Brasil, verde amarelo azul branco e vermelho

Por Rémi Babinet – DIRETOR DE CRIAÇÃO DA BETC

 

Tradução: José Filardo

 O primeiro choque, em São Paulo, é o tamanho. Quase 20 milhões de habitantes, uma das maiores e mais estranhas cidades do mundo. Engolida pela janela do táxi, inúmeros edifícios te afogam em inúmeros tons de cinza quente: percorre-se em cada rua, do preto ao branco ou do branco ao preto, a extensão da gama de miscigenação no Brasil. O motorista me disse que existem dezenas de adjetivos para descrever as diferentes cores desta mestiçagem. O segundo choque, especialmente para um publicitário é a ausência de publicidade. O tráfego comeu as calçadas e encheu as ruas sem pedestres ou cartazes. Será este o mundo de antes? O mundo de antes das megacidades sobrecarregadas de informações e publicidade. Ou o mundo a partir de agora?

Este é claramente o novo mundo que se forma no Brasil atual, aquele onde a informação sabe circuar de maneira invisível, e a comunicação se faz discreta e fina. Na publicidade, há duas escolas. A escola anglo-saxã que moldou os mitos da publicidade moderna, desenvolveu o conceito de agência e o atual processo de reflexão e criação. E uma escola brasileira, que inova, vira a mesa e invade regularmente as maiores recompensas da publicidade global. É essa escola que a BETC vem buscar ao se instalar em São Paulo há três meses depois de se estabelecer em Londres dois anos antes. Porque não há nada mais excitante para uma agência criativa que sentir-se crescer em tal terreno.

O quarto país mais conectado do mundo, o Brasil está se tornando rapidamente esta nação muito informada, exigente e participativa, cada dia mais consciente de seus problemas bem como de seus pontos fortes e suas belezas. Hoje, fazendo uso maciço e extenso da mídia digital, os brasileiros se mobilizam. E esses protestos não são apenas algo dos grandes centros urbanos, mas também das cidades pequenas em todo o país. É o gênio sem limites dessa nova mídia: ela leva e toca muito longe, e, ao mesmo tempo, ajuda as pessoas a estar mais perto de suas próprias comunidades. Ela desorganiza, reorganiza, transforma. Normalmente, confinados em suas bases estreitas, as culturas locais viajam e colidem com a mídia de massa. Para atender a essas expectativas de mudança, as mídias mudam seu tom. Tudo se torna mais claro, mais desafiador, mais envolvente. Sem as mídias digitais, por exemplo, ninguém teria sido capaz de medir o grau de mobilização em todo o país, e o governo poderia facilmente neglicenciar a magnitude de desaprovação. Este concerto de novas mídias transforma profundamente o país, acelerando tanto a sua introspecção e sua abertura para si mesmo, definindo melhores cidadãos, melhores carreiras e um monte de pessoas conectadas à sociedade como um todo.

É facilmente compreensível que o Brasil fascine a França e, de fato, o Brasil ama a nossa cultura como nós amamos a dele. Nós somos, brasileiros e franceses, impregnados de culturas fortes e amamos brilhar no mundo. E nós temos tantos pontos em comum: o amor pela beleza e ao futebol, a vontade de conciliar o capitalismo e a redistribuição social, o gosto pela intervenção diplomática, a paixão das ruas por protestar ou por fetejar, criatividade. Também compartilhamos as mesmas fragilidades: o protecionismo, a burocracia. Entre nós, há um arco verde amarelo azul branco vermelho, uma fronteira comum, além daquela da Guiana Francesa.

 Brasileiros e franceses têm muito em comum. Mas, em seu mesmo gosto pela transformação, eles não marcham no mesmo passo. E se a França entrasse na dança?

Mas para nos determos sobre um ponto sensível nesse gosto que temos em comum pela transformação, nessa aptidão que o mundo ainda reconhece de a França propor revoluções, não marchamos no mesmo passo. O que ouvimos ali é a ebulição em todos os cruzamento da sociedade de uma força coletiva. Para citar apenas uma área, emblemática da criação – a arquitetura – não são menos que 80 mil arquitetos reinventando a cidade, explorando novos modelos, de arquitetura empírica a arquitetura pobre, passando pela arquitetura participativa. O que se sente no Brasil, é em última análise, uma juventude em todos os momentos, que faz desse país um lugar central no mundo para observar e experimentar a revolução planetária.

Há um lado dionisíaco no movimento criativo brasileiro, adequado a este momento de grandes transições. Depois de algum tempo a arte de encadear os ciclos, misturar gêneros, passar da resistência à resiliência, desacelerar e acelerar, como se o mais (decisivo) fosse o movimento, o ritmo e a energia, não importando a ordem. De modo a fascinar nosso lado apolíneo, adepto da clareza, dos sistemas e de sua fixidez. Nietzsche escreveu que estas duas forças instintivas opostas governam a arte e a criação. E se a França se deixasse levar na dança?

 

Publicado na Revista Challenges (www.challenges.fr) – Ed No. 392 – Junho/2014

Publicado on agosto 22, 2014 at 9:26 am  Comments (1)  

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