou o movimento um golpe e uma tentativa de manchar sua reputação de “católico liberal”. Ele argumentou que uma vez que havia descoberto o programa, ele informou o Vaticano e o encerrou.

Ele também se recusou a sair, dando início a um processo disciplinar que levou à sua suspensão, e pediu ao Vaticano a confirmação de que o papa desejava sua remoção. O Sr. Boeselager se recusou a comentar para este artigo.

Francisco, aparentemente, não estava satisfeito com a demissão e não queria que a disputa se tornasse pública, o que ocorreu quando  The Tablet  , uma publicação católica na Inglaterra, deu a notícia.

O papa já era crítico da vestimenta enfeitada usada pelos Cavaleiros (jaqueta militar vermelha e e dragonas de ouro) e pelo Cardeal Burke (uma longa túnica esvoaçante de seda vermelha conhecida como uma cappa magna). Francisco também tinha uma história de desentendimentos com os Cavaleiros durante seu tempo como cardeal na Argentina.

Então, em 21 de dezembro, Francisco escreveu diretamente ao Sr. Festing, transmitindo as suas decisões sobre o que ele chamou de “circunstâncias dolorosas” e deixando claro que essas decisões tinham “valor, independentemente de qualquer outra coisa em contrário”. Em anexo à sua carta, assinada simplesmente “Francesco”, estavam mais cartas de seu oficial de mais alta patente, em segundo lugar na hierarquia, o Secretário de Estado Pietro Parolin, afirmando que “Sua Santidade pediu diálogo como forma de enfrentar e resolver eventuais problemas” e que “ele nunca falou, em vez disso, em chutar alguém para fora! ”

O Cardeal Parolin também escreveu que a demissão “não devia ser atribuída à vontade do papa.” Criticamente, ele observou que os Cavaleiros, devido ao status do grupo como uma ordem religiosa leiga, estava sob a autoridade do papa, e que o papa tinha formado uma comissão para investigar a demissão do Sr. Boeselager. Mas o Sr. Festing recusou-se a cumprir as determinações da comissão papal, citando o status da ordem como uma entidade soberana e levantando questões sobre a integridade de uma comissão cheia de aliados do Sr. Boeselager.

“Eu acho que talvez ele esteja recebendo maus conselhos” do Cardeal Burke, disse um funcionário sênior do Vaticano, que pediu anonimato porque não estava autorizado a falar pelo Vaticano. (O Cardeal Burke e o Sr. Festing recusaram-se a comentar.)

Outros dizem que o Sr. Festing dificilmente precisava ser encorajado pelo Cardeal Burke, e nota que apesar de não ter território, a ordem é, na verdade, soberana, emitindo seus próprios passaportes e selos e realizando missões diplomáticas.

De qualquer maneira, o Vaticano não estava feliz. Em 17 de janeiro, ele emitiu uma declaração invulgarmente dura apoiando a Comissão e rejeitando “qualquer tentativa de desacreditar estes membros do grupo e seu trabalho”. A comissão, em última instância decidiu que o papa tinha autoridade sobre os Cavaleiros de Malta.

Na terça-feira, ele a exerceu. Ele convocou o Sr. Festing ao Vaticano e pediu sua renúncia, um movimento que o Vaticano anunciou no dia seguinte. A ordem foi acompanhada de sua própria declaração, dizendo que a renúncia do Sr. Festing se tornaria oficial, uma vez que os conselheiros da Ordem se reunissem na Via dei Condotti a aceitassem formalmente. No sábado, eles fizeram exatamente isso, restabelecendo imediatamente o Sr. Boeselager e prometendo colaborar com o delegado do papa.

Isso encantou os adeptos do papa, que disseram que ele mostrou que conservadores coniventes não o empurrariam de um lado para outro.

Mas os seguidores do Sr. Festing ficaram horrorizados a tomada de facto do Vaticano. Apoiadores do Cardeal Burke se queixaram de que o papa, com toda sua conversa de estimular o debate, era intolerante com pontos de vista opostos, especialmente os mais ortodoxos.

“Ele envia uma mensagem ao resto do mundo católico de que se você tentar se levantar pela ortodoxia na igreja, você será afastado”, disse o Sr. Hichborn. “E as pessoas impondo a heterodoxia serão colocadas no poder”.

O que não estava sujeito a debate era que, no Vaticano, Francisco segue seus próprios caminhos.

Na sede da ordem, uma caixa de correio de madeira, imponente, está pendurada na parede da portaria. Os três escaninhos superiores são reservados para os três mais altos oficiais da Ordem. Na quarta-feira de manhã, o nome do Sr. Boeselager tinha sido apagado. O do Sr. Festing logo desapareceria.

O terceiro escaninho pertencia ao líder interino da ordem, Grande Comandante Ludwig Hoffmann von Rumerstein. Mas somente, conforme uma declaração do Vaticano deixou claro, “enquanto se aguarda a nomeação do delegado papal”.

Uma versão deste artigo apareceu impressa em 29 de janeiro de 2017, na página A1 da edição de New York, com a manchete: 
Briga entre Cavaleiros e Papa se Transforma em uma Guerra por Procuração.

 

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Publicado on janeiro 29, 2017 at 11:07 am  Comentários desativados em Briga do Papa com Cavaleiros de Malta revela a Posição do Papa Francisco contra a Maçonaria  
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