A EVOLUÇÃO DA LENDA HIRÂMICA NA INGLATERRA E FRANÇA. (Parte I)

Tradução José Filardo

Por Joannes Snoek.

(Palestra ditada pelo próprio Ir.’. Snoek no Freemason’s Hall patrocinada pela Sociedade Cornerstone em 13 de maio de 2001.)

O Mistério de Hiram Abiff. (Resumo)

Seguindo uma veia revisionista, o próximo a falar foi o Irmão Dr. Jan Snoek das Universidades de Heidelberg e Leyden, que é um especialista em história das religiões e rituais maçônicos. Em um trabalho profundo e provocativo intitulado “O que se perdeu no Terceiro Grau?

O Dr. Snoek afirmou que os ritos maçônicos que conhecemos hoje sofreram muitas mudanças. A primeira delas foi a ampliação de dois para três graus na década de 1720, e em segundo lugar a introdução da Lenda de Hiram, exposta pela primeira vez por Samuel Pritchard em outubro de 1730.

Em seguida, ele se referiu a algo muito curioso: Pritchard e todas as Divulgações subsequentes do século XVIII, declaravam que Hiram foi enterrado no Sanctum Santorum do Templo de Jerusalém. No entanto, tal coisa teria sido proibida por contaminar o Santuário.

O Dr. Snoek explicou que os maçons do século XVIII identificavam Hiram com o próprio Yahveh que teria ditado as dimensões do Templo ao Rei David antes que o trabalho fosse realizado por seu filho Salomão.

Ele apresentou uma série de ilustrações que mostram como as Divulgações continentais tinham o nome de Yahveh sobre o ataúde de Hiram no Terceiro Grau.

Segundo o Dr. Snoek, esta identificação do candidato com o Construtor do Templo e, portanto, por analogia com Yahveh é familiar aos historiadores da religião como uma “união mística“, onde o praticante tenta se unir misticamente à divindade. Em seguida passou à revista dos acontecimentos de 1813, quando o nosso ritual atual foi criado, e concluiu que as práticas modernas romperam o funcionamento dos trabalhos das duas Grandes Lojas, Antiga e Moderna.

Esta alteração fundamental para os três graus, removeu os aspectos místicos da Maçonaria do século XVIII, em uma aparente tentativa de tornar as cerimonias mais aceitáveis aos membros não-cristãos e um sabor mais adequado ao gosto do século XIX.

  1. INTRODUÇÃO

A Lenda de Hiram é, sem dúvida, o mito mais importante da Maçonaria.

Compõe o fundo contra o qual se situa o último dos três graus da Arte Real (o de Mestre Maçom), bem como os assim chamados Altos Graus. Portanto, um estudo de seu desenvolvimento será suficientemente justificado.

Fascinante como é, eu não me debruçarei sobre a questão da origem da Lenda Hirâmica, mas começarei com a primeira versão escrita que temos disponível e as que continuaram a se desenvolver na Inglaterra e França durante um período de cerca de cem anos. (1)

Com o objetivo de chegar a resultados mais interessantes, é necessário começar com uma exposição em duas dimensões que preparará o campo para os materiais que apresentaremos.

Primeiro, é o relato em si. Apesar das muitas variações, é possível reconhecer a estrutura geral do mesmo, mostrado em todas as suas versões atuais.

A outra dimensão é a do texto usado. Para estudar a evolução de um relato em particular, é necessário rever a coleção de suas versões tão completamente quanto possível. Para este estudo particular recolhi cerca de cinquenta variantes da Lenda de Hiram.

Quando essas duas dimensões de campo tiverem sido examinadas, teremos os resultados da minha pesquisa.

No entanto, o tamanho do corpus envolvidas torna impossível apresentar todas as conclusões dela derivadas; por isso ficarei com apenas um aspecto: aquele diretamente relacionado com os “herdeiros” e os “empréstimos”.

Em outras palavras, tentarei seguir o desenvolvimento global e mostrar qual texto é plagiado de outro mais antigo, prestando atenção especial à questão clássica de se os desenvolvimentos na Inglaterra e França foram ou não independentes.

  1. A ESTRUTURA GLOBAL DA LENDA HIRÂMICA

Hiram ou Adoniram?

