A Constituição Ímpia: Como os Fundadores Asseguraram que a América não se tornasse uma Nação Cristã

Tradução José Filardo

Os fundadores fizeram um esforço nobre para dizer adeus a tudo aquilo, para garantir as bênçãos da liberdade para si e sua posteridade.

Susan Jacoby19 de Junho de 2012 |

Quando eu estava crescendo nos anos cinquenta e sessenta, quase ninguém na política ou na vida quotidiana andava por ai proclamando, “Eu sou um cristão.” Se realmente você fosse um cristão — ou seja, alguém que considera Jesus Cristo o Messias — você se identificava como Luterano, Metodista, Batista, católico e assim por diante in excelsis para permitir que outros soubessem onde você se colocava na vasta paisagem religiosa americana.

Chamar a si mesmo um cristão hoje em dia, por outro lado, tem um significado especial, politizado. Para a maioria das pessoas na vida pública, esta auto identificação sugere uma forma particular de cristianismo conservador, uma marca de religião que busca não só proselitizar, mas impor seus valores aos outros através da máquina do Estado. A grande exceção a essa regra é o presidente Barack Obama, que foi forçado pelos paranoicos “birthers” (aqueles que negam a nacionalidade americana do presidente) a anunciar suas credenciais como um cristão para refutar a mentira de que ele é um “muçulmano secreto”.

Era uma vez (até por volta de 1980, na verdade), a denominação “Cristão” usada para significar “protestante de direita”, como consequência da animosidade histórica entre muitas formas de protestantismo estadunidense e a Igreja Católica Romana. Isso não é mais verdade, conforme demonstrado pelos aspirantes às primárias do Partido Republicano Rick Santorum e Newt Gingrich, os queridinhos dos fundamentalistas protestantes, embora eles personificassem o cliché “mais católico que o Papa.” (No caso do Gingrich, os pontífices relevantes seriam certos vigários medievais e renascentistas de Cristo que produziram numerosos filhos através de ligações extra pontificais.) Santorum é na verdade um fundamentalista católico — ao contrário da maioria dos católicos americanos, que não aceita a noção de infalibilidade papal ou a linha Vaticano sobre o comportamento sexual. Católicos liberais, bem cientes do significado político de cristão na política americana, geralmente se chamam simplesmente o bom e velho “Católico.”

Assim, quando Santorum e Gingrich usaram seus apitos de cão durante as primárias republicanas para implicar que Obama não é cristão como ele afirma ser, o que eles realmente queriam dizer é que ele é o tipo de cristão deles. Também tornou-se padrão para os políticos oferecer um assentimento à “nossa herança judaico-cristã” em um esforço para exibir inclusividade teocrática. O escorregadio Gingrich nunca tropeçou nessa frase, mas Santorum o fez muitas vezes, removendo o judaico para quatro sílabas, de modo que saiu “Judeu”. É claro que este cliché ecumênico não fazia parte da educação hipócrita de Santorum.

Foram os Estados Unidos fundados como uma nação cristã, significando que os autores da Constituição estabeleceram um governo cujas leis não só refletiriam, mas também imporiam as regras de uma determinada marca de cristianismo? Não, ponto. A resposta é tão claro quanto a pronúncia de Santorum de judaico é arrastada, e a explicação pode ser encontrada nas antigas (ou seja, pré-1980) práticas americanas de se identificar por denominação religiosa.

A identificação denominacional é tão antiga quanto as primeiras colônias no novo mundo, dado que o primeiros teocratas puritanos estavam fugindo da perseguição por adeptos de outra denominação — a Igreja da Inglaterra. Até era revolucionária, as distinções doutrinárias e intelectuais separando uma denominação cristã de outra continuaram tão imensas quanto o Golfo entre as crenças de um judeu e qualquer cristão, ou entre qualquer crente religioso ortodoxo e um deísta.

Os fundadores não queriam que diferenças doutrinais causassem estragos cívicos do tipo então evidente em toda a Europa. É por isso que eles deixaram não só Jesus, mas, na verdade, qualquer outra divindade fora da Constituição. Que a população americana era e é esmagadoramente cristã é um fato. O que torna ainda mais notável que os fundadores não estabelecessem um governo cristão.

