Associações Voluntárias e Religião Civil: O Caso da Maçonaria

Tradução J. Filardo

Por JOHN WILSON
Departamento de Sociologia
Duke University

Review of Religious Research, Vol. 22, bro. 2 (Dezembro 1980)

Uma pesquisa de amostra aleatória de Maçons em um estado do Meio-Oeste americano mostra que eles vêm principalmente de extratos socioeconômicos mais altos, embora menos que há 20 anos atrás. A maioria dos membros se descreveu como inativos e não familiarizados com os procedimentos de loja, mas mostraram fidelidade direta à Ordem e um compromisso firme com seus ideais. Este paradoxo é resolvido com a ajuda de ideias extraídas dos escritos de Bellah sobre religião civil.

Nos Estados Unidos, as associações voluntárias desempenham diversas funções. Para o indivíduo, elas proporcionam suporte afetivo e uma sensação de Solidariedade com outros que têm interesses semelhantes. Para a sociedade como um todo, elas podem ser “consideradas como entidades integradoras em nível de comunidade, estado, regional ou nacional “(Babchuk e Edwards, 1973: 265, ver também, Cutler, 1573:135; Rose, 1967: 229-233). Talvez nenhuma outra associação preencha os interstícios entre a família e a comunidade melhor que a ordem fraternal, com sua mistura especial de prazeres privados e serviço público. A fraternidade é ao mesmo tempo um refúgio, em que os interesses e gratificações particulares podem ser realizados e um grupo de ação social, através do qual os compromissos públicos podem ser expressos. Este duplo papel das fraternidades é de especial interesse para mim neste trabalho.

O epítome do fraternalismo nos Estados Unidos é a Maçonaria. Ela serve de modelo para a maioria das outras ordens fraternais. É de se esperar que ela também funcionará como um elo entre as esferas privada e pública. Mas a Maçonaria é até certo ponto um caso especial entre as fraternidades. Muito mais que qualquer outra ordem, ela enfatiza a aprendizagem esotérica e a promulgação de um sistema moral fundado em crenças religiosas. Sua natureza quase religiosa é testemunhada pela hostilidade com que ela tem sido tratada por muitos dos corpos religiosos mais ortodoxos (Myers, 1960).

Ao conduzir este estudo, fui guiado por uma série de expectativas sobre a os membros da Maçonaria, onde a maioria delas derivava da literatura de pesquisa sobre fraternidades e organizações similares. Eu esperava que, como é verdade para as associações voluntárias em geral (Smith e Freeman, 1972:154), os maçons viessem mais fortemente da classe média do que da população em geral. Olhando para o seu nível de envolvimento na fraternidade, eu esperava descobrir que poucos membros seriam altamente ativos em assuntos de loja e que aqueles que ocupam posições de liderança viriam desproporcionalmente de estratos socioeconômicos mais altos – eu também esperava que orientações expressivas seriam mais comuns entre os membros do que as instrumentais.

Veremos que a maioria dessas expectativas se confirmou. Mas a análise dos dados revelou um paradoxo aparente no compromisso dos membros. Os dados relatam um corpo de membros em grande parte inativos e que, ao mesmo tempo são firmemente leais aos princípios da Maçonaria e convencidos de seu valor como meio de educação moral e treinamento para a cidadania. Foi relatado antes que as ordens fraternas tendem a ter a adesão mais leal (Babchuk e Booth, 1973: 28). Os maçons não são uma exceção a esta regra. Tentarei resolver este paradoxo, levando em conta o papel dos Shriners na decisão de se tornar um Maçom, pois há uma sugestão nesses dados de que a adesão às Lojas Simbólicas está sendo usada apenas como um “trampolim” para a adesão aos Shriners.

Na segunda parte do trabalho, comentarei a função da adesão à fraternidade. Os maçons se veem como membros de um tipo especial de fraternidade, que tem um caráter quase religioso que falta às outras. Muito do que a ordem ensina é uma defesa vigorosa de valores considerados especialmente americanos. A literatura maçônica e, como veremos, as atitudes dos membros refletem uma certa imagem dos Estados Unidos que, segundo a sugestão de Bellah (1970: 182), eu caracterizarei como religião civil.

