Por que sou Agnóstico

Por Robert Ingersoll – 1896

Tradução José Antonio de Souza Filardo M .´. I .´.

E Robert Ingersoll não viu Auschwitz, não viu Belsen, não viu Dachau, não viu Treblinka, não viu Lídice, não viu as faces chupadas das crianças de Biafra, do Sudão, de Rwanda, os corpos queimados de napalm no Vietnam, os corpos estraçalhados de civis no Iraq, no Afeganistão e nas ruas das cidades do mundo inteiro…

I

Na maior parte das vezes, herdamos nossas opiniões. Somos os herdeiros de hábitos e costumes mentais. Nossas crenças, assim como a moda de nossas vestimentas, dependem de onde nascemos. Somos moldados e modelados por nosso ambiente.

O ambiente é um escultor — um pintor.

Se tivéssemos nascido em Constantinopla, a maioria de nós diria: “Não existe outro Deus senão Alá, e Maomé é seu profeta”. Se nossos pais tivessem vivido às margens do Ganges, teríamos sido adoradores de Siva, desejando o céu do Nirvana.

Como regra geral, as crianças amam seus pais, acreditam naquilo que eles ensinam e orgulham-se de dizer que a religião de seus pais é boa o suficiente para eles.

A maioria das pessoas ama a paz. Eles não gostam de ser diferentes de seus vizinhos. Eles gostam de companhia. Eles são sociais. Eles gostam de viajar na estrada com a multidão. Eles odeiam viajar sozinhos.

Os escoceses são calvinistas porque seus pais foram. Os irlandeses são católicos porque seus pais foram. Os ingleses são episcopalistas porque seus pais foram e os americanos estão divididos em uma centena de seitas porque seus pais foram. Esta é a regra geral, à qual existem muitas exceções. As crianças, algumas vezes, são superiores a seus pais, modificam suas idéias, alteram seus costumes e chegam a conclusões diferentes. Mas isto geralmente é tão gradual que a partida quase não é notada e aqueles que mudam, geralmente insistem em que ainda estão seguindo os pais.

Os historiadores cristãos alegam que a religião de uma nação foi mudada abruptamente, algumas vezes, e que milhões de pagãos foram convertidos ao Cristianismo pelo comando de um rei. Os filósofos não estão de acordo com estes historiadores. Os nomes mudaram, altares foram destruídos, mas as opiniões, os costumes e crenças permanecem os mesmos. Um pagão, sob a espada desembainhada de um cristão, provavelmente mudaria suas visões religiosas, e um cristão, com uma cimitarra acima de sua cabeça, subitamente poderia tornar-se muçulmano, mas efetivamente, ambos permaneceriam exatamente como eram antes — exceto ao falar.

A crença não está sujeita à vontade. O homem pensa como se estivessem. As crianças não podem e não acreditam exatamente como foram ensinadas. Elas não são exatamente iguais a seus pais. Elas diferem em temperamento, em experiência, em capacidade, em ambientes. E assim, existe uma mudança contínua, ainda que quase imperceptível. Existe um desenvolvimento, um crescimento consciente e inconsciente, e comparando longos períodos, descobrimos que o velho quase foi abandonado, quase perdido no novo. O Homem não pode permanecer estacionário. A mente não pode ser ancorada firmemente. Se não avançamos, regredimos. Se não crescemos, decaímos, Se não desenvolvemos, encolhemos e secamos.

Como a maioria de vocês, fui criado entre as pessoas que conhecia — que estavam certas. Eles não argumentavam ou investigavam. Eles não tinham dúvidas. Eles sabiam que tinham a verdade. Em suas crenças, não havia lugar para a adivinhação — nenhum talvez. Eles tinham a revelação de Deus. Eles conheciam o princípio das coisas. Eles sabiam que Deus começou a criar em uma manhã de segunda-feira, há quatro mil e quatro anos antes de Cristo. Eles sabiam que na eternidade — naquela distante manhã, ele não havia feito nada. Eles sabiam que levou seis dias para criar a terra — todas as plantas, todos os animais, toda a vida e todos os globos que giram no espaço. Eles sabiam exatamente o que Ele fez a cada dia e quando descansou. Eles sabiam a origem, a causa do mal, de todo o crime, de toda doença e da morte.

Eles somente não conheciam o começo, mas conheciam o fim. Ele sabiam que a vida tem um caminho e uma via. Eles sabiam que o caminho, relvado e estreito, cheio de espinhos e urtigas, infestado de víboras, lavado de lágrimas, manchado por pés ensangüentados levava ao céu, e que a estrada larga e suave, ladeada por frutas e flores, cheia de riso e canções, e toda a felicidade do amor humano levava direto ao inferno. Eles sabiam que Deus estava fazendo o melhor para que você escolhesse o caminho e que o Diabo usava de toda artimanha para manter você na estrada.

Eles sabiam que havia um luta perpétua entre os grandes Poderes do bem e do mal pela posse das almas humanas. Eles sabiam que há muitos séculos, Deus tinha deixado seu trono e que um bebê havia nascido neste pobre mundo — e que ele tinha sofrido a morte em nome do homem — para salvar uns poucos. Eles também sabiam que o coração humano era em essência depravado, de modo que por natureza, o homem estava apaixonado pelo erro e odiava Deus com todas as suas forças.

Ao mesmo tempo, eles sabiam que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança e que estava perfeitamente satisfeito com seu trabalho. Eles também sabiam que ele havia sido iludido pelo Demônio, que por meio de vilanias e mentiras, tinha enganado o primeiro da raça humana. Eles sabiam que em conseqüência disto, Deus amaldiçoou o homem e a mulher; o homem com o trabalho exaustivo e a mulher com a escravidão e a dor, e ambos com a morte; e que ele amaldiçoou a própria terra com rosas e espinhos, sarças e cardos. Todas essas coisas abençoadas eles sabiam. Eles também sabiam tudo o que Deus havia feito para purificar e elevar a raça. Eles sabiam tudo sobre o Dilúvio — sabiam que Deus, com exceção de oito, afogou todas as suas crianças — as maiores e as menores — o patriarca encurvado e o bebê sardento — o jovem mancebo e a feliz noiva — a mãe amorosa e a criança risonha — porque sua misericórdia dura para sempre. Eles também sabiam que ele afogou os animais e os pássaros — tudo o que caminhava, se arrastava ou voava — porque sua gentileza amorosa permeia toda a sua obra. Eles sabiam que Deus, com a finalidade de civilizar seus filhos, devorou alguns com terremotos, destruiu alguns com tempestades de fogo, matou alguns com seus raios, milhões de fome, peste e sacrificou milhares incontáveis nos campos de guerra. Eles sabiam que era preciso acreditar nestas coisas e amar a Deus. Eles sabiam que não podia haver salvação senão pela fé, e através do sangue reconciliador de Jesus Cristo.

Todos os que duvidasse ou negassem estariam perdidos. Viver uma vida moral e honesta — manter seus contratos, cuidar da esposa e dos filhos — manter um lar feliz — ser um bom cidadão, um patriota, um homem justo e ponderado, era simplesmente uma maneira respeitável de ir para o inferno.

Deus não premiava os homens por serem honestos, generosos e corajosos, mas pelos atos de fé. Sem a fé, todas as chamadas virtudes eram pecados, e o homem que praticasse estas virtudes, sem a fé, merecia o sofrimento eterno.

Todas estas coisas razoáveis e confortadoras eram ensinadas pelos pastores em seus púlpitos — por professores em escolhas dominicais e pelos pais em suas casas. As crianças eram vítimas, Elas eram assaltadas no berço — nos braços da mãe. Em seguida, o mestre-escola continuava a guerra contra seu senso comum, e todos os livros que elas liam estavam recheados das mesmas verdades impossíveis. As pobres crianças estavam indefesas. A atmosfera que respiravam estava cheia de mentiras — que misturavam-se ao seu sangue.

Naqueles dias os pastores dependiam de revitalizações para salvar almas e reformar o mundo.

No inverno, estando fechada a navegação, os negócios eram suspensos em sua maioria. Não existiam ferrovias e o único meio de comunicação eram carroças e barcos. Geralmente as estradas eram tão ruins que as carroças eram guardadas com os barcos. Não havia óperas, nem teatros, nem diversão, exceto as festas e bailes. As festas eram encaradas como mundanas e os bailes eram pecaminosos. Para uma diversão real e virtuosa, as pessoas boas dependiam de revitalizações.

Os sermões eram em sua maior parte sobre as dores e agonias do inferno, as alegrias e êxtases do céu, salvação pela fé, e a eficácia do arrependimento. As pequenas igrejas, onde o serviço era realizado, geralmente eram pequenas, mal ventiladas e excessivamente quentes. Os sermões emocionais, os cantos tristes, os améns histéricos, a esperança do céu, o medo do inferno fazia com que muitos perdessem o pouco senso que tinha. Eles tornavam-se substancialmente insanos. Nesta condição eles reuniam-se no “banco dos pecadores” — pediam as preces da fé — tinham sensações estranhas, rezavam e choravam e achavam que tinham “renascido”. Em seguida, eles contavam suas experiências — como tinham sido pecaminosos — quão maldosos tinham sido seus pensamentos, seus desejos e quão bons eles repentinamente tinham-se tornado.

Eles costumavam contar a história de uma velha que, ao contar sua experiência, dizia: — “Antes de converter-me, antes de ter dado meu coração a Deus, eu costumava mentir e roubar, mas agora, graças à graça e sangue de Jesus Cristo, eu deixei isso bastante de lado”.

