Anais do Colégio Invisível IX – O Caminho Interior

JOSCELYN GODWIN

Tradução: S.K.Jerez

 Os membros do Colégio Invisível não constituem uma ordem nem um tipo de círculo ou conciliábulo no sentido corrente, mas sua “colegialidade” existe em um plano mais elevado. Não se conhecem nem atuam de comum acordo, mas uma comunidade espiritual os une.

É um fato evidente que, nas esferas mais elevadas da mística, as experiências dos que provêm de diferentes religiões e grupos étnicos tendem a confluir, por exemplo, em uma auto identificação com a Divindade e em uma inexpressável certeza que transcende as imagens e palavras que aqui abaixo formam barreiras. Uma vez que tais experiências também transcendem a percepção de tempo, espaço e causalidade, talvez não importe quando e onde viveram essas pessoas. Não é um grupo que reúne, mas um número de canais separados, abertos para a Vontade Divina, que desse modo realizam necessariamente seu labor na Terra.

Não há garantia de que a “Vontade Divina” seja única e uniforme para todas as pessoas e para todos os tempos. Aparentemente é muito mais provável que se regozije com a variedade e, nos atreveríamos dizer, com o conflito. Pois não há nada como o conflito para concentrar nossas intenções e fortalecer nossa determinação. É provável que os Sábios concordem de maneira sublime nas cortes celestiais, mas são tudo, menos uniformes, em suas personalidades terrenas. Tampouco parecem estar acostumados a se agrupar, como se fazê-lo fosse para eles quase uma perda de esforços. O contrário, semeiam grandes árvores solitárias, de distintas espécies, que protegem e hospedam individualmente inumeráveis criaturas menores, e provêm sementes que podem ou não chegar a ser tão grandes quanto eles.

Uma árvore dessas foi Jacob Boehme (1575-1624), o sapateiro de Görlitz, que criou o nexo histórico entre os místicos do Reno (Meister Eckhart, Suso, Tauler, etecetera) e os teósofos dos séculos XVII, XVIII e XIX. Os escritos de Boehme são atualmente de muito difícil leitura, mas a sua existência brilhou como um farol através das obscuras épocas do “iluminismo” secular. Tratava-se de um artesão e pai de família – não de um pastor, um monge, um cardeal ou um aristocrata – que foi eleito para desentranhar mistérios muito profundos, e que não viveu apenas a crença que era conveniente para sua posição social, mas viveu a lúcida consciência de Deus. O exemplo de Boehme demonstrou que o Cristianismo poderia ser mais do que ética e Escrituras (ainda que ele fosse um grande conhecedor delas), e mais que ritos, estética e sacramentos. Poderia ser uma realidade interior mais real que tudo o que existe no mundo e mais preciosa que tudo o que o mundo podia ensinar. Tal como ele mesmo diz, referindo-se à sua grande experiência de 1600: “nesse quarto de hora vi e aprendi mais do que se tivesse estudado muitos anos em uma universidade… Pois percebi e reconheci o Ser de todos os seres”.

O que mais diferencia a teosofia cristã da tradição – principalmente católica – da mística é que, como caminho experimental, se dirige tanto ao intelecto como às emoções. Não precisa de aspecto emotivo e tampouco de seu próprio erotismo espiritual, mas também penetra nas atividades da metafísica e da cosmogonia. Talvez possa ser desnecessário saber como funcionam as partes da alma e do espírito humanos que fazem as diferentes hierarquias angelicais, ou quão complicado é o próprio ser de Deus. Não obstante, alguns são naturalmente inquisitivos e não se contentam quando lhes dizem “não te metas naquilo que não te diz respeito e deixa estas questões em mãos de quem as entendem”. A mensagem de Boehme é esta: “Eu as entendo porque as vi, as senti e as fui”. Se o homem é capaz disso, por que não utilizarmos nosso divino dom cognitivo em lugar de nos escondermos sob uma ignorância disfarçada de humildade?