Que a Maçonaria faz parte da Religião Civil Americana também foi arguido por Joliecoeur e Knowles (1478). A partir de uma análise de conteúdo da literatura maçônica, eles descobriram que muitos dos temas identificados por Ballah como característica da religião civil ocorriam com grande regularidade. Havia, primeiro, uma firme defesa da Constituição Americana e identificação desse documento (e da Declaração de Direitos) como inspirado pelo pensamento maçônico. Em segundo lugar, referências repetidas foram encontradas a um Ser Supremo, abstratamente concebido. Em terceiro lugar, ocorria uma defesa entusiasmada do que Jolicouer e Knowles (1978: 16) se referem como “as virtudes republicanas” – liberdade individual, livre iniciativa, papel limitado do estado e lei como base da ordem social. Os dados sobre as atitudes dos membros em relação a vários aspectos das atividades e missão da ordem reunidos neste estudo contribuem para essa interpretação. Os maçons, além da promulgação explícita de valores de voluntarismo, fraternidade e liberdade individual, também tratam o ser religioso e ser político como valores importantes, sem se comprometer quanto à forma específica que essa fusão de religião e política deve assumir. O significado de adesão à Maçonaria só pode ser apreciado se ignorarmos o fato de ser supostamente uma sociedade secreta e ao invés disso, concentrar-se em seu papel mais simbólico como um apoio generalizado à cidadania.

MÉTODOS

Embora tenha sido muito, escrito sobre a Maçonaria, não foi publicado um levantamento sociológico das características e atitudes de seus membros por um não-Mason. Os dados relatados neste trabalho foram coletados por meio de um levantamento de amostra aleatório dos membros de uma Grande Loja cuja jurisdição coincide com os limites de um dos estados do Centro-Oeste Americano. O projeto foi aprovado pelos oficiais da Grande Loja, que aconselharam na redação de certos itens, embora eles não exercessem qualquer censura.

O envio de uma carta inicial a novecentos membros foi acompanhado de uma carta de apresentação do Grão-Mestre da Grande Loja, pedindo que o questionário fosse preenchido e devolvido. Apesar de duas correspondências de acompanhamento, a taxa de resposta não ultrapassou 37%. Sem acesso ao mailing list da Grande Loja, não foi possível identificar os não-respondentes. Claramente, apenas generalizações mais tentativas podem ser feitas com base somente nesses dados. Além disso, não podemos ter certeza de que os membros de uma Loja do meio-Oeste são típicos de todos os maçons americanos. No entanto, esses dados fornecem informações que até agora, não estavam disponíveis para sociólogos interessados ​​em ordens fraternas, e suas implicações certamente valem a pena relatar.

O questionário consistiu em três partes: itens sobre o nível e tipo de participação do membro em Loja Simbólica e outros corpos maçônicos; itens projetados para provocar a atitude dos indivíduos em relação a eles, a loja e a maçonaria em geral; e, finalmente, itens que têm que ver com as características socioeconômicas e demográficas do entrevistado. A análise dos dados se concentra nas duas principais preocupações deste trabalho: as características da Maçonaria como uma associação voluntária e sua função como parte da religião civil.

MAÇONARIA COMO ASSOCIAÇÃO VOLUNTÁRIA

A unidade básica da Maçonaria é a Loja Simbólica, composta por Mestres maçons que completaram os três primeiros graus de Maçonaria. O ingresso na Loja é concedido apenas àqueles que acreditam em um Ser Supremo e têm mais de 21 anos, do sexo masculino, alfabetizados, fisicamente capazes e “nascidos livres”. Não há negros no Rito Escocês (Schmidt e Babchuk, 1973: 276).

