A Nova Grande Loja da França e sua rejeição pela Grande Loja Unida da Inglaterra

 

 

Tradução José Filardo

 

Por V.´. Irmão Jack Buta MPS
PM Paradise Valley Silver Trowel Lodge #29
Arizona Grand Lodge, EUA
Maçom Grau 32 do Rito Escocês

Extrato do Artigo “A CONSPIRAÇÃO DE DEUS”
Publicado em: http://www.freemasons-freemasonry.com/masonic_foreign_recognitions.html

 

Em 1879, várias Lojas do Craft com cartas constitutivas emitidas pelo Supremo Conselho do REAA para a França e suas Possessões separou-se para formar a Grande Loja Simbólica Escocesa (apenas 3 graus). [Xxi]Até 1893 surgiu então um movimento no Grande Loja Simbólica da França para permitir a admissão de mulheres na Maçonaria, e cinco lojas se separaram da Grande Loja Simbólica de França para formar a Droit Humain. [Xxii]

Em 1894, as restantes 25 lojas do Craft formaram uma nova Grande Loja, que assumiu o nome da Grande Loja original da França. Em 1899, esta Grande Loja de 5 anos de idade solicitou o reconhecimento da Grande Loja Unida da Inglaterra. A resposta voltou em apenas 3 dias. A resposta do Grande Secretário da GLUI, Letchworth em 9 de outubro de 1899 à GLdF recusou o pedido com base em que o Supremo Conselho da França, e não uma Grande Loja emitira as cartas constitutivas das lojas que constituíram a GLdF. Ele também fez alegações de que GLdF não exigia uma Bíblia sobre o altar. O impacto sobre o jovem Grande Loja foi devastador; a GLdF não o relatou até a Grande Comunicações de 1903. [Xxiii]

As relações entre a Grande Loja Unida da Inglaterra e a Grande Loja da França (GLdF)

Por que a GLUI respondeu tão rapidamente e de forma tão negativa à petição da GLdF? Em 1899, a GLUI estava em relações de amizade com o Supremo Conselho da França e há uma abundância de precedente para a regularidade das lojas do Craft cujas cartas constitutivas foram emitidas pelos Supremos Conselhos do REAA. Nos EUA, por exemplo, dez Lojas do Rito Escocês compõem o Distrito 16 da Grande Loja da Louisiana e ainda praticam aquele Rito histórico. Ainda mais intrigante são as declarações de posição publicadas por proeminentes membros da GLUI. Sir James Stubbs, KCVO, TD, Grande Secretário, Grande Loja Unida da Inglaterra entre 1958 e 1980 declarou: “As negociações para o estabelecimento de relações amistosas com outras Grandes Lojas foram no passado conduzidas com base em que o pedido de reconhecimento de um corpo menor era investigado pelo Conselho a pedido do Grão-Mestre. Isso foi feito por meio de uma troca de correspondência para estabelecer a natureza de seus princípios e práticas, mas sem que, até agora, como pode ser visto, qualquer regra rígida e rápida sobre o assunto. “[Xxiv]

Sua declaração não só contradiz o motivo dado pela GLUI para rejeitar a GLdF em 1899, mas ele se tornará a justificação no reconhecimento de outra Grande Loja pela GLUI, que se tornou conhecida como a Grande Loja Nationale de France em 1913.

Robert Freke Gould afirma que ele foi um dos onze membros do Comitê designado pela Grande Loja de Inglaterra, em dezembro de 1877, para considerar o curso de ação adequado em relação ao Grande Oriente da França retirar do seu Livro das Constituições os parágrafos afirmando a existência de um Grande Arquiteto do Universo. Dois meses mais tarde, a Comissão, em seu relatório, declarou que a “alteração” estava, na sua opinião, “em oposição às tradições, práticas e sentimentos de todos os maçons verdadeiros e genuínos desde o mais antigo até o tempo presente.” A Grande Loja, agindo com base nesse relatório, retirou o reconhecimento do Grande Oriente da França. No entanto, o que Gould afirma a seguir é surpreendente quando comparado às declarações posteriores feitas pela GLUI. “Diz-se que o Supremo Conselho da França não compartilha a doutrina ateísta do Grande Oriente. No rol do Grande Loja de França estão 128 Lojas, das quais 55 estão em Paris e seus arredores, e tem 7.600 membros.” [xxv]

Se examinarmos essa situação à luz das relações existentes entre Grã-Bretanha e a França, então as ações da GLUI tornam-se mais compreensíveis. Em 1875, Disraeli, o primeiro-ministro britânico organizou a compra secreta das ações do Canal de Suez de propriedade de Khedive Ismail. Em 24 de abril de 1877, a Rússia declarou guerra contra os otomanos e desesperado o sultão procurou um armistício flexível, assinado em Adrianópolis, em 31 de janeiro de 1878. Disraeli despachou uma frota de seis couraçados até Constantinopla, que chegou em 15 de fevereiro e a ameaça da Inglaterra de entrar no conflito salvou Constantinopla. Disraeli negociou com o Império Otomano em segredo, oferecendo ao sultão uma aliança defensiva com a Inglaterra; em contrapartida, o sultão cedeu Chipre à Inglaterra. Com Chipre no bolso, ele podia fazer concessões à Rússia e estabilizou a situação e uma grande guerra mundial foi evitada.

