A desintegração da Grande Loge Nationale Française (GLNF) & as perspectivas da Maçonaria de Tradição na França

Tradução José Filardo

Paris, 18 de abril de 2012

por Alain JUILLET

Não recordaremos neste memorando as diversas aventuras que marcaram a crise da GLNF desde Dezembro de 2009, mas só os eventos recentes que conduzem esta obediência à sua desintegração inevitável.

Os acontecimentos destes dois últimos meses parecem ser tão incríveis que até mesmo os escritores mais audaciosos não os poderiam imaginar; vê-se o cinismo prevalecer sobre a justiça, a mentira e o engano sobre a virtude… e, neste folhetim ruim, o espectador desespera de ver, finalmente, o triunfo da Justiça.

-A GLNF está sob administração judicial desde 24 de Janeiro de 2011 e os poderes do administrador foram amplamente estendidos em 15 de fevereiro de 2012. Desde essa data, ele reúne em suas mãos todos os poderes do Conselho de administração e de seu Presidente.

– O desafio para François Stifani que foi desmentido em Assembleia Geral em 4 de fevereiro de 2012 é continuar como grão-mestre a qualquer preço…

… e ele conseguirá por todos os meios, até mesmo aqueles que todo homem de honra deveria condenar.

-Para entender bem a situação, é preciso se lembrar das regras estatutárias de designação e de eleição do Grão-Mestre:

– em uma 1a etapa: o candidato é eleito pela Soberana Grande Comissão (SGC) por uma votação em escrutínio secreto, em um único turno de votação; há que se lembrar de que a SGC é composta por membros arbitrariamente nomeados pelo próprio Grão-Mestre;

– ele se torna, assim, o único candidato que está sujeito, em uma 2a etapa à ratificação dos Irmãos em uma Assembleia Maçônica solene.

-Essas regras que estão sobre a linha divisória entre o civil e o maçônico da GLNF estão no centro das disputas de procedimentos incorridos porque eles podem condicionar o resultado das votações.

Eles explicam a perturbação dos juízes diante desta situação e sua relutância em intervir num domínio Maçônico que eles preferem ignorar.

François Stifani e seus advogados têm sabido explorar habilmente essa situação.

I. Março-Abril 2012: os mais recentes episódios

II. Um resultado previsível

III. Perspectivas da Maçonaria de Tradição na França

I. Março-Abril 2012: os mais recentes episódios

Como François Stifani, desaprovado pela Assembleia Geral em 4 de fevereiro, é eleito candidato a grão-mestre pela SGC em 30 de Março!

– 4 De fevereiro de 2012 – A Assembleia geral desaprova François Stifani

– 4 de fevereiro de 2012: o administrador judicial reúne a Assembleia Geral civil composta pelos membros da SGC e delegados das Lojas; apenas 400 lojas consideradas fiéis puderam participar na votação; as outras foram suspensas ou seus delegados eliminados das listas (a GLNF tem 1630 lojas).

Por uma votação inequívoca, 57,51% dos eleitores desaprovaram François Stifani.

Mas, este se recusa a ouvir o veredicto e, contra a própria evidência, argumenta que esta votação lhe é favorável. Ele reúne, à revelia da AG, um Conselho de Administração ilegal onde ele festeja o resultado e constata que a GLNF pode reencontrar o caminho do trabalho e da serenidade!

– Diante de tal arrogância, o Administrador expressa em 7 de fevereiro, em uma carta mordaz sua “surpresa diante de tanta incoerência, falta de levar em conta o interesse geral, assim como falta de senso de responsabilidade e, acima de tudo, de respeito pelas decisões da Justiça” antes de acrescentar: ” o aceitável foi excedido” e obriga Stifani a reconhecer por escrito a realidade do voto.

O custo de recepções-missão está bloqueado e François Stifani já não pode ocupar uma “suíte” no Hilton.

– 15 de Fevereiro: as instâncias judiciais decidiram colocar a GLNF sob administração provisória e confirmam que François Stifani não é mais o Presidente da associação e que ele se torna um simples membro.

– O administrador, em seguida, convoca uma SGC para 30 de Março para designar um candidato estará sujeito à ratificação de uma Assembleia geral e que toma seguintes disposições:

sobre a composição do SGC: retorno à sua composição de 21 de Janeiro de 2011, ou seja, reintegração dos irmãos suspensos e partida daqueles nomeados depois,

– candidatos: François Stifani está autorizado a se representar (mesmo que ele tenha sido desaprovado pela AG!)

organização de uma votação em dois turnos e escrutínio secreto.

