A Última Ceia: A Grande Liquidação da Igreja na Alemanha

Tradução José Filardo

Por Matthias Schulz

Das letzte Abendmahl

A cada vez mais minguada frequência à igreja e dificuldades financeiras estão forçando as igrejas católicas e protestantes na Alemanha a vender edifícios de igrejas em massa. Alguns são demolidos, enquanto outros são transformados em restaurantes ou centros fechados de escalada.

O grupo encarregado de demolir a Igreja da Sagrada Família no norte da cidade alemã de Barmstedt chegou bem cedo e começou por remover a pia batismal. Em seguida, um trator entrou e derrubou o salão principal da Igreja e o campanário. No espaço de umas poucas horas, esta casa de culto ao todo poderoso foi reduzida a uma pilha de escombros.

“Muito doloroso”, é como o Rev. Stefan Langer descreve a demolição desta igreja ao norte de Hamburgo.  Por anos, Langer supervisionou batismos, casamentos e serviços aqui, mas agora o antigo recinto Igreja está quase vazio.  A Congregação colocou o lote de terreno a venda, anunciando a propriedade como “terrenos para loteamento” em uma “localização privilegiada” e pedindo um preço de €310.000 (R$ 750.000).

“Sobre esta pedra edificarei a minha igreja,” disse Jesus com confiança. Ele nada disse, no entanto, sobre a demolição daquelas igrejas.

Dois milênios depois, as igrejas são obrigadas a fazer cortes dramáticos devido a dificuldades financeiras e declínio do número de fiéis. “Entre 1990 e 2010,  fechamos 340 igrejas e entre elas, 46 foram demolidas,” diz Thomas Begrich, chefe de finanças da igreja evangélica da Alemanha (EKD),  a maior Federação de igrejas protestantes da Alemanha. E isso, diz Begrich, é só o começo. “Pode ser necessário renunciar a cerca de 1.000 edifícios adicionais”, disse ele.

As Igrejas estão sendo demolidas por toda a Alemanha. Tomemos, por exemplo, a cidade de Frankfurt am Main.  Na década de 50, quando Konrad Adenauer era o Chanceler alemão, havia 430.000 protestantes vivendo na cidade. Hoje, esse número é 110.000. Esses números em queda forçaram as autoridades regionais da Igreja a fechar uma em cada quarta casa de culto.

De Centros de arte a salões de baile

Em Hamburgo, neste meio tempo, uma antiga igreja protestante acabou na posse da comunidade muçulmana pela primeira vez, depois de um antigo edifício de igreja no bairro Horn da cidade foi vendido em 2005 para um empresário que, em seguida, vendeu a propriedade a um centro islâmico.

Os membros da Igreja ficaram indignados sobre a transação, mas a EKD teve pouca escolha. Se um comprador não pode ser encontrado e um edifício é deixado vago e de pé, eventualmente a única outra opção é permitir que os tratores o arrasem.

E as coisas não são diferentes para a Igreja Católica. Há igrejas permanente vazias mesmo na ferrenhamente Católica Baviera, e uma delas teve até mesmo de ser fechada no famoso local de peregrinação de Telgte, perto de Münster.

A cidade central alemã de Börssum, no estado da Baixa Saxônia, oferece um exemplo típico — a Igreja de Saint Bernward aqui está ameaçada de demolição. A Igreja tem seu nome em homenagem ao bispo Bernward de Hildesheim, que viveu entre cerca de 960 e 1022 e construiu torres defensivas e fortes para proteger seus seguidores contra ataques de normandos e outros hereges.

Agora, porém, muitos dos próprios moradores de Börssum poderiam enquadrar-se nessa categoria. Os números mais recentes mostram que apenas cerca de 5 por cento dos membros da Igreja em Börssum assistem aos cultos dominicais. O rol de reparos necessários ao edifício da Igreja, entretanto, atinge um total de €134.500 (R$320.000).

Há também muitos edifícios de igrejas na Alemanha que já vêm sendo usados para outros fins, desde aulas de arte até cursos de esportes. Há igrejas que servem como locais de evento ou oferecem espaço de armazenamento a empresas. A Abadia de St. Maximin em Trier agora serve como um ginásio de escola, enquanto a Igreja do Sagrado Coração de Katlenburg abriga uma escola de dança e Pilates.

TURNHALLE ST.MAXIMIN

A Igreja de St. Maxim em Trier, uma antiga abadia, agora abriga aulas de educação fisica e audições de concertos.

‘Isso me deixa doente’

Quando um pastor local anuncia que chegou a hora de uma igreja realizar sua última ceia, a declaração faz com que muitos coração pesem entre os membros da Congregação, que se reúnem nos bancos das igrejas, contritos e muitas vezes chorando, ninguém bastante ousado atacar um hino.