Algumas das versões francesas da Lenda de Hiram são precedidas ou começam com uma discussão sobre quem foi o herói da história e qual era seu verdadeiro nome (2). Em seguida, é sempre indicado em primeiro lugar, que não era Hiram, o rei de Tiro, o que está claro. (3).

Como regra geral, no entanto, quando se incluem estes debates, postula-se também que tampouco era o Hiram, admirável trabalhador em metais, forjador dos dois pilares da frente do templo de Salomão e outros objetos de bronze, prata e ouro que realizou para aquele templo (4).

Conclui-se então que a pessoa em questão é o arquiteto do templo a quem a Bíblia (de acordo com nossas fontes) não chama Hiram, mas Adoniram, com o resultado de que algumas versões da Lenda de Hiram dão ao herói o nome de Adoniram em vez do mais usual Hiram ou Hiram Abif.

Na maioria dos casos, é claro, no entanto, que se supões que Hiram, o forjador de metal é o mesmo Hiram arquiteto do templo. Considero que este debate, embora relacionado, não faz parte da Lenda de Hiram em si mesma. É mais uma discussão sobre ela, assim não a abordarei mais adiante.

Davi, Salomão, Tesouros, Artesãos

Algumas das versões francesas (5) incluem a história derivada da Bíblia e Flavio Josefo, da intenção de David para construir o templo, e como ele recebeu os planos do Senhor, e por que o Senhor, finalmente, não lhe permitiu sua construção, que Salomão herdará tanto o reino quanto a obrigação de construir o templo, de quantos tesouros foram acumulados por ele, quantos trabalhadores foram empregados e assim por diante.

Esta parte da história pode variar desde algumas linhas até quase uma página tamanho carta (6), mas expõe o contexto em que a lenda acontece, em vez de ser parte integrante dela.

Além disso, enquanto a discussão mencionada acima sobre o nome do arquiteto é claramente copiada e adaptada a partir de uma versão para outra, esta parte da história geralmente não o é. Parece muito mais o produto da criatividade e iniciativa dos compiladores. Portanto, também não voltarei a ela.

  1. Construindo o Templo

A primeira parte da Lenda de Hiram propriamente dita, mas ausente em algumas versões, descreve como Solomon desejando começar a construir seu templo, pede ajuda ao seu vizinho, amigo e aliado, Hiram, Rey de Tiro.

Hiram aceita e lhe envia além dos cedros do Líbano necessários para a construção do Templo, também o Mestre de Obras Hiram ou Hiram Abif (f), “filho de uma viúva da tribo de Naftali, e seu pai um homem de Tiro “(I Reis 7:14).

Solomon nomeia Hiram Abiff Superintendente e arquiteto de toda a obra.

Devido ao fato de que os trabalhadores eram numerosos, Hiram os divide em três classes: Aprendizes, Companheiros de Ofício e Mestres e, uma vez que o salário para cada classe não era o mesmo, Hiram decidiu que cada um receberia seu pagamento em um local diferente, dando-lhes uma maneira de se identificar como pertencente à classe da qual exigia of salário.

Os Aprendizes eram pagos junto à coluna Jaquim, cujo nome era ao mesmo tempo a sua palavra de reconhecimento. Além disso, tinham um toque e um sinal de que os distinguia dos outros.

Os Companheiros recebiam o pagamento na coluna Boaz, cujo nome era a palavra de reconhecimento e também se distinguiam por um toque e um sinal. E os Mestres eram pagos na Câmara do Meio e tinham apenas uma palavra para se distinguir. Tais medidas deram excelentes resultados e o trabalho prosperou.

  1. A Morte de Hiram.

A segunda parte no diz que três Companheiros de Ofício, no entanto, não estavam satisfeitos e queria receber o salário de um Mestre Maçom. Assim, eles decidiram forçar Hiram a lhes dar a palavra do Mestre.

Todos os dias, à tarde, quando os trabalhadores estavam descansando, Hiram entrava na Câmara do Meio para orar ao Senhor e inspecionar as obras. Sabendo que era o único momento em que eles encontrariam Hiram sozinho, eles decidiram esconder-se no templo e aguardar seu retorno, colocando-se, cada um, em uma das três portas.

Hiram entrou pela porta do Ocidente e ao tentar sair pela porta do Sul, um dos bandidos lhe pediu a palavra do Mestre ameaçando matá-lo se não lhe fosse dada. Como Hiram se negou, o rufião o feriu com o objeto que tinha na mão.