Naturalmente, todas as pessoas não pensavam exatamente igual. Havia alguns zombadores e de vez em quando alguns homens tinham senso suficiente para rir das ameaças dos pastores e zombar do inferno. Contava-se sobre descrentes que tinham vivido e morrido em paz.

Quando eu era um garoto, ouvi contar sobre um velho fazendeiro em Vermont. Ele estava morrendo. O pastor estava ao seu lado — perguntou-lhe se ele era Cristão — se estava preparado para morrer. O velho respondeu que não havia feito qualquer preparação, que ele não era cristão — que ele nada havia feito senão trabalhar. O pregador disse que ele não poderia dar-lhe qualquer esperança, a menos que ele tivesse fé em Cristo, e se ele não tivesse fé, sua alma certamente estaria perdida.

O velho não se assustou. Ele estava perfeitamente calmo. Com uma voz fraca e alquebrada, disse: “Sr. Pastor, suponho que você notou minha fazenda. Minha esposa e eu viemos para cá há cinqüenta anos. Acabávamos de nos casar. Isto era uma floresta naquele tempo e a terra estava coberta de pedras. Eu cortei as árvores, queimei os troncos, recolhi as pedras e ergui as parede. Minha esposa fiou e teceu e trabalhou sem parar. Criamos e educamos nossos filhos — negando a nós mesmos. Durante todos estes anos, minha esposa jamais teve um bom vestido, um chapéu decente. Eu nunca tive uma roupa boa. Vivemos com a comida mais simples. Nossas mãos, nossos corpos estão deformados pelo trabalho duro. Nunca tivemos um dia feriado. Amamo-nos e aos nossos filhos. Este foi o único luxo que tivemos. Agora que estou para morrer, voc6e vem perguntar-me se estou preparado, Sr. Pastor, não tenho medo do futuro, nenhum terror de qualquer outro mundo. Pode ser que exista um lugar como o inferno — mas se existir, você não poderá fazer-me acreditar que é pior que a velha Vermont.”

Assim, contava-se sobre um homem que se comparava a seu cachorro. “Meu cachorro”, dizia, “só late e brinca — tem tudo o que quer para comer. Ele nunca trabalho — não tem preocupações com negócios. Logo ele morre e é tudo. Eu trabalho com todas as minhas forças. Não tenho tempo para diversão. Tenho problemas todos os dias. Logo eu morrerei e, então, irei para o inferno. Eu gostaria de ter sido um cachorro”.

Bem, enquanto durava o tempo frio, enquanto caía a neve, a revitalização continuava, mas quando o inverno acabava, quando o apito do barco era ouvido, quando começavam novamente os negócios, a maior parte dos convertidos “escorregava” e caia novamente nos antigos costumes. Mas no próximo inverno lá estavam eles prontos para “renascer”. Eles formavam um espécie de trupe, desempenhando os mesmos papéis a cada inverno e escorregando a cada primavera.

Os ministros, que pregavam nestas revitalizações eram honestos. Eles eram zelosos e sinceros. Eles não eram filósofos. Para eles ciência é o nome de uma ameaça vaga — um perigoso inimigo. Eles não sabiam muito mas acreditavam um bocado. Para eles o inferno era uma realidade incandescente — eles podiam ver a fumaça e as chamas. O Demônio não era um mito. Ele era uma pessoa de verdade, um rival de Deus, um inimigo da humanidade. Ele pensavam que o negócio importante desta vida era salvar a alma — que todos deveriam resistir e desprezar os prazeres da carne, e manter os olhos fixos nos portões dourados da Nova Jerusalém. Eles eram desequilibrados, emocionais, histéricos, preconceituosos, odientos, amorosos e insanos. Eles realmente acreditavam que a Bíblia fosse a palavra real de Deus — um livro sem erros ou contradições. Eles chamavam suas crueldades, justiça — seus absurdos, mistérios — seus milagres, fatos e as passagens idiotas eram encaradas como profundamente espirituais. Eles trabalhavam com as dores, os arrependimentos, as infinitas agonias dos perdidos e mostravam quão facilmente eles poderiam ter evitado, e quão facilmente poderiam se o céu obtido. Eles diziam a seus ouvintes que acreditassem, tivessem fé, dessem seus corações a Deus, seus pecados a Cristo que carregaria seus pecados e tornaria suas almas tão brancas como a neve.

Todos estes ministros realmente acreditavam. Eles tinham absoluta certeza. Em suas mentes, o demônio tinha tentado em vão semear as sementes da dúvida.

Eu ouvi centenas destes sermões evangélicos — ouvi centenas das mais medonhas e vívidas descrições das torturas infligidas no inferno, do horrível estado dos perdidos. Eu supunha que o que eu ouvia era verdade e, mesmo assim eu não acreditava naquilo. Eu dizia: “É,” e em seguida pensava “Não pode ser.”

Estes sermões deixaram apenas fracas impressões em minha mente. Eu não estava convencido.

Eu não desejava ser “convertido”, não queria um “novo coração” e não tinha qualquer desejo de “renascer”.

Mas eu ouvi um sermão que tocou meu coração, que deixou sua marca como uma cicatriz em minha mente.

Um domingo, eu fui com meu irmão ouvir um pregador batista do Livre Arbítrio. Ele era um homem grande, vestido como fazendeiro, mas ele era um orador. Ele conseguia pintar um quadro usando palavras.

Ele escolher para seu texto a parábola “o rico homem e Lázaro”. Ele descreveu Dives, o homem rico — seu modo de vida, os excessos a que se dedicada, sua extravagância, suas orgias noturnas, seus lençóis púrpura e finos, seus festins, suas vinhas e suas belas mulheres.

Em seguida, ele descreveu Lázaro, sua pobreza, seus andrajos e ruínas, seu pobre corpo carcomido pela doença, as cascas e migalhas que ele devorava, os cães que tinham pena dele. Ele pintava sua vida solitária, sua morte sem amigos.

A seguir, mudando o tom, de piedade para triunfo — saltando de lágrimas às alturas da exaltação — da derrota à vitória — ele descreveu a gloriosa companhia de anjos, que com asas brancas e estendidas carregavam a alma do miserável desprezado para o Paraíso — para o seio de Abraão.

Então, mudando sua voz para desprezo e censura, ele contou a morte do homem rico. Ele estava em seu palácio, em sua cama de luxo, o ar pesado com perfume, o quarto cheio de servos e médicos. Seu ouro era inútil então. Ele não podia comprar outro alento. Ele morreu, e no inferno ele abriu os olhos, em tormento.

Em seguida, assumindo uma atitude dramática, colocando sua mão direita na orelha, ele sussurrou, “Ouça! Eu ouço a voz do homem rico. O que ele está dizendo? Ouça! “Pai Abraão! Pai Abraão! Eu peço que mande Lázaro, e que ele mergulhe a ponta de seu dedo em água e refresque minha língua seca, porque estou torturado nestas chamas.”

“Oh, meus ouvintes, eles vem fazendo este pedido por mais de mil e oitocentos anos. E por milhões de anos mais este lamento cruzará o golfo que existe entre os salvos e os perdidos, e ainda será ouvido o grito: “Pai Abraão! Pai Abraão! Eu peço que mande Lázaro, e que ele mergulhe a ponta de seu dedo em água e refresque minha língua seca, porque estou torturado nestas chamas.”

Pela primeira vez compreendi o dogma do sofrimento eterno — apreciado “as ondas agradáveis de grande alegria”. Pela primeira vez minha imaginação apreendeu a altura e a profundidade do horror cristão. Então, eu disse: “É uma mentira e eu odeio sua religião. Se for verdade, eu odeio o seu Deus”.

A partir daquele dia, eu não tinha mais medo, nenhuma dúvida. Para mim, naquele dia as chamas do inferno foram apagadas. A partir daquele dia, eu odiei apaixonadamente todos os credos ortodoxos. Aquele sermão fez algum bem.

II

Desde minha infância, eu ouvia leituras e lia a Bíblia. De manhã e à noite o volume sagrado era aberto e as preces feitas. A Bíblia foi minha primeira história, os Judeus o primeiro povo e os eventos narrados por Moisés e outros escritores inspirados e aqueles preditos pelos profetas eram as coisas mais importantes. Em outros livros eu encontrava os pensamentos e sonhos de homens, mas na Bíblia estavam as sagradas verdades de Deus.

Ainda assim, apesar de meu ambiente, minha educação, eu não tinha amor por Deus. Ele era tão econômico em misericórdia, tão extravagante ao assassinar, tão ansioso para matar, tão pronto a assassinar que eu o odiei do fundo do coração. A seu comando, bebês eram degolados, mulheres violadas e o cabelo branco da idade trêmula manchado de sangue. Este Deus visitava as pessoas com peste — enchia as casas e cobria as ruas com os moribundos e os mortos — via bebês morrendo de fome nos seios murchos de pálidas mães, ouvia os soluços, vias as lágrimas, as faces chupadas, os olhos engazeados, as sepulturas recém cavadas e permanecia tão impiedoso como a peste.

Este Deus retinha a chuva — causando fome, via os olhos raivosos da fome — as formas devastadas, os lábios brancos, via mães comendo bebês e permanecia tão feroz quanto a fome.

Parece impossível para o homem civilizado amar ou adorar ou respeitar o Deus do Antigo Testamento. Uma homem realmente civilizado, uma mulher realmente civilizada, deve ter por um Deus deste tipo o desprezo e repúdio.

Mas, naqueles tempos, as pessoas boas justificavam Jeová em seu tratamento aos hereges. Os inúteis que eram mortos eram idólatras e, portanto, não deviam viver.