A Tabela 1 compara informações ocupacionais, de renda e educacionais reunidas neste estudo aos dados que o Bureau do Censo nos informa sobre homens adultos no estado em que esta pesquisa foi conduzida. Conforme esperado, os Maçons são mais fortemente classe média do que a população em geral. Especialmente digna de nota é a sobre-representação de categorias profissionais e gerenciais e a grande diferença percentual na proporção daqueles confirmando alguma experiência de curso superior. Em um estudo realizado em outro estado, Whipple (1969: 105) descobriu que apenas 3% dos iniciados vinham das fileiras profissionais e gerenciais, por isso devemos ter cuidado com a generalização com base nesses dados.

Algumas das discrepâncias entre as descobertas de Whipple e aquelas relatadas aqui podem ser atribuídas à natureza da amostra de Whipple, que, sendo composta de iniciados, provavelmente continha uma maior proporção de homens mais jovens do que seria encontrado na população geral ou em uma pesquisa geral de todos os Maçons. Esses homens mais jovens provavelmente seriam de status socioeconômico mais baixo. Levar em consideração a idade quando se considera o status socioeconômico dos maçons é muito importante, especialmente tendo em vista o fato de que idade e status socioeconômico tendem a ser positivamente correlacionados. A distribuição por idade desta amostra foi distorcida em relação aos grupos etários mais velhos. Sessenta por cento tinham mais de 50, em comparação a 35,4 por cento no estado como um todo. Sem dúvida, parte do viés da classe média da amostra é devido à sua distribuição etária.

As descobertas de Whipple levantam a questão de saber se os que entram na Maçonaria agora têm ou não o mesmo status que aqueles que entraram anos atrás. Eu comparei os maçons que ingressaram nos últimos 14 anos àqueles que tinham sido maçons por 20 anos ou mais, ajustando para o possível período e efeitos de agrupamento, controlando por idade. Embora os níveis de renda não tenham sido alterados, os Maçons que ingressaram antes de 1955 eram 33% mais propensos a ter empregos gerenciais ou profissionais e 19% com mais probabilidades de ter um diploma universitário. A partir desta amostra, pelo menos, há sinais claros de declínio do status socioeconômico entre os maçons como um todo, um declínio que pode ter consequências importantes para a ordem, algumas das quais eu discutirei na conclusão.

Tabela 1
EDUCAÇÃO, OCUPAÇÃO E RENDIMENTO FAMILIAR DE MAÇONS E HOMENS ACIMA DE 15 ANOS EM UM ESTADO DE MEIO-OESTE
Censo de 1975 a Maçons (1977)
N (em milhares) % N (338) %
Educação b
Elementar 112 18.7 26 8.7
Colégio 286 47.9 122 36.0
Faculdade 198 33.2 184 54.4
Sem resposta
Ocupação
Professional 88 13.0 110 35.3
Gerencial 90 13.3 80 25.7
Vendas 35 5.2 26 8.3
Administrativo 35 5.2 17 5.4
Artesão 138 20.5 37 11.9
Operadores 157 23.3 19 6.1
Serviços 49 7.2 0 0.0
Agrícola 80 11.9 23 7.4
Sem resposta
Rendimento familiar total c
Menos de $9,999 178 30.3 80 23.6
10,000 – 14,999 155 26.4 66 19.5
15,000 – 19,999 106 18.0 50 14.8
20,000 – 24,999 65 11.0 50 14.8
25,000 e mais 83 14.1 82 24.2
a – Departamento de Censo dos EUA, Relatórios de População Atuais, Série P-60, No. 111 “Situação do dinheiro e da renda e da pobreza em 1975 de famílias e pessoas nos Estados Unidos e Região Norte-Central, por divisões e Estados”.

b – Anos de escola completados por pessoas com mais de 25 anos em 1975

c – Apenas brancos

 

Uma série de expectativas informou a análise do padrão de envolvimento na Maçonaria. Sabemos que a maioria dos membros de associações voluntárias são bastante inativos (Axelrod, 1973: 40). Também sabemos que, na maioria das associações voluntárias, os membros de maior status socioeconômico têm maior probabilidade de ocupar cargos (Bids, 1957: 20). Dada a ênfase na tradição, sabedoria acumulada e continuidade na Maçonaria, eu esperava que os maçons mais antigos e mais experientes fossem os mais ativos. Finalmente, eu antecipei que tipos de participação instrumental bastante expressivos e não instrumental predominariam.