A direita cristã não pode apontar uma única menção de Jesus ou do cristianismo em qualquer um dos documentos fundadores da nação e são forçados a confiar, para antecedentes de divinos, na linha da declaração de independência que fala sobre todos os homens serem dotados por seu criador de certos direitos inalienáveis. Mas, mesmo se isso fosse uma declaração de crença em um deus específico, ao invés de uma afirmação geral da filosofia dos direitos naturais, ela mais decididamente não é uma declaração de fé em Jesus Cristo.

De qualquer forma, é inútil envolver-se em debates com porta-vozes da direita cristã sobre este assunto, porque para eles, a origem cristã do estado norte-americano é um artigo de fé que não pode ser desmentido por fatos ou inglês simples. Dizer-lhes, por exemplo, que a impiedade da Constituição foi assumida e atacada por conservadores nas convenções de ratificação do estado em 1787 e 1788, e eles apontarão para a datação convencional de “Ano da Graça” do documento. Isso supostamente refuta centenas de declarações de Ministros irritados, reclamando sobre a ausência de deus no documento que faria parte da fundação escrita do jovem governo. Conforme um clérigo observou na Convenção do estado da Carolina do Norte, a proibição de testes religiosos para cargos públicos contida na Constituição , em seu artigo VI, seção 3 correspondia a “um convite para judeus e pagãos de todo tipo venham entre nós”. Ele foi inteiramente exato em sua descrição dos potenciais efeitos de deixar qualquer pessoa, independentemente da crença religiosa, concorrer a cargos públicos. E quando chegou a hora da ratificar a Constituição, ele e seus companheiros teocratas perderam a votação em todos os Estados.

A impiedade da Constituição se manteve aparecendo no discursos públicos ao longo do século XIX, mais notavelmente quando um poderoso grupo de ministros protestantes veio a Abraham Lincoln durante a Guerra Civil e exigiu que ele apoiasse uma emenda para declarar Jesus Cristo e não “Nós, o povo”, como a fonte de todo poder governamental. Lincoln, um político sagaz, que sabia quando não começar outra batalha no meio de uma guerra civil sangrenta, recusou-se a tomar qualquer medida e, em vez disso, prosseguiu com um movimento para aplacar os Ministros colocando “Confiamos em Deus (In God We Trust)” em uma moeda de dois-centavos em 1864. Lincoln presumivelmente via a inscrição de confiança em uma divindade em uma moeda como uma ação inócua calculada para evitar o problema que certamente seria gerado por uma emenda cristã à Constituição. Mal sabia ele que quase 150 anos no futuro, políticos de direita iria empregar esse slogan para atacar o lema muito mais antigo E Pluribus Unum.

Marca de compromisso de Lincoln foi descrita por Jon Meacham na revista Time como “uma aliança duradoura entre crentes e não crentes que os secularistas vivem com imagens e apelos religiosos púbicos em troca de moderação autorreguladora da parte dos fiéis. É uma antiga e sábia acomodação que permite que religião e política informem uma à outra sem promover uma guerra escatológica entre Igreja e estado.”

Para ser justo, Meacham argumenta que extremistas como Santorum violaram “pacto” tácito e não assinado. No entanto, “moderação autorreguladora por parte dos fiéis” é um altar frágil sobre o qual assentar a base de qualquer acordo sobre a separação entre Igreja e estado. Se os fundadores tivessem acreditado na capacidade dos fiéis para tal “autorregulação”, eles nunca teria proibido testes religiosos para cargos públicos em um tempo quando a maioria dos governos do estado ainda tinham a discriminação religiosa escrita em suas leis.

Um aspecto do pacto imaginário entre crentes religiosos e secularistas começou a quebrar na década de 60, muito antes da ascensão da direita cristã. Desde a aprovação do Medicare e Medicaid e a expansão da ajuda federal à educação durante a administração de Lyndon Johnson, os secularistas raramente se opuseram ao gasto de fundos federais através de instituições religiosas, tais como hospitais e instituições de caridade. Esta é dificilmente uma questão simbólica. Ela é muito mais importante que as vitórias simbólicas ganhas por secularistas daquela época na Suprema Corte sobre questões, tais como oração em escolas.

A tempestade desencadeada pelo esforço da administração Obama para obrigar as instituições católicas a oferecer apólices de seguro que cubram a contracepção foi descrita pela mídia como uma disputa sobre liberdade religiosa. Liberdade religiosa significava, para os Bispos católicos, o direito de participar em programas federais e receber fundos fornecidos por todos os contribuintes, enquanto impunham suas doutrinas religiosas a funcionários e pacientes igualmente — seja qual for sua religião ou a falta dela. Nem toda religião quer ter bolo dos contribuintes e comê-lo. As instituições de caridade mórmons, por exemplo, não aceitam dinheiro do governo.

