A ciência da religião

Tradução José Filardo

Gregory S. Paul

Diferentemente da ciência, que vai onde a evidência e a análise indicam e é antimítica por natureza, a religião é inerentemente dogmática e baseada em opinião, com os mitos sendo parte integrante do sistema. Um destes mitos, amplamente sustentado por quase todos os teístas, bem como por muitos céticos do sobrenatural é que a ciência não pode ser usada para tratar e responder a muitas questões fundamentais da crença religiosa. Nessa visão racional, a ciência objetiva e a religião baseada na fé são magistérios separados que são igualmente sistemas de pensamento legítimos, e que não podem comentar profundamente um sobre o outro. Por mais popular que seja esta visão – em parte porque ela oferece um meio politicamente correto de evitar conflito complicado entre os reinos científico e religioso – ela é comprovadamente falsa.

Não somente a ciência pode, facilmente, detectar a existência de uma inteligência criadora sob uma ampla variedade de circunstâncias, mas ela pode descrever suas características básicas. Se, por exemplo, não houvesse qualquer ordem evolutiva no aparecimento de organismos no registro fóssil, e os organismos vivos tivessem sistemas e formas do corpo radicalmente diferentes que impedisse serem relacionados entre si, então poder-se-ia concluir que a vida foi especialmente criada por uma super inteligência. Também determinável é o intervalo de tempo da sua criação. Se a astronomia, a geologia e a datação radiométrica demonstrassem que o universo e nosso planeta tivessem apenas alguns milhares de anos, e que um grande dilúvio havia engolido o planeta, então o relato de Gênesis da Bíblia poderia ser verificado.

A aplicação da metodologia estatística científica à Sociologia da religião tornou-se menos controversa nos últimos anos, mas continua a ser um assunto suficientemente delicado de modo que grandes questões de enorme importância para o público em geral permanecem seriamente subpesquisadas. Durante séculos, as forças religiosas afirmaram que existe uma divindade boa e que é imperativo para os cidadãos das nações seguir as instruções fornecidas pelo seu criador moral se quiserem evitar o colapso social em um niilismo ateu. Apesar da defesa muitas vezes extenuante desta afirmação, uma análise abrangente, confirmando sua verdade nunca apareceu. Recentemente, também se tornou comum afirmar que a religião é tal condição humana universal, que não está em declínio nos EUA, ou o mundo. Continua a ser tão popular quanto é cientificamente injustificado acreditar que as pessoas acreditam em deuses, ou porque é uma verdade transcendente, uma conexão com o criador sobrenatural da vida, ou porque é uma resposta psicológica ao medo da morte, ou é o resultado evolutivo de um “Gene de Deus.”

A maioria das discussões na literatura popular e na literatura e especialização em defesa de ambos os lados é conversacional, anedótica, casual e, consequentemente, de pouca utilidade. O nível de erro é tão alto que o debate público é mais enganoso que informativo. Existe uma necessidade correspondente de redefinir as regras, de modo que aqueles que desejam se envolver no debate sobre estas questões sejam obrigados a ser mais rigorosos e analíticos em seus argumentos e métodos.

Um motivo pelo qual eu estou descontente com o estado de falta de rigor da conversa, é que eu sou o tipo de pessoa que gosta de saber como as coisas realmente funcionam. Ao longo dos anos tornei-me cada vez mais frustrado com o fato de que tão pouco estava sendo feito para realmente responder as grandes questões sobre fé e sociedade que me faziam coçar a cabeça. Outros, como pesquisador de Yale, Paul Bloom, e o notável cético Michael Shermer comentaram sobre a escassez de investigação inadequada. Grande parte da investigação realizada é estritamente orientada para abordar questões acadêmicas específicas de interesse limitado para o público. Também era estranho que ninguém se preocupasse em produzir uma ferramenta sociológica tão básica quanto óbvia, uma comparação nacional cruzada abrangente das condições sociais e financeiras em países modernos. A aparente ausência de investigação tem causado sérios danos, na medida em que está deixando o corpo político sem informações fundamentais de que ele precisa para fazer escolhas bem informadas sobre o curso futuro de sociedades nacionais.

Era desconcertante. O que estava impedindo os especialistas de fazer o trabalho necessário para enfrentar os problemas fundamentais ? O que a morte prematura em massa de seres humanos nos diz sobre a moralidade de qualquer criador? Eram os nazistas pessoas sem Deus, como alguns afirmam, ou era Hitler um católico fiel como outros acreditam? Por que tantas pessoas acreditam no sobrenatural em primeiro lugar? Por que os franceses e suecos são tão irreligiosos? e que os dados realmente nos dizem sobre a hipótese de que a religião é boa para as sociedades?

Logo após a virada do século, comecei a ensaiar no teste da última premissa. Os resultados foram tão intrigante que eu percebi que alguém mais já deve ter feito o trabalho, e eu estava perdendo o meu tempo. Uma pesquisa de literatura e consultas aos sociólogos afirmavam que ninguém tinha feito isso (um sociólogo disse que desejava que ele tivesse pensado na ideia). Eu decidi que alguém devia, isto é, eu devia, fazer o esforço e fazê-lo da maneira que maximizasse os benefícios para o público.