(1) Uma proporção muito grande (81,4 por cento) da amostra se descreve como “inativa” ou “um pouco inativa” nos assuntos de suas lojas. Apenas um terço mantém-se “bem informado” sobre o que está acontecendo na loja e três quartos perderam todas ou a maioria das “comunicações” do ano anterior.

(2) A Tabela 2 mostra que a correlação esperada entre o status socioeconômico e o nível de atividade não aparece. Mantendo outros fatores constantes, o coeficiente beta do status socioeconômico e o nível de atividade é apenas .10, nem é verdade, conforme esperávamos, que a ocupação de cargos é mais típica dos grupos socioeconômicos mais elevados entre os maçons. Entre aqueles com menos de 65 anos, não surgiu nenhuma relação entre renda ou educação e ocupação de cargos; a ocupação era muito fracamente correlacionada (.16, p = 0,001).

 

Tabela 2
INTERCORRELAÇÕES DAS CARACTERÍSTICAS DOS MEMBROS
Variáveis 2 3 4 5 6 7 8 9
1. Número de anos como Maçom -.07 .12a .08 -.06 .62a -.19 .28a -.03
2. Avô e Pai Maçom .11a .12a -.03a -.17a -.05a -.11 .17a
3. Número de amigos Maçons .04 -.08 .06 .14a -.05 .01
4. Frequência da presença na igreja -.03 .03 .20a -.02 .12a
5. Tamanho da Comunidade .06 -.17a -.02 .12a
6. Idade .09a .33a -.16a
7. Nível de atividade b .06 .19a
8. Localismo c .02
9. SES
a.         Significativo além do nível de confiança .05

b.        Nível de atividade medido pelo número de estados e comunicações emergentes perdidas no ano anterior, número de funerais maçônicos atendidos e autoavaliação do nível geral de atividade.

c.         Localismo medido por três itens: “Por quanto tempo você viveu na comunidade em que você reside?”; “Quais são suas chances de se mudar nos próximos dois ou três anos?”; “Você possui a casa em que vive, ou você aluga?”.

 

(3) A Tabela 2 mostra apenas associações fracas entre idade e nível de atividade, mas a regressão múltipla mostra um coeficiente beta de 0,25 quando a idade é isolada. Isso provavelmente reflete a maior importância que os Maçons mais antigos atribuem ao companheirismo e à benevolência oferecida por uma loja. Curiosamente, no entanto, o nível de atividade está inversamente relacionado ao número de anos na ordem (beta, -167). Parece que, qualquer que seja a idade de ingresso, tornar-se membro é seguido por uma enxurrada de atividade que diminui ao longo do tempo.

(4) É geralmente aceito que todas as associações voluntárias têm dimensões tanto instrumentais quanto expressivas. Os interesses instrumentais são aqueles que têm alguma consequência para a comunidade em geral; os interesses expressivos são autônomos e dizem respeito às satisfações intrínsecas derivadas da própria participação (Edwards e Booth, 1973a: 1).

Os objetivos da Maçonaria são principalmente expressivos, e é este aspecto da Ordem que é mais importante para o ingresso. Por exemplo, 63 por cento concordam que “Embora a Maçonaria faça um bom trabalho na comunidade, o que eu mais gosto sobre isso é o companheirismo e o prazer que eu retiro das reuniões da loja”. Apenas um terço vê a ordem como uma “organização principalmente beneficente”.

