A “Tradição dos Antigos”: um mito historiográfico francês

 

Tradução J. Filardo

 

 

Por Roger Dachez

Um ensaio de desconstrução das lendas urbanas que ainda persistem em alguns círculos maçônicos franceses …

À luz do que acabamos de ver, uma realidade simples aparece: o que separava os Antigos e os Modernos na Inglaterra, sobre o plano estritamente maçônico e ritual, representava muito pouco, e esta diferença foi diminuindo rapidamente, ao ponto de que foi muito fácil remover completamente os obstáculos que ainda os separavam no final do século XVIII.

É provável que o caso da lei sobre sociedades ilegais (Unlawful Societies Act) em 1799, tenha levado os dois Grandes Mestres das duas Grande Lojas “rivais” a fazer uma abordagem conjunta junto às autoridades para isentar toda a maçonaria dos rigores da lei, o que marcou uma etapa importante na reconciliação – embora não tenha tido origem em iniciativa das próprias Grandes Lojas! É preciso também refletir, sem dúvida, sobre a eliminação da geração fundadora, fortemente envolvida no período mais violento do conflito, incluindo o próprio Lawrence Dermott, que morreu em 1791.

Ainda assim, que o caminho para a união foi pavimentado há muito tempo por múltiplos cruzamentos das práticas entre si, como vimos. Quando a Grande Loja dos Modernos, em 1809, convocou uma Loja de Promulgação para restaurar os “verdadeiros Landmarks,” ela contentou-se em adotar a “antiga ordem das palavras” – isto é, para dizer mais precisamente, a ordem das palavras, tal como praticada pelos Antigos nesta época – afirmar a necessidade dos Diáconos e reconhecer que a instalação secreta do Mestre de Loja era uma cerimônia essencial.

Dois anos após a conclusão dos trabalhos da Loja de Promulgação, que durou até 1811, ou seja, em 1813, a Loja de Reconciliação só tinha que consagrar uma União já amplamente realizada no campo havia um longo tempo.

Um parêntese de mais de 60 anos tinha se fechado. Para os maçons ingleses, não houve vencedores ou vencidos em uma união onde pouca distância intelectual realmente separava os protagonistas. Nem a tradição dos Modernos, nem a dos “Antigos” foi perdida. Não tinham sido, no final, nada mais que duas maneiras de encenar um conteúdo maçônico, filosófico e moral essencialmente idêntico, embora diversamente partilhada no contexto de distância social, rixas pessoais e características locais: a nova Grande Loja Unida iria no futuro assumir indistintamente o legado. Portanto, diga-se de passagem, embora certos usos considerados mais fundamentais pelos Antigos fossem adotados em 1813 por todas as suas lojas, ela pode facilmente comemorar seu tricentenário em 2017, porque ela é ao mesmo título, herdeira indivisível da Grande Loja dos Modernos. A necessidade de unidade que experimentava a Grã-Bretanha no início do século XIX, tanto para resistir à França de Napoleão quanto aos germes da revolução vindos do continente, mas também para se preparar para o seu destino imperial no mundo inteiro, havia sido finalmente, o motivo desses conflitos subalternos cuja dimensão puramente maçônica tinha sido sempre muito modesta.

Uma história francesa

Tudo poderia parar por aqui. No entanto, não é assim: é preciso evocar uma “continuação francesa”. Entramos agora na confusão documental e no mito historiográfico …

É preciso primeiro recordar que a tradição dos Antigos – entendamos: os usos maçônicos próprios dos Antigos – nunca entrou na França ao longo do século XVIII. A única tradição Maçônica conhecida na França naquela época foi aquela transmitida, sob condições ainda parcialmente obscuras, cerca de 1725, por emigrantes jacobitas, ingleses, escoceses e irlandeses. Pouco depois, lojas e maçons de Paris também reconhecem a autoridade da Grande Loja de Londres – de obediência Hanoveriana.

À parte esses fatos, dois mitos historiográficos se contituíram na França no século XX, essencialmente: o primeiro afirma uma oposição maçônica substancial entre os usos, princípios e rituais de lojas jacobitas e aqueles das lojas Hanoverianas1, particularmente em Paris; o segundo traz os escoceses jacobitas que estavam nas fileiras dos primeiros maçons da França, com os graus “escoceses”, que aparecem no alvorecer da década de 1730.