Hiram, ferido, mas não morto, tentou escapar pela porta do Ocidente, onde voltou a aconteceu a mesma coisa. Finalmente, ao tentar escapar pela porta do Oriente, e recusando-se mais uma vez a dar a palavra do Mestre, o terceiro rufião o atingiu com tanta força na cabeça que o matou. Em seguida, os três conspiradores enterraram o corpo de Hiram, na esperança de que sua ação passasse despercebida.

  1. 3. Procurando Hiram

Na terceira parte desse relato, Solomão, por ter Hiram desaparecido por vários dias, enviou vários homens em busca de seu Mestre. Suspeitando do que poderia ter acontecido, Solomão ou esses homens decidiram que, se Hiram fosse encontrado morto, a primeira palavra pronunciada passaria a ser a nova Palavra do Mestre substituindo a antiga.

Três dos pesquisadores encontraram o corpo de Hiram. Um tentou levantá-lo com o toque de um Aprendiz, mas (a pele do) o dedo saiu.

Outro tentou levantá-lo com o toque de um Companheiro com o mesmo resultado. Um terceiro, então, o tomou pelo pulso direito com a mão direita e pé com pé, joelho contra joelho, peito contra peito e apoiando as costas de Hiram com a mão esquerda, levantou o Mestre. Enquanto o fazia, exclamou “Mackbenak” o que, segundo a lenda, significava “a carne se desprende dos ossos”.

Esta passou a ser a nova palavra do Mestre. Mais tarde o corpo de Hiram foi transportado para o Templo de Jerusalém.

  1. Os assassinos são descobertos.

Na quarta parte da história, em algumas outras versões, três outros buscadores, em vez de encontrar Hiram, encontram os três Companheiro que o haviam matado.

Esses três assassinos se lamentavam dizendo –preferiria ter sido morto em tal e tal maneira antes de ter sido a causa da morte de nosso Mestre Hiram”.

Os três buscadores capturaram os assassinos e os levaram a Jerusalém e diante de Solomon que os sentenciou de acordo com o castigo que cada um tinha pedido para si.

  1. Hiram é enterrado

Finalmente, na quinta e última parte da lenda, Salomão ordena que Hiram seja enterrado com grande cerimônia no Templo, e de acordo com algumas versões, no Sanctum Santorum. Aqueles que o tinha procurado estavam presentes e vestidos com aventais e luvas brancas, como um sinal de sua inocência.

Salomão também ordenou que um triângulo de ouro com a antiga palavra do Mestre, o nome de Deus em hebraico fosse localizado sobre o túmulo de Hiram.

Vamos parar agora no desenvolvimento da Lenda de Hiram. Como se pode ver, em algumas versões há partes que são mutuamente exclusivas, variantes do relato que para o momento serão deixadas de lado. No entanto, existem elementos que estão sempre presentes e outros não, mas eu os incluí para apresentar uma imagem da história tão completa quanto possível.

III. Coleção de textos.

  1. Catecismos em Inglês. (1696-1730)

A primeira versão da Lenda de Hiram encontra-se em “A Maçonaria Dissecada” de Samuel Pritchard de 1730. Tal divulgação pertence ao grupo de textos entre 1696 e 1730 em parte manuscritos e em parte impressos a que geralmente se refere como ” os primeiros catecismos maçônicos“, que não devem ser confundidos com o livro de mesmo título escrito por Douglas Knoop, G.P. Jones e Douglas Hamer. Maçonaria Dissecada é o último título deste grupo. Depois, há um intervalo até 1760, quando outras Divulgações maçônicas são publicadas na Inglaterra.

Um texto entre os primeiros catecismos maçônicos torna-se importante no contexto do nosso tema, e ele é o Manuscrito Graham de 1726. Ele contém uma Lenda de Noé, semelhante à de Hiram e pode ser que tenha desempenhado o mesmo papel no ritual do terceiro grau antes que, provavelmente sob a influência de Maçonaria Dissecada, a Lenda de Hiram se tornou o padrão.