De acordo com a Bíblia, Deus nunca revelou-se a estas pessoas e ele sabia que sem uma revelação eles não poderiam saber que ele era o Deus verdadeiro. De quem é, portanto, a culpa de que eles fossem hereges?

Os cristãos diziam que Deus tinha o direito de destruí-los porque eles os havia criado. Para que ele os criou? Ele sabia, quando os fez, que eles seriam comida para a espada. Ele sabia que ele teria o prazer de vê-los assassinados.

Como última resposta, como desculpa final, os adoradores de Jeová diziam que todas estas coisas horríveis aconteceram sob a “antiga aplicação” de lei rígida, e justiça absoluta e que agora, sob a “nova aplicação” tudo tinha mudado — a espada da justiça tinha sido embainhada e o amor entronizado. No Velho Testamento, diziam, Deus é o juiz — mas no Novo, Cristo é misericordioso. Na realidade, o Novo Testamento é infinitamente pior que o Antigo. No Antigo não existe ameaça de sofrimento eterno. Jeová não tinha prisão eterna — não tinha fogo eterno. Seu ódio terminava na sepultura. Sua vingança era satisfeita quando seu inimigo estava morto.

No Novo Testamento, a morte não é o fim, mas o início da punição que não tem fim. No Novo Testamento, a maldade de Deus é infinita e a sua fome de vingança eterna.

O Deus ortodoxo, quando vestido em carne humana, disse a seus discípulos que não resistissem ao mal, que amassem seus inimigos, e quando lhes batessem na face que dessem a outra, e ainda assim nos dizem que este mesmo Deus, com os mesmos lábios amorosos, pronunciou estas palavras duras e diabólicas; “Parti vós, malditos, para o fogo eterno, preparado para o demônio e seus anjos.”

Estas são as palavras de “amor eterno”.

Nenhum ser humano tem imaginação suficiente para conceber este horror infinito.

Toda a raça humana sofreu na guerra e pobreza, em peste e fome, e fogo e inundação — todas as dores de todas as doenças e todas as mortes — tudo isso é nada se comparado às agonias a serem suportadas por uma alma danada.

Este é o consolo da religião cristã. Esta é a justiça de Deus – a misericórdia de Cristo.

Este dogma aterrorizante, esta mentira infinita, tornaram-me em inimigo implacável do Cristianismo. A verdade é que esta crença no sofrimento eterno tem sido o perseguidor real. Ela fundou a Inquisição, forjou as cadeias e forneceu os ferros em brasa. Ela mergulhou em escuridão as vidas de muitos milhões. Ele tornou o berço tão terríveis quanto o ataúde. Ela escravizou nações e derramou o sangue de incontáveis milhares. Ela sacrificou os mais sábios, os mais corajosos e os melhores. Ele subverteu a idéia de justiça, arrancou do coração a misericórdia, transformou homens em inimigos e baniu a razão do cérebro.

Como uma serpente venenosa, ela se arrasta, se encolhe e cissia em todos os credos ortodoxos.

Ela torna o homem uma vítima eterna e Deus um inimigo eterno. Ela é o horror infinito. Cada igreja onde ela é ensinada é uma maldição pública. Cada pregador que a ensina é um inimigo da humanidade. Sob este dogma cristão, a selvajaria não pode ir. Ela é o infinito de maldade, ódio e vingança.

Nada poderia ser acrescentado ao horror do inferno, exceto a presença de seu criador, Deus.

Enquanto viver, enquanto puder respirar, eu negarei com todas as minhas forças, e odiarei com todas as gotas de meu sangue, esta mentira infinita.

Nada me dá maior alegria que saber que esta crença no sofrimento eterno está se enfraquecendo a cada dia — que milhares de ministros estão envergonhados dela. Dá-me alegria saber que os cristãos estão se tornando misericordiosos, tão misericordiosos que o fogo do inferno está em fogo baixo — bruxuleante, abafado pelas cinzas, destinado a extinguir-se para sempre dentro de poucos anos.

Por séculos, o Cristianismo foi um hospício. Papas, cardeais, bispos, padres, monges e hereges eram todos insanos.

Apenas alguns — quatro ou cinco em um século eram são de coração e cérebro. Apenas uns poucos, apesar do ruído e estrondo, apesar dos gritos selvagens, ouviram a voz da razão. Apenas alguns, na orgia selvagem da ignorância, medo e zelo preservaram a perfeita calma proporcionada pela sabedoria.

Avançamos. Dentro de poucos anos os cristão se tornarão — esperamos — suficientemente humanos e sensíveis para negar o dogma que preenche os anos intermináveis com sofrimento. Eles deveriam saber agora que este dogma é absolutamente inconsistente com a sabedoria, a justiça e bondade de seu Deus. Eles deveriam saber que sua crença no inferno, dá ao Espírito Santo – a Pomba – o bico do abutre, e enche a boca da ovelha de Deus com as presas de uma víbora.

III

Em minha juventude eu li livros religiosos — livros sobre Deus, sobre a reconciliação — sobre a salvação pela fé e sobe os outros mundos. Fiquei familiarizado com os comentaristas — com Adam Clark que pensava ter a serpente seduzido nossa mãe Eva e era de fato o pai de Caim. Ele também acreditava que os animais, ainda na arca, tiveram suas naturezas modificadas a tal ponto que eles devoravam palha juntos e apreciavam a companhia uns dos outros — prefigurando assim o milênio abençoado. E li Scott, que era um teólogo natural que realmente pensava que a história de Phaeton — dos cavalos selvagens cruzando o céus — corroborava a história de Josué tendo parado o sol e a lua. Assim, eu li Henry e MacKnight e descobri que Deus amava tanto o mundo que ele mudou de idéia para danar uma grande maioria da raça humana. Eu li Cruden, que fez a grande concordância e fez os milagres tão pequenos e prováveis tanto quanto podia.

Lembro-me de que ele explicou o milagre da alimentação dos Judeus errantes com codornizes, dizendo que mesmo atualmente um número imenso de codornizes cruzavam o Mar Vermelho, e que algumas vezes, quando cansadas, eles pousavam em navios que afundavam com seu peso. O fato é que a explicação era difícil de acreditar quanto o fato de que o milagre não fez qualquer diferença para o devoto Cruden.

Já faz muito tempo que li os Institutos de Calvino, um livro calculado para produzir, em qualquer mente natural, um considerável respeito pelo Demônio..

Eu li as Evidências de Paley e descobri que a evidência de engenhosidade na produção do mal, em tramar o danoso, era pelo menos igual à evidência tendente a mostrar o uso da inteligência na criação daquilo que chamamos bem.

Você sabe que o argumento do relógio é o maior esforço de Paley. Um homem encontra um relógio, e este é tão maravilhoso que ele conclui que o relógio deve ter um criador. Ele encontra o criador e este é muito mais maravilhoso que o relógio e então ele diz que o criador também deve ter um criador. Então ele encontra Deus, o criador do homem, e ele é tão mais maravilhoso que o homem que é impossível que tenha tido um criador. Isto é o que os advogados chamam de um desvio de petição.

De acordo com Paley, não pode existir desenho sem desenhista — mas pode existir um desenhista sem um desenho. A maravilha do relógio sugeria o relojoeiro, e a maravilha do relojoeiro sugeria o criador, e a maravilha do criador demonstrava que ele não fora criado — mas era incriado e eterno.

Tínhamos Edwards em The Will, onde o reverendo autor demonstra que a necessidade não tem efeito sobre a responsabilidade — e que quando Deus cria um ser humano, e ao mesmo determina e decreta exatamente o que aquele ser fará e será, o ser humano é responsável e Deus, em sua justiça e misericórdia tem o direito de torturar a alma daquele ser humano para sempre. E ainda assim Edwards diz que ele ama a Deus.

O fato é que se você acredita em um Deus infinito, e também em punição eterna, então você precisa admitir que Edwards e Calvino estavam absolutamente certos. Não existe escapatória de suas conclusões se você admitir suas premissas. Eles eram infinitamente cruéis, suas premissas infinitamente absurdas, seu Deus infinitamente cruel e sua lógica perfeita.

E, ainda assim, eu tenho a gentileza e a candura de dizer que Calvino e Edwards eram ambos insanos.

Tivemos uma enorme quantidade de literatura teológica. Havia Jenkin sobre a Reconciliação, que demonstrava a sabedoria de Deus criando uma maneira pela qual o sofrimento de inocentes poderia justificar a culpa. Ele tentava demonstrar que as crianças poderiam ser justamente punidas pelos pecados de seus ancestrais, e que os homens podiam, se tivessem fé, ser justamente creditados com as virtudes de outros. Nada poderia ser mais devoto, ortodoxo e idiota. Mas, nem toda a nossa teologia era em prosa. Tínhamos Milton com sua milícia celestial com seu grande e descuidado Deus, seu orgulhoso e astuto Demônio — suas guerras entre imortais, e todos os sublimes absurdos que a religião gravou no cérebro do homem cego.

A teologia ensinada por Milton era cara ao coração dos Puritanos. Ela foi aceita pela Nova Inglaterra e ela envenenou as almas e arruinou as vidas de milhares. O gênio de Shakespeare não poderia tornar poética a teologia de Milton. Na literatura do mundo não existe nada mais perfeitamente absurdo, fora os “livros sagrados”.