Em 1879, os Zulus derrotaram os ingleses na Batalha de Isandlwana em 22 de janeiro.

Em 1881, os britânicos sofreram uma derrota surpreendente na primeira Guerra dos Boers nas mãos dos Afrikaners sob o comando de Krueger.

Em 1884, Ansar atacou Cartum massacrando a guarnição, matando Gordon, e entregando sua cabeça à tenda do Mahdi. Gordon tinha sido enviado para ajudar a evacuar forças egípcias presas em Cartum pela revolta de Mahdi. O Império Britânico parecia vulnerável, a Europa era um barril de pólvora e de cada país parecia estar carregando fósforos.

O Incidente Fashoda

A Inglaterra precisava urgentemente de uma vitória e de um herói nacional. Conseguiu ambos na pessoa do irmão e general Kitchener. Ele foi nomeado governador dos territórios britânicos do Mar Vermelho em 1886, e lançou uma ofensiva contra as forças de Mahdi. Até 1892 ele tinha se tornado Comandante em Chefe do exército egípcio. Em 1898, ele esmagou as forças sudanesas separatistas de al-Mahdi na batalha de Omdurman e, em seguida, ocupou a cidade vizinha de Cartum, onde seu sucesso o transformou em um nobre em 1898. Na França, o governo viu a ocupação britânica do Egito como uma ameaça aos seus próprios planos para aquela área. Na esperança de cortar a rota britânica do Cabo ao Cairo, eles emitiram ordens em 24 de fevereiro de 1896 instruindo o Capitão Jean-Batiste Marchand a liderar uma expedição ao Alto Nilo e ocupar Fashoda.

Há uma certa confusão quanto ao real tamanho da força de Marchand e se ele era um capitão no momento ou um major, mas acredita-se, em geral, que ele tinha apenas sete outros oficiais franceses e uma força de menos de 100 atiradores senegaleses. Eles desembarcaram em Fashoda em 10 de julho de 1898 e hastearam a bandeira francesa.

Marchand aos 35 anos de idade cresceu a partir de origens humildes. Ele nasceu na cidade de Thoissey, a poucos quilômetros ao norte de Lyon, mais perto de Marselha, que da sofisticada Paris. Um líder natural, ele subiu de recruta até se tornar um oficial dentro de um sistema projetado para manter as classes separadas.

Em 19 de setembro de 1898, Marchand pisaria no palco mundial, recusando-se a recuar em um confronto militar com o general britânico, Lord Kitchener à frente de 25 mil homens, incluindo 100 Cameron Highlanders, dois batalhões de sudaneses, e uma bateria de artilharia. Para os franceses, as ações de Marchand foram heroicas, tanto assim que um memorial foi erguido em Paris em comemoração delas. Os britânicos no entanto, viram as coisas muito pelo contrário.

Pouco mais de duas semanas antes, Kitchener abriu o Sudão derrotando os mahdistas na batalha de Omderman. Tendo ficado sabendo da ocupação do Fashoda de um bando capturado de mahdistas, Kitchener partiu com cinco navios transportando soldados britânicos e sudaneses. Em 19 de setembro, Kitchener e suas tropas desembarcaram em Fashoda, onde ele ficou cara a cara com Marchand.

“Um mês antes da batalha de Omdurman, Lord Salisbury prescientemente estabeleceu a linha de ação a ser tomada quando a Expedição chegasse a Cartum, e suas instruções seriam – e foram – observadas ao pé da letra. Ambas as bandeiras britânica e egípcia deveriam ser hasteadas. Embora não fosse necessário no momento definir o status político do Sudão, o Governo de Sua Majestade considerou que, tendo em vista a ajuda financeira concedida por ela ao Egito, a Inglaterra poderia reivindicar uma voz predominante em todos os assuntos relacionados com o Sudão. O Sirdar (General Kitchener) foi autorizado a enviar flotilhas rio acima no Nilo azul e no Nilo branco, e devia prosseguir pessoalmente até Fashoda, levando um pequeno corpo de tropas britânicas consigo; mas a flotilha no Nilo Azul não iria além de Roseires. Nenhum título da França ou da Abissínia sobre qualquer parte do Vale do Nilo deveria ser reconhecido, e todos os confrontos com os abissínios deveriam ser evitados.