  1. Divulgações em francês. (1738-1751)

Enquanto isso, aparecem as Divulgações em francês, cerca de 1740. As que incluem informações sobre a Lenda de Hiram são:

  • Anônimo: La Reception Mysterieuse de 1738, que é a tradução de Pritchard.
  • Abate, Luis Gabriel Perau. Le secret des Franc Macons de 1744 (7)
  • Leonard Gabanon (Louis Travenol) Catéchisme des Francs-Macons de
  • Anônimo: Le Sceau rompu de
  • Anônimo: L’Ordre des Francs-Macons Trahi de
  • Leonard Gabanon (Louis Travenol) La Desolation des Entepreneurs Modernes du Templo de Jerusalém de
  • Anônimo: L’Anti-Macon, de 1748; e
  • Thomas Wolson (pseudônimo) Le Macon Démasqué de

. 3. As Divulgações Inglesas. 1760-1769.

A seguinte onda de publicações

  • Divulgações anônimas aparece na Inglaterra em 1760. Começando em 1760 com A Master Key to Free-Masonry uma tradução resumida de Le secret des Francs-Macons. As Divulgações original em Inglês foram:
  • Three Distinc Knocks de 1760
  • Jachin and Boaz de 1762
  • Hiram or the Grand Master-Key de 1764
  • The Mistery of Free Masonry Explained de 1765
  • Shibboleth de 1765
  • Mahhabone, or The Grand Lodge Door Open´d de 1766, e
  • The Free-Mason Stripped Naked de 1769, enquanto Solomon in all his Glory de1766 foi uma tradução de Le Macon Demasqué.
  1. Algumas publicações intermediárias

Entre a onda de 1760 e a última “Grand Rituals” aparecem apenas alguns poucos textos impressos com ritual dos graus simbólicos. Aqueles que eu conheço são:

  • Nerad Herono (Honoré Renard), Les trois premiers grd. uniform de la mac. de 1778.
  • Louis Guillemain de St. Victor, Recueil Precieux de la Maconnerie Adonhiramite de 1785.
  • Anônimo. Recueil des trois premier grades de la maconnerie de 1788, e
  • John Brownw Master Key, impresso em cifra, da qual a primeira edição contém somente um catecismo de perguntas, apareceu em 1798, e a segunda edição incluindo as respostas em 1802.
  1. Os “Grandes Rituais”

A evolução deu lugar à publicação de quatro “Grandes Rituais”

  1. Em 1782, os rituais do Rito Escocês Retificado escrito por Jean Baptiste Willermoz e aceito pelo Convento de Wilhelmshad, foram publicados como Rituel du grau d’apprenti, de Compagnon, et de maitre francmacon pour le regime de la maconnerie rectifié redigé en Convent general de l¨Ordre em Aout 5782.
  2. Em seguida foram os rituais do Rito Moderno ou Rito Francês. Elaborado por uma comissão, foram aceitos pelo Grande Oriente de França em 1786. No ano seguinte, eles foram copiados e enviados a todas as lojas do Grande Oriente. A primeira edição impressa apareceu em 1801 sob o título “Le Regulateur du Macon”.
  3. A origem dos rituais dos graus simbólicas do Rito Escocês Antigo e Aceito permanece incerta. (8)

O rito se desenvolveu nas Índias Ocidentais em fins dos 1800s e primeiros anos do século 19, em um sistema de 33 graus. Sabe-se que os rituais dos “altos graus” incluídos no sistema são de origem francesa. O primeiro Supremo Conselho foi fundado em 1801, em Charleston, Carolina do Sul.

Depois que o Conde de Grasse-Tilly levou este Rite Ecossais Ancien et Accepté para a França em 1804, os rituais dos graus simbólicos foram impressos para 1815 sob o título Guide des Macons Ecossais, ou Cahier des Trois Grades Symboliques du Rit Ancien et Accepté. (9)

A versão impressa dos rituais formulava o primeiro brinde à “Sa majesté et son auguste famille“(à Sua Majestade e sua augusta Família), o que pode se referir a Napoleão ou também a Louis XVIII. Considerando que a lealdade dos maçons mudou três vezes em poucos meses, durante os tumultuosos anos de 1814 e 1815, a ausência de uma indicação precisa do por qual monarca se brindava, foi provavelmente mera prudência. E sugere que a publicação foi impressa nos poucos anos após a queda de Napoleão (1814), quando a situação política permanecia incerto, digamos desde 1814 até1817, mais ou menos. (10)

  1. Finalmente, com a união das duas Grandes Lojas Inglesas rivais em 1813 na Grande Loja Unida da Inglaterra, esta organização aprovou os rituais em 1816, demonstrados pela Loja de Reconciliação. Após que esta Loja foi dissolvida, várias lojas de Instrução se constituíram, entre elas a Stability em 1817 e a Emulation em 1823.