Tivemos os Pensamentos Noturnos de Young, e eu supunha que o autor era um devoto excepcional e um seguidos amantíssimo do Senhor. Ainda assim Young tinha um grande desejo de ser bispo, e para atingir este objetivo e ele fez campanha junto à amante do rei. Em outras palavras, ele um velho e fino hipócrita. Nos “Pensamentos Noturnos”, quase não existe uma linha natural e genuinamente honesta. É pretensão do começo ao fim. Ele não escreveu o que sentia, mas o que pensava que devia sentir.

Tivemos o Curso do Tempo de Pollok, com seu verme que nunca morre, as chamas inextinguíveis, a dor sem fim, seus demônios cobiçosos e seu Deus malignamente exultante. O poema assustador deve ter sido escrito em um hospício. Nele você encontra todos os gritos, gemidos e espasmos de maníacos quando eles retalham e despedaçam a carne dos outros. É tão cruel, horrível e infernal quanto o capítulo trinta e dois de Deuteronômio.

Todos conhecemos o belo hino que começa com a linha animadora: “Ouve-se das tumbas um som lúgubre”. Nada poderia ser mais apropriado para crianças. Está bem colocar um ataúde onde ele possa ser visto do berço. Quando uma mãe cuida de seu filho, uma cova aberta deve existir a seus pés. Isto tenderia a tornar seu bebê sério, reflexivo, religioso e sofredor.

Deus odeia o riso e despreza a alegria. Sentir-se livre, sem laços, irresponsável, alegra — esquecer os cuidados e a morte — ser invadido pela luz do sol sem o medo da noite — esquecer o passado, não ter pensamentos em relação ao futuro, não sonhar com Deus, céu ou inferno — estar intoxicado com o presente — ter consciência apenas do abraço e do beijo do ser amado — isto é pecado contra o Espírito Santo.

Mas nós tínhamos os poemas de Cowper. Ele era sincero. Ele era o oposto de Young. Tinha um olho observador, um coração gentil e um senso para o artístico. Ele simpatizava com tudo o que sofria — com os prisioneiros, os escravizados, os excluídos. Ele amava o belo. Não admira que a crença na punição eterna tornou sua alma amorosa insana. Não admira que as “ondas de grande alegria” apagaram a grande estrela de Esperança e deixaram seu coração despedaçado na escuridão do desespero.

Tínhamos muitos volumes de sermões ortodoxos, cheios de ódio e os terrores do julgamento por vir — sermões que tinham sido deixados por santos selvagens.

Tínhamos o Livro dos Mártires, mostrando que os cristão tinham imitado por séculos o Deus que eles adoravam.

Tivemos a história do Waldenses — da reforma da Igreja, Tivemos o Pilgrim’s Progress, a Chamada de Baxter e a Analogia de Butler.

Para empregar uma frase ou dito do Oeste, eu descobri que o Bispo Butler cavou mais serpentes do que matou — sugeriu mais dificuldades do que explicou — mais dúvidas do que explicações.

Entre tais livros minha juventude passou. Todas as sementes de Cristianismo — de superstição, foram semeadas em minha mente e cultivadas com grande diligência e cuidado.

Todo esse tempo eu nada soube de qualquer ciência — nada sobre o outro lado — nada sobre as objeções que foram levantadas contra as sagradas escrituras ou contra o credo Congregacional perfeito. Naturalmente, eu havia ouvido os ministros falar sobre blasfemos, ou infiéis, de escarnecedores que riam das coisas sagradas. Eles não responderam aos seus argumentos, mas eles despedaçaram seus caracteres e demonstraram pela fúria da afirmação que eles haviam feito o trabalho do Demônio. E ainda assim, a despeito de tudo o que ouvi — de tudo o que li, eu ainda não podia acreditar. Meu cérebro e meu coração diziam Não.

Por algum tempo eu abandonei os sonhos, as insanidades, as ilusões e desilusões e os pesadelos da teologia. Estudei astronomia, só um pouco — examinei mapas dos céus — aprendi os nomes de algumas das constelações — de algumas estrelas — descobri alguma coisa sobre o tamanho e a velocidade com que eles giravam em seus órbitas — obtive uma fraca concepção dos espaços astronômicos — descobri que algumas das estrelas conhecidas estavam tão distantes nas profundezas do espaço que sua luz, viajando a quase duzentas mil milhas por segundo, levava muitos anos para chegar até este pequeno mundo — descobri que, comparado às grandes estrelas, nossa terra não passa de um grão de areia — um átomo — descobri que a antiga crença de que todos os hóspedes dos céus tinham sido criados em benefício do homem era infinitamente absurda.

Comparei o que era realmente conhecido sobre as estrelas com a narração da criação conforme o Gênesis. Descobri que o escritor do livro inspirado não tinha qualquer conhecimento de astronomia — que ele era tão ignorante quanto um chefe Choctaw — quanto um Esquimó que dirigia cachorros. Pode alguém imaginar que o autor do Gênesis nada sabia sobre o sol — seu tamanho? Que ele conhecia Sirius, a Estrela Polar, com Capella, ou que ele sabia alguma coisa sobre os grupos de estrelas tão distantes que sua luz, agora visitando nossos olhos, tinha viajado por dois milhões de anos?

Se ele tivesse conhecimento destes fatos, teria ele dito que Jeová trabalhou quase seis dias para criar este mundo, e somente parte da tarde do quarto dia para criar o sol, a lua e todas as estrelas?

Ainda assim, milhões de pessoas insistem em que o autor do Gênesis foi inspirado pelo Criador de todos os mundos.

Agora, homens inteligentes, que não estão assustados, cujos cérebros não foram paralisados pelo medo, sabem que a história sagrada da criação foi escrita por um selvagem ignorante. A história é inconsistente com todos os fatos conhecidos, e toda estrela brilhando nos céus atesta que seu autor foi um bárbaro sem inspiração.

Eu admito que este escritor desconhecido foi sincero, que ele escreveu o que acreditava ser verdade — que ele fez o melhor que pode. Ele não alegou ser inspirado — não fingiu que a história havia sido contada a ele por Jeová. Ele simplesmente declarou os “fatos” como ele os compreendeu.

Após ter aprendido um pouco sobre as estrelas, conclui que este escritor, este escriba “inspirado”, foi enganado pelo mito e a lenda e que ele não sabia mais sobre a criação que o teólogo médio de nossos dias. Em outras palavras, que ele não sabia absolutamente coisa alguma.

E aqui, permitam-me dizer que os ministros que estão respondendo a mim estão voltando suas armas na direção errada. Estes reverendos senhores devem atacar os astrônomos. Eles devem amaldiçoar e vilificar Kepler, Copérnico, Newton, Herschel e Laplace. Estes homens foram os verdadeiros destruidores da História sagrada. Então, após terem-se livrado deles, eles podem declarar guerra às estrelas e contra o próprio Jeová por ter fornecido provas contra a verdade de seu livro.

Em seguida, estudei geologia — não muito, só um pouco — apenas o suficiente para entender de maneira geral os principais fatos que haviam sido descobertos, e algumas das conclusões a que se havia chegado. Aprendi alguma coisa da ação do fogo — da água — da formação de ilhas e continentes — das rochas sedimentares e ígneas — das medidas de carvão — das falésias calcárias, alguma coisa sobre recifes de coral — sobre os depósitos feitos por rios, o efeito de vulcões, de geleiras e de todo o mar ao redor — apenas o suficiente para saber que as rochas Laurencianas eram milhões de anos mais antigas que a grama sob os meus pés — apenas o suficiente para sentir-me seguro de que este mundo tem prosseguido em seu vôo ao redor do sol, girando em luz e sombra, por centenas de milhões de anos — apenas o suficiente para saber que o escritor “inspirado” nada sabia da história da terra — nada sobre as grandes forças da natureza — do vento e do fogo — forças que destruíram e construíram, arrebentaram e lavrou por estes incontáveis anos.

E permitam-me dizer mais uma vez aos ministros que eles não devem perder seu tempo respondendo a mim. Eles devem atacar os geólogos. Eles deveriam negar os fatos que foram descobertos. Eles deveriam lançar suas maldições contra os mares blasfemos, e investir suas cabeças contra as rochas infiéis.

Então, eu estudei biologia — não muito — só o suficiente para saber algo sobre formas animais, suficiente para saber que a vida existia quando as rochas Laurencianas foram formadas — apenas o suficiente para saber que ferramentas de pedra, ferramentas criadas por mãos humanas, foram encontradas misturadas aos ossos de animais extintos, ossos que haviam sido quebrados com aquelas ferramentas, e que aqueles animais haviam deixado de existir centenas de milhares de anos antes da criação de Adão e Eva.

Então eu tive certeza de que o registro “inspirado” era falso — que muitos milhões de pessoas haviam sido enganadas e que tudo o que havia sido ensinado a mim sobre a origem dos mundos e do homem era completamente falso. Senti que sabia que o Velho Testamento era a obra de homens ignorantes — que ele era uma mistura de verdade e erro, de sabedoria e bobagens, de crueldade e gentileza, de filosofia e de absurdo — que ele continha alguns pensamentos elevados, alguma poesia — uma grande quantidade de solenidade e lugares comuns — alguns histéricos, outros ternos, algumas preces malditas, algumas previsões insanas, algumas mentiras e alguns sonhos caóticos.

É claro que os teólogos combateram os fatos descobertos pelos geólogos, os cientistas e procuraram sustentar as Escrituras sagradas. Eles confundiram ossos de mastodonte com ossos de seres humanos e, através deles provaram que “existiam gigantes naqueles dias”. Eles interpretaram os fósseis dizendo que Deus os havia feito para experimentar nossa fé, ou que o Demônio tinha imitado os trabalhos do Criador.

