A Máfia de Deus: Por que é hora de Fechar de Vez o Banco do Vaticano

Tradução José Filardo

Por  Lynn Stuart Parramore

Pense nisso como o HSBC com o imprimatur de Deus.

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Crédito da foto: Shutterstock.com

25 de fevereiro de 2013 |

É um lugar onde os anjos temem pisar; onde criminosos, fraudes e cadáveres misteriosos aparecem tão regularmente quanto ratos no metrô. O Instituto para as Obras de Religião, vulgarmente conhecido como o Banco do Vaticano, foi criado em 1942 pelo Papa Pio XII para gerenciar as vastas finanças do Vaticano. Muitas vezes mencionado como o banco mais secreto do mundo, a operação é dirigida por um Diretor Executivo e supervisionada por cinco cardeais que se reportam diretamente ao Papa.

Papel oficial do banco é salvaguardar e administrar bens destinados a obras de religião ou de caridade. As atividades reais do banco são um pouco diferentes. Elas incluem lavagem de dinheiro para narcotraficantes, suborno, sonegar fundos de caridade para enriquecer sacerdotes e evasão fiscal para italianos ricos.

Finanças no estilo do Vaticano

Os escândalos associados ao Banco do Vaticano, particularmente nas últimas quatro décadas, são tão sórdidos e improváveis quanto forçar a criatividade de um tablóide de supermercado. Ofensas passadas da Igreja de venda de indulgências e cobrança de taxas para sacramentos foram atualizados para o mundo das finanças modernas, completas, com empresas de fachada, especulações e transferências secretas. (Para mais informações sobre os antecedentes do banco atual, consulte a  sinopse útil  de Betty Clermont no Daily Kos.) No ano passado, o jornalista italiano Gianluigi Nuzzi  publicou um livro  investigando a intriga e corrupção girando em um banco que não tem sido responsável perante quem quer que seja. Foi um abrir de olhos.

Em maio de 2012, o mordomo do Papa Bento XVI foi preso por vazar documentos repletos de alegações de corrupção financeira e atividades criminosas envolvendo grandes empresas italianas. O último presidente do banco do Vaticano, Ettore Gotti Tedeschi, foi colocado para fora quando se revelou que o banco estava operando contra normas internacionais de lavagem de dinheiro. O material e relatório vazados revelam um banco que parece ser um tipo de veículo offshore desonesto favorecido por vários tipos de hereges, incluindo políticos de direita, tipos de máfia e evasores fiscais que desejam ocultar suas transações financeiras. Um tipo de HSBC, só que com o imprimatur de Deus.

Investigações posteriores resultaram em um encerramento de transações com cartão de crédito em todos os locais do Vaticano, neste momento, Deus só aceita dinheiro vivo. Em uma tentativa de restaurar as relações com a comunidade financeira internacional, o Papa Benedito, de saída,  nomeou  um novo diretor do banco, o advogado alemão Ernst von Freyberg, como um de seus últimos atos. Até agora isso não está parecendo muito bom, pois revelou-se que Freyberg tem  ligações infelizes  com uma empresa com um histórico de navios de guerra, incluindo aqueles produzidos para a Alemanha nazista.

Esqueletos no Cofre

No mesmo mês em que a história do mordomo estourou, ecos sinistros de escândalos anteriores surgiram quando o mais importante exorcista da Igreja Católica (sim, você entendeu direito)  afirmou  que uma pilha de ossos enterrados no túmulo de um gangster conhecido – e doador da igreja – pertencia a uma estudante desaparecida que foi forçada a dançar em festas de sexo para sacerdotes. A namorada do bandido na época alegou que o monsenhor americano Paul Marcinkus, o chefe perseguido por escândalos do banco do Vaticano de 1971 a 1989, estava por trás do sequestro. Se isso é verdade ou não, os anos de reinado de Marcinkus foram certamente incomuns.