As primeiras versões impressas de seus rituais apareceram em 1825, 1835 e 1838, todas representando o trabalho de Emulação.

Considerando que virtualmente todos os rituais maçônicos são baseados em algum dos quatro “Grandes Rituais”, selecionei alguns para terminar este desenvolvimento que preparei.

  1. Rituais Manuscritos.

Quase todos os rituais anteriores são bem conhecidos por meios dos estudiosos dos rituais maçônicos. Mas existe em algum ponto um grande lapso entre os anos das publicações impressas. Assim, tentei localizar manuscritos e outros materiais bem-datados, publicados ou não publicados em anos recentes, para complementar o impresso. Apresentarei aqui apenas três dos mais antigos que encontrei.

. Rite Ancien de Bouillon, em Inglês bastante ajustado, ritual de cerca de 1740.

. Las Confesiones de John Coustos, feitas à Inquisição Portuguesa em março de 1743, sendo geralmente assumido que representa os trabalhos da loja em Paris da qual ele era um membro como Mestre entre 1735 e 1740, mas, como veremos, também traindo influências dos trabalhos na Loja de Londres de que ele também era um membro antes de se mudar para Paris. Com efeito, o próprio John Coustos declarou que “havia aprendido sobre o assunto …. Explicado no Reino da Inglaterra “.

. Ecossais Anglois ou le Parfait Maitre Anglois, provavelmente entre 1745 e 1750 pretendendo ser uma tradução francesa de um ritual Inglês. A evidência interna, bem como os resultados da pesquisa aqui apresentados apoiam esta pretensão.

Ao lado destes, há um grande número de manuscritos em francês do período 1760 a 1803. Para estes, o leitor deve consultar o apêndice.

  1. DESCENDÊNCIA E EMPRÉSTIMOS.

Tendo agora uma ideia das linhas gerais da lenda de Hiram, bem como dos textos que lhe dizem respeito, vamos investigar as diferenças entre os textos.

Apesar de que para a finalidade de estabelecer relações entre textos, a menor diferença ou semelhança na redação precisa de uma frase em particular pode ser de crucial importância, vou concentrar-me naquelas diferenças que revelam uma mudança na trama ou no argumento, ou seja, uma mudança no relato.

  1. Construção do Templo.

A primeira parte propriamente da lenda de Hiram, descrevendo a organização da construção do Templo, quase não mostra o seu desenvolvimento e é de pouco interesse para nós. A única coisa digna de menção é que John Coustos declarou em 1743 que … “somente (a Hiram) foi revelado o Sinal que lhe pertencia enquanto Mestre, a fim de se diferenciar dos demais oficiais subalternos que trabalhavam nessa obera”. Embora o relato de John Coustos seja geralmente tomado como referindo-se à sua loja em Paris, entre 1735 e 1740, ela bem pode representar um aspecto do trabalho da Loja de Londres, da qual ele era um membro antes de 1735, porque todos os textos em francês do século 18 assumem que era para um grande grupo de Mestres, enquanto que de acordo com os Three Distinct Knocks de 1760, e outros documentos em Inglês dessa época, Hiram diz um de seus extorsionários que ” não estava em seu poder entregar a ninguém (a Palavra do Mestre), exceto a três de uma vez, ou seja, Salomão Rei de Israel, Hiram Rei de Tiro e a Hiram Abiff”, o que implica que aqueles eram os únicos Mestres.

A segunda edição do Master Key de Browne de 1802, declara que “Na construção do Templo do rei Salomão, havia apenas três Grandes Mestres, chamado Solomon rei de Israel, Hiram rei de Tiro e Hiram Abiff ” e que aos seus extorsionários, Hiram havia dito... ” que só havia no mundo dois além dele, que conheciam (o segredo de um Mestre Maçom) chamados Solomão Rei de Israel, Hiram Rei de Tiro e Hiram Abiff) “. Assim essa parece ser uma característica dos textos em inglês.