A Teosofia leva o princípio protestante à sua conclusão suprema. O “sacerdócio de todo crente” e o direito a indagar nas Escrituras se elevam do sermão e do estudo bíblico até transcendentais experiências e iluminações. Tampouco faltam teósofos católicos, como Louis-Claude de Saint-Martin ou Franz von Baader, que também cansados da complacência e negligência na qual sua religião se havia afundado, tomaram Boehme como seu mestre.

O aspecto intelectual da teosofia vai além de meramente satisfazer a curiosidade: é uma Gnose, ou seja, a integração consciente do ser humano com sua própria natureza transcendente. Fiel ao princípio hermético (“como é acima, é embaixo”), o Deus que Boehme descobre é também ele mesmo que se descobre como ser divino. Seu Deus é um processo angustioso e dinâmico no qual o Imanifesto dá a conhecer a si mesmo. As sete qualidades que este processo cria geram o cosmos com todas as suas variedades e sua evolução cíclica e igualmente agonística. Por conseguinte, as contradições e os conflitos que bem conhecemos têm suas raízes não só na rebelião de Lúcifer e na queda do Homem, mas também no próprio ser de Deus. Participamos no processo como indivíduos, como raça humana e como Natureza. “Efetivamente, Deus se acha tão perto de ti que o nascimento da Sagrada Trindade se efetua ou opera inclusive em teu coração, sim, as três Pessoas foram geradas na plenitude em teu coração, inclusive Deus Pai, Filho e Espírito Santo” (Aurora 103). “De maneira que cada um chega a ser um Cristo (ou um Ungido) a partir desta deificada raiz que se abre dentro de sua própria alma” (Jane Leade).

A ortodoxia evita com razão estas expressões pelo dano que podem causar às almas débeis e sugestionáveis. Mas, assim como todos os Sábios se encontram no topo da montanha, essas expressões são o lugar no qual, como Boehme bem sabia, se encontram juntos o Cristianismo e a Kabbalah, o Hermetismo e a Alquimia, aos quais podemos somar o Sufismo, o Hinduísmo dos Upanishads e o Budismo Mahayana.

O físico Basarab Nicolescu também demonstrou o paralelismo que existe entre o sistema de Boehme e a física pós-quântica. Não lhe parece inconcebível que o olho espiritual possa revelar verdades fundamentais sobre a natureza das coisas, que os cientistas ainda estão descobrindo de maneira mais vagarosa e unidimensional. Nicolescu reclamou em voz alta e com clareza para que se reconheçam os valores metafísicos produzidos pela teosofia e pela física moderna, junto com uma ciência ética e uma nova Filosofia da Natureza. A Natureza dos teósofos não é um impulso automático nem cegamente evolutivo, mas um ser consciente e – o que resulta bastante estranho – uma parte do homem, pela qual ele é responsável.

Os princípios tratados na cosmologia de Boehme, da mesma forma que na física, são poucos e fixos, e apresentam números simples. Mas o modo com que operam aqui embaixo não foi determinado ainda, como também não o foi o destino deste particular experimento humano e natural. O fato é que a ciência acaba de pôr potenciais ferramentas de destruição e transmutação nas mãos de seres luciferinamente ignorantes. Há alguma possibilidade de iluminá-los ou essa será outra criação que fracassará? O cientista consciente tem que ser pessimista, mas o teósofo sabe que, qualquer que seja o destino deste planeta, o indivíduo ainda tem a possibilidade de conseguir nesta vida o que Boehme chama de “novo nascimento”.

Os seguidores de Boehme na Alemanha e Holanda, França, Inglaterra e Pensilvania são um brilhante fio da Gnose que atravessa a desolado paisagem religioso de princípios da história moderna. Alguns deles são solitários, como Saint-Martin, enquanto outros formaram estreitos círculos, como o de John Pordage e Jane Leade em Londres. Johan Georg Gichtel, de Amsterdam, que foi um dos mais criativos exegetas de Boehme, criou uma “Sociedade dos Trinta”, dispersa em várias cidades. Todos os nomeados não foram meros estudantes, pois fizeram suas próprias experiências teosóficas através da qual confirmaram as de Boehme. Outra modalidade foi a da comunidade quase monástica de Conrad Beissel, que chegou ao Novo Mundo em 1720 e cujos belos e austeros edifícios ainda estão em pé em Ephrata, Pensilvânia.