– O administrador cria uma Comissão “ad hoc” conjunta para “revisar os arquivos sobre as sanções adotadas e sobre a regularidade das candidaturas para a função de Grão-Mestre, de acordo com os critérios definidos nas Constituições da ordem, os estatutos e o regulamento interno” (Portaria do TGI, 1 de Março de 2012)

– Fevereiro-Março de 2012: as manipulações eleitorais

– Os candidatos: quinze candidatos se apresentam; entre eles, quatro dignitários próximos de Stifani (seu Grão-mestre Adjunto, seu Grande Orador, seu Grande Secretário e um Grão-Mestre Assistente) com a finalidade de dispersar os votos (eles se retirarão todos, os poucos dias antes da votação).

– A oposição crível é representada por

Jean Murat, antigo Assistente do Grão-Mestre, opositor tradicional histórico que tinha se apresentado contra Stifani em 2007,   Jean-Pierre Servel, antigo Grande Orador e membro do Conselho de administração da GLNF, advogado em Nice, que representa a GLNF “Foellnérienne”.

e Alain Juillet, antigo Grande Inspetor e membro do Conselho de Anciãos, único portador de um verdadeiro projeto destinado a restabelecer a GLNF em sua dignidade e sua autenticidade.

-14 de Março: reunião da Comissão “ad hoc” paritária: golpe teatral!

Alain Juillet é eliminado da concorrência em bases juridicamente questionáveis, assim como Christian Degny, que tinha o apoio de Grãos mestres provinciais excluídos.

Apenas 8 Irmãos (em mais de 100) serão reintegrados… e todos aqueles designados por Stifani após 21 de Janeiro de 2011, data da sua demissão, confirmada pelo Tribunal serão mantidos!

– Enquanto isso, François Stifani lança dois processos de medidas provisórias para alterar, apoiando-se nas Constituições maçônicas, as disposições estabelecidas pelo administrador.

– 29 de Março: o juiz, contra toda expectativa, mesmo a do administrador provisório, concorda em fazer cumprir as Constituições maçônicas (o que era proibido até então) e ordena uma votação de único turno: o candidato que chegar à frente será eleito por maioria simples!

– Na véspera da votação, os 2 principais candidatos (Jean Murat e Jean-Pierre Servel) não chegam a um acordo para apresentar uma candidatura única, cada um deles achando estar em posição de ganhar.

Por conseguinte, a sorte está lançada e o resultado não vai ser nenhuma surpresa!

? 30 de Março de 2012: Stifani torna-se o candidato oficial a Grão Mestre

– Em 411 votos emitidos, são recebidos: François Stifani, 186 votos (45,26%), Jean Murat 111 votos ( 27.01% ), Jean-Pierre Servel,106 votos ( 25,79%), Jean-Paul Pérès, 5 votos (1.22%) e Christian Hervé, 3 votos (0,73%)

– Os motivos para este resultado são simples:

a composição do SGC foi modificada: os 221 novos membros nomeados por FS foram mantidos, apenas 8 Membros eliminados foram reintegrados (em mais de 100). As manipulações sobre a composição do SGC foram feitas sobre 320 a 330 membros.

– o candidato mais “perigoso”, Alain Juillet, foi eliminado.

– a oposição se apresenta desunida.

Sem esquecer as intimidações sobre o colégio eleitoral: ” Não há alternativa a não ser reagrupar nossas tropas (…) e “reter” nossos delegados no SGC. Porque não nos esqueçamos, nós os designamos em nossas escolhas e nossas opções, eles não são, portanto, “livres” em seus votos (…) não nos enganemos! ” (Paul Scaglia, Grão-Mestre Provincial da Córsega, instalado no início de 2011 por François Stifani que tinha no entanto renunciado às suas funções em 21 de Janeiro de 2011).

– François Stifani se orgulha do resultado e escreve em 3 de Abril a todos os membros do SGC: “Vocês acabam de me renovar a sua confiança…” embora a maioria a tenha rejeitado.

Pela primeira vez na história da GLNF, um Grão-Mestre foi eleito com menos de 50% dos votos!

– O administrador convoca uma Assembleia Geral para 23 de Junho de 2012…

… e Stifani pode reencontrar sua “suíte” no Hilton e as verbas de missão-recepções desbloqueadas.

II. Um resultado previsível

Como François Stifani continuará a ser grão-mestre até 2017!

– As manobras mais recentes

– Stifani tentou adiar a AG de 23 de Junho para o fim de 2012, sob o pretexto de que as contas não poderão ser estabelecidas e certificadas antes do verão.