Estes dois mitos historiográficos – porque trata-se de fato disso – eventualmente mais ou menos se confundem. A partir do século XIX, um historiador aventureiro já via na personagem emblemática de Ramsay – tanto escocês quanto jacobita! – a encarnação desta síntese, e não hesitava em creditar a ele a invenção dos primeiros altos graus! Sabemos que esta tese fracassou desde muito tempo e repousa sobre nada, se não confusão uma profunda ignorância da documentação disponível.

Recordemos aqui simplesmente dois pontos:

Em primeiro lugar, não existe nenhum elemento de suporte documental que permita por pouco que seja sustentar que o ritual praticado em Paris nos anos 1725-1735 nas camadas lojas “jacobitas” se diferenciasse em qualquer coisa daquele praticado em outras lojas chamadas “hanoverianas”.

A única diferença mencionada na “loja do Grão-Mestre” – na época do Conde de Derwentwater – em 1737, é o uso da espada para que alguns se compara a uma ordem de cavalaria e julgam isso fora do lugar. Notemos aqui, para sorrir, que esta crítica foi também feita em 1764 por Dermott, contra … os Modernos! Para colocá-lo em poucas palavras, este uso não é certamente suficiente para estabelecer uma distinção fundamental entre os rituais que realmente não diferem, e a presença da espada na loja acabará por se tornar uma das características da maçonaria francesa como um todo – enquanto isso ela permanecerá proibida, tanto entre os Modernos quanto entre os Antigos durante todo o século XVIII, e até os dias de hoje na Grande Loja Unida da Inglaterra …

em segundo lugar, os graus “escoceses” são uma questão complexa que não será discutida aqui. De toda forma, os trabalhos dos últimos anos, que serão discutidos no T. provavelmente permitirão no futuro, lançar um olhar fresco, mais preciso e justo, sobre a gênese desses graus. O fato é que os primeiros testemunhos se situam na Inglaterra, em Londres e Bath, entre 1733 e 1735 (com os “Scot Masters”), depois em Berlim e na França, bem como na Irlanda, mas certamente não na Escócia dessa época.

No quadro deste artigo, no entanto, é a questão dos Antigos e sua “tradição” que desejo retomar para encerrar. O ritual dos Antigos só foi conhecido na França a partir de 1804 e nunca exerceu qualquer influência ali ao longo do século XVIII. Quando os franceses, vindos da América, trouxeram os 33 graus daquilo que em breve se chamará Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) eles queriam para os seus graus simbólicos um ritual que fosse diferente daquele das lojas francesas clássicas, ou seja, o Rito dos Modernos, que se tornou na França, no início do século XIX, o Rito Francês, sob a égide do Grande Oriente da França.

Como esses pioneiros do REAA haviam conhecido a maçonaria principalmente nos EUA, onde, por diversos motivos, a Grande Loja dos Antigos tinha prosperado mais nos dias das colônias britânicas da América do que a dos Modernos, verifica-se que seu Rito familiar, se assim se pode dizer, era o Rito dos Antigos. Eles chegaram a uma espécie de compromisso tomando como base Os Três Distintos Toques e acrescentando-lhe certos usos conhecidos na França pelas lojas que a ele pertenciam desde o último terço do século XVIII, as “lojas escocesas.” O Guia dos Maçons Escoceses (c.1804) é o protótipo desta síntese improvável.

Essas lojas escocesas do século XVIII, nos graus simbólicos, praticavam rituais que nos são bem conhecidos e respeitam todos os fundamentos do Rito dos Modernos. A única diferença era que os castiçais colocados ao redor do painel em uma loja Moderno-Francesa se situavam a noroeste, sudeste e nordeste, representando respectivamente o Sol, a Lua e o Mestre de Loja, enquanto que nas lojas “escoceses”, eles eram colocados a noroeste, sudoeste e sudeste, representando a Beleza, a Força e a Sabedoria. Poderíamos falar sobre eles, de “Rito Escocês moderno”: o Rito Escocês Retificado é um exemplo perfeito.

O REAA criou assim um novo tipo de loja para os três primeiros graus – um modelo então totalmente desconhecido fora da França – combinando o plano geral dos Antigos e a disposição dos castiçais do Rito Escocês Francês.

Esta inovação deu origem a um terceiro mito historiográfico que prosperou especialmente nas últimas décadas. Ela essencializa, para colocar simplesmente, a “tradição dos antigos,” conferindo às lojas inglesas que reivindicavam este título na segunda metade do século XVIII, todas as características que Dermott reivindicavam para elas em seus panfletos e admitindo sem nenhum exame crítico as histórias mais improváveis ​​que ele criou sobre os Modernos e suas inovações.