Na década de 80, o Banco do Vaticano esteve envolvido em um importante escândalo político e financeiro envolvendo o colapso de 4,7 bilhões de dólares do Banco Ambrosiano. Marcinkus esteve sob consideração para indiciamento em 1982 na Itália como cúmplice da falência, mas ele escapou da justiça terrena, quando os tribunais italianos decidiram que sua condição de sacerdote e prelado de alto escalão do Vaticano lhe dava imunidade diplomática de processo. Um certo  Roberto Calvi  , conhecido como “o banqueiro de Deus” devido à sua estreita associação com a Santa Sé, era o presidente do Banco Ambrosiano. Ele também  fez negócios com a máfia  e foi encontrado em junho de 1982 balançando sob a ponte Blackfriars, em Londres um dia depois de sua demissão do banco. A morte foi considerada um assassinato, e se suspeita amplamente que tenha sido um serviço da máfia.

Alguns anos antes, em 1968, encontramos a figura sombria de  Michele “O Tubarão” Sindona  , que se tornou um conselheiro financeiro do Vaticano, apesar do seu pequeno trabalho no passado como gerente de operações de heroína para a família criminosa Gambino. Um traficante de classe mundial que se especializou em lavagem de dinheiro, ele era um membro da notória Loja P2  , uma loja “Maçônica” falsa que se considerava ter operado como um tipo de governo de direita na sombra. Assim como outros banqueiros italianos associados ao Vaticano, Sindona  alardeava  suas atividades desonestas como a defesa da livre iniciativa contra as forças políticas de esquerda.

Sindona acabou na prisão por fraude bancária e por ter ordenado o assassinato de um advogado nomeado para liquidar seus bancos italianos. Mais tarde, ele morreu depois de beber um café com cianureto. Alguns dizem que seu envenenamento foi uma tentativa de impedi-lo de falar sobre a morte súbita aos 65 anos, do Papa João Paulo I, apenas 33 dias após assumir o cargo. O Papa reformista vinha falando contra a especulação do Banco do Vaticano, e o teólogo Abbé George de Nantes, entre outros, fez disso um caso de assassinato. (Se você viu O Poderoso Chefão: Parte III , vai lembrar de uma história envolvendo o Banco do Vaticano, o crime organizado e a morte súbita de um papa fictício.)

Corrupto demais para existir

Agora mesmo, está acontecendo uma luta pelo poder no Vaticano a respeito de como o banco deve operar, se deve modernizar-se e tornar-se mais transparente, ou continuar a funcionar sob o radar e fazendo todos os negócios obscuros com que possa se safar.

Se alguém pensa que o Banco do Vaticano poderia ser limpo, eu gostaria de sugerir pensar nas míticas cavalariças de Augias. Essencialmente, uma entidade de extorsão vem funcionando como uma empresa sem fins lucrativos dedicado a realizar a obra de Deus. Jesus ficou famoso por expulsar os emprestadores de dinheiro do templo. No Vaticano, eles exploram e administram o templo.

O Vaticano precisa de dinheiro, e como sua influência no ocidente declina em favor das zonas mais pobres do globo, não há como dizer o que mais ele vai fazer para obtê-lo. O banco teve várias oportunidades de limpar a casa após escândalos nocivos, e tem repetidamente falhado em fazê-lo.

Andreas Wassermann e Peter Wensierski de Der Spiegel  descreveram  a corrupção no coração do banco:

“Seu modelo de negócios depende de manter as coisas tão escondidas quanto possível de todas as autoridades financeiras. Os ganhos de capital não são tributados, as demonstrações financeiras não são divulgadas e o anonimato é garantido. O status exótico do banco, de pertencer a uma monarquia religiosa em um Estado soberano do tamanho de um parque da cidade o protegeu contra investigações e monitoramento externo desagradável. ”

Aqui está uma idéia: Fechá-lo. Por que os padres não usam bancos regulares como todo mundo? Por que um banco abrigado em uma torre de defesa medieval engole doações e lava fundos ilícitos, dando refúgio a fraudes, criminosos e parasitas ricos? O Banco do Vaticano é corrupto demais para existir.

Lynn Parramore é uma editora sênior da AlterNet. Ela é co-fundadora da Recessionwire, editora-fundadora do New Deal 2.0, e autora do livro “Leitura da Esfinge: Ancient Egypt in Nineteenth-Century Literary Culture.’ Ela recebeu seu doutorado em Inglês e Teoria Cultural da Universidade de Nova York, onde ela lecionou redação e semiótica. Ela é diretora do Projeto Novo diálogo econômico da AlterNet. Siga-a no Twitter @LynnParramore.

 

http://www.alternet.org/

Publicado on fevereiro 28, 2013 at 5:24 pm  Comments (1)  

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