  1. A Morte de Hiram.

A segunda parte da lenda Hirâmica descreve como foi morto Hiram. Em Pritchard há apenas três conspiradores “ supostamente três Companheiros“. O número de Irmãos que foram posteriormente enviados por Solomão em busca de Hiram é quinze, mas não se menciona nenhuma relação entre eles e os conspiradores, nem se eram Aprendizes, Companheiro ou Mestres.

Finalmente, Solomão ordenou … “- que quinze companheiros deveriam assistir (ao funeral) de Hiram,” mas não há nenhuma relação entre esses Companheiros e os conspiradores ou buscadores.

John Coustos mencionou em 1743 que… “- alguns dos Oficiais ou Aprendizes desejando conhecer o sinal secreto que tinha (Hiram), três desses oficiais arquitetaram um plano.” Isso abre a possibilidade que é presumida aqui de que outros estavam envolvidos inicialmente, mas depois desistiram. Uma vez mais, isso pode representar um aspecto do trabalho em sua loja de Londres, porque ao longo do século 18 os textos franceses mencionam apenas três Companheiros como conspiradores, enquanto o Three Distinct Knocks , de 1760 abre com:… “Havia quinze Companheiros que quase terminando o Templo não haviam recebido a Palavra do Mestre, porque o seu tempo não tinha chegado, assim que concordaram em extorquir a seu Mestre Hiram na primeira oportunidade, para que assim eles pudessem se passar por Mestres em outros países e receber salários de Mestres, mas doze destes trabalhadores se retrataram e os outros três decidiram ir em frente ….” Desde então, todos os textos em inglês seguem esta versão, e a regra geral é que os textos ingleses desde 1760 apresentam quinze conspiradores dos quais restam três, enquanto os textos em francês e os textos em Inglês anteriores a 1760 mantêm apenas três conspiradores.

Para esta regra, existem poucas exceções. O ritual inglês do Rite Ancien de Bouillon de 1740 menciona apenas dois conspiradores; o texto em francês, Passus Tertius por Th. Gardet de la Garde de 1766 somente anota um assassino, e Le Vray Macon de 1786 tem nove (três grupos de três), enquanto se espera que eles fossem três em cada caso. O Master Key de Browne em ambas as edições menciona apenas três, e esperávamos quinze. O único texto em francês que segue o inglês quanto a este ponto é o ritual do Rit Ecossais Ancien et Accepté.

Esta é a primeira indicação de que os rituais do simbolismo do Rit Ecossais Ancien et accepté são ingleses ao invés de ter uma orientação francesa. Veremos isso confirmado várias vezes. Se aceitarmos a declaração de John Coustos como um intermediário, podemos concluir que o regime Inglês era fracamente desenvolvido entre 1730 e 1760. Em si mesmos estes dois pontos acima mencionados podem parecer de menor importância, mas ganharão importância em combinação com os tópicos seguintes.

 

