Arte e Maçonaria: As viagens alquímicas de Hergé – autor de As Aventura de Tintim

Tradução J. Filardo

 

por Bertrand Portevin

 

Em uma entrevista realizada por Benoît Peeters e Patrice Hamel, 29 de abril de 1977, Hergé declarava: “Eu acho que há uma maneira, sobre Tintin, de ir mais longe do que temos feito até agora. Você sabe, e eu digo isso com desapego real, quando algo assim é bem-sucedido por tanto tempo, é que há uma razão”.

Quando está acontecendo esta entrevista, Tintin e os Pícaros já foi publicada, a obra está concluída. Ela compreende 22 álbuns em cores, todos em formato de 64 páginas. Estes dois números estão falando para o espírito, o levando a olhar ali várias vezes e usar caminhos discretos, dissimulados. Assim, ele coloca duas questões fundamentais. Esta obra contém mais do que aventuras divertidas, muitas vezes edificantes? Deveríamos estar procurando escondidas as razões para o seu sucesso?

O número 22 nunca deixa de ser abordado por cabalistas e ele se encontra no seio dos Arcanos Maiores do Tarô. Ou se reconhece como verdadeiro que Hergé atribui valor real a esse apoio adivinhatório. Ele não tomava nenhuma decisão sem consultar uma cartomante, e sua esposa Germaine nunca largava seu jogo, até e incluindo à mesa. Isto significa que o exercício de comparar cada uma das 22 lâminas com o álbum correspondente tem o seu perfume de caça ao tesouro. Um belo assunto para pranchas que não abordaremos aqui.

O número 64, o número de páginas de cada álbum também merece alguma atenção: 64, mais especificamente 63 páginas desenhadas e uma branca. Este é o número da conclusão do Grande Todo, a expressão de uma totalidade realizada e perfeita já encontrada no antigo Egito, onde o olho é de Hórus ferido por Seth foi restaurado por Thoth, mas privado de 1/64 avos. Para atingir a iluminação, simbolizada pela página branca, ele deve morrer para si mesmo, sofrer a iniciação. Também o maçom que está imerso na leitura das aventuras de Tintin e Milu, um dia ou outro sentiu a necessidade de ir mais longe em sua companhia.

Reino Invisível

Retomemos a leitura e apontemos alguns exemplos, alguns piscares de olhos com gosto de iniciação jovial. Em A Ilha Negra, Tintin passa pelas quatro provas clássicas: o Fogo na casa do Dr. Müller, onde ele escapa das chamas por muito pouco, o ar quando ele sobreviveu a um acidente de avião, a Água que quase o afoga e finalmente, a Terra que ele penetra até a luz. Há ali um duplo momento de revelação: aquele do herói que vê e aquele dos bandidos que iluminam a marca d’água de seus bilhetes. Nada está faltando, até a geografia dos lugares falam abertamente: a Escócia (1)! Desde a aventura seguinte, o Irmão ou Irmã não pode deixar de ficar intrigado ao ver Tintin ser feito “Cavaleiro da Ordem do Pelicano de Ouro” na página 60 do Cetro de Ottokar. O grau de Cavaleiro do Pelicano é, na origem, o 7ª que um Maçom podia esperar obter. Este é um grau eminentemente cristão e ele aparece aqui no 7º álbum das aventuras… mais ele é mais conhecido sob o nome de Cavaleiro Rosacruz. Isto nos afasta da anedota, porque vamos perceber juntos que Hergé conhecia perfeitamente a hagiografia atribuída ao Cavaleiro de qual ele se serviu abertamente, eu ousaria dizer, “a livro aberto”? Na sua entronização, o futuro Cavaleiro Rosacruz viverá simbolicamente todas as etapas da fábula.