Em princípio, o caminho do teósofo cristão é uma senda estritamente interior, sem necessidade de que outros o saibam. Não há relatos sobre quantas almas sinceras o percorreram com ou sem a ajuda de Jacob Boehme. Não obstante, é razoável perguntar-se até onde o outro tópico deste ensaio – a Alquimia –também é uma senda interior.

Em muitos aspectos, a Alquimia e a Teosofia são paralelas, se é que não idênticas em sua intenção; mas seu vocabulário imaginal é diferente. A teosofia cristã espera, e recebe experiências no mundo imaginal que se revestem de figuras bíblicas e símbolos: a Trindade, Lúcifer, Cristo, a Virgem Sophia, etc. Os dramatis personae da alquimia consistem mais de metais e minerais (Mercúrio, Enxofre, Sal, Magnésio, Antimônio, Prata, Ouro, etc.), uma coleção de animais e aves (Dragão, Leão, Sapo, Águia, Pelicano, Perú Real, etc.) e uma quantidade de figuras da mitologia clássica (os sete deuses e deusas planetários, mais Hércules, Atalanta, Osíris, etc.). Com segurança, na alquimia houve “roupagens” cristãs (e também judaicas e islâmicas), tal como a teosofia de Boehme tem uma “roupagem” alquímica, mas seus princípios e metas foram estabelecidos independentemente de Moisés e antes de Cristo.

A literatura alquímica se propõe a ensinar como devem ser trabalhadas as substâncias físicas, e um primeiro nível interpretativo de seus símbolos constitui um código pré-científico de procedimentos químicos. Os historiadores da ciência mostraram que os textos alquímicos ensinam como se deve fazer, por exemplo, para extrair ouro de minerais compostos valendo-se do antimônio. Mas, especialmente desde 1600, coincidindo com a teosofia de Boehme e movimentos afins, os textos alquímicos se tornaram, aparentemente, cada vez menos químicos. Autores como Heinrich Khunrath, Cessare della Riviera e Thomas Vaughan estão claramente menos interessados no trabalho de laboratório do que em uma alquimia espiritual.

O princípio da alquimia espiritual estabelece que as substâncias representem elementos existentes no homem e no mundo espiritual, e os procedimentos têm lugar dentro de sua alma. Eis aqui alguns exemplos: o alambique ou o crisol é o complexo psicofísico humano, e o laboratório é o mundus imaginalis, o universo real, mas que não é físico, no qual têm lugar as transmutações espirituais. O fogo é o esforço interior e deliberado que se efetua durante a meditação, o qual pode chegar a induzir uma sensação de calor, e sua regulação se realiza mediante controle da respiração, como na yoga. A purificação do material requer agora um controle além do normal da mente (= a “fixação do Mercúrio”), mas o trabalho real de transmutação ocorre só então. Corre-se um perigo verdadeiro: que o recipiente rache presumivelmente por esgotamento físico ou nervoso. O operador enfrenta em cada etapa forças opostas às quais deve dominar ou, caso contrário, deve retroceder, e tentar de novo. Como no cosmos de Boehme, estes são seres reais que procuram afastá-lo de sua meta; e, ao mesmo tempo, formam parte dele mesmo. É necessário fazer heroicos esforços e vencer múltiplos temores para manter “intacta” nossa matéria ao longo da obra, ou seja, persistir nesta busca interior que põe o buscador em situações absolutamente inimagináveis para um estranho. O ouro que finalmente fica no crisol é o Ser do herói totalmente transformado que liderou a batalha e ganhou. É também a Panaceia Universal porque é a cura de todos os males que são produto da mortalidade. Para quem em seu coração (para citar a Boehme) “operou a Sagrada Trinidad”, a morte não pode ser nada mais que um acidente químico.