Eles responderam aos geólogos dizendo que os “dias” no Gênesis eram longos períodos de tempo e que afinal o dilúvio pode ter sido local. Eles disseram aos astrônomos que o sol e a lua não foram efetivamente, mas apenas aparentemente, parados. E que a aparência foi produzida pela reflexão e refração da luz.

Eles desculparam a escravidão e a poligamia, o roubo e assassinato ocorridos no Velho Testamento dizendo que as pessoas estavam tão degradadas que Jeová foi obrigado a ceder à sua ignorância e preconceito.

De toda forma o clero procurou fugir dos fatos, escamotear a verdade para preservar a crença.

Primeiro, eles simplesmente negaram os fatos — então eles os banalizaram — em seguida eles os harmonizaram — então eles negaram que os tivessem negado. Em seguida, eles trocaram o significado do livro “inspirado” para ajustar-se aos fatos. Primeiro, eles disseram que se os fatos, conforme alegado, fossem verdadeiros, a Bíblia era falso e o próprio Cristianismo era superstição. Depois eles disseram que os fatos, conforme alegados, eram verdadeiros e que eles estabeleciam sem a menor dúvida a inspiração da Bíblia e a origem divina da religião ortodoxa.

Tudo o que eles não puderam evitar eles engoliram, e tudo o que eles não puderam engolir eles evitaram.

Desisti do Velho Testamento devido a seus erros, seus absurdos, sua ignorância e crueldade. Desisti do Novo porque ele assegurava a verdade do Antigo. Desisti dele por causa de seus milagres, suas contradições, porque Cristo e seus discípulos acreditavam na existência de demônios — discutiam e faziam acordos com eles e os expulsavam de pessoas e animais.

Isto em si é o bastante. Sabemos, se sabemos alguma coisa, que os demônios não existem — que Cristo nunca os expulsou, e se ele fingiu que fazia isto, ele era ignorante, desonesto ou louco.

Estas histórias sobre demônios demonstram a origem humana e ignorante do Novo Testamento. Desisti do Novo Testamento porque ele premia a credulidade e amaldiçoa os homens corajosos e honestos, e porque ele ensina o horror infinito do sofrimento eterno.

V

Tendo passado minha juventude lendo livros sobre religião — sobre o “novo nascimento” — a desobediência a nossos primeiros pais, o arrependimento, a salvação pela fé, a perversidade do prazer, as conseqüências degradantes do amor e a impossibilidade de se chegar ao céu sendo honesto e generoso, tendo se tornado de alguma forma cansado dos pensamentos desgastados e confusos, você pode imaginar minha surpresa, meu deleite quando li os poemas de Robert Burns.

Eu estava familiarizado com os escritos dos devotos e insinceros, os pios e petrificados, pós puros e sem coração. Aqui estava um homem naturalmente honesto. Eu conhecia os trabalhos daqueles que consideravam toda a natureza como depravada, e encaravam o amor como a herança e testemunho perpétuo do pecado original. Aqui estava um homem que tirava alegria do lodo, que transformava camponesas em deusas e que entronizou o homem honesto. Alguém cuja simpatia, com braços amorosos, abraçou todas as formas de vida sofredora, que odiava a escravidão de todo tipo, que era tão natural quanto o azul do céu, com o humor gentil como um dia de outono, com a presença de espírito tão afiada quanto a espada de Ituriel, um desprezo que açoitava como o hálito do simum. Um homem que amava este mundo, esta vida, as coisas corriqueiras e colocava acima de tudo os êxtases eletrizantes do amor humano.

Eu li e reli arrebatado, entre lágrimas e sorrisos, sentindo que um grande coração batia nas entrelinhas.

Os poetas religiosos, lúgubres, artificiais e espirituais foram esquecidos e permaneceram apenas como fragmentos, os horrores meio lembrados de sonhos monstruosos e distorcidos.

Eu tinha descoberto finalmente um homem natural, alguém que desprezava o credo cruel de sua pátria, e era corajoso e sensível o suficiente para dizer: “Todas as religiões são velhas fábulas de esposas, mas um homem honesto nada tem a temer, neste mundo ou no outro”.

Alguém que teve o gênio para escrever a Prece de São Willie — um poema que crucificou o Calvinismo e através de seu coração exangue trespassou uma estaca do senso comum — um poema que tornou toco credo ortodoxo motivo de desprezo — de riso eterno.

Burns tinha seus defeitos, suas fraquezas. Ele era intensamente humano. Ainda assim, eu preferiria aparecer bêbado na “Cadeira do Julgamento” e poder dizer que eu era o autor de “Um homem é homem por isso”, do que estar perfeitamente sóbrio e admitir que eu tinha vivido e morrido como um Presbiteriano Escocês.

Eu li Byron — li seu Caim, onde, como em Paraíso Perdido, o Demônio parece ser o melhor deus — li suas linhas belas, sublimes e amargas — li seu prisioneiro de Chillon — seu melhor — um poema que encheu meu coração de ternura, de piedade e de um ódio eterno à tirania.

Eu li a Rainha Mab de Shelley — um poema cheio de beleza, coragem, pensamento, simpatia, lágrimas e desprezo, onde uma alma corajosa destrói os muros da prisão e inunda as celas de luz. Eu li seu Skylark — uma chama voadora — apaixonada como sangue — terna como lágrimas — pura como a luz.

Eu li Keats, “cujo nome estava escrito em água” — li a Eva de St. Agnes, uma história contada com tal habilidade que este pobre mundo comum é transformado em uma terra de fadas — a Urna Grega, que enche a alma com um amor ainda mais ansioso, com todo o arrebatamento da canção imaginada — o Rouxinol — uma melodia onde existe a memória da tristeza — uma melodia que se extingue em lusco-fusco e lágrimas, atormentando os sentidos com sua perfeição.

E, então, eu li Shakespeare, as peças, os sonetos, os poemas — li tudo. Eu vi um novo céu e uma nova terra; Shakespeare, que conhecia o cérebro e o coração do homem — as esperanças e os medos, os amores e os ódios, os vícios e virtudes da raça humana: cuja imaginação leu os registros borrados pelas lágrimas, as páginas manchadas de sangue de todo o passado e viu se desfazerem a rolo esparramado de luz de esperança e amor; Shakespeare, que sondou cada profundeza — enquanto sobre pico mais alto caia a sombra de suas asas.

Eu comparei as Peças com os livros “inspirados” — Romeu e Julieta com os Cânticos de Salomão, Lear com Job e os Sonetos com os Salmos e descobri que Jeová não compreendia a arte da palavra. Eu comparei as mulheres de Shakespeare — suas mulheres perfeitas — às mulheres da Bíblia. Descobri que Jeová não era um escultor, nem um pintor — nem um artista — que faltava-lhe o poder de transformar argila em carne — a arte, o toque plástico que molda a forma perfeita — o hálito que lhe dá vida alegre e livre — o gênio que cria a perfeição.

Os livros sagrados de todo o mundo são escória imprestável e simples pedregulhos se comparados ao ouro faiscante e as gemas brilhantes de Shakespeare.

VI

Até esta época eu não havia lido nada contra nossa bendita religião, exceto o que havia encontrado em Burns, Byron e Shelley. Acidentalmente eu li Volney, que demonstra que todas as religiões são, ou foram, estabelecidas da mesma forma — que todas tinham seus Cristos, seus apóstolos, milagres e livros sagrados, e, em seguida, perguntava como é possível decidir qual delas é verdadeira. Uma questão que ainda espera por uma resposta.

Eu li Gibbons, o maior dos historiadores, que dominava seus fatos com tanta maestria quanto César suas legiões e aprendi que o Cristianismo é apenas um nome para Paganismo — para a antiga religião, estirpada de sua beleza — que alguns absurdos haviam sido trocado por outros — que alguns deuses haviam sido mortos — uma vasta multidão de demônios criada e que o inferno tinha sido ampliado.

E então eu li a Idade da Razão de Thomas Paine. Permitam-me contar alguma coisa sobre este homem sublime e difamado. Ele veio para este país um pouco antes da Revolução. Ele trazia uma carta de apresentação de Benjamin Franklin, naquela época o maior dos Americanos.

Na Filadélfia, Paine foi empregado como redator no Pennsylvania Magazine. Sabemos que ele escreveu pelo menos cinco artigos. O primeiro foi contra a escravidão, o segundo contra os duelos, o terceiro sobre o tratamento de prisioneiros — mostrando que o objetivo deveria ser reformar, não punir e degradar — o quarto sobre os direitos da mulher e o quinto em favor da formação de sociedades voltadas para a prevenção à crueldade contra crianças e animais.

Por ai pode-se ver que ele sugeriu as grandes reformas de nosso século.

A verdade é que ele trabalhou toda a sua vida pelo bem de seus conterrâneos e fez tanto para fundar a Grande República quanto qualquer outro homem que jamais esteve sob nossa bandeira. Ele deu seus pensamentos sobre religião — sobre as Escrituras sagradas, sobre as superstições de seu tempo. Ele era perfeitamente sincero e o que ele dizia era gentil e certo.

A Idade da Razão encheu de ódio os corações daqueles que amavam seus inimigos e o ocupante de cada púlpito ortodoxo tornou-se, e ainda é, um detrator apaixonado de Thomas Paine.

Nenhum respondeu — nem ninguém responderá a sua argumentação contra o dogma da inspiração — suas objeções à Bíblia.

