A Natureza da Maçonaria

José A. Filardo  M.´. I.´.

Em nossa série de artigos e pesquisas publicadas na Revista, procuramos esclarecer as influências e antecedentes da formação da Instituição que conhecemos hoje como Maçonaria.

Primeiro, em https://bibliot3ca.wordpress.com/a-verdadeira-primeira-grande-loja/ procuramos mostrar o que era a Maçonaria Operativa na Europa, como o principal elemento que informa nossa estrutura e simbologia.

Depois, mostramos o que eram as Guildas inglesas https://bibliot3ca.wordpress.com/607-2/ também chamadas Companhias de Libré.

Depois, particularizamos uma das guildas – A guilda dos Stonemasonshttps://bibliot3ca.wordpress.com/o-dna-da-maconaria-a-companhia-dos-macons/ vez que tudo indica ter sido nela que nossos fundadores se basearam para estruturar a nova instituição.

Em nossas pesquisas, entretanto, topamos com uma informação crucial sobre o ambiente político da época que pode ter determinado a constituição da primeira grande loja e sua difusão a partir dai – O Riot Act de 1715.  https://bibliot3ca.wordpress.com/dna-da-maconaria-por-que/

Controle social

Em nosso post sobre o Riot Act, desenvolvemos a teoria de que a Maçonaria representou uma reação ao ambiente opressivo e ditatorial existente na época que submetia os cidadão britânicos à ameaça de pena capital caso se reunissem.

Quem dera…

É preciso lembrar e ter em mente que a Inglaterra, desde 1533, com um breve intervalo no reino de Maria Stuart (1553 – 1558) era um país protestante e é lícito afirmar que os reverendos Desagulliers e Anderson gozavam de prestígio junto a Casa de Hanover. Também não se pode esquecer a tensão existente entre católicos e protestantes, o que fazia da religião uma expressão de divergências políticas, uma vez que os Jacobitas eram católicos e os Hanoverianos protestantes.

O Riot Act de 1715, medida draconiana não estabelecia exceções. Simplesmente suspendeu o direito de reunião e provocou uma situação de opressão a que os ingleses não estavam acostumados. E, naturalmente, o descontentamento aumentou.

Acresça-se o fato de que a situação que provocou a edição do Riot Act perdurou pelos próximos 30 anos, até que os Jacobitas finalmente perderam força e se conformaram.

Mas, como fazer para legalizar o direito de reunião de forma limitada e somente entre escolhidos?

Os  estrategistas da Coroa logo acharam uma saída brilhante. Uma organização disciplinada na qual a discussão política e religiosa estava proibida. Como alternativa, oferecia discussões sobre o sexo dos anjos e outras discussões importantíssimas sobre simbolismo e tradição esotérica, que mudavam o rumo da conversa e satisfaziam o anseio dos ingleses pelo direito de reunião.

Isso transforma os pastores protestantes Desagulliers e Anderson em agentes de um governo que oferecia uma liberdade limitada à parcela pensante da sociedade inglesa.

Moldaram a instituição a partir de uma tradição de longa data, a Maçonaria Operativa que na Inglaterra eram as Companhias de Libré  https://bibliot3ca.wordpress.com/607-2/  herdeiras da fase operativa das guildas; eles formataram o espaço de reunião com base na estrutura do plenário da Câmara dos Comuns (dando com isso, a sensação aos maçons de que participavam de importantes discussões);

Planta da Casa dos Comuns no Parlamento Britânico

e em agregaram uma instituição caríssima dos ingleses – O Clube de Cavalheiros – que surgira havia pouco tempo (1693),

Gentlemen

da qual aproveitaram o sistema de votação com bolas pretas e brancas e  a regra da admissão exclusivamente masculina.

“Não podemos mais duvidar que as Lojas Maçônicas que surgiram em 1717 eram nada mais que um novo tipo de Clube: o livro das Constituições afirma que os novos iniciados encontravam em uma loja um relaxamento seguro e agradável  do intenso estudo ou pressa dos negócios, sem política ou partido.” (Cramer, B. – The Origin of Freemasonry – AQC vol 2, p. 106)

Através da proibição da discussão de política e de religião nas lojas eles desarmaram os espíritos e “enquadraram” os descontentes ou potencialmente descontentes, evitando assim o agravamento da crise jacobita.

Também parece ter sido a agenda deles sabotar a igreja católica, pois eram protestantes hanoverianos. Atacaram simultaneamente os dois pontos mais importantes do ambiente político de seu tempo, a Política e a Religião.

A reação jacobita surgiu por meio do conflito entre Antigos e Modernos. Esse conflito, embora se desse em termos de divergências ligadas à constituição maçônica e o aspecto da religião dos maçons, ele mascarava os interesses de Protestantes e Católicos. O recuo dos Modernos foi evidentemente um recuo tático que alavancou a difusão da nova instituição.

Não tardou também a reação da Igreja Católica à evidente intenção da nova instituição de combater o obscurantismo e o domínio da igreja sobre a sociedade da época. Há que se considerar que do ponto de vista papal, a Inglaterra fugia totalmente do controle da Igreja desde Henrique VIII (1533) e a maçonaria era uma ameaça enorme à sua autoridade.  Precisava impedir sua difusão entre os seus clientes.