A multiplicidade de objetivos em uma organização como a Maçonaria significa que pessoas diferentes podem encontrar satisfações diferentes nela. Edwards e Booth (1973b: 280), assumindo uma “tensão para a consistência” entre a ocupação e a orientação para o ingresso em associação voluntária, formularam a hipótese de que trabalhadores de serviço e manuais, “cujas recompensas profissionais são mais ou menos imediatas, mais provavelmente seriam os que se envolveriam em atividades expressivas”. Profissionais e outros que ocupam empregos em que “as recompensas líquidas … são adiadas”, eles sugerem, exibiriam uma atitude instrumental semelhante em relação ao trabalho voluntário “em que recompensas também são diferidas”. Para testar esta hipótese, uma escala instrumental / expressiva adaptado de Jacoby e Babchuk (1961) foi incorporada ao questionário. Os dados não invalidam a hipótese, mas o beta de 0,1 para a relação entre categoria ocupacional e instrumentalismo (independente, isto é, de renda, educação, idade e anos de Maçonaria) mostra quão fraca é a relação para esses maçons.

O nível de renda foi um pouco mais forte e positivamente associado à orientação instrumental (beta, 0,23). Parece que o lado do serviço da ordem é mais atraente para aqueles com mais renda discricionária. Se os membros de maior renda se destacam nesse sentido, eles também são mais propensos a ver sua pertença à ordem como uma constelação geral de envolvimentos secundários. Em outras palavras, eles são mais propensos a pertencer a outras associações voluntárias e mais propensos a pertencer a outros corpos maçônicos. Além disso, há maior probabilidade de eles sentirem que um dos objetivos mais importantes da ordem é servir os outros.

Estes dados confirmam as suspeitas de Edwards e Booth. Os membros da classe média estão usando a ordem para diferentes propósitos: Possivelmente, eles estão usando-a de forma mais formal como um instrumento para o envolvimento na comunidade, como uma atividade pública intimamente ligada a outros aspectos de suas vidas mais públicas. Os membros de status inferior (que são tão regulares em sua presença quanto os outros) são mais orientados para preocupações privadas de companheirismo e provavelmente procuram a loja principalmente por apoio moral, catarse e conforto.

Os dados sobre a participação na ordem mostram que a maioria dos maçons não comparecem regularmente às reuniões da loja e não estão muito bem informados sobre o que está acontecendo na loja. Não há variação acentuada no nível de participação por status socioeconômico, sendo a idade o único fator demográfico a influenciar a profundidade do envolvimento. Além desses sinais de apatia, há uma ignorância bastante extensa sobre alguns dos ensinamentos mais básicos da ordem. Os entrevistados foram convidados a responder a uma série de 11 afirmações sobre alguns dos simbolismos e insígnias da Maçonaria com uma simples escolha “correta / falsa”. Por exemplo, foi-lhes perguntado: “Qual dos seguintes são os símbolos do grau de Companheiro: (1) Nível; (2) Prumo; (3) Trolha; (4) Colmeia? ” Apenas 5% responderam a nenhuma dessas perguntas corretamente e 69% responderam a metade delas corretamente, mas apenas 29% deram respostas corretas a três quartos, e apenas 3% conseguiram responder corretamente a todas elas.

Os Maçons não são únicos a ter um corpo de membros bastante apático e desconhecedor. Mas existem alguns outros dados nesta pesquisa que tornam particularmente interessante o caso dos Maçons, os baixos níveis de participação podem ser razoavelmente interpretados como um sinal de ligação frouxa com uma organização. Mas os maçons são leais à ordem: 62 por cento dessa amostra eram membros por mais de 20 anos. Além disso, se examinarmos as atitudes refletidas na Tabela 3, encontramos um grande interesse pelos aspectos rituais da loja, seus ensinamentos são claramente vistos como importantes.

Nestas e em várias outras respostas, os Maçons não mostram qualquer descontentamento com o elaborado ritual tão comumente associado à Maçonaria, nem mostram sinais de sentir que os ensinamentos dela são irrelevantes para suas preocupações diárias. É como se os membros fossem comprometidos com a ideia da Maçonaria sem estar preparado para assumir o compromisso de sua prática… Isso nos lembra aquelas pessoas que relatam aos pesquisadores que, embora eles próprios não praticassem devoções ou frequentassem a igreja, eles consideram a religião “uma coisa boa”.