Ele não se levantou acima de todas as superstições de sua época. Ao mesmo tempo em que odiava Jeová, ele louvava o Deus da Natureza, o criador e preservador de tudo. Nisto ele estava errado, pois como disse Watson em seu Resposta a Paine, o Deus da Natureza é tão sem coração e tão cruel quanto o Deus da Bíblia.

Mas Paine foi um dos pioneiros — um dos Titans, um dos heróis, que deu sua vida de bom grado, cada pensamento e cada ato, para libertar e civilizar a humanidade.

Eu li Voltaire — Voltaire, o maior homem de seu século, e que fez mais pela liberdade de pensamento e de expressão que qualquer outro ser humano ou “divino”. Voltaire, que rasgou a máscara da hipocrisia e encontrou atrás do sorriso pintado as dores do ódio. Voltaire que atacou a selvajaria da lei, as decisões cruéis de tribunais venais e resgatou vítimas da roda. Voltaire, que declarou guerra contra a tirania dos tronos, a cobiça e insensibilidade do poder. Voltaire, que encheu a carne dos padres com as setas pontiagudas e envenenadas de seu espírito e fez os piedosos ilusionistas que o amaldiçoavam em público, rirem de si mesmos particularmente. Voltaire que tomou o lado dos oprimidos, resgatou os desafortunados, lutou pelos obscuros e fracos, civilizou juizes, repeliu leis e aboliu a tortura em sua terra natal.

Em todas as direções, este incansável homem lutou contra o absurdo, o milagroso, o sobrenatural, o idiota, o injusto. Ele não tinha qualquer reverência com os velhos. Ele não era impressionado pela pompa e circunstância, por Crime coroado ou Pretensão mitrada. Sob a coroa ele via o criminoso, sob a mitra o hipócrita.

À barra de sua consciência, sua razão, ele levava o barbarismo e os bárbaros de seu tempo. Ele pronunciava o julgamento contra todos eles, e este julgamento foi confirmado pelo mundo inteligente. Voltaire acendeu a tocha e deu aos outros a chama sagrada. A luz ainda brilha e brilhará enquanto o homem amar a liberdade e procurar pela verdade.

Eu li Zenão, o homem que disse, séculos antes do nascimento de Cristo, que o homem não podia possuir seu semelhante.

“Não importa se você reclama um escrava por compra ou captura, o título é ruim. Aqueles que reclamam ter direito de propriedade sobre seus semelhantes, olham para dentro de um fosso e esquecem a justiça que deveria governar o mundo.”

Tive contato com Epicuro, que ensinava a religião da utilidade, da temperança, da coragem e da sabedoria, e que disse: “Porque deveria eu temer a morte? Se eu sou, a morte não é. Se a morte for, eu não sou. Porque deveria eu temer algo que não pode existir enquanto eu existo?”

Eu li sobre Sócrates, que em julgamento por sua vida, disse entre outras coisas, a seus juizes, estas maravilhosas palavras: “Durante minha vida, eu não procurei reunir fortuna e adornar meu corpo, mas eu procurei adornar minha alma com as jóias da sabedoria, da paciência e, acima de tudo, do amor pela liberdade.”

Assim, eu li sobre Diógenes, o filósofo que detestava o supérfluo — o inimigo do desperdício e da cobiça, e que um dia entrou no templo, aproximou-se reverentemente do altar, esmagou um piolho entre as unhas de seus polegares e disse solenemente: “O sacrifício de Diógenes a todos os deuses.” Isto parodiava a adoração do mundo — satirizava todos os credos e em um só ato colocava a essência da religião.

Diogenes deve ter sabido desta passagem “inspirada” — “Sem que sangue seja derramado, não existe remissão dos pecados.”

Eu comparei Zenão, Epícuro e Sócrates, três vilões hereges que nunca haviam ouvido falar no Velho Testamento ou nos Dez Mandamentos, a Abraão, Isaac e Jacó, três favoritos de Jeová, e eu fui depravado o suficiente para achar que os Pagão eram superiores aos Patriarcas — e ao próprio Jeová.

VII

Minha atenção voltou-se para outras religiões, aos livros sagradas, os credos e cerimônias de outras terras — da Índia, Egito, Assíria, Pérsia e das nações mortas ou moribundas.

Concluí que todas as religiões tinham a mesma base — a crença no sobrenatural — um poder acima da natureza que o homem podia influenciar através da adoração — por meio de sacrifícios e de preces.

Descobri que todas as religiões se apoiam em uma concepção errada da natureza — de que a religião de um povo era a ciência daquele povo, o que eqüivale a dizer, sua explicação do mundo — da vida e da morte — da origem e do destino.

Concluí que todas as religiões tinham substancialmente a mesma origem e que, na realidade, nunca houve a não ser uma religião no mundo. Os brotos e as folhas podem diferir, mas o tronco é o mesmo.

O pobre Africano que derrama seu coração para uma deidade de pedra está em um nível religioso exatamente igual aos padres de batina que suplicam a Deus. O mesmo erro, a mesma superstição dobra os joelhos e fecha os olhos de ambos. Ambos pedem auxílio ao sobrenatural, e nenhum deles tem o menor pensamento sobre a absoluta uniformidade da natureza.

Parece-me provável que a primeira cerimônia religiosa organizada foi a adoração do sol. O sol era o “Pai Céu”, o “Todo Vidente”, a fonte da vida — a lareira do mundo. O sol era visto com um deus que combatia a escuridão, o poder do mal, o inimigo do homem.

Existiram muitos deuses-sol, e eles parecem ter sido as principais deidades nas religiões antigas. Ele foram adorados em muitas terras, por muitas nações que passaram pela morte e o pó.

Apolo era um deus-sol e ele combateu e conquistou a serpente da noite. Baldur era um deus-sol. Ele estava apaixonado pela Aurora — a virgem. Chrishna era um deus-sol, em seu nascimento, o Ganges foi estremecido de sua fonte até o mar, e todas as árvores, os mortos e os vivos, floresceram. Hércules era um deus-sol e também o foi Sansão, cuja força estava nos cabelos — isto é em seus raios. Dalila, a sombra — a escuridão — arrancou-lhe as forças. Osiris, Baco e Mitra, Hermes, Buda e Quetzalcoatl, Prometeu, Zoroastro e Perseu, Cadom, Lao-Tze, Fo-hi, Horus e Ramsés, todos eles foram deuses-sol.

Todos estes deuses tinham deuses como pais e virgens como mães. O nascimento de quase todos eles foi anunciado por estrelas, celebrados por música celestial e vozes declararam que as bênçãos tinham chegado a este pobre mundo. Todos estes deuses nasceram em lugares humildes — em cavernas, sob árvores, em estalagens comuns e tiranos tentaram matá-los quando eram bebês. Todos estes deuses-sol nasceram no solstício de inverno — no Natal. Quase todos eles eram adorados por “homens sábios”. Todos eles jejuaram por quarenta dias — todos eles ensinavam usando parábolas — todos eles realizaram milagres — todos sofreram morte violenta e todos eles ressuscitaram.

A história destes deuses é exatamente igual à história do nosso Cristo.

Isto não é uma coincidência — um acidente. Cristo era um deus-sol. Cristo era um novo nome para uma velha biografia — uma sobrevivência — o último dos deuses-sol. Cristo não era um homem, mas um mito — não uma vida, mas uma lenda.

Descobri que não somente tínhamos tomado emprestado nosso Cristo — mas que todos os nossos sacramentos, símbolos e cerimônias eram herança que recebemos do passado enterrado. Não existe coisa alguma original no Cristianismo.

A cruz era um símbolo a milhares de anos antes de nossa era. Era um símbolo de vida, de imortalidade — do deus Agni e foi esculpida em tumbas muitas eras antes que uma linha de nossa Bíblia tivesse sido escrita.

O batismo é muito mais antigo que o Cristianismo e que o Judaísmo. Os Hindus, Egípcios, Gregos e Romanos tinham água benta muito antes de um católico ter vivido. A eucaristia foi emprestada dos Pagãos. Ceres era a deusa dos campos — Baco era do vinho. No festival da colheita eles faziam bolos de trigo e diziam: “Esta é a carne da deusa”. Eles bebiam vinho e gritavam: “Este é o sangue de nosso deus.”

Os Egípcios tinham uma Trindade. Eles adoravam Osiris, Isis e Horus, milhares de anos antes que o Pai, Filho e Espírito Santo fossem conhecidos.

A Árvore da Vida cresceu na Índia, na China e entre os Aztecas, muito antes que o Jardim do Éden tivesse sido plantado.

Muito antes que nossa Bíblia fosse conhecida, outras nações tinham seus livros sagrados.

Os dogmas da Queda do Homem, do Arrependimento e Salvação pela Fé, são muito mais antigos que nossa religião.

Em nosso evangelho abençoado — em nosso “esquema divino” — não existe nada de novo — nada original. Tudo velho — tudo emprestado, recortado e remendado.

Então eu concluí que todas as religiões tinham sido naturalmente produzidas e que todas eram variações, modificações de uma só — então eu senti que sabia serem todas o trabalho de um homem.

VIII

Os teólogos sempre insistiram que seu Deus era o criador de todas as coisas vivas — que as formas, partes, funções, cores e variedades de animais eram as expressões de sua fantasia, gosto e sabedoria — que ele os fez a todos precisamente como são hoje — que ele inventou barbatanas e pernas e asas — que ele forneceu a eles as armas de ataque, os escudos de defesa — que ele os formou com referência a comida e clima, levando em consideração todos os fatos que afetavam a vida.

Eles insistiam em que o homem era uma criação especial, não relacionada de forma alguma com os animais abaixo dele. Eles também afirmavam que todas as formas de vegetação, de musgos a florestas eram exatamente o são hoje, no momento em que foram criados.