Deslocando a AG para depois de setembro, a manobra é óbvia porque

– as contribuições de 2012-2013 terão de ser pagas, acelerando a saída dos Irmãos e das lojas que esperavam 23 de Junho para votar a partida de Stifani: elas aceitarão pagar um ano de contribuição a mais?

– novos Veneráveis serão instalados. As manobras já começaram para impor às lojas os candidatos favoráveis a François Stifani.

– as lojas que deixaram a GLNF seriam mantidas teoricamente no papel, de moto a dispor de votos de dois delegados fantasmas; Isto tem sido praticado em algumas Províncias, mas é difícil nomeá-las no momento.

Assim, transferindo a AG para o fim do ano, a limpeza será feita!

Em 17 de abril de 2012, no entanto, o anúncio foi feito oficialmente pelo Administrador e seus advogados, da manutenção desta Assembleia Geral… mas até Junho de 2012, não sabemos quantos procedimentos poderiam ser considerados para conseguir seu cancelamento.

– Ao ganhar tempo, Stifani quer iniciar desde logo um pseudo plano de reformas e se apresentar desde já como o salvador da GLNF.

– E se a AG não ratificar Stifani ?

Ele permanecerá no lugar, conforme afirma seu porta-voz, o Grande Orador Jean-Michel Baloup, em uma entrevista com L’Express ” se por acaso a designação de François Stifani não foi ratificada pela AG, o mandato de François Stifani começado em 2007 se prolongaria” .

A pergunta do jornalista “Não é legítimo apelar para a não ratificação se considerarmos que o SGC não é representativo de obediência”?” Certamente não, responde Baloup: “ A SGC não deve ser representante das lojas, como o Colégio dos cardeais que elege o Papa não tem que ser representante das paróquias. “A missa está rezada! ”

– Enfim, François Stifani anuncia claramente, em sua carta de 3 de abril de 2012 a colocação em causa de relações com “as diferentes Organizações, sistemas ou jurisdições,” deixando prever a criação de novas jurisdições mais dóceis.

Stifani: a personagem e sua comitiva

– A personagem ambivalente de François Stifani está no cerne da crise; ela é, sem dúvida, a causa principal. Este é uma personagem fora do comum que seus críticos estavam errados por vezes ao subestimar: comediante, ator, capaz tanto de raiva histérica quanto de cenas de lamentação heroicas, ele apresenta todos os sintomas da patologia dos ditadores.

– Ele usou os € 6 milhões da tesouraria da GLNF para à magnificência e o brilho do seu reinado (um apartamento de pé direito alto na Avenue de Wagram em Paris, organização suntuosa, em 2009 e 2010, de um Tour da França das províncias, Sessões de Grande Loja dignas do “show business”, etc.)…; eles foram usados também para pagar consultores e advogados (pelo menos cinco escritórios de advocacia trabalharam no dossiê) sem esquecer o administrador judicial e as sociedades de auditoria.

– Seu séquito reflete bem o estado atual da obediência e dá uma imagem desastrosa da GLNF:

o círculo mais próximo reside no sul da França, lá onde a Maçonaria – a GLNF em particular – esteve envolvida em muitos processos judiciais,

– um Grande Orador, Jean-Michel Baloup, iniciado em 2002, Venerável de uma Loja em 2008, nomeado Grande Orador em Junho de 2011, (contrariamente aos usos internos), advogado de Stifani e da GLNF,

– um Grande Secretário, Bertrand Heyraud, que se apresentou contra seu Grão-Mestre em 30 de Março, que reconhecia em uma carta a todos os membros do SGC: “A tradição e a legitimidade não podem mais, infelizmente, ser representadas pelo Grão Mestre François Stifani,…”.(…) A punição injusta que caiu sobre ele impede qualquer chance de poder restabelecer a GLNF à força, vigor e prestígio. »

– um Assistente do Grão-Mestre, Jean-Paul Dupinay , que teve que ser severamente sancionado em 13 de Março pelo administrador provisório por comentários e ameaças indignas,

– um Grão-Mestre Provincial Paul Scaglia, que intimida e ameaça fisicamente Irmãos; este caso suscitou real indignação de alguns altos funcionários da GLNF… mas que não foi acompanhado da punição merecida,

– e é de conhecimento comum que certos altos dignitários se envolveram com a justiça francesa e para um deles, uma pena de prisão firme… alguns anos antes de ser iniciado na GLNF.