O procedimento de publicação é realizar rigorosa investigação estatística e análise para testar, e quando se revelar cientificamente viável responder às perguntas mais importantes ainda negligenciadas sobre religião e secularismo, apresentar os resultados tanto para a academia quanto para o público, de modo que os cidadãos possam ter as informações de que precisam determinar melhor suas opiniões sobre estas questões. As questões analisadas variam desde teologia filosófica até interação pragmática entre religiosidade e ciência, sociedade, psicologia, economia e política.

Esta ampla gama de cobertura decorre da premissa de que tudo está interligado — um fator influencia o outro e depois outro. O método envolve a publicação da pesquisa em publicações e revistas acadêmicas para estabelecer sua legitimidade técnica. Essas revistas geralmente são religiosas ou neutras por natureza, a fim de minimizar acusações de parcialidade. Eu também prefiro publicar em revistas de acesso aberto online que o público pode acessar, de acordo com a ideia de que obter informações do público é pelo menos tão importante quanto o lado acadêmico do campo.

Os resultados verificam se métodos estatísticos científicos podem ser usados para examinar e resolver muitos problemas religiosos. A publicação de uma investigação científica da natureza moral da hipótese de um criador moral monoteísta em uma revista teológica prova diretamente a capacidade da ciência de testar a verdade de alegações baseadas na fé. A metodologia sociológica foi examinar via estatísticas comparativas o que as pessoas realmente fazem em termos de crença e atividades sob diferentes circunstâncias sociais e econômicas; o que é superior a confiar em resultados de pesquisa brutos, porque os entrevistados podem mentir consciente ou por meio de auto ilusão. Não importa quão lógico possa parecer, uma hipótese não é aceita, a menos que esteja em conformidade com, e explique os padrões observados melhor do que cenários alternativos. Fiquei particularmente satisfeito que a comparação entre as condições socioeconômicas e a religiosidade nas democracias prósperas de hoje produziu a informação fundamental necessária para resolver muitas das questões fundamentais sobre a popularidade e base mental da fé ao longo da história e no processo de refutar muitas lendas e conceitos comuns. Seguem-se as conclusões produzidas pela investigação até à data atual.

É literalmente impossível uma divindade criadora moral, poderosa e competente existir e a doutrina central cristã estar correta. Isso ocorre porque a quantidade extraordinária de sofrimento humano estatisticamente medido pela morte de seres humanos imaturos causada por doença, defeitos reprodutivos e outras causas naturais – o Holocausto das Crianças – tem sido o máximo possível e apenas uma pequena percentagem de seres humanos adultos foram capazes de fazer uma escolha baseada em livre arbítrio sobre seu destino eterno. A lista de absurdos teológicos que resulta da falha de um criador em proteger as crianças inocentes destrói ainda mais a doutrina cristã. Segue-se que não há qualquer base divina para o movimento próvida porque não há nenhuma evidência que um deus favoreça a vida sobre a morte prematura. E nem a religião é capaz de fornecer uma base moral para a moralidade individual ou social, um fato confirmado pelas condições reais presentes nas nações modernas mais bem sucedidas.

Apenas as democracias menos piedosos desfrutam das melhores condições socioeconômicas em geral – conforme medidas pela escala exclusivamente abrangente de sociedades bem sucedidas – na história, os Estados Unidos mais cristão ocupa o primeiro lugar como a nação mais disfuncional de acordo com os indicadores mais importantes. O principal fator impulsionando a forte correlação existente entre as altas taxas de secularismo popular e melhores condições sociais é a tendência de elevados níveis de prosperidade econômica e baixos níveis de disparidade de renda e a pobreza que são criados por políticas progressistas seculares suprimir acidental mas consistentemente a religiosidade em massa. A direita religiosa tende a se opor às políticas socioeconômicas progressivas eficazes, em favor de políticas socioeconomicamente darwinistas disfuncionais que favorecem a religiosidade popular. Nunca não existiu qualquer nação altamente religiosa e socioeconomicamente bem sucedida, e o relacionamento antagônico entre condições benignas e a popularidade da religião torna impossível fazer com que exista uma.

Mesmo os E.U.A. estão enfrentando o processo de secularização que já descristianizou outras democracias avançadas, refutando a crença de que a religião americana é tão estável que é parte integrante do caráter nacional. Este efeito é motivado principalmente pela cultura de empresa-consumidor que incentiva valores materiais e estilos de vida em detrimento da devoção e piedade religiosa. A aliança irônica entre “Theocons” americanos que tendem a se opor à ciência darwinista e os interesses corporativos darwinistas sob a égide do Partido Republicano é correspondentemente auto destrutiva para os primeiros, embora falte aos “theocons” uma estratégia alternativa viável.

Prosperidade segura e a cultura popular de consumo combinam-se com a ciência moderna que permite e incentiva o nãoteismo para formar a Tripla Ameaça à Fé Ocidental que está esmagando as igrejas ocidentais a quem faltam os recursos para montar um esforço eficaz no sentido contrário.

