A sanção aplicada a um padre maçom reaviva as tensões entre a Igreja e o Grande Oriente

Tradução José Filardo

LE MONDE | 2013/05/29 às 11:20 | por Stephanie Le Bars

Ainda não totalmente excomungado, mas ele não é mais, seguramente, um padre. Entre ambiguidade e desconforto, o caso de Pascal Vesin, cura de Megève e “das estações  de esqui  vizinhas” parece  pertencer  a um outro tempo. O padre de 43 anos, foi demitido de suas funções por ordem do Vaticano por sua filiação culpável à Maçonaria.

O Irmão Padre Vesin

O Irmão Padre Vesin

Conhecido por seu preconceito contra as  religiões, o Grande Oriente de França (GODF) assumiu o ônus de  apoiar  publicamente este “irmão” na terça – feira, 28 maio. “Embora nos últimos anos, as nossas relações com a Igreja Católica tivessem melhorado, é como se retornássemos aos dias da Inquisição. No fundo, a Igreja reprova em Pascal Vesin  ter  desejado pensar por si mesmo”,  diz o grão mestre do  Grande Oriente , Jose Gulino. Considerando este caso “inédito” na história do GO, ele lamenta o retorno do “obscurantismo e ostracismo”.

Em uma carta explicando a decisão de Roma, a diocese de Annecy afirma que “o fato de aderir à Maçonaria coloca em questão os fundamentos da existência cristã. O relativismo é o fundamento efetivo da Maçonaria. Exige-se de um maçom que seja um homem livre, que não aceite qualquer submissão a um dogma. “

CARTAS ANÔNIMAS

Lembrando também “a incompatibilidade entre o compromisso cristão e compromisso maçônico, especialmente para um ministro do culto”, M ons.  Bernard Podvin  o porta-voz da Conferência dos Bispos da França, assegura  entender  “o castigo” romano. Não desejando  comentar  “propostas polêmicas” ele se diz “pronto para o diálogo” com o GODF.

Convocado a  escolher, o próprio Pascal Vesin já decidiu. Ele deixou a casa paroquial da sua paróquia para um apartamento emprestado por amigos em uma cidade nas proximidades. A Igreja, que o condenou a uma “pena medicinal” – dando-lhe a oportunidade de  mudar  de opinião -, pagará seu tratamento mensal (cerca de 900 euros) por seis meses . “Não ocorrendo ‘cura’, serei reduzido ao estado laico, e procurarei trabalho”, comenta o Sr. Vesin. ” Triste, mas confiante em Jesus”.

Durante dez anos, entretanto o padre manteve as aparências “E, em perfeita harmonia, por vida de fé, com o ministério” e “a reflexão intelectual” que lhe forneciam seus três encontros  mensais com “irmãos maçons”. Eles conheciam sua condição de padre e, diz ele, “a respeitavam”. “Eles nunca me pediram que  renunciasse  a qualquer coisa, ao contrário do que deixa  entender  a doutrina católica.”

Para a Igreja, de quem ele conhece as posições sobre o assunto, para o Bispo e para sua família , praticante, ele manteve sua iniciação secreta. “Eu menti, é verdade, mas eu considerei que este compromisso tinha a ver com minha vida privada  “. Em 2011, duas cartas anônimas de denúncia foram devidas à sua mentira. “Meus pais imediatamente me perguntaram como eu havia sido ‘alistado’ e, depois, eles me entenderam.”

“PECADO GRAVE”

Neste caso, algumas coisas entristecem e outras irritam este padre também conhecido por seus pontos de vista “progressistas” sobre o casamento de padres, casamento para todos, ou o uso de preservativos. “A disciplina da Igreja em relação à Maçonaria está completamente ultrapassada”, ele considera.

A proibição feita aos católicos de entrar na Maçonaria remonta a 1738. Ela foi confirmada ao longo dos séculos e papas, que consideraram a Maçonaria “contrária à  justiça, à moral natural” fustigando seu ateísmo e o gosto pelo segredo das lojas. Para um crente, pertencer a uma obediência corresponde, portanto, a um “pecado grave” e impede toda possibilidade de receber os sacramentos. No caso de Pascal Vesin, ela o proibiu de os ministrar.