– As decisões da Justiça: atrasos e contradições

– O Tribunal de apelação de Paris tarda em tomar uma decisão sobre o mérito do recurso contra a decisão do TGI de Paris, de 7 de Dezembro de 2010; que adiada várias vezes desde Junho de 2011, ainda não foi prolatada. “No entanto, o Tribunal afirmou que François “Stifani “ não é admissível em um procedimento sobre o mérito”.

– Decisões de justiça inconsistentes:

Em uma decisão provisória de 13 de Janeiro de 2012, o Tribunal de apelação de Paris declarou:

“Será constatado antecipadamente que a denominação “Grão Mestre” nada mais é que a descrição maçônica da designação de “Presidente”, ela mesma sendo o nome civil das mesmas funções” e os juízes acrescentam “ Tendo se demitido em 21 de Janeiro de 2011, é, portanto, na qualidade de simples membro da associação é que ele intervirá daqui em diante…”.

O Tribunal, portanto, julgou que François Stifani não é mais o Grão-Mestre da GLNF.

Ou seja, nos considerandos do acórdão do TGI em 29 de Março de 2012 (5 ° câmara): ” não é contestável nem contestado que o Sr. Stifani seja o Grão-Mestre que deixa a GLNF, e ninguém reivindica essa qualidade.” Os juízes não puderam tomar conhecimento dos temas da decisão referida acima!

Sem dúvida, François Stifani será ratificado pela próxima Assembleia Geral.

O caminho de uma restauração da GLNF desde o interior está fechado.

A situação não oferece alternativa que não seja uma refundação da Maçonaria de Tradição, através da criação de uma nova Grande Loja.

III. Perspectivas da Maçonaria de Tradição na França

Em direção a uma reconstrução da paisagem maçônica francesa?

Uma análise realista

– desde o interior, não há solução, porque a instituição está pervertida ; ela está nas mãos de um clã que não deixará o poder.

Mesmo o recente acordo alcançado bem tarde entre os dois principais adversários (Jean-Pierre Servel e Jean Murat) visa manter uma oposição interior devotada à desilusão, infla artificialmente os números da GLNF e deixa, com o tempo, o poder nas mãos deste clã,

e fora da GLNF: algumas lojas e alguns Irmãos encontraram refúgio em outras Obediências (Grande Loge da France, Grande Oriente, GL Opera)

– Iniciativas são tomadas atualmente por antigos Grãos Mestres Provinciais e responsáveis da jurisdição para criar um Distrito sob a égide de uma Grande Loja que rompeu suas relações com a GLNF.

– A Grande Loja da Alliance Maçonique Française (GL – AMF)

– em 28 de Abril, em Tours, será constituída a o GL – AMF cuja primeira preocupação é a de reunir e conciliar

as Lojas e os irmãos que passaram por dois anos de uma crise dramática.

Esta nova Grande Loja é constituída segundo os princípios internacionalmente aceitos para a criação de uma Grande Loja Regular:

– Constituição por pelo menos três Lojas regularmente constituídas,

– pelo respeito aos Landmarks, o ato de União de 1813 e os usos e costumes da Maçonaria Regular

– operando em plena soberania, ao abrigo de qualquer ingerência das Jurisdições Ordinais.

Observando escrupulosamente estas obrigações, ela é soberana sobre as Lojas dos três graus simbólicos que ela administra e seus fundadores esperam se beneficiar, o mais rapidamente possível, da estima e da confiança das Grandes Lojas Regulares do mundo inteiro.

– sinal importante e altamente simbólico: em 13 de Abril, a loja de “L’Anglaise 204 ” fundada em 1732, primaz das Lojas na França e na 2 ° Loja fundadora da GLNF, por decreto solene decidiu não só se juntar à GL – AMF, mas até mesmo a ser uma das lojas fundadoras e consagradoras.

A nova Grande Loja espera criar uma dinâmica que permita, com o tempo, restaurar na França a ligação da Maçonaria regular de tradição.

Poderia ela permitir, um dia, uma recomposição da Maçonaria regular na França?

É traz essa esperança e o sucesso que ela já ganhou junto às lojas e irmãos da GLNF vêm se juntar a ela para reencontrar a regularidade, fraternidade e serenidade em seus trabalhos, mostrar seu dinamismo e a formidável esperança que ela gera.

Allan JUILLET, conforme informado no texto, foi candidato nas eleições da GLNF e discordando, partiu para a formação da Grande Loja da Alliance Maçonique Française (GL – AMF).

Publicado on junho 6, 2012 at 9:08 am  Deixe um comentário  

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