NOTAS

  1. Sobre a história e desenvolvimento do grau de Mestre, anteriormente à introdução da Lenda Hirâmica, no início dos anos 1720, ver J. A.M. Snoek, “The Earliest Development of Masonic Degrees and Rituals: Hamill versus Stevenson, ” in M.D. J. Scanlan, ed., The Social Impact of Freemasonry on the Modern Western World, The Canonbury Papers (London: Canonbury Masonic Research Centre, 2002), pp. 1–19.
  2. Le Secret des Francs-Maçons (); Le Catéchisme des Francs–Maçons (1744); L’Ordre des Francs-Maçons Trahi (1745); Désolation/Nouveau Catechisme, 1747/9 L’Anti-Maçon (1748); Master-Key (1760); Recueil Précieux (1783). Wolson (1751), e assim Solomon (1766), que é sua tradução em inglês, UGLE YFR.200.RIT, c. q1772 e Recueil des trois premier grades (1788), usam o nome Adoniram, mas não incluem a discussão usual sobre seu nome. Algumas vezes outras variantes são usadas, tais como Adonhiram, Adomiram ou Adoniram Abif.
  3. Ver, entretanto, M.L. Plaskow: “Not Hiram Abif but Hiram, King of Tyre, ” Ars Quatuor Coronatorum (hereafter AQC), vol. Q107 (1994), pp. 188–91.
  4. Não acontece em Le Secret (1744), (e, assim, a primeira versão no Trahi (1745), que é copiada dele, e Master-Key (1760), que é sua tradução em inglês) onde ele é visto como um trabalhador em metais.
  5. Ou seja, Ecossais Anglois (c.1745-50, “Marquis de Gages” (c. 1767); Dépôt complet 1776); MS UGLE (1786) /Recueil des trois premier grades (1788); Guide des Maçons (c.1815).
  6. Um MS. (Le Gray Maçon ou Recueuil des differents grades de la maçonnerie; à l’O∴de S∴; o da V∴ L∴ 5786, BN FM4.45) tem duas versões das quais a primeira que tem mais de seis páginas elabora somente sobre o que precedeu o assassinato de Hiram. Esta parte ocupa mais de duas páginas.
  7. Por muitos anos, pensou-se que a primeira edição de Le Secret des Francs-Maçons fora publicada em 1742 “Wolfstieg (29956) listou as seguintes edições: 1742 Geneva, 8º[Nenhum outro detalhe]…” (Harry Carr, The Early French Exposures [London: QuatuorCoronati Lodge, 1971], p.43). Pesquisas mais recentes mostram que a data é 1744 Ver HenriAmblaine (Alain Bernheim), “Masonic Catechisms and Exposures, ”AQC, vol. 106 (1993), pp. 141-52 esp. 143-44.
  8. Esta situação mudou desde a primeira publicação desse artigo em 1999 Pierre Noël, “Les Grades Bleus du REAA; Genèse et développement,” Acta Macionica, vol. 12(2002), pp. 25-118, demonstra que os rituais do Craft do REAA foram criados na França, provavelmente em 1804, possivelmente por Jean-Pierre Monguer de Fondeviolles, provavelmente para a loja “la Triple Unité,” como uma mistura dos rituais tradicionais franceses e aqueles dos “Antients” ingleses, especialmente conforme publicado em Three Distinct Knocks de 1760. Ele também mostra que essas duas tradições começam a partir de pressupostos muito diferentes, e que, portanto, os rituais que resultaram de sua combinação são cheios de contradições internas.
  9. Na data de sua edição sem data, ver: René Désaguliers: “Essai de recherche des origines, en France, du Rite Ecossais pour les trois premiers grades” (I) :“De la mere loge Ecossaise de Marseille à ‘La Vertu Persecutée’ d’Avignon et au ‘Contrat Social’ de Paris, ” Rénaissance Traditionelle, no. 54/5 (1983), pp. 285-315 (esp. pp. 88-9), and (II) “addenda e corrigenda” Rénaissance Traditionelle, no. 56 (1983), pp. 185–315. Entretanto, R. Désaguliers não levou em conata todas as evidências disponíveis. Por exemplo o Suprême Conseil de Belgique tem uma versão Manuscrita dos rituais do REAA dos graus do Craft que é provavelmente recebida de Grasse–Tilly por ocasião de sua fundação em . Isso não significa que a versão impressa desses rituais existia à época, mas prova que os rituais existiam. E mais, a versão desses rituais nesse manuscrito pode ser datada mais precisamente. O primeiro brinde é a “Napoleon le grand, Empereur des Français… a l’impératrice Marie Louise, son auguste épouse, ainsi que celle des Princes et Princesses de la famille impériale…”. Isso significa que essa versão não ser de antes do casamento de Napoleão com Marie Louise, filha do Imperador da Áustria, em 1 de Abr.de 1810. Ao mesmo tempo, parece provável que se o seu filho, Napoleon II, depois Duke of Reichstag, já tivesse nascido, ele teria sido mencionado explicitamente. Portanto, o ritual é provavelmente de antes de 3 de mar. de 1811.
  10. Noël, comunicação pessoal, 7 de junho de 1996

Tradução livre por S.A. M: M.: La Plata, Argentina. Julho 2010

Publicado pelo Ir.’. Victor Guerra em

http://www.ritofrances.net/2017/05/la-evolucion-de-la-leyenda-hiramica-en.html

Publicado on maio 16, 2017 at 3:34 pm  Comentários desativados em A EVOLUÇÃO DA LENDA HIRÂMICA NA INGLATERRA E FRANÇA. (Parte I)  
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