Para citar apenas um exemplo dessa confusão e essas construções imaginárias, quero reproduzir algumas passagens de uma história do REAA, curiosamente intitulada “As desilusões dos Três Reinos”, publicada em 2013 na obra coletiva A Maçonaria- Dicionário e história, sob a direção de Jean-Luc Maxence.

Pode-se, em particular ler ali esta proposta bastante característica:

“Ouvimos às vezes dizer2 que a Maçonaria moderna data da criação da Grande Loja da Inglaterra. Nada é mais errado. Quando se fala dos “Modernos” trata-se dessa nova Maçonaria criada na Inglaterra em 1717 em oposição à dos “Antigos” de York, por exemplo, que logo se oporão à nova criação. Na França, existe uma Maçonaria escocesa trazida pelos jacobitas em 1688. “(p. 104)

Já é difícil contar o número de absurdos e afirmações não documentadas ou errôneas contidas nestas linhas, como se pode dar conta facilmente retomando-se os dados expostos acima neste artigo. Mas temos de continuar. Mais adiante, em relação ao trabalho de Anderson, durante a redação das Constituições:

“O texto andersoniano desconsidera a construção do Templo e a palavra perdida, a Lenda de Hiram” (p. 111)

E por uma boa razão: em 1723, o grau de Mestre não existia e a lenda de Hiram ainda não era conhecida – ou o nosso autor tem um “furo” extraordinário que ele tem o dever de publicar! Aqui fica difícil conter um sorriso …

Mais adiante, ainda:

“Dois conceitos maçônicos se oporiam. O “Modernos”, reunião amigável de burgueses especulativos ou nobres, e os “Antigos”, reunidos em torno da Loja de York, que desafiavam as inovações introduzidas na prática da maçonaria por Anderson e Desaguliers. “(P. 111)

Aqui é preciso renunciar a ler tais absurdos, e peço desculpas aos meus leitores por lhes infligi-las, mas eles refletem uma corrente de opinião – de quem se pretende historiador! – Visando estabelecer a existência de uma “duple tradição” da maçonaria especulativa: a dos Modernos, destruidores de usos e segredos ancestrais do Ofício; e a dos Antigos, rigorosos conservadores de práticas regulares e, é claro, operativas … de quem os maçons jacobitas escoceses e os graus escoceses que dali derivam (!) seriam, ainda hoje, os últimos receptáculos tradicionais.

Vemos que esses mitos historiográficos nos afastam consideravelmente da história documentada e dos métodos para nos conduzir não só à ilusão pura, mas especialmente à política maçônica.

É a este nível que eu vou parar para propor algumas considerações finais.

Até meados do século XVIII, a história da maçonaria, essencialmente localizada na França e nas Ilhas Britânicas experimentou um tipo de desenvolvimento que se impõe a todo pesquisador nunca separar os dois países uma vez que o interesse para este período, é a Maçonaria. Depois de 1751 a fratura introduzida na paisagem maçônica inglesa pela divisão entre duas Grandes Lojas rivais – com uma concorrência especialmente sensíveis no final da década de 1750, quando a Grande Loja dos Antigos experimentou seu verdadeiro crescimento – e também os conflitos políticos europeus que opuseram seriamente a Inglaterra e a França, gradualmente conduziram em ambos os lados do Canal da Mancha, a evoluções distintas e até mesmo divergentes.

A questão dos Antigos, suas origens, as circunstâncias de sua aparição, a natureza exata de sua ação é uma boa ilustração. No prisma distorcido das realidades maçônicas da França contemporânea – digamos nos últimos cinquenta anos – face a uma história complexa e pouco conhecida, e a partir de arquivo mal controlado, o risco é grande de construir teorias frágeis e pouco suscetíveis de explicar de forma satisfatória a materialidade dos fatos. Essa não é, a propósito, a proposta delas: elas visam sobretudo reforçar as convicções atuais, tentando dar-lhes uma aparência de fundamento histórico – mas, na realidade ocorrem, elas mais frequentemente produzem fantasias.

Entre a história e a lenda, há mais de três séculos, a Maçonaria nunca deixa de hesitar …

1 Na medida em que este termo pode ter tido o menor sentido na França …

2 Observe o rigor documental desta referência ..

Roger Dachez

Fonte: http://pierresvivantes.hautetfort.com/

 

Publicado on julho 31, 2017 at 11:35 am  Comentários desativados em A “Tradição dos Antigos”: um mito historiográfico francês  
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