“Na minha opinião, não se trata de opor a Igreja e a Maçonaria. Há guerras que não são mais necessárias, explica Vesin. Minha luta consiste simplesmente em pedir à minha Igreja que respeite a liberdade de consciência, a liberdade individual e aceite a pluralidade de discurso em seu seio.” “Por exemplo, durante o debate sobre o casamento para todos, é claro que a liberdade de expressão foi dificultada”, julga ele.

Ao mesmo tempo, ele gostaria que seus “irmãos maçons” relaxassem um pouco a tradição de segredo. “É um ônus que acentua os estereótipos e a ignorância.” Mesmo que, na sua opinião, o Grande Oriente tenha feito um “trabalho de abertura, especialmente em relação às mulheres, a Igreja ainda não fez isso” .

Um pouco desgastado pela decisão de Roma, o padre pretende percorrer os caminhos de Compostela nas próximas semanas, antes de enfrentar sua nova vida. “Mas eu fui realmente feito para ser um padre. Eu tive a vocação desde a idade de 11 anos. Vou tentar transmitir minha fé, como um leigo “. À distância da Igreja Católica, mais perto de outras igrejas cristãs, mas sempre no Grande Oriente, que de acordo com o grão mestre, continua a acolher ministros de religiões, incluindo os católicos. Com toda discrição.

Stéphanie Le Bars

Publicado on junho 27, 2013 at 2:31 pm  Comments (12)  

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12 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Não se pode ser cristão e maçom ao mesmo tempo, pois uma coisa contradiz a outra. A própria crença maçônica em Deus é diferente da cristã. É uma crença gnóstica, isto é, pressupõe que Deus pode ser analisado pela lógica do conhecimento natural, sendo Ele um “arquiteto” que molda uma matéria que sempre existiu. Dizem os maçons, em contradição com a Bíblia: “Nada pode dar origem a alguma coisa” (uma vez que a Bíblia diz que Deus tirou a matéria do nada). A crença cristã em Deus é a mesma do Deus bíblico, não segue o conhecimento das ciências ou da filosofia naturais, não analisa pela lógica humana a Deus e concorda com o dogma bíblico de que Deus retirou a matéria do nada pois nada é impossível a Deus, do contrário não seria Deus.
    Eis uma das inúmeras razões pelas quais é contraditório ser padre e maçom e a Igreja destitui o padre do momento em que ele não mais se comporta como tal. Qualquer instituição, religiosa ou não, tem o direito de destituir quem contradiz seus princípios. Imagine se no exército, por exemplo, alguém apregoasse a mudança dos símbolos nacionais e da república. Evidentemente que num caso como esse seria expulso do exército. É muito mais coerente e honesto para ele este padre deixar de ser padre e ficar como maçom.

  2. Outra bobagem: “Os monges detinham o saber”. Por acaso não haviam cientistas fora da Igreja na Idade Média. Conhecemos vários deles. Os monges não detinham coisa nenhuma, apenas se dedicavam aos estudos como qualquer um que o quisesse. Para ler a Bíblia tinha que ir a uma mosteiro porque eram cópias a mão e livros enormes com pouquíssimas cópias. Que culpa tinham os monges de não haver imprensa ? Após a imprensa houve a facilitação da leitura da Bíblia e aí o cristianismo se dividiu justamente por esta história do “livre exame” ou “pensar da própria cabeça”. Como dizia S. Pedro: “Nenhuma profecia é de interpretação individual”(aludindo que a Igreja é que interpreta a Bíblia), e São Paulo: “A Igreja é a coluna e o fundamento da verdade” (E não a Bíblia interpretada pela cabeça de cada um). São Paulo não colocava seus escritos como fundamento e sim a interpretação que a Igreja dava. São Paulo falou movido pelo Espírito Santo que assiste a Igreja e interpreta seus escritos.

  3. Não querem pessoas reflexivas. Na idade média somente os monges detinham o saber das ciências. O mesmo acontece nos dias de hoje. A igreja tenta monopolizar o saber e não admite que seus fieis sejam livres no pensar. Essa briga não é só com a maçonaria, mas com muitos cientistas. A Bíblia diz que não é importante buscar a sabedoria, e sim a fé, mas seus sacerdotes buscam a luz da sabedoria por toda vida sacerdotal, sabem mais do que pensamos e aplicam isso em suas vidas sacerdotais.