O Sirdar deveria convencer qualquer comandante francês de que a sua presença no Vale do Nilo era uma violação dos direitos britânicos e egípcios. Ele deveria enviar uma pequena força Nilo Branco acima além da junção do Sobat. O rei dos belgas não tinha direito a qualquer porção do vale do Nilo, exceto no âmbito do arrendamento Lado.

Fragmentos de informação vazaram para o Departamento de Inteligência, e em 07 de setembro, notícias definitivas chegaram de que oito oficiais brancos e 80 soldados negros estrangeiros estavam em Fashoda, e que eles tinham rechaçado os vapores enviados pelo Khalifa para atacá-los. Por isso, o Sirdar, com 100 Cameron Highlanders, dois batalhões de sudaneses, e uma bateria de artilharia segui rio acima no dia 10. Rechaçando um ataque temerário e bastante fraco sobre sua frota em Renkh, ele estava a poucos quilômetros de Fashoda no dia 18. Ele escreveu imediatamente ao “chefe da expedição europeia”, informando-o de sua vitória em Omdurman, sua ação em Renkh, e sua aproximação de Fashoda. A resposta foi trazida na manhã seguinte por um sargento senegalês em um bote a remo de aço: O Major Marchand, comandante da Infantaria de Marinha, felicitava o General por sua vitória, e anunciava que, por ordem do seu governo, ele tinha ocupado o Bahr el Ghazal até Fashoda, onde ele tinha chegado em 10 de julho.

A flotilha imediatamente subiu até Fashoda e ancorou em frente aos prédios antigos do governo da cidade, e logo depois, o Major Marchand e o Capitão Germain foram recebidos a bordo do Dal pelo Sirdar e sua equipe. Após as apresentações, Kitchener cordialmente cumprimentou Marchand e seus companheiros em sua longa e árdua jornada, mas informou-o civilizadamente que a presença dos franceses em Fashoda e no vale do Nilo era considerado uma violação direta dos direitos do Egito e da Grã-Bretanha, e que ele devia protestar nos mais enfáticos termos contra a ocupação de Fashoda e o hasteamento da bandeira francesa em domínios do Khedive.

A isso, Marchand respondeu que ele estava ali por ordem do seu governo, sem cujas instruções, ele não poderia se retirar. Kitchener, então, calmamente deu a entender que ele pretendia para içar a bandeira egípcia; ele confiava que nenhuma oposição seria oferecida, pois suas forças eram esmagadoramente superiores, e ele sugeriu que colocaria uma canhoneira à disposição dos franceses para auxiliar em sua retirada. Marchand respondeu que ele e suas tropas deveriam, naturalmente, curvar-se ao inevitável e, se necessário, morreriam em seus postos; mas ele deve pedir que a questão de sua retirada deve ser encaminhado ao seu Governo, sem cujas ordens ele não podia baixar sua bandeira e aceitar o amável convite do Sirdar. Ao longo da entrevista, Marchand se comportou com dignidade calma e atitude marcial, embora soubesse que ele tinha poucos mantimentos e munições, e que, se fosse deixado na posse exclusiva, os dervixes teriam pouco trabalho em lidar com ele e seu pequeno bando. ” [xxvi]

O nacionalismo em ambos os países começava a inflamar a situação, e a Inglaterra e a França começaram a se mover em direção a hostilidades abertas. Por mais de 90 dias, Marchand defendeu uma posição insustentável, enquanto o tumulto se alastrava e apelos pela guerra ecoavam nos dois países. De sua parte, o irmão Kitchener, ao invés de tirar proveito da situação, reabasteceu os mantimentos de Marchand.

A guerra só foi evitada quando a França concordou em retirar suas tropas, e em 4 de Dezembro de 1898, ordenou a evacuação de Fashoda. Em 21 de março de 1899 foi assinada uma convenção com a França renunciando a todas as reivindicações sobre Fashoda. Com Inglaterra e França discutindo acerbamente, é duvidoso que qualquer Grande Loja Francesa pudesse ter obtido o reconhecimento da GLUI. Na verdade, a GLUI ainda tinha problemas com suas jurisdições irmãs no Reino Unido, o que exigiria ainda um outro acordo entre todos os três para resolvê-los. E isso aconteceu em 1905.

 

[xxi] A New Encyclopedia of Freemasonry-A.E. Waite (1996 edition) Wing Books Page 116

[xxii] A New Encyclopedia of Freemasonry-A.E. Waite (1996 edition) Wing Books Page 117

[xxiii] Email response from John Hamill, Director of Communications for the U.G.L. of England posted on Philalethes Mailing List 9/2/2007 by Yoshio Washizu

[xxiv] U.G.L. of England’s External Relations-JamesW. Daniel AQC Vol. 17 2004 Page 3

[xxv] The Concise History of Freemasonry-Robert Freke Gould Pages 281-282

[xxvi] The Life Of Lord Kitchener – George Arthur – Macmillan Company, 1920 Pages 250-253

 

Publicado on agosto 30, 2013 at 8:32 am  Deixe um comentário  

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