Esta lenda da Rosacruz é aquela do Reino Invisível (2), país de existência real e que ainda não é encontrado em mapas, país a que não se pode chegar nem por terra nem por mar. Hergé também tem o cuidado de especificar esses “detalhes” em seu prospecto turístico da Syldavia. Ele descreve um país desconhecido dos mapas da Europa, de “grande dificuldade de acesso”, que somente pode ser alcançado por avião. Nem por terra, nem por mar…

A restauração do Rei é o tema fundamental do hermetismo dos Rosa-cruzes. É este escolhido por Hergé… A prova do Cavaleiro consiste em encontrar o Castelo fortificado e cercado por água, atravessar três portas para penetrar na Torre, em seguida, escalar a Rocha para tocar o Cetro de Ouro de três pontas. Hergé desenha um castelo plenamente conforme, e Tintin atravessará três portas exatamente, para acessar o tesouro da torre. Hergé, em seguida, fará seu herói correr sobre a montanha em busca do cetro de ouro de três pontas… A aventura iniciática, porque esta é também importante, termina à meia-noite, depois de uma busca que durou sete dias. É exatamente, mais uma vez, o esquema temporal que Hergé respeitará. Os fundamentos míticos são muito precisos que anunciam um cavaleiro esperado, predestinado, superior a todos os outros, um dos cavaleiros da Távola Redonda. O assento sobre o qual ele fica é chamado de cadeira perigosa porque ela está suspensa sobre o vazio. Hergé, ao enviar seu herói ao reino invisível, o faz se sentar em uma cadeira igual, sob a qual se abre o abismo: um assento de avião colocado sobre um alçapão. O Cavaleiro esperado ali, superará a prova e assumirá, na saga do Graal, o apelido de Cavaleiro da charrete. Percebemos há pouco, Tintin, herói invencível precipitado no vazio, será salvo por uma carroça de palha, depois atravessará a grande floresta, assim chamada no romance, protegido pela Dama, Blanchefleur. Quem agora vai se surpreender com o nome de Bianca Castafiore, a Branca e Casta Flor? Ela permitirá a Tintin escapar do ataque preparado na “grande floresta” nomeada de maneira semelhante por Sirov página 26 C2…

Hergé, um iniciado?

Mas pode-se dizer que Hergé foi um iniciado? Pode-se suspeitar ou ler uma confissão quando ele desenhará seu pai e seu tio, irmãos gêmeos, em Dupond e Dupont sob a insígnia ACACIA em O Segredo do Unicórnio, página 34. “Estar sob a Acácia” não se traduz por “Ser maçom, trabalhando em uma loja”? Mais tarde, ele fará de forma que Tintin seja nomeado “meu pequeno Lawton”, homônimo de um filho de maçom adotado por uma loja, ou seja um Lowton, no Caso Girassol, página 24…

Para se aproximar de uma resposta decisiva, além das que nomeei nesses pequenos detalhes, devemos encontrar, ler uma assinatura irrefutável: o compasso, o esquadro e o GADU. Esta assinatura está presente em letras maiúsculas na capa da penúltima aventura: O Voo 714 para Sydney. Voo em francês é VOL e a palavra contém o V (compasso), o L (esquadro perfeito) e o O (bolha do nível). 714 é tão portador de sentido que Hergé o usará repetidamente em sua obra. Por exemplo, com o produto que decuplica o poder explosivo do petróleo, o N14 do País do Ouro Negro (N sendo o nitrogênio e valendo 7) ou no slogan do jornal Tintin para jovens de 7 a 77 anos. Aqui reconhecemos a números de vingança do Cavaleiro Kadosh e é quase impossível não associar a imagem do Capitão Haddock gritando um enorme VINGANÇA em sua primeira aparição sob a pena de Hergé em O Caranguejo de Pinças de Ouro. 714 se revela plenamente pela gematria. Vamos lê-lo com uma lupa:

  • “7” é a sétima letra do nosso alfabeto e é a letra “G”.
  • “1” é a letra “A”.
  • “4” é a letra “D”.

