A democracia em risco

Tradução José Filardo

 08 de janeiro de 2015 |

“Em um momento em que o terrorismo instrumentaliza a religião, nada seria pior do que ceder à tentação da generalização, da busca por bodes expiatórios e tomar a parte pelo todo”, analisa Daniel Keller Grão-Mestre do Grande Oriente da França, depois do ataque mortal contra a redação de Charlie Hebdo.

 

 Quarta-feira à noite é a contemplação e a seriedade que dominavam a Praça da República em Paris, como em todas as cidades da França, onde dezenas de milhares de homens e mulheres se reuniram espontaneamente para dizer que a barbárie nunca dará a última palavra. Numa altura em que há preocupações com a desintegração da sociedade, a unidade expressa na dor da provação mostra que o compromisso com a democracia não é uma palavra vazia e que os cidadãos não estão dispostos a renunciar aos seus direitos.

Porque é justamente a democracia está em perigo, quando se ataca uma das suas liberdades fundamentais, a saber: a liberdade de imprensa. Isto é ainda mais verdadeiro quando se ataca o direito de caricaturar para o qual não há limites ao direito de escárnio. Por seu poder corrosivo, o cartunista desenha naturalmente a democracia para a vingança de todo o fanatismo onde admitir que podemos rir de tudo é uma forma de heresia. Mas esta última não é a nova impiedade dos novos tempos modernos, é sim a encarnação suprema de uma liberdade para a qual nenhuma norma, nenhuma crença é a priori intocável.

A democracia é também filha de um humanismo que a opõe à barbárie que cegamente ensanguenta muitos países do mundo. Num momento em que o gênio do espírito humano permite considerar a conquista do planeta Marte, como não ser tomado de terror diante do fato de que uma barbárie de outra época continua a bater em nossas portas?

Isto seria esquecer que o fanatismo é uma constante na história da humanidade, seja tratar-se das piras da Inquisição, da barbárie nazista e do terrorismo que nos afeta hoje. Este fanatismo impõe uma nova forma de guerra, sem rosto, sem campo de batalha. Assim, através da reafirmação intangível dos princípios que são nossos, pela recusa a ceder aos ditames da violência, pela capacidade intratável do do lápis de desafiar o cânone que se conseguirá triunfar sobre essa barbárie com rosto desumano.

Trata-se também de mostrar que a civilização dos direitos humanos e das liberdades, pela dimensão emancipatória que a fundamenta, pela multiplicação dos direitos que ela promove, é capaz de derrotar seus inimigos sob a condição de se renunciar à síndrome do ódio de si mesmo. Somente uma sociedade reunida e acreditando em seu futuro deterá o terrorismo.

Finalmente, em um momento em que o terrorismo explora a religião, nada seria pior do que ceder à tentação da generalização da busca de bodes expiatórios e de tomar a parte pelo todo. No entanto, é chegada a hora, no clima de confronto, onde tais atos podem levar a recordar que a organização secular de nossa empresa é a única susceptível de preservar o necessário clima indispensável de harmonia de que a República precisa para derrotar o terrorismo. E nestas condições, a convivência não pode repousar sobre a reivindicação multiplicado de obediências. Pelo contrário, é chegado o momento de entender a necessidade de fazer prova de moderação. Caso contrário, serão os terroristas que ganharão a guerra suja que eles nos declararam.

E não nos esqueçamos de que os membros do Charlie Hebdo , aos quais recentemente se pretendeu mover um processo por delito de blasfêmia em nosso próprio solo, são os soldados caídos no campo de honra da liberdade, armados apenas com os seus lápis e sua liberdade de pensamento!

 

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6 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Parabéns meu Ir:., mais uma vez você foi feliz em seu texto.

  2. Desculpe, mano. Peço sinceras desculpas pelo meu açodamento. Acho que o tema polêmico e minha veia de debatedor acalorado não esperou o tempo devido…e disse besteira!!! Claro que você não pode moderar o tempo todo.
    Você postou meu comentário e também a minha tola reclamação.
    Pela postagem do meu comentário, obrigado: 200 maçons cristãos da M.A.A.T (Maçons Associados à Antiga Tradição) agradecem.
    Pela serenidade em me pedir calma em resposta ao meu açodamento, aceite, mais uma vez, minhas sinceras escusas.
    Totalmente teu,
    Irmão
    Marlanfe

  3. DELETOU O MEU COMENTÁRIO, MEU IRMÃO?
    QUE PENA…EU PENSEI QUE VOCÊ TIVESSE UMA POSTURA ISENTA. NÃO FAZ MAL, HÁ 200 PESSOAS QUE ME OUVEM E
    PENSAM NO QUE EU LHES DIGO. MAS ISSO ´SO PROVA QUE A “LIBERDADE DE EXPRESSÃO”, TÃO DECANTADA PELA MAÇONARIA, SÓ EXISTE PARA ALGUNS: QUE INTERESSAM!!!
    TFA

    • Calma, calma, Bro.

      O comentário só aparece depois de moderado e eu não modero o tempo todo.

  4. “Porque é justamente a democracia está em perigo, quando se ataca uma das suas liberdades fundamentais, a saber: a liberdade de imprensa. Isto é ainda mais verdadeiro quando se ataca o direito de caricaturar para o qual não há limites ao direito de escárnio. Por seu poder corrosivo, o cartunista desenha naturalmente a democracia para a vingança de todo o fanatismo onde admitir que podemos rir de tudo é uma forma de heresia. Mas esta última não é a nova impiedade dos novos tempos modernos, é sim a encarnação suprema de uma liberdade para a qual nenhuma norma, nenhuma crença é a priori intocável.”
    Isto significa que alguém goza de “liberdade absoluta”. Ora, como o que há de mais fundamental na democracia é ” a igualdade de dignidade e direitos”, há aqui uma contradição: o cartunista NÃO é igual nem em dignidade, nem em direitos a nenhum outro cidadão. Logo, se todas as liberdades democrática devem ter um limite para assegurar a convivência, ao cartunista não se impõe esse limite; ele é, assim, A ABSOLUTA CAPACIDADE DE DESTRUIR A IGUALDADE DE DIGNIDADE E DE DIREITOS EM UMA DEMOCRACIA.
    Me parece que há aí uma contradição flagrante !!!
    Em uma democracia não pode haver absolutismos, que foram destruídos com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, e modernamente, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos proclamada pela ONU.
    Ou nós voltamos aos tempos do absolutismo? Se afirmativo, de nada serviu o sangue derramado pela Liberdade, pela Igualdade, pela Fraternidade. Tudo não passou de uma grande ficção…

  5. O terrorismo é uma consequência da ânsia de dominar tida por determinados grupos dentro das religiões e dos partidos políticos, estes normalmente gerados por fanáticos religiosos.


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