 

Tabela 3
ATITUDES EM RELAÇÃO AO RITUAL E ENSINAMENTOS ENTRE MAÇONS
Concordo plenamente Concordo, de certa forma Discordo, de certa forma Discordo muito Sem resposta
Os rituais secretos são uma parte essencial da maçonaria para mim 47.0 26.3 9.8 10.7 6.2
As cerimônias formais estão entre a parte mais importante das reuniões da loja 54.1 21.3 9.2 7.7 7.7
Um maçom deve aumentar o seu conhecimento dos ensinamentos da maçonaria 57.7 30.2 6.8 1.8 3.6
O ensino da Maçonaria ajudará a banir a ignorância entre todos os povos 34.3 26.9 12.7 18.9 7.1

 

Existe uma solução bastante pragmática para este paradoxo aparente. O ingresso em uma Loja Simbólica é um requisito para o ingresso nos ritos Escocês e York e do Shriner. Não é um segredo entre os maçons que comparado às reuniões dos Shriners, as reuniões de loja podem ser bastante chatas. Pode muito bem ser que parte dessa inatividade em assuntos da loja esteja associada ao fato de que muitos maçons se tornam membros de lojas, pagam as taxas de loja e mantêm um compromisso formal com os princípios que ela representa, mas dedicam suas energias e interesses às atividades dos Shriners. É bastante significativo que 4 por cento dessa amostra informou que os Shriners tinham sido “muito ou “bastante” importantes para eles ao decidir se tornar um Maçom. E existe, sem dúvida alguma verdade nessa ideia, mas não é toda a resposta, pois ela ignora alguns dos aspectos mais profundos do ingresso em uma fraternidade que, mais do que qualquer outra, espera um compromisso com a aprendizagem, a educação moral e o apego a deveres fraternais de um sistema de valores. E é forçar a credibilidade argumentar que a Maçonaria funciona apenas como um trampolim para os Shriners.

MAÇONARIA E RELIGIÃO CIVIL

Eu indiquei no início deste trabalho que a maneira de resolver o paradoxo entre o compromisso formal com a ideia da ordem e a apatia considerável sobre suas atividades específicas é olhar para o significado do apoio que os Maçons dão à cidadania. Eu apontei que a ordem, embora seja partidária, nem em política ou em religião, ela defende as causas de política e de religião abstratamente, combinando-as em uma versão de cidadania que é bastante consistente com os princípios de conduta estabelecidos para os americanos na maioria das versões da religião civil descrita por Bellah.

Jolicoeur e Knowles já apresentaram algumas pistas sobre a função da Maçonaria a este respeito, e o objetivo desta seção é examinar os dados da pesquisa procurando qualquer suporte que possa ser encontrado para a interpretação da Maçonaria e para uma forma de resolver o paradoxo que descrevi. O tema mais poderoso identificado por Jolicoeur e Knowles na literatura maçônica é o de aumentar “O nível de compreensão da cidadania sobre a mitologia da América, suas origens e seus inimigos”. Os próprios maçons alegam ter “concebido, discutido e ratificado” a Constituição (Clausen, 1976: 16). Quase um quinto dos artigos amostrados por Jolicoeur e Knowles mencionavam a Constituição; 11,5% deles a Declaração de Independência. Este tema de treinamento para a cidadania é refletido nos dados da pesquisa: 78 por cento da amostra concordaram que uma das funções mais importantes de ser um Mason é que ele torna um homem um cidadão melhor. Oitenta e um por cento concordaram que os maçons estão entre os cidadãos mais leais.

O tema Deistico identificado por Bellah como parte da religião civil foi discernido na literatura maçônica; 46 por cento dos artigos revisados ​​mencionam “Deus” ou “o Ser Supremo” (Jolicoeur e Knowles, 1978: 12).