Resta realizar as operações tradicionais. A primeira consiste em adicionar cada unidade e, no nosso caso, fazer a soma de 7 mais 1 mais 4, igual a 12, a letra “L”. A última adição possível refere-se a 7 e 14 (71 e 4, ultrapassando o alfabeto, não tem nenhum sentido) que é igual 21, a letra “U”. Lido assim, 714 se soletra como GADLU! (GADU em francês). Quando os Dupondt ingerirão inadvertidamente o N14 no deserto em O País do Ouro Negro, fazendo crescer neles uma longa barba de venerável e Hergé os desenhará sobre um piso mosaico página 60 do referido álbum…

Hergé, alquimista

Conhece-se o interesse que tinha Hergé por parapsicologia, e ignora-se muitas vezes uma outra de suas paixões, a alquimia (3). É uma história em quadrinhos que precede em cerca de 250 anos a obra de Hergé e que dá em 15 placas gravadas em cobre a receita da Grande Obra. Ela aparece em La Rochelle em 1677 e é chamada Mutus liber. Sobre estas placas figuram sete pequenas ampolas de vidro em um athanor dispostas sobre um palco de teatro. O leitor curioso deve munir-se do Livro Mudo e do álbum As 7 Bolas de Cristal, e que ele compara os episódios que se desenrolam no teatro. Lá onde Mutus liber mostra um casal de joelhos em que um dos atores é animado por grandes movimentos de braços, Hergé desenha, quanto a ele, um homem e uma mulher cuja sombra (uma raridade gráfica em Hergé) os mostra de joelhos. O homem, um faquir, executa os mesmos grandes gestos para hipnotizar sua parceira. Lá onde o Mutus liber nos mostra uma amazona (reconhecível por seu seio esquerdo atrofiado) mirando com suas flechas um alvo redondo e uma personagem coroada por um sol, Hergé desenha um lançador de punhais da Amazônia e o mesmo alvo nas mãos de um “nobre filho do sol”, um Inca. E o que dizer da incrível e altamente improvável iluminação de Tintin que, tendo definitivamente perdido o rastro de Girassol “volatilizado”, grita na página 58: “Oh! Mas eu acho que tenho uma ideia… “? Esta será procurar seu amigo em La Rochelle, onde apareceu o Mutus liber (4)… Ele vai encontrar ali um garoto jogador de bola de gude, o polegar enterrado na palma da mão, uma meia descendo sobre seu tornozelo enquanto a primeira prancha do Mutus liber exibe uma jovem com o braço esquerdo abaixado e escondendo seu polegar na palma da sua mão.

Um outro painel de loja

Outra referência à maçonaria, que se pode destacar e revelar decora a quarta capa de todos os álbuns publicados desde 1945 até 1975, antes da publicação de Pícaros. Sua fama dispensaria quase apresenta-la e descrevê-la; ela é parte do patrimônio iconográfico do século XX. Em um pergaminho com bordas irregulares, cortadas as personagens símbolos criadas por Hergé passeiam por um gramado idílico: Tintin, Milu, o Capitão Haddock, o Professor Girassol, os Dupondt, mas também Jo, Zette, Jocko, assim como Quick e Flupke. Dois postes solidamente enterrados suportam um painel publicitário enumerando as obras publicadas. Múltiplos marcadores permitem encontrar elementos das primeiras 11 aventuras de Tintin e Milu.

Ao leitor, agora, pegar um álbum e compará-lo com este pergaminho com o Painel de loja reproduzido aqui.