    • Nunca vi tanta bobagem escrita. Quem quer “ser livre no pensar” pode sê-lo, a Igreja Católica não o impede. O que a Igreja Católica não admite, como qualquer outra denominação cristã, é que alguém se diga católico e ensine errado a doutrina da Igreja aos outros. Não se pode considerar “católico” alguém que abraça uma sociedade secreta que apregoa ser Deus um “arquiteto” e que a matéria sempre existiu. Ora, pela Bíblia, em que se baseia todo o cristianismo, está escrito que Deus tirou a matéria do “nada”. Deus é sobrenatural e a Ele nada é impossível, inclusive ter se tornado homem. Seria a mesma coisa que um professor se intitular “Professor de Física” e em vez de ensinar Newton, Pascal, Einstein, ensine sua própria física como se suas teorias fossem desses ilustres cientistas do passado. Quer ser padre e pensar por si próprio, ou seja, diferente do que o cristianismo ensina, então faça isto, mas deixe de arrogar para si um título que não mais possui por estar enganado os outros, ensinando algo seu como se fosse da Igreja.

  4. […] A sanção aplicada a um padre maçom reaviva as tensões entre a Igreja e o Grande Oriente […]

  5. é o conservadorismo teimoso de Roma que acaba com a religião.. não tem jeito isso, eles querem manter a hegemonia da razão do dogma..ou seja, o dogma da igreja, não pode ser contestado, alterado, não evolui, é cláusula pétrea.. mas o mundo gira e progride, mais em alguns lugares que em outros, mas a igreja romana vai ficando para tras.. a tendencia é sobreviver apenas onde ha ignorância, como aliás, ela sobreviveu tantos anos..

    • Mas a religião é puro conservadorismo, do contrário não é religião. Toda a religião vem de testemunhos à respeito dos ensinamentos de um fundador, que são repassados pela tradição oral e muito mais tarde posto por escrito, mas não tudo, porque nessa “passagem” oral do conhecimento não há intenção de “sistematizar” uma doutrina. Isto é feito posteriormente, ao se reunir toda a tradição oral sistematizada. Aliás um processo lento, através dos séculos. As religiões,não somente a católica, não são ciência ou filosofia. Pensar assim é errado e nos leva a condenar todas as religiões. Religião é religião e pressupõe a fé mais que a razão, embora tenha que haver uma lógica em sua doutrina. Mas uma lógica própria da religião, sempre deixando entrever a fé, principalmente nos testemunhos dos que conviveram com o fundador da religião e seus discípulos.
      Quanto ao “dogma”, são afirmações de fé, que possuem sua lógica própria e são encaradas pelas religiões como “verdades absolutas e imutáveis”. Exemplo: Realizou-se um concílio na Igreja (quando só havia como denominação cristã o catolicismo) que foi o concílio de Niceia (Turquia) em 325. Foi convocado pelo Imperador Constantino e não pelo Papa silvestre, pois o Imperador, como ariano que era (ou seja, não acreditava na divindade de Jesus Cristo) tinha a esperança que o concílio oficializasse esta crença em um Filho não divino, sendo Maria apenas “Cristokokus”,quer dizer: Mãe apenas da humanidade de Jesus porque Jesus não era “divino”. Jesus era o “verbo divino”, o ensinamento de um homem, o mais perfeito possível, mandado a terra por Deus.
      De fato, quem estudar a História da Igreja, e eu aconselho a leitura de dois grandes historiadores não religiosos: David Knowles e Dimitri Obolenski, ambos traduzidos no Brasil, verá que o “dogma” era a maneira apostólica de crer na divindade de Cristo, pois os apóstolos acreditavam na divindade de Cristo, conforme o próprio Cristo dizia: “Quem vê a mim vê ao Pai”. Os varões apostólicos, padres que vinham diretamente da linha apostólica dos discípulos do senhor, reafirmaram o “dogma” da divindade de Jesus Cristo, contrariando Constantino que se fez batizar ariano e não católico. Para Constantino foi uma decepção o resultado do concílio que reafirmou a divindade de Jesus Cristo. A confissão de uma fé já existente, e que vinha sendo contestada, foi posta por escrito: Credo ou “Símbolo dos Apóstolos”. “Há duas naturezas em Jesus Cristo, a humana e a divina, distintas porém inseparáveis e Maria continuava a ser Mãe humana e divina, ou seja “Teotokus” e não simplesmente “Cristokokus”. Maria é Mãe humana e divina graças a natureza inseparável da duas pessoas em Jesus Cristo. Eis um exemplo de “dogma”. “Dogma” é uma afirmação de fé herdada por uma tradição com origem no fundador da religião que se transmite a princípio oralmente e muito mais tarde por escrito, quando se nota o falseamento dos ensinamentos originais.
      Portanto “dogma” é fundamento para qualquer religião existir como tal. Falar em “mudança de dogmas” ou “anular dogmas” é o mesmo que destruir a religião e eu particularmente acho que é esta a verdadeira intenção da maioria das pessoas que se manifestam contra a Igreja Católica. Querem destruir não só o catolicismo como o cristianismo em geral. Isto não é possível, como como já ficou provado na história. O cristianismo tem 2000 anos e já derrubou quem quis derrubá-lo inúmeras vezes e não vai ser diferente até o fim dos tempos, ou fim deste mundo como o conhecemos.