Homens de gênio que em sua maioria eram livres de preconceito religioso, estavam examinando estas coisas — estavam procurando por fatos. Eles estavam examinando os fósseis de animais e plantas — estudando as formas dos animais — seus ossos e músculos — o efeito do clima e da comida — as estranhas modificações pelas quais eles haviam passado.

Humboldt tinha publicado suas leituras — cheias de grandes pensamentos — com esplêndidas generalizações — com sugestões que estimulavam o espirito de investigação e com conclusões que satisfaziam a mente. Ele demonstrava a uniformidade da Natureza — o parentesco de tudo o que vive e cresce — que respira e pensa.

Darwin, com sua Origem das Espécies, sua teoria sobre a Seleção Natural, a Sobrevivência do Mais Apto e a influência do ambiente, lançou uma inundação de luz sobre os grandes problemas da vida animal e vegetal.

Estas coisas tinham sido adivinhadas, profetizadas, afirmadas, indicadas por muitos outros, mas Darwin, com paciência infinita, com um candor e cuidado perfeitos, encontrou os fatos, cumpriu as profecias e demonstrou a verdade das adivinhações, indicações e afirmativas. Ele era, a meu ver, o mais preciso observador, o melhor juiz do significado e valor de um fato, o maior Naturalista que o mundo jamais produziu.

A visão teológica começou a parecer pequena e ruim.

Spencer ofereceu sua teoria da evolução e a sustentou com base em incontáveis fatos. Ele colocou-se em uma grande altura e com os olhos de um filósofo, um pensador profundo, observou o mundo. Ele influenciou o pensamento dos mais sábios.

A teologia parecia mais absurda do que nunca.

Huxley juntou-se aos que apoiavam Darwin. Nenhum homem jamais teve uma espada mais afiada — um escudo melhor. Ele desafiou o mundo. Os grandes teólogos e os pequenos cientistas — aqueles que tinham mais coragem que bom senso, aceitaram o desafio. Seus pobres corpos foram levados por seus amigos.

Huxley tinha inteligência, habilidade, gênio e a coragem de expressar seu pensamento. Ele era absolutamente leal àquilo que ele considerava verdade. Sem preconceito e sem medo, ele acompanhou os passos da vida, das formas mais baixas até as mais altas.

A teologia parecia menor ainda.

Haeckel começou com a célula mais simples, foi de mudança em mudança — de forma em forma — seguiu a linha do desenvolvimento, o caminho da vida, até que chegou à raça humana. Era tudo natural. Não havia interferência externa.

Eu li os trabalhos destes grandes homens — de muitos outros — e tornei-me convencido de que eles estavam certos, e de que todos os teólogos — todos os que acreditavam na “Criação especial” estavam absolutamente errados.

O Jardim do Éden se apagou, Adão e Eva voltaram ao pó, a serpente rastejou de volta à grama e Jeová tornou-se um mito miserável.

IX

Dei mais um passo. O que é a matéria — substância? Pode ela ser destruída — aniquilada? É possível conceber a destruição do menor átomo da substância? Ela pode ser moída até virar pó — alterada de sólido para líquido — de líquido para gás — mas tudo permanece. Nada se perde — nada é destruído.

Deixe um Deus infinito, se existir algum, atacar um grão de areia — atacá-lo com poder infinito. Ele não pode ser destruído. Ele não pode se render. Ele desafia toda a força. A substância não pode ser destruída.

Então dei mais um passo.

Se a matéria não pode ser destruída, não pode ser aniquilada, ela não pode ter sido criada.

O indestrutível deve ser incriável.

E, então, perguntei-me: O que é força?

Não podemos conceber a criação da força, ou sua destruição. A força pode ser modificada de uma forma para outra — de movimento para calor — mas não pode ser destruída — aniquilada.

Se a força não pode ser destruída, ela não pode ter sido criada. Ela é eterna.

Outra coisa – a matéria não pode existir separada da força. A foça não pode existir separada da matéria. A matéria não ter existido antes da força. A força não poderia ter existido antes da matéria. A matéria e a força somente podem ter sido concebidas juntas. Isto foi demonstrado por diversos cientistas, mas mais claramente, mais forçosamente por Buchner.

O pensamento é uma forma de força, consequentemente ele não poderia ter causado ou criado matéria. A inteligência é uma forma de força e não poderia ter existido sem ou separada da matéria. Sem substância não poderia ter existido mente, nem vontade, nem força de qualquer tipo e não poderia ter havido substância sem força.

A matéria e a força não foram criadas. Elas existiram desde a eternidade. Elas não podem ser destruídas.

Não existiu, não existe criador. Então surgiu a pergunta; Existe um Deus? Existe um ser de inteligência, poder e bondade infinitos que governa o mundo?

Não pode haver bondade sem muita inteligência — mas parece-me que esta inteligência perfeita e bondade perfeita devem aparecer juntas.

Na natureza eu vejo, ou pareço ver, bem e mal — inteligência e ignorância — bondade e crueldade — cuidado e desleixo — economia e desperdício. Eu vejo meios que não atingem os fins — desígnios que parecem falhar.

Parece-me infinitamente cruel para a vida alimentar-se de vida — criar animais que devoram outros.

Os dentes e bicos, as garras e presas, que rasgam e dilaceram, enchem-me de horror. O que pode ser mais assustador que um mundo em guerra? Cada folha um campo de batalha — cada flor um Gólgota — em cada gota de água perseguição, captura e morte. Sob cada pedaço de casca, a vida esperando por vida. Em cada folha de grama, alguma coisa que mata — alguma coisa que sofre. Em todo lugar o forte vivendo do fraco — o superior do inferior. Em todo lugar, o fraco, o insignificante, vivendo no forte — o inferior sobre o superior — a comida superior para o inferior — homens sacrificados em favor de micróbios.

Assassinato universal. Em todo lugar a dor, doença e morte — morte que não espera por formas encurvadas e cabelos grisalhos, mas ataca bebês e jovens felizes. Morte que tira a mãe de sua criança sardenta indefesa — morte que enche o mundo com dor e lágrimas.

Como pode um cristão ortodoxo explicar estas coisas?

Eu sei que a vida é boa. Lembro-me da luz do sol e da chuva. Em seguida, penso em terremotos e inundações, Não esqueço a saúde e a colheita, lar e amor, mas e a peste e a fome? Não consigo harmonizar todas estas contradições — estas bênçãos e agonias — com a existência de um Deus poderoso, sábio e infinitamente bom.

O teólogo diz que o que chamamos mal é para nosso bem — que somos colocados neste mundo de pecado e dor para desenvolver o caráter. Se isso for verdade, eu pergunto porque o bebê morre? Milhões e milhões respiram umas poucas vezes e falecem nos braços de suas mães. A eles não é permitido desenvolver caráter.

O teólogo diz que as serpentes receberam presas para se protegerem contra seus inimigos. Porque Deus que as fez, faz inimigos? Porque muitas espécies de serpentes não têm presas?

O teólogo diz que Deus deu armadura ao hipopótamo, cobriu seu corpo, exceto na parte inferior com placas e escamas, para que outros animais não pudessem cortar com os dentes ou presa. Mas o mesmo Deus criou os rinocerontes e lhes deu um chifre sobre o nariz, com o qual ele destripa o hipopótamo.

O mesmo Deus fez a águia, o abutre, o falcão e suas presas indefesas.

Em cada mão parece haver um desígnio para derrotar desígnio.

Se Deus criou o homem — se ele é o pai de todos nós, porque ele fez os criminosos, os loucos, os deformados e os idiotas?

O homem inferior deve agradecer a Deus? A mãe que embala em seu seio uma criança idiota deve agradecer a Deus? O escravo deve agradecer a Deus?

O teólogo diz que Deus governa o vento, a chuva, o raio. Como então devemos interpretar o ciclone, a inundação, a seca, o relâmpago flamejante que mata?

Suponhamos que temos um homem neste país que pudesse controlar o vento, a chuva e o relâmpago, e suponhamos que o elejamos para governar estas coisas e suponhamos que ele permitisse que estados inteiros secassem e definhassem, e ao mesmo tempo desperdiçasse a chuva no mar. Suponhamos que ele permitisse que o vento destruísse cidades e esmagasse completamente milhares de homens e mulheres e permitisse que os raios ceifassem a vida de mães e bebês. O que diríamos? O que iríamos pensar de um tal selvagem?

E, ainda assim, de acordo com os teólogos, isto é exatamente o caminho seguido por Deus.

O que pensamos de um homem que não protege seus amigos quando tem este poder? Mesmo assim o Deus dos Cristãos permitiu que seus inimigos torturem e queimem seus amigos, seus adoradores.

Quem tem engenhosidade suficiente para explicar isso?

Que homem bom, tendo o pode de impedir, permitiria que o inocente fosse preso, acorrentado em masmorras, e suspirar contra as paredes gotejantes o resto de sua miserável vida?

Se Deus governa o mundo, porque a inocência não é um escudo perfeito? Porque a injustiça triunfa?

Quem pode responder a estas perguntas?

Como resposta, o homem honesto e inteligente deve dizer: não sei.