Congregações protestantes tendem a ter uma abordagem simples:  Recolher a Bíblia, a cruz e a outros itens litúrgicos, e o último a sair fecha a porta — o que é suficiente para fechar e desconsagrar uma igreja.

Para os católicos, por outro lado, cada casa de culto é um lugar sagrado e deve ser oficialmente desconsagrado. Somente um bispo ou alguém delegado por um bispo tem autoridade para realizar este ritual.  Com o ar denso com incenso, o bispo ou o delegado primeiro lê um decreto oficial; em seguida, enrola a toalha do altar, esvazia o sacrário, onde são armazenadas as hóstias e extingue a luz eterna.

O Rev. Michael Kemper, que rezou uma última missa de Corpus Christi na sua Igreja de Duisburg, diz que ainda lhe dói recordar-se andando sob o dossel de altar em seu manto coral clarinho, diante de fileiras de almas amargas. “O fechamento dessas igrejas me faz mal,” ele disse.

Que está acontecendo, no entanto, não é uma grande surpresa. Por 2.000 anos, o Cristianismo viveu e prosperou com base no fervor de seus missionários, mas há poucas pessoas estes dias que querem ouvir aquela mensagem. “Apenas 13 por cento das crianças nascidas hoje serão batizadas como protestantes,” diz Thomas Höflich, um superintendente da Igreja em Hannover, ao explicar as difíceis decisões de redução da Igreja.

Um pedacinho de casa

A situação das igrejas católicas é particularmente ruim na região do Ruhr, no oeste e no norte da Alemanha, lugares que viram um afluxo de refugiados provenientes da antigas terras alemãs da Silésia e Prússia Oriental após a Segunda Guerra Mundial. A Igreja estabeleceu pequenas “filiais” nessas áreas, para que sempre houvesse um confessionário para os paroquianos a uma curta distância.

Mas agora essas pequenas casas de culto, muitas vezes construídas em estilo moderno desagradável, estão correm um risco muito  de serem demolidas. Na Diocese de Hildesheim, uma em cada duas está na lista de igrejas ameaçadas de extinção, enquanto na Diocese de Essen, 83 igrejas estão destinadas à demolição e outras 13 já foram demolidas. A situação é pior em Wilhelmshaven, onde seis em cada nove igrejas Católicas estão programadas para serem destruídas.

Há certamente pessoas na Alemanha–incluindo especialistas em preservação histórica, grupos culturais e urbanistas – que resistem a esta destruição de igrejas. Para muitos alemães, estes lugares de culto dominical integram um contexto urbano familiar. Como a teóloga Margot Kässmann coloca, as igrejas são “espaços cheios de oração” e cada uma delas que é demolida equivale à perda de um pedacinho de casa.

Mas, quando os oficiais da Igreja explicam que há pouco sentido em aquecer uma igreja de tetos alto que não tem isolamento térmico todos os domingos para apenas 10 paroquianos, esses críticos do fechamento de igrejas também ficam perdidos, sem saber o que dizer.

E assim continua a demolição.  Na parte oriental do país, mais de 200 igrejas de aldeia estão gradualmente se desintegrando. Na cidade de Wiesbaden, até mesmo uma igreja que era listada para preservação histórica foi recentemente demolida.

Mas toda nuvem negra tem seu lado brilhante, e neste caso existe a oportunidade para congregações necessitadas transformar itens não mais necessários, tais como caixas de coleta e altares de madeira em dinheiro através de novos websites dedicados especificamente a este fim, tais como o “Kircheninventar-verkauf.de.”

As congregações podem até mesmo vender os próprios edifícios on-line. A Arquidiocese de Berlim é ativa no eBay, onde está oferecendo à venda “uma igreja em uma área residencial popular” da cidade vizinha de Brandemburgo.

Mas, mesmo assim, muitas dessas propriedades não encontram um comprador. A maioria das igrejas tem piso frio e tetos altos de até 10 metros de altura ou mais e faltam-lhes instalações de cozinha. Mesmo preços de liquidação muitas vezes não são suficientes para um incentivo. A capela Maria Goretti em pequena cidade a nordeste de Demmin, por exemplo, custa apenas €20.000 (R$ 48.000), mas ninguém quer comprá-la.

Uma igreja que tem estado permanente vazia por meses na pequena cidade alemã ocidental de Altena fornece outro exemplo de quão lentamente estas vendas se desenvolvem. “Construída em 1907 e toda em pedra natural!” anuncia o corretor de imóveis  Dan Ossenberg-Engels, produzindo uma chave de ferro e abrindo a porta principal do edifício, que range quando ele a empurra.