  6. É lastimável constatar a imprudente e teimosa permanência nos tempos idos de dirigentes eclesiásticos presos à dogmas que não se sustentam nos dias atuais. No desespero de ver seus adeptos se afastarem, deixam suas tradições, essas sim, que devem permanecer imutáveis, pelo respeito, pela ligação espiritual com Deus, nos seus templos dedicados à reflexão e renovação de seus princípio morais. O que vemos hoje? Templos feéricamente iluminados, com caixas de som amplificadas, jóvens equipados com instrumentos musicais eletrônicos e baterias à “todo vapor” incitando ao balanço do corpo e de mãos ao alto balançando ao som do “ritmo” da música. É um tal de senta-levanta, senta-levanta, como se isso fosse necessário para a ligação efetiva do meu espírito com o plano espeiritual. O que é um templo afinal? Ao meu ver, deve ser um local sagrado, onde o ambiente silencioso nos induza ao respeito, onde deve existir uma aura magnética que favoreça minhas reflexões, minhas confissões, meus projetos de regeneração, minhas orações contritas de agradecimento pela vida que Deus me concedeu. Quando quero dançar vou à um baile. Quando quero fazer ginástica vou à uma academia de musculação.
    No caso em questão, não me surpreende a posição ortodoxa de alguns cléricos pouco esclarecidos que tem o poder de emitir opiniões, não pela sua sabedoria, pois são dogmáticos e por isso nem querem perder tempo na análise do que certo e do que é errado. Só pensam em seguir os ditames dos seus dogmas. Vivem no passado. O presente só lhes chegará quando não poderem mais nada fazer.

    É isso.

    José Luiz Caravajal Leite
    caravajal@oi.com.br

    • Quanta bobagem. Já falei aqui que toda a religião tem dogmas e sem dogmas não há religião. Ninguém é obrigado a seguir dogmas e portanto a ter uma religião. A hipocrisia está justamente nisto: Afirmar ter uma religião e ser contra dogmas. Quem não acredita em dogmas não tem religião porque até crer em Deus é um dogma pois “dogma” é uma “afirmação imutável que pressupõe a fé”. Se “afirmo que há um único Deus”, “criador do céu e da terra”, já criei um dogma, ou seja, “uma afirmação baseada na fé”. Se creio que a vida se dá no momento da concepção, ou seja, quando do encontro da célula femininas e masculina no útero da mulher, já criei um “dogma”. Se não tenho nenhum “dogma” não tenho nenhuma religião, pois até crer em Deus é um “dogma”. Se acredito apenas no que posso provar pela ciência, sou um descrente em religiões. Porque descrentes ficam a optar em matéria de religião. Não seria isto uma hipocrisia ?

  7. Sem comentários … A Igreja ainda se acha capaz de fazer exigências, numero de fieis cada vez mais reduzido…. santa ignorância…

  8. […] Quando muitos pensavam que as coisas estavam progredindo, testemunhamos mais um exemplo da ignorância da Santa Madre. https://bibliot3ca.wordpress.com/a-sancao-aplicada-a-um-padre-macom-reaviva-as-tensoes-entre-a-igreja… […]


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