X

Este Deus, se existir, deve ser uma pessoa — um ser consciente. Quem pode imaginar uma personalidade infinita? Este Deus deve ter força, e não podemos conceber a força separada da matéria. Este Deus deve ser material. Ele deve ter os meios pelos quais ele transforma força nisso que chamamos pensamento. Quando ele pensa, usa força e a força precisa se substituída. Ainda assim é-nos dito que ele é infinitamente sábio. Se ele for, ele não pensa. Pensamento é uma escada — um processo pelo qual chegamos a uma conclusão. Ele que conhece todas as conclusões não pode pensar. Ele não pode ter esperança ou medo. Quando o conhecimento é perfeito não pode haver paixão, nenhuma emoção. Se Deus é infinito ele não deseja. Ele tem tudo. Ele que não deseja nada não age. O infinito deve permanecer em eterna calma.

É tão impossível conceber tal ser quanto imaginar um triângulo quadrado ou pensar em um círculo sem diâmetro.

Ainda assim nos dizem que é nosso dever amar a Deus. Podemos amar o desconhecido, o inconcebível? Pode ser nosso dever amar alguém? É nosso dever agir justamente, honestamente, mas não pode ser nosso dever amar. Não podemos estar sob obrigação de admirar uma pintura — ser encantado por um poema — ou comovido com música. A admiração não pode ser controlada. O gosto e o amor não são servos da vontade. O amor é, e deve ser livre. Ele surge do coração como perfume de uma flor.

Por milhares de eras os homens e as mulheres tem tentado amar os deuses — tentado abrandar seus corações — tentado obter a ajuda deles.

Eu os vejo, todos. O panorama desfila diante de mim. Eu os vejo com as mãos estendidas — com os olhos reverentemente fechados — adorando o sol. Eu os vejo inclinando-se, em seu medo e necessidade, diante de pedras meteóricas — implorando a serpentes, bestas e árvores sagradas — rezando a ídolos esculpidos em madeira e pedra. Eu os vejo construindo altares aos poderes invisíveis, manchando-os com sangue de crianças e animais. Eu vejo os incontáveis sacerdotes e ouço seus cantos solenes. Eu vejo as vítimas moribundas, os altares fumegantes, os turíbios baloiçantes, e as nuvens que sobem. Eu vejo os homens meio deuses — os Cristos pesarosos em muitas terras. Eu vejo as coisas comuns da vida transformadas em milagres à medida que passam de boca a boca. Eu vejo os profetas loucos lendo o livro secreto do destino por sinais e sonhos. Eu os vejo, todos — os assírios cantando preces a Asshur e Ishtar — os hindus adorando Brahma, Vishnu e Daupadi, dos braços brancos — os caldeus sacrificando a Bel e Hea — os egípcios curvando-se para Ptah e Fta, Osiris e Isis — os medas aplacando a tormenta, adorando o fogo — os babilônios suplicando a Bel e Murodach — eu os vejo, todos, junto ao Eufrates, o Tigre, o Ganges e o Nilo. Eu vejo os gregos construindo templos a Zeus, Netuno e Vênus. Vejo os romanos ajoelhados para centenas de deuses. Eu vejo outros desprezando ídolos e derramando suas esperanças e medos a uma vaga imagem na mente. Eu vejo as multidões, com as bocas abertas, recebendo como verdade os mitos e fábulas dos anos passados. Eu os vejo dar seu trabalho, sua riqueza para vestir os sacerdotes, para construir tetos altos, amplos espaços, os domos brilhantes. Eu os vejo vestidos em andrajos, amontoados em barracas e tocas, devorando migalhas e restos, que eles devem dar mais a fantasmas e deuses. Eu os vejo fazer seus credos cruéis e encher o mundo com ódio, guerra e morte. Eu os vejo com suas faces no pó nos escuros dias de pragas e morte súbita, quando as faces estão lívidas e os lábios brancos por falta de pão. Eu escuto as preces deles, seus suspiros seus soluços. Eu os vejo beijar os lábios inconscientes enquanto suas quentes lágrimas caem sobre as pálidas faces dos mortos. Eu vejo as nações, à medida que desaparecem. Eu os vejo capturados e escravizados. Eu vejo seus altares misturarem-se à terra comum, seus templos desabarem lentamente de volta ao pó. Eu vejo seus deuses ficarem velhos e fracos, enfermos e desmaiarem. Eu os vejo caírem de tronos vagos e enfumaçados, indefesos e mortos. Os adoradores não recebem ajuda. A injustiça triunfa. Trabalhadores são pagos com o chicote — bebês são vendidos — os inocente é preso em cadafalsos e os heróis perecem em chamas. Eu vejo terremotos devorar, vulcões crescer, ciclones destroçar, inundações destruir, e raios matar.

As nações pereceram. Os deuses morreram. O trabalho e a riqueza estão perdidos, Os templos foram construídos em vão e todos aqueles que rezavam morreram sem resposta no ar negligente.

Então eu perguntei-me: Existe um poder sobrenatural — uma mente arbitrária — um Deus entronizado — uma vontade suprema que governa as marés e corrente do mundo — a quem se curvam todas as causas?

Não nego. Não sei – mas não creio. Eu creio que o natural é supremo — que da corrente infinita nenhum elo pode ser perdido ou quebrado — que não existe poder sobrenatural que possa responder a preces — nenhum poder que a adoração possa persuadir ou mudar — nenhum poder que se importe com o homem.

Acredito que com braços infinitos, a Natureza abraça tudo–que não existe interferência — nenhuma possibilidade de que por trás de cada evento estão as causas necessárias e incontáveis e que além de cada evento estarão e deverão estar os efeitos necessários e incontáveis.

O homem deve proteger-se. Ele não pode depender do sobrenatural — de um pai imaginário nos céus. Ele deve proteger-se descobrindo os fatos na Natureza, desenvolvendo seu cérebro, para que ele possa superar os obstáculos e aproveitar as forças da Natureza.

Existe um Deus?

Eu não sei.

O homem é imortal?

Eu não sei.

Uma coisa eu sei, é que, nem a esperança, nem o medo, crença, nem negação pode mudar o fato. É o que é, e será como deve ser.

Aguardamos e temos esperança.

XI

Quando fiquei convencido de que o Universo é natural — que todos os espíritos e deuses são mitos, entrou em meu cérebro, em minha alma, em cada gota de meu sangue o senso, o sentimento, a alegria da liberdade. As paredes de minha prisão desabaram, a masmorra foi inundada de luz e todas as fechaduras e barras e algemas tornaram-se pó. Eu não era mais um servo ou escravo. Não havia para mim mestre em todo o mundo — nem mesmo no espaço infinito. Eu estava livre — livre para pensar, para expressar meus pensamentos — livre para viver meu próprio ideal — livre para viver por mim mesmo e aqueles que eu amava — livre para usar minhas próprias faculdades, todos os meus sentidos — livre para abrir as asas da imaginação — livre para investigar, para adivinhar e sonhar e ter esperança — livre para julgar e determinar por mim mesmo — livre para rejeitar todos os credos ignorantes e cruéis, todos os livros “inspirados” que os selvagens tinham produzido, e todas as bárbaras lendas do passado — livre de papas e sacerdotes — livre dos “chamados” e dos “excluídos” — livre de erros santificados e santas mentiras — livre do medo do sofrimento eterno — livre dos monstros alados da noite — livre de demônios, espíritos e deuses. Pela primeira vez eu estava livre. Não existiam lugares proibidos em todos as áreas do pensamento — nenhum ar, nenhum espaço onde a fantasia não pudesse abrir suas asas pintadas — nenhuma corrente em meus membros — nenhum chicote em minhas costas — nenhum fogo em minha carne — nenhuma careta ou ameaça do mestre — ninguém seguindo os passos de outros — nenhuma necessidade de inclinar, ou adular ou rastejar, ou proferir palavras mentirosas. Eu estava livre. Eu permaneci ereto e sem medo, alegre, enfrentei todos os mundos.

E então meu coração foi invadido pela gratidão, pelo agradecimento e continuou apaixonado por todos os heróis, os pensadores que deram suas vidas pela liberdade da mão e do cérebro — pela liberdade de trabalho e de pensamento — por aqueles que caíram nos aterradores campos de guerra, por aqueles que morreram em masmorras acorrentados — por aqueles que subiram orgulhosamente as escadas dos patíbulos — por aqueles cujos ossos foram esmagados, cuja carne foi rompida e rasgada — por aqueles consumidos pelo fogo — por todos os sábios, os bons, os corajosos de todas as terras, cujos pensamentos e feitos deram liberdades aos filhos do homem. E então eu jurei segurar a tocha que eles tinham carregado, e mantê-la no alto, esta luz ainda deve conquistar a escuridão.

Sejamos honestos conosco — honestos para com os fatos que conhecemos, e vamos, acima de tudo, preservar a veracidade de nossas almas.

Se existirem deuses, não podemos ajudá-los, mas podemos ajudar nossos semelhantes. Não podemos amar o inconcebível, mas podemos amar a esposa, os filhos e os amigos.

Podemos ser tão honestos quanto somos ignorantes. Se formos, ao nos ser perguntado o que existe além do horizonte do conhecido, devemos dizer que não sabemos. Podemos contar a verdade, e podemos desfrutar da bendita liberdade que os corajosos conseguiram. Podemos destruir os monstros da superstição, as serpentes cissiantes da ignorância e do medo. Podemos expulsar de nossas mentes as coisas assustadoras que rasgam e ferem com bico e presa. Podemos civilizar nossos semelhantes. Podemos encher nossas vidas com feitos generosos, com palavras amorosas, com arte e música, e todos os êxtases do amor. Podemos inundar nossos anos com a luz do sol — com o divino clima da gentileza, e podemos drenar a última gota da taça dourada da alegria.

Publicado on março 24, 2011 at 3:44 pm  Deixe um comentário  

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