Luz azul se filtra através de janelas rosadas, iluminantes bancos de madeira e um enorme lustre. Ossenberg Engels relata “um potencial comprador queria colocar em um teto falso e viver aqui”. Agora o corretor de imóveis está em negociações com um empresário que quer converter o edifício em um clube noturno. O púlpito certamente serviria bem como uma plataforma de DJ.

Transportada de caminhão para a Romênia

Hip-Hop substituindo Aleluia –  ir longe demais? O que é aceitável e o que cruza a linha para o sacrilégio?

A protestante EKD fez sua paz com suas propriedades serem tomadas por grupos que desconsideram a antiga finalidade dos edifícios. Ainda, se puder escolher, a Igreja prefere fins que preservem a “dignidade do espaço,” tais como asilos ou pré-escolas. A Igreja também tem fica feliz em aceitar que um de seus antigos prédios seja posto em uso como um local para enterrar urnas de cremação, ou convertidos em salas de prática de coro. Em Boostedt, no norte da Alemanha, um empresário até usa uma antiga igreja para exibir seus caixões.

A Igreja fica ainda mais feliz se ela puder encontrar compradores que sejam cristãos, por exemplo, congregações ortodoxas russas ou sérvias. Uma igreja perto do Lago Steinhude até mesmo foi rebocada para a Romênia por caminhão, para ser usada por uma congregação de lá.

Tais correspondências ideais, porém, são raras.  E, ao mesmo tempo, o número de propriedades à venda só está aumentando.  A nova Igreja Apostólica, por exemplo, também está afundando e colocou mais de 60 de suas propriedades à venda on-line.

Essas igrejas não têm nenhuma escolha, a não ser fazer compromissos. Uma capela de funeral em Berlim agora está sendo usada como um teatro, enquanto o Santuário de uma igreja na cidade de Milow, no norte, abriga uma ATM.

Kirche wird zur Kneipe umgebaut

O dono de restaurante, Achim Fiolka criou um restaurante na Igreja de St. Martin em Bielefeld, onde os clientes relaxam -se em espreguiçadeiras e jantam creme de trufa com molho wasabi, ao som de um piano.

Para a Igreja Católica, isso é ir longe demais.  Embora a Igreja tenha permitido que algumas de suas propriedades fossem entregues para usos menos que sagrados – uma instalação de escalada, por exemplo, com um bar de vitaminas na nave e chuveiros na antiga sacristia – na maioria dos casos, a Igreja tem uma abordagem mais rigorosa. Se um edifício está em perigo de cair e nenhum comprador adequado pode ser encontrado, a Igreja Católica prefere simplesmente derrubá-lo.

Não Para Outras Religiões

Um ponto em que as igrejas Católicas e protestantes parecem concordar é que seitas e outros grupos religiosos geralmente não são aceitáveis como compradores. Um manual emitido pela igreja protestante em Hesse e Nassau diz que para evitar aumentar a “névoa da difusão religiosa”, a venda de edifícios de Igreja a muçulmanos ou budistas, por exemplo, “não é possível.”

Quando as comunidades muçulmanas, mesmo assim, assumiram antigos edifícios eclesiásticos, eles geralmente são propriedades que pertenceram a igrejas não afiliadas. Em quatro casos até agora, tais igrejas venderam edifícios a congregações muçulmanas. Além disso, há uma antiga igreja protestante no distrito Horn de Hamburgo que passou por uma etapa intermediária antes de ser comprada por um grupo  muçulmano.

Não há dúvida quanto a isso — o espírito de luta de igrejas cristã é uma coisa do passado. A publicação Spirit estima que de cerca de 45.000 igrejas na Alemanha, 15.000, em breve, não serão mais necessárias. Estes edifícios são simplesmente demasiados opulentos, vazio demais e caro demais para manter, algo parecido com uma avó envelhecida ainda morando em uma mansão, quando apenas um quarto seria suficiente.

Mas tudo isso não deve preocupar as mentes piedosas demasiado indevidamente. A própria Bíblia oferece fé e amor, consolo e esperança, suficiente para cobrir até mesmo este problema imobiliário absolutamente moderno.

Mais relevante é a passagem em 2 Coríntios 5:1– “Porque sabemos que se a nossa casa terrena deste Tabernáculo for dissolvida, temos um edifício de Deus, uma casa que não é feita por mãos, eterna, nos céus.”

Traduzido do alemão por Ella Ornstein

http://www.spiegel.de/international/zeitgeist/german-catholic-and-protestant-churches-sell-off-church-buildings-a-883054.html 

Publicado on fevereiro 17, 2013 at 11:04 am  Comments (1)  

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