A crença em um Ser Supremo é, naturalmente, um requisito para o ingresso dos Maçons. Noventa e um por cento dessa amostra afirmaram uma crença em Deus. Os maçons são claramente um povo religioso, mas eles não veem sua ordem como concorrente dos mais corpos religiosos ortodoxos, embora estejam bem cientes de que muitos desses grupos (por exemplo, católicos, luteranos, mórmons) são hostis a eles. Em vez disso, os Maçons veem sua aceitação de uma crença em Deus como o Supremo Arquiteto como parte do sistema de crenças Deístas que estão no cerne do sistema de valores americano consagrado na própria Constituição que os Maçons ajudaram a escrever. Eles, portanto, se consideram um complemento valioso para as denominações estabelecidas “mais particularmente as denominações “dominantes” tradicionalmente associadas à classe média branca: Metodistas, Batistas e Presbiterianos compreendem 58% dos maçons nesta amostra, em comparação a 27% da população nacional.

Quando vimos que um terceiro tema identificado por Jolicoeur e Knowles é o da Maçonaria como defensora das “virtudes republicanas”. Os maçons veem-se como ajudando a sustentar e defender de ameaças internas e externas os valores do sistema de livre empresa. Um senso de missão a esse respeito é bastante óbvio, mesmo a partir da leitura mais casual da literatura maçônica. Mas é importante notar que esta missão é lançada em termos tradicionalmente individualistas. As respostas ao questionário mostrado na Tabela 4 adicionam suporte à análise do conteúdo. A maioria dos maçons evita o envolvimento em programas de reformas sociais (item I). Embora o seu trabalho beneficente seja bem divulgado, especialmente através da atividade dos Shriners, a maioria dos membros não vê a finalidade da ordem como essa ou de ajudar os menos afortunados (itens 2, 3 e 4). Por outro lado, eles dão um forte apoio a ideias que exaltem o serviço da ordem ao indivíduo e a forma como ela ensina deveres e obrigações individuais (itens 5 e 6). Jolicouer e Knowles relatam que a literatura maçônica reflete uma forte ênfase na construção do caráter como meio de construir sociedades, na educação moral dos indivíduos em oposição à reconstrução social de comunidades. Estes dados da pesquisa emprestam credibilidade às suas descobertas.

 

Tabela 4
ATITUDES DE MAÇONS EM RELAÇÃO AOS OBJETIVOS DA MAÇONARIA
Concordo plenamente Concordo, de certa forma Discordo, de certa forma Discordo muito Sem resposta
1.      A ordem não deve se envolver em questões sociais controversas 44.4 18.3 19.8 13.0 4.4
2.      Embora a Maçonaria faça bons trabalhos na comunidade, o que mais gosto disso é o companheirismo. 31.7 27.5 21.0 13.6 6.2
3.      A maçonaria é principalmente uma organização beneficente para ajudar os desfavorecidos 13.9 17.8 28.4 34.0 5.9
4.      Propagar a filosofia maçônica não é tão importante hoje em dia quanto prestar serviço 14.5 21.0 33.4 25.1 5.9
5.      Tornar-se Maçom significa uma espécie de renascimento para mim 32.2 30.5 20.4 12.7 4.1
6.      A Maçonaria ensina cada indivíduo a desempenhar seus deveres enquanto cidadão 40.5 34.0 11.5 8.9 5.0

 

Os requisitos para ingresso na Maçonaria fornecem uma indicação adicional de sua defesa do individualismo e da autossuficiência: espera-se que os membros sejam sóbrios, trabalhadores, honestos e, talvez acima de tudo, de mentalidade cívica. Os maçons desta amostra eram mais que diligentes em seu exercício de deveres cívicos. Dois terços eram membros de pelo menos uma outra associação voluntária, 88% eram membros de uma denominação religiosa e 92% votaram nas últimas eleições presidenciais (em comparação com 60% da população masculina em todo o país). Assim, ao mesmo tempo em que se abstém da política partidária e não defendendo nenhuma religião em particular, eles promovem as ideias de ser político e religioso. É exatamente essa combinação de americanismo político e religioso que Bellah caracterizou como religião civil.