A capacidade da direita religiosa de enquadrar este litígio puramente como uma questão de liberdade religiosa — significando liberdade para as formas mais conservadoras da religião — é um resultado direto da longa erosão da separação entre Igreja e estado em nível prático do financiamento do contribuinte. Ao longo destas décadas de erosão, que foi outrora o centro religioso foi constantemente puxado para a direita.

(Deve-se observar que o furor também é uma consequência da incapacidade dos bispos católicos de convencer o seu próprio rebanho a seguir a liderança da Igreja em questões sexuais. Os bispos estão tentando reafirmar o controle sobre os hospitais católicos — alguns deles administrados por freiras presunçosas — onde a doutrina da Igreja foi violada por anos quando se trata de assuntos tais como a pílula do dia seguinte para as vítimas de estupro e aborto necessários para salvar a vida de uma mãe. Mas a divisão dentro da Igreja Católica não é o assunto deste artigo.)

Não existe uma resposta real a ser encontrada em documentos de fundação da nação sobre esta questão, porque os fundadores nunca imaginaram uma América em que o governo federal iria gastar bilhões de dólares em saúde e educação, seja através de instituições religiosas ou não religiosas. É interessante notar, no entanto, que o Ato para Estabelecimento de Liberdade Religiosa de 1786, da Virgínia, — que mais tarde serviu como modelo para o Bill of Rights — surgiu em oposição a uma proposta que teria tributado os moradores de Virginia para o suporte do ensino cristão nas escolas públicas. A lei da Virgínia, não os estatutos dos Estados que ainda tinham igrejas estabelecidas, tornou-se o modelo para o artigo VI, que deveria proibir a preferência religiosa dentro do governo, e a Primeira Emenda, que impedia o governo de favorecer uma religião sobre outra. A questão, na Virgínia, então, assim como a questão nacional sobre as prerrogativas dos hospitais sectários hoje, englobava tanto a liberdade religiosa quanto dinheiro.

Os bispos não estão nem um pouco preocupados com a liberdade de funcionários não católicos (ou, para essa matéria, católicos) cujas consciências lhes dizem que a contracepção é boa. Eles não estão preocupados com as vítimas de estupro, seja qual for a religião delas, a quem não só será recusada a pílula do dia seguinte por seus hospitais, mas também não as informarão sobre outros hospitais não religiosas que prestam esses serviços. Eles não estarão preocupados se um dia o Vaticano decidir que vontade de viver é uma usurpação da autoridade divina e eclesiástica e que todos tem o dever de viver e sofrer até que alguma divindade decida puxar a tomada.

A questão não é se os Estados Unidos são uma nação cristã: é se autoridades eclesiásticas que aderem a uma marca profundamente conservadora de cristianismo (juntamente com alguns rabinos ultra ortodoxos que não falam pela maioria dos judeus americanos, mais do que os bispos falam pela maioria dos católicos americanos, ou o Family Research Council fala pela maioria dos protestantes americanos) começam a usar o dinheiro do contribuinte para promover suas agendas paroquiais.

É verdade que a maioria dos secularistas americanos tolera muito mais simbolismo religioso na vida pública do que gostaríamos, mas é pura fantasia sugerir que assinamos qualquer pacto que tolera o gasto de dinheiro público, de acordo com as prescrições e proscrições de direito canônico ou leis bíblicas gerais.

Ah! espere. Realmente não havia quaisquer leis bíblicas sobre a contracepção porque não havia qualquer contracepção eficaz. Mas, naquela época, o Israel bíblico definitivamente não era uma nação cristã. Ele era, no entanto, uma teocracia, como qualquer monarquia feudal cristã e estado-nação que sucedeu o Império Romano. Os fundadores fizeram um esforço nobre para dizer adeus a tudo aquilo, para garantir as bênçãos da liberdade para si e sua posteridade.

Susan Jacoby é autora de Freethinkers: a History of American Secularism (Metropolitan, 2004) e uma futura biografia de Robert Green Ingersoll, a ser publicada em Janeiro próximo pela Yale University Press.

Publicado on junho 20, 2012 at 11:46 am  Deixe um comentário  

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