O fato de que as maiorias em algumas nações ocidentais são ateus e agnósticos demonstra que religião não é tão universal e parte integrante da condição humana, ou vital para a condução de sociedades, quanto são a linguagem e o materialismo, sem os quais a civilização não seria possível. Resulta, igualmente, que o medo da morte, a genética, e uma profunda ligação com o sobrenatural não são a causa primária da religiosidade popular. Para a maioria das pessoas, a religiosidade é uma resposta psicológica superficial a um ambiente socioeconômico disfuncional e inseguro, em que se pede ajuda e assistência a deuses inventados. Devido à natureza casual e opcional da fé popular, atividades e devoção religiosa são facilmente descartados quando a classe média se sente suficientemente segura em sua prosperidade. O exemplo das democracias mais seculares sugere que a porcentagem de uma população nacional que permanece tão fortemente interessada em devoção religiosa que eles continuam a assistir a serviços religiosos algumas vezes por mês está na casa de um dígito.

O nãoteismo popular da similarmente superficial e informal na maioria dos incrédulos. Esta conclusão é um exemplo de como fazer com que os resultados da metodologia científica utilizada por este e outros pesquisadores objetivos possam ser desconfortáveis para o nãoteista. Aparentemente, é impossível para uma nação de primeira mundo apoiar fortemente a ciência evolutiva e, ao mesmo tempo ser altamente religiosa também desafia uma presunção generalizada do campo próevolução.

A natureza casual da religiosidade de massa e secularização popular significa que o nível dessas opiniões não é determinado em grande parte por uma grande luta de ideologia e ideias em que o lado que tem os melhores argumentos e/ou a melhor campanha de relações públicas ganha; é o cotidiano experimentado pela maioria da população que é mais crítico. Isso significa que a prestação de assistência médica universal aumenta muito a segurança financeira da maioria e faz muito mais para aumentar o secularismo do que os esforços da comunidade dos ateus, e uma vez implantadas, as políticas progressistas não podem ser efetivamente anuladas pelas forças religiosas. Resulta igualmente que as organizações religiosas não podem se perpetuar com sucesso em termos de sustentar a religiosidade geral de uma população.

Escrito por patriarcas tribais feudais, ao invés de um designer ético, o deus bíblico de ambos os Testamentos não é moral, porque ele causa, ordena ou aprova uma série de ações imorais. Entre elas o genocídio, limpeza étnica e assassinato envolvendo a morte de adultos e crianças, muitas vezes em grande escala, além de pilhagem e roubo e terror com base em escravidão, e tortura, autocracia e misoginia. As escrituras judaico-cristãs não são capazes de fornecer uma base moral para a moralidade individual ou social.

Muitos, mas não todos os males que têm afligido a humanidade nos últimos séculos, incluindo o antissemitismo, o imperialismo, o racismo, a escravidão industrial e o apartheid foram desenvolvidos em sociedades cristãs, bem antes da biologia evolutiva e posteriormente contaminou o pensamento científico desenvolvido no Ocidente cristão. A escravidão racial foi desenvolvida e defendida nas colônias americanas, em grande parte pelos protestantes, que, em seguida, construíram a cultura de apartheid de Jim Crow em que torturantes linchamentos eram um espetáculo semanal popular – todos os estados americanos com leis contra o ensino da evolução eram estados linchadores. Alguns destes mesmos estados também aprovaram leis de eugenismo que foram amplamente aprovadas pelos protestantes em ambos os lados do Atlântico. Uma invenção da Igreja Católica, o antissemitismo foi posteriormente desenvolvido por Martinho Lutero e “theocons” americanos como Henry Ford. Estas opiniões e ações inspiraram Hitler, que sentiu que ele estava fazendo a obra de Deus Cristão-Ariano.
Embora a religião tenha seu lado negro, não é a culpada de todos os males humanos. Por exemplo, atentados suicidas como uma forma de terror anti-civil começaram na década de 1970 pelos rebeldes Tigres Tamis do Sri Lanka que não eram teístas na doutrina. A tática foi posteriormente adotada por extremistas islâmicos.

Embora a pesquisa científica por mim e por outros (Zuckerman, Rees, Norris, Inglehart e Bruce entre eles) estejam resolvendo muitas das questões que cercam a crença e a descrença no sobrenatural, muitas questões permanecem. Por exemplo, por que uma grande minoria de pessoas bem-educada, orientadas para a ciência, com rendimentos seguros continuam ardentemente a acreditar em divindades, apesar da falta de evidências convincentes? –G.S. Paul

Em outras áreas de pesquisa que eu publiquei em Nature, BioScience, Scientific American, The Anatomical Record, Modern Geology, Historical Biology e Cretaceous Research , bem como uma série de livros acadêmicos. Criei ou editei livros através da Johns Hopkins University Press, Scientific American e Princeton University Press. Serviços de revisão de par foram prestados a editores, revistas técnicas e ao sistema de bolsas governamentais da National Science Foundation.

Publicado on junho 19, 2012 at 11:08 am  Deixe um comentário  

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