CONCLUSÃO

Neste trabalho, apresentei dados que mostram que os Maçons em geral confirmam as generalizações empíricas sobre os “ingressantes” da América. Eles tendem a ser de status socioeconômico mais elevado e ser ativo em outras associações voluntárias. Eu também mostrei que a Maçonaria é mais do que apenas outra associação voluntária e sugeri que ela pode ser melhor compreendida como parte da religião civil. Suas atividades são de fato, uma espécie de peça de teatro perpétua em que o significado e as implicações de fraternalismo são dramatizados.

Ao sugerir que a Maçonaria – que é principalmente de classe média, inteiramente masculina (exceto as auxiliares) e inteiramente segregada – é parte da religião civil, eu reconheço que a religião civil não é “tão neutra quanto os designadores a teriam, ela é um reflexo de um entendimento WASP (Branco, Anglo-saxão e Protestante) do mundo” (Marty, 1974: 14.4). A Maçonaria tem sido uma celebração ritualizada da experiência americana filtrada através dos valores e interesses do homem adulto branco. Isso faz com que a sugestão de que o status socioeconômico de seus membros está em declínio é particularmente interessante, pois levanta a possibilidade de que a adesão da ordem a valores estritamente de classe média possa, no futuro, começar a decair. O imponderável aqui é o papel que os Shriners desempenham na atração de recrutas para a Maçonaria; parece que os Shriners não gostam nem busca o status de elite, uma vez que é característico dos Maçons. Qualquer aumento do uso da Maçonaria como “trampolim” para os Shriners pode muito bem acelerar as mudanças devidas apenas ao declínio do status socioeconômico.

Finalmente, é necessário comentar dois aspectos da Maçonaria que são tradicional e comumente associados a ela, mas que quase não são mencionados neste relatório ou por Jolicoeur e Knowles: seu fraternalismo e seu sigilo, o conforto e a certeza de que os maçons retiram do conhecimento de que eles seriam auxiliados por irmãos Maçons, se estiverem com problemas estavam claros nas respostas a esta pesquisa. Mas a “fraternidade” que a Maçonaria defende como princípio não é um fraternalismo universal. Grupos minoritários são excluídos da fraternidade dos maçons. Eles são excluídos teoricamente definindo “americanismo” de forma a tornar não americanos os seus valores, estilo de vida e conquistas. Eles são excluídos praticamente por um sistema de seleção de membros, que coloca grande ênfase em contatos pessoais e conhecimento do “caráter”. O fraternalismo serve à finalidade de exclusão mais do que inclusão, como a palavra pode implicar.

Nós também podemos agora entender melhor o papel do segredo na Maçonaria moderna. Reconhece-se há muito tempo que os maçons não são mais uma sociedade secreta: todos os seus segredos foram revelados (Simmel, 1950: 356). O apelo da Maçonaria hoje não reside na sua tradição esotérica ou nos rituais arcanos, mas na sua privacidade. A maçonaria representa o direito de buscar prazeres particulares de maneira privada. Como organização, ela se compromete a proteger não os segredos profundos da maçonaria, mas o direito de cada membro a uma esfera privada onde as demandas públicas não têm lugar. Os valores que a Maçonaria representa publicamente são precisamente os valores que protegerão essa esfera privada, especialmente os valores que têm a ver com a liberdade individual. É este o vínculo entre o privado e o público (com o qual eu comecei este artigo) que a Maçonaria forja, e é essa função, eu argumento, que é o principal apelo da ordem hoje.

REFERÊNCIAS

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Publicado on julho 25, 2017 at 10:09 am  Comentários desativados em Associações Voluntárias e Religião Civil: O Caso da Maçonaria  
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