Esta é a imagem 2D de um templo maçônico, onde são mostrados os símbolos de um grau, ou nesse caso, o de companheiro. “Tudo está ali!” como o próprio Hergé dizia comentando um de seus desenhos favoritos do Tesouro de Rackham o Vermelho (5). As duas colunas estão bem no lugar. Uma delas é marcada com um sinal, como a que leva o sinal de Kih-Oskh. Esta é a coluna onde deve ficar o Segundo Vigilante (o guarda, o vigilante) e onde Hergé instalou Tintin, o eterno jovem. A outra coluna acolhe o Primeiro Vigilante. Hergé senta ali o Capitão Haddock. Lá onde o simbolismo maçônico situa a pedra bruta, Hergé desenha a Ilha Negra, ao norte, onde a luz é tão fraca e esconde o bruto Ranko. Ao Sul, uma Ilha queimada pelo sol, lembra o aerólito de A Estrela Misteriosa: pedra divina, outra pedra cortada à perfeição, imagem do perfeito maçom. Entre as colunas, há dois moleques de rua, Quick e Flupke. Flupke com cabelo dourado está à direita, ele é um outro sol que o painel de loja coloca também à direita. Seu comparsa Quick está vestido de verde esmeralda e a cabeça coberta por uma boina de Pierrot Lunaire. Ele não poderia estar melhor situado que a lua, colocada à esquerda no painel (6). Será também fácil reconhecer objetos parecidos com o esquadro, o compasso e o prumo… Em primeiro plano, todos os personagens parecem nadar em felicidade e despreocupação, eles estão no Ocidente, em uma terceira ilha, a Ilha dos Bem-aventurados, a ilha sem sombras do pleno meio-dia, a hora teórica de abertura dos trabalhos em loja. Como não comparar o desenho de Hergé à Ilha tripla dos gnósticos? A primeira é hílico é o corpo, o elemento terra, o Norte; a segunda é psique, é a alma, o elemento fogo, o Sul; a terceira pneumática, suporta o espírito, o elemento água, o Ocidente.

Por último, mas não menos importante, acima das cabeças, Hergé desenhou seu pequeno hidroavião amarelo este precisamente a estrela misteriosa, que faz uma estrela flamígera perfeita ardendo como o sol nascente, no Leste.

Este hidroavião força os olhos para o céu e para ler a imagem da hidra, constelação dos alquimistas cuja principal estrela, símbolo da Pedra Filosofal se chama Alphard, homônimo do álbum póstumo de Hergé, Tintin e a Alph-Art.

Quando um jovem 7 a 77 anos lê um dos 22 álbuns das aventuras de Tintin, ele segue sobre 63 páginas uma sutil iniciação, ele segue uma pequena pedra cúbica que rola sobre um jogo de tabuleiro, e sem dúvida ele atinge assim a luz…

 

Notas:

1: Os Mestres Escoceses de Santo André que lerem esta linha se lembrarão de sua iniciação e relerão com prazer as aventuras de Tintin e dos Dupondt retornando de uma ilha na Escócia, depois de serem libertados de suas correntes em torno de seus pulsos.

2: Todas as palavras em negrito são retiradas desta lenda.

3: Pascal Bruckner em A seguir, série especial Hergé 1983.

4: O Maçom agora iluminado também lerá dentro das páginas deste álbum os rituais do Aprendiz e do Mestre. Basta mencionar aqui Tintin guiando seu amigo Haddock pelos corredores proibidos, através de uma escada em espiral, em seguida, olhar, pedir e bater na porta da loja, para o convidar ou seja incentivá-lo a mergulhar ali.

5: Página 25 A1.

6: Encontramos todas essas comparações explicadas mais extensivamente em meus dois livros dedicados ao simbolismo em Hergé e publicados por Dervy: O mundo desconhecido de Hergé e O Demônio Desconhecido de Hergé.

Publicado 03 de julho de 2017 em https://www.fm-mag.fr/article/focus/les-voyages-alchimiques-dherge-1564

 

Georges Prosper Remi (Etterbeek22 de maio de 1907 — Woluwe-Saint-Lambert3 de março de 1983), conhecido pelo nome Hergé, foi um escritorartista, e desenhista de banda desenhada ou história em quadrinhos belga francófono. Tornou-se famoso como criador do consagrado e mundialmente conhecido personagem e herói Tintim, em As Aventuras de Tintim, que ele escreveu e ilustrou a partir de 1929 até à sua morte em 1983.

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Publicado on julho 7, 2017 at 10:50 am  Comentários desativados em Arte e Maçonaria: As viagens alquímicas de Hergé – autor de As Aventura de Tintim  
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