O Papa Clemente XII, em 1738, emitiu a bula papal que excomunga os católicos que se tornem membros da Maçonaria. Esta sentença é válida até nossos dias, apesar dos alienados maçons americanos e alguns ingleses se apegarem à carta do Cardeal Sepe que tentava relativizar a excomunhão e pretendem que a maçonaria americana não se enquadra na hipótese da bula, visto que não conspira contra a Igreja.  Mas, diversos papas reiteraram a excomunhão, inclusive o atual Benedito XVI.

A esperança dos maçons que professam o catolicismo é vã. A excomunhão nunca será levantada, pelo simples fato de que a igreja tem como dogma a infalibilidade papal, e a revogação de uma bula significaria admitir que o Papa Clemente XII estava errado.

Igreja e Maçonaria são, de fato, duas faces da mesma moeda. Uma tem o dogma da infalibilidade papal e a outra tem o Landmark #25 de Mackay, segundo o qual nada pode ser mudado na instituição.

Mas, há uma diferença fundamental. A Maçonaria é a igreja sem a superstição  e procura salvar o corpo físico humanidade usando a razão, enquanto que a santa madre diz querer salvar a alma manipulando o medo e usando a ignorância.

Assim, a Igreja continua controlando a sociedade através do confessionário, enquanto a Maçonaria o faz através do comportamento dos maçons e das lojas e aumentando seus quadros com o recrutamento da elite dominante da sociedade. São duas instituições complementares que o Establishment utiliza para o controle social. Aqueles que fogem ao controle da Santa Madre Igreja e se refugiam na Maçonaria são igualmente controlados.

Os agentes da Coroa Inglesa que montaram a Maçonaria procuraram deixa-la o mais abrangente possível, cobrindo assim toda uma gama de preferências religiosas e assegurando seu domínio.

Eram homens de seu tempo, mas demonstraram uma extraordinária perspicácia.

Não ousaram, todavia, realizar o que somente mais tarde os franceses – tradicionais iconoclastas – fizeram: dispensar a divindade.  Para os ingleses – e eles estavam absolutamente corretos em sua análise –  um ateu não pode ser maçom.  E a razão é muito simples:  se alguém é capaz de negar o limite máximo, será capaz de negar qualquer coisa. Logo, é um indivíduo livre e incontrolável.  Não serve para a maçonaria.  Ela precisa de conformistas.

Um exemplo recente (1929) desse controle social é evidenciado pelo texto sobre a loja New Welcome 5139, publicado em http://fm4cats.wordpress.com/apendice-2-a-loja-new-welcome-n%C2%BA-5139/.

Em resumo, trata da criação de uma loja especialmente para membros do Partido Trabalhista inglês, porque o Grão Mestre – o Príncipe de Gales – era de opinião que os membros e funcionários do partido estavam recebendo bola preta em seus pedidos de ingresso na Maçonaria.

Até ai, tudo bem, uma oportunidade está sendo oferecida a quem dela precisa e lhe está sendo negada.

O que fica interessante é o final do texto do Irmão Sir Rockliff:

“Além disso, os promotores sentem fortemente que a Maçonaria exerceria uma influência estabilizadora (“como cidadãos do mundo”) sobre aqueles que são trazidos para dentro dela e ajuda a tornar inoperante qualquer influência perturbadora que possa existir no trabalho em fábricas e em outros lugares.

Os homens que compõem a principal associação de lojas do exército e da marinha pertencem às classes industriais, e eles fizeram um juramento de fidelidade.

Espera-se imbuir em seus colegas civis o mesmo espírito de lealdade por meio da Loja da Cidadania”.  (Grifos meus)

(Nota: Loja de Cidadania foi o nome inicialmente dado à loja e posteriormente mudado para New Welcome.)

Publicado on abril 18, 2011 at 2:27 pm  Comments (5)  

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5 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Tenho acompanhado com imenso interesse as postagens deste blog, que tem sido a minha mais importante fonte de pesquisas. Penso que o Rito Moderno oferece o que um racionalista precisa e estou ávido por informações do seu ritualismo. Obrigado!

  2. […] Também considero que entendi o que é a maçonaria. […]

  3. Como faço pra ingressar na loja sem eu ser convidado, bom não conheço nenhum maçom. É só ir na loja e pedir? Muito obrigado.
    No aguardo da resposta.

    • Nilberto,

      Existem duas correntes na Maçonaria. A primeira, chamada Regular onde se situam o Grande Oriente do Brasil e as Grandes Lojas Estaduais, e a chamada Irregular onde existem muitas organizações. Algumas são sérias, outras são arapucas para arrancar dinheiro dos incautos.
      A regularidade significa apenas que a organização local é reconhecida pela Grande Loja da Inglaterra, uma espécie de Vaticano na maçonaria. Quem não é reconhecido é considerado irregular e isso não quer dizer que seja menos séria ou menos maçonaria.
      As organizações são chamadas Potências ou Obediências e as Regulares, pelo menos, adotam o princípio do convite para entrada na loja.
      Mas, isso não quer dizer que você não possa fazer contato em sua cidade com um maçom que participe do seu círculo de amizades ou que esteja em posição de avaliar seu comportamento pessoal, seu comportamento em relação à sua família, seu comportamento em relação à sua comunidade, principalmente este último quesito.
      Nada impede que você vá até a loja mais próxima de sua residência e apresente seu currículo e peça que seja analisado. Tudo dependerá da loja.
      Recentemente, no Rio Grande do Sul, um professor manifestou seu desejo por meio da internet e foi encaminhado a uma loja que finalmente o aceitou.

  4. […] Do Que Se Trata. […]


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