C. G. Jung contribuiu revitalizando a alquimia perante o público ilustrado e a livrou de ser uma nota de pé de página na história da química. Sem interessar-se na alquimia operativa, mostrou que os processos descritos podiam ser interpretados como tendo lugar – de maneira simultânea ou exclusiva – no psíquico ou na alma. Não obstante, a “integração da personalidade” segundo Jung, apenas parece equivaler à espantosa meta anteriormente descrita, ainda que pudesse se tratar de um sábio requisito prévio.

Quase simultaneamente com o estudo de Jung sobre a alquimia, houve um protesto contra a tendência muito “internalizante”. Os escritos do misterioso Fulcanelli foram a origem disso, ainda que ninguém saiba onde estava seu laboratório e que fez realmente ali, e nem sequer quem foi ele. Não obstante, a França se converteu no centro de um novo interesse pela alquimia operativa.

Depois da segunda guerra mundial, o Frater Albertus (Riedel) e Jean Dubuis, fundador dos Filósofos da Natureza, romperam com os centenários hábitos obscurantistas e secretos, e ensinaram os processos espagíricos em modernos laboratórios. Deixaram de lado o objetivo de transmutar “chumbo” em “ouro”, entendido isso tanto espiritual como materialmente, e estabeleceram metas mais acessíveis, especialmente a preparação de medicamentos. Os novos alquimistas trabalham com substâncias físicas, mas com conhecimento das forças sutis (planetárias, elementais e, inclusive, angelicais) e com o efeito do operador sobre o material. De modo reverso, o processo espagírico se reflete, ao estilo de Jung, na alma do operador.

Aqui não faz sentido o princípio científico universal de que o experimento deve ser reproduzível: as coisas não funcionarão se a pessoa carecer da “virtude” requerida. Tampouco existe uma rígida divisão entre o corpo e a alma, que se acham estreitamente vinculados pelo princípio de correspondência. É de suma importância uma atitude reverente para com a Natureza. Se existe uma vanguarda da ciência do futuro – a única classe de ciência que podemos sustentar – essa vanguarda está aqui.

Aqueles que propõem diferentes classes de alquimia são psicologicamente diferentes entre si e, como tais, é pouco provável que concordem em seus respectivos métodos. Os que trabalham com substâncias físicas o fazem porque isto lhes agrada, mas, igualmente, o processo de transmutação humana pode avançar sem o tempo, o espaço e os gastos de um laboratório bem equipado. Do contrário, o pobre Jacob Boehme não teria ido longe. Não obstante, se é que podemos dar crédito ao que lemos, não é extraordinário que as receitas químicas do Egito alexandrino, quando interpretadas de um modo funcionam no laboratório, e quando de outro, proporcionam uma guia confiável na senda teosófica?

Efetivamente, é extraordinário que a mente moderna, tão brilhante em física e química, seja tão ignorante enquanto ao mundo interno e imaginal. Quase enternece esta fé que as pessoas têm de que o mundo material é o único real, e todo o resto seus epifenômenos. Mas, o que ocorreria si invertêssemos as coisas e sugeríssemos que o mundo interno precede o externo? E que a imaginação, em lugar de vir após um acontecimento, o precede? E que vemos as estrelas pela única razão de que nesse momento compartilhamos de sua perpétua criação? Então, os estados mentais e imaginais seriam os que teriam precedência, seguidos pelos procedimentos químicos. Como pessoas normais sub-evoluídas só somos capazes de perceber e viver em um mundo normal e sub-evoluído, e este é o mundo que a ciência conhece. Mas, aparentemente, é provável que uma vez que dominássemos os estados conscientes sobrenormais, passaríamos a viver em um mundo sobrenormal com leis distintas das da física clássica. Isto explicaria as curas milagrosas atribuídas a Cristo e a outros, e até a transformação do chumbo em ouro.

 

Tradução: Héctor V. Morel in http://www.symbolos.com/s21godwin_camino_interior.htm 

 

 

Publicado on março 28, 2014 at 4:58 